Santa Maria: tentando entender e tentando comunicar

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Uma das formas mais interessantes de conhecer uma cultura é observar como ela elabora coletivamente suas tragédias. A cultura contemporânea, com seus espaços digitais de convívio e debate, oferece formas novas para esse processo acontecer e a consequência disso, de haver uma novidade inserida em um processo psicológico complexo e profundo, é uma diversidade de abordagens particulares vertendo de forma estabanada para o âmbito público. O processo coletivo acaba sendo uma soma retalhada de tentativas pessoais amplificadas pela poderosa malha de comunicação digital.

No meu entendimento, também afoito, é isso que estamos vendo acontecer na internet nesses dias pós-tragédia-de-Santa-Maria. A perplexidade de nos depararmos com mais um episódio de morte coletiva, um evento por si só apavorante em qualquer escala e circunstância, vem lutando para ser traduzida nas redes sociais. Brotada provavelmente do mais íntimo de cada um que teve contato com a notícia, a perplexidade acaba revestida com o alfabeto e a biblioteca que temos à mão no momento e daí nascem alguns excessos: religiosos fundamentalistas disseminando suas teorias; jornalistas caçando manifestações digitais de vítimas e seus próximos; pra não falar do “cidadão comum” metralhando indignação com munição de todo tipo de calibre. Os mais chegados às palavras se tornam intelectualmente verborrágicos (talvez eu me insira aí), os investigativos derramam dados e fatos, os politizados apontam falhas na burocracia, os agilizados montam redes para ajudar e assim por diante. De posse de mídias que nos permitem produzir e espalhar conteúdo, não estamos mais reféns da visão, da mobilização ou falta de noção de algumas redes de televisão – nós mesmos temos a capacidade de pintar nosso mosaico sobre o ocorrido e cometer nossos próprios exageros como sociedade civil.

De certo, no momento, apenas que está todo mundo tentando. Se há experts em segurança de casa noturna, experts em incêndios, exeperts em alvarás, experts em resgates, ainda não há experts em como se portar numa tragédia dessas com tantas mídias à mão. Coletivamente, estamos tentando elaborar o que aconteceu. Coletivamente merecemos um desconto pela nossa falta de jeito com isso tudo. Mais adiante, vamos olhar pra trás e vamos ver o que aprendemos do ponto de vista da comunicação pública e pessoal. Assim espero.

***

De minha parte, aqui vão duas notas sobre a velocidade de interação digital com uma tragédia: acho que o mais eficiente é ser rápido na mobilização e lento no julgamento e nas reações emocionais. Os excessos, em geral, acontecem quando essa equação é invertida.

2 pensamentos sobre “Santa Maria: tentando entender e tentando comunicar

  1. A sociedade civil e a solidariedade foram extremamente potencializadas pelo uso das redes sociais e as instituições (o estado) souberam relacionar-se com essa sociedade civil ativa diante da necessidade causada pela tragédia. O que tu chama genericamente de julgamento, é reducionista, na medida em que para além de julgar e mesmo além das próprias reflexões propostas, positivas e negativas, preconceituosas e eruditas, há questões que precisam de registro e difusão na sociedade e isso agora não dependem exclusivamente do monopólio das empresas de comunicação e do poder econômico. Ainda é incipiente, mas infelizmente, foi possível, num momento de grande necessidade, operarmos as tais Redes Sociais, coletivamente, como humanidade, saca? Sem chefes!

  2. A sociedade civil e a solidariedade foram extremamente potencializadas pelo uso das redes sociais e as instituições (o estado) souberam relacionar-se com essa sociedade civil ativa diante da necessidade causada pela tragédia. O que tu chama genericamente de julgamento, é reducionista, na medida em que para além de julgar e mesmo além das próprias reflexões propostas, positivas e negativas, preconceituosas e eruditas, há questões que precisam de registro e difusão na sociedade e isso agora não dependem exclusivamente do monopólio das empresas de comunicação e do poder econômico. Ainda é incipiente, mas infelizmente, foi possível, num momento de grande necessidade, operarmos as tais Redes Sociais, coletivamente, como humanidade, saca? Sem chefes!

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