A batalha contra a ironia está perdida

0d700eb8fa3a42fff97386f39e6dcfdae0c2e5e9_m

Christy Wampole, professora-assistente de língua francesa da Universidade de Princeton, se lançou numa das mais ingratas tarefas da modernidade em um ensaio publicado recentemente num blog do New York Times e traduzido pela revista Serrote. Munida de bons argumentos, argúcia textual e muita sinceridade – talvez até demais – Wampole decidiu confrontar o que chamamos de “cultura hipster” e explicar ao mundo “Como Viver Sem Ironia”.

Foi com a maior simpatia e boa vontade que me joguei na leitura do ensaio e já nos primeiros parágrafos é difícil não compactuar com a lógica de Wampole quando ela escreve que “Se a ironia é o éthos de nossa época – e ela de fato é –, então o hipster é o nosso arquétipo do estilo de vida irônico”. Também é natural sorrir com condescendência quando ela chama o hipster de “esse arlequim contemporâneo” ou quando constata que ele “cultiva a esquisitice e o constrangimento e passa por várias etapas de autoavaliação antes mesmo de tomar qualquer decisão”, chegando à óbvia conclusão de que o hipster “é um alvo fácil para piadas”. Como tiro de misericórdia da introdução, o texto ainda faz a acusação cirúrgica de que “o hipster pode fazer investimentos frívolos em falso capital social sem precisar pagar de volta um único centavo sincero.” Soa tudo bastante lógico e implacável.

Indo adiante, percebe-se que o bullying intelectual não é centrado em um grupo de contornos definidos, em frequentadores de determinadas casas noturnas, cafés ou bairros, mas cobre formas de interação e de consumo que estão se tornando a característica de uma geração inteira. Isso fica bastante claro quando o artigo atesta que “a publicidade, a política, a moda, a televisão – quase todas as categorias da realidade contemporânea exibem essa vontade de ironia.” E é exatamente nesse ponto que a autora do ensaio parece torcer em torno de seu próprio eixo e jogar uma sombra em uma constatação importante: se a ironia hipster contaminou o lençol freático da cultura pop a ponto de colorir a publicidade e a televisão mais popular, é sinal de que, sim, é hora de estudar esse assunto; mas também é hora de parar de levá-lo tão a sério.

c20cb8f1d5b83186918ec44aa83510efa6110ae8_m

O problema é que levar a sério é justamente o que Wampole mais faz nos 20 parágrafos seguintes, chegando ao ponto de confessar seus próprios pendores hipsters. Ela conta, desbragadamente, que também tem tendências irônicas e que sofre uma certa dificuldade em comprar presentes honestos para seus amigos. O que são presentes honestos nesse contexto? São presentes que significam o que significam, que não são piadas internas, que não são recobertos por uma camada extra de significado. Não são “Presentes bons para dar risada na hora, mas que valem pouco a longo prazo.” segundo ela. Os presentes bons para dar risada, diz ela, é o tal do “investimento frívolo em capital social” que nunca será cobrado na conta do hipster. Claramente, Wampole está querendo ser sincera e limpar a sua barra para poder criticar o hipsterismo. Isso é o que eu chamo de levar a sério demais. A situação é de fato complicada, mas não exigia tanto.

Sim, eu entendo e concordo que a ironia hipster funciona como escudo e como um campo de força que alguns usam para não travarem contato com questões ordinárias mas essenciais da vida (o tédio, a morte, as convenções sociais), mas chegamos num ponto – muito comum da cultura pop – onde mesmo a ironia utilizada como defesa já está deixando de ser eficiente porque está sendo incorporada à linguagem contemporânea popular. Quando esse assunto é levantado, eu automaticamente me lembro dos seriados que a minha enteada de 11 anos assiste (e que eu assisto junto). Pode escolher um: iCarly, Drake e Josh, Os Feiticeiros de Waverly Place, Life with Boys, Zach & Cody – Gêmeos a Bordo. Nos últimos anos, toda essa leva de programas infanto-juvenis, absolutamente pop (metade desse aí passa na Globo) tem como marca principal de sua linguagem uma ironia rasgada e perturbadora. Não são piadinhas infames ou inocentes: é sarcasmo puro, ácido sulfúrico adicionado na fórmula de cada gag individual que compõe a trama de cada episódio. É, provavelmente, material produzido por roteiristas criados à base de um Toddy concentrado feito de Tarantino, South Park e Beavis & Butthead, mas devidamente cooptados pela mais eficiente encarnação da indústria cultural – o segmento infanto-juvenil.

Programas como esses nos lembram que existe um ponto no comportamento coletivo da cultura pop em que a essência de uma época se bifurca. Um caminho leva essa essência para as manifestações de nicho, que duram por quanto tempo for possível durar – aqui entra todo o escopo da contracultura americana da década de 50 e 60, o modernismo europeu da virada do século XIX pro XX, o jazz clássico etc. O outro caminha esguicha essa essência na cultura mainstream, nos filmes de grande bilheteria, nos seriados de grande audiência, nas novelas, na moda popular, e assim por diante. Nesse sentido, a batalha contra a ironia hipster está perdida, não por incompetência, mas por extrema competência. Essa ironia é tão boa, tão útil, que ela se tornou parte do jogo de cores da Disney e da Nickelodeon. E quando chegamos nesse ponto, o que nos resta fazer? A ironia vai consumir a si própria nessa engrenagem, como tudo mais.

kurt-cobain_co-magazines-ht2

Kurt Cobain na capa da Spin com a camiseta “Corporate magazines still sucks”

Talvez eu esteja apenas prestando tributo à minha própria formação noventista, também citada no ensaio. Talvez eu esteja apenas dizendo “Oh well, whatever, nevermind”, deixa pra lá. Mas não. Eu concordo com a proposta de Wampole de resgatar uma certa sinceridade intencional em contraste à ironia hipster, que consome o que consome por colateralidade, só porque é interessante fora do contexto tradicional. Só acho que essa sinceridade não pode ser tão pesada, tão intencional, tão preocupada em encontrar o cerne autêntico das coisas. Porque essa é outra batalha perdida. Foi cavando para encontrar o cerne autêntico das coisas que os hipsters chegaram na ironia – esse é o segredo não contado a respeito da autenticidade. A frustração de não encontrar esse cerne é que leva à ironia excessiva que distancia a pessoa das experiências mais ordinárias.

Se eu posso dar alguma contribuição a “Como Viver Sem Ironia”, aqui está: voto com a relatora, pelo resgate da sinceridade e da entrega, mas temperada com as cores da ironia. A ironia como tempero, e não como eixo, não cansa, não satura, não causa congestão. E ainda pode funcionar como um antídoto contra a sinceridade exagerada e fofinha que embala o entusiasmo anabolizado que também é característica dos empreendimentos contemporâneos.

Anúncios

8 pensamentos sobre “A batalha contra a ironia está perdida

  1. Oi Mini,

    sobre teu texto, lembrei-me de um trecho, denominado “A aura da ironia”, do ensaio “E unibus pluram”, de David Foster Wallace:

    “A institucionalização do cinismo diante da autoridade trabalha a favor da televisão em diversos níveis. Em primeiro lugar, na medida em que consegue ridicularizar convenções antiquadas e varrê-las do mapa, a TV é capaz de criar um vácuo de autoridade – e adivinhe o que o preenche depois disso. A verdadeira autoridade num mundo que agora vemos como construído, e não mais retratado, passa a ser o meio que constrói nossa visão de mundo. Em segundo lugar, na medida em que consegue se referir apenas a si mesma e expor os padrões convencionais como ocos, a TV fica invulnerável aos críticos que atacam seu conteúdo como superficial, grosseiro ou ruim, uma vez que tais julgamentos remetem a padrões convencionais e extratelevisivos de profundidade, gosto e qualidade. Além disso, o tom de ironia autorreferencial da TV significa que ninguém pode acusá-la de tentar impor nada a ninguém. Como aponta o ensaísta Lewis Hyde, a autodepreciação é sempre “sinceridade com um motivo”.”

    Não sei se tu já leu, senão, aqui tem ele na íntegra: http://jsomers.net/DFW_TV.pdf. É um ótimo debate sobre as relações e a nova ficção norteamericana. Vai ao encontro de uma preocupação de DFW em não conseguir produzir uma literatura que fosse sincera, desprovida de quaisquer recursos irônicos.

  2. Pingback: Ironia rasteira e ironia trágica| WTF #13 | PapodeHomem

  3. Pingback: Por que ironia e sarcasmo tendem a ser tão devastadores em conversas digitais | PapodeHomem

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s