Gabeira, política e corpo

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São muitos os serviços que Fernando Gabeira já prestou e ainda presta ao país, mas talvez o mais valioso esteja embebido na mensagem deste livro, que a meu ver diz mais ou menos o seguinte: é preciso entender e exercer a política como um atividade viva, que abarque todos os aspectos do indivíduo, especialmente suas inclinações particulares e suas contradições ao invés de usar idelogias e teorias para aplainar o espírito humano – ou, claro, para ganhar poder e dinheiro. “Onde está tudo aquilo agora?” pergunta Gabeira em suas memórias políticas, lançadas em livro no fim do ano passado. A pergunta induz a uma visão superficial, e acho que é meio sacanagem do Gabeira. “Aquilo tudo” não diz respeito apenas a questionar antigas crenças (um belo gancho pra capturar leitores de outras vibrações…), mas mais sobre olhar com uma outra perspectiva tudo aquilo que compõe uma história pessoal – esteja dentro ou fora da pessoa, seja público ou privado.

Os predicados de Gabeira para empreender essa reflexão e proclamar uma política viva e pulsante, conectada com a essência da sociedade e do ser humano, são conhecidos mesmo por quem não acompanha de perto sua trajetória. A saber: nascido em Minas Gerais, Gabeira se apaixonou cedo pelo jornalismo e a partir da investigação e narração do mundo é que saltou para a vida política. Diferente de muitas figuras históricas na área, não teve uma atuação militante durante a primeira parte da juventude. Sua paixão era mesmo o jornalismo e foi a convivência com os colegas e os assuntos das matérias que o inclinaram em direção ao existencialismo e, em seguida, ao socialismo.

A opção pela luta armada e os excessos das ideologias à esquerda no combate à ditadura já foram exaustivamente processados por Gabeira em alguns de seus outros livros, mas ao que parece reflexão nunca é demais. Mais uma vez, ele repassa aqui as contradições da própria militância, em especial as dúvidas existenciais que o acompanharam o tempo todo, surgidas mesmo antes de abandonar alguns conceitos e práticas. Entre todas as questões, a que mais me tocou foi uma pouco discutida, sempre obliterada pela discussão polarizada do tipo capitalismo x socialismo. Falo da noção de alienação do corpo no envolvimento com a política.

saitica fernando gabeira foto daniel de andrade

A certa altura, Gabeia conta, do exílio na Suécia:

“Olhando-me no espelho, vi que eu parecia um viúvo que tinha perdido a esposa de muitos anos e, inconscientemente, parara no tempo. Usava cabelo comprido, bigodes, fumava cigarros de fumo negro, Gauloises, e ainda vestia roupas que ganhara de presente pelo caminho A decisão de correr diariamente e parar de fumar foi o primeiro grande passo. Comia melhor, respirava melhor, e ao contrário do que previam alguns, não engordei. Não bastaria correr e deixar de fumar. Um movimento por alimentos saudáveis brotava com força na Suécia e em outras partes do mundo, tocadas pelas primeiras denúncias sobre o papel dos agrotóxicos no meio ambiente e em nossos corpos.”

Isso era meados dos ano 70 e, embora Gabeira admita que não é possível demarcar com exatidão suas mudanças de rumo, é mais ou menos por aqui que se inicia uma nova fase de sua vida, a que iria definir sua identidade pública pelas décadas seguintes. Assim como a ligação com a luta armada partiu de inclinações pessoais, o contato com o então nascente movimento ecológico brasileiro aconteceu devido a uma necessidade particular de dar uma sacudida na poeira, mexer e trabalhar o corpo, enrijecido e abandonado em anos de dedicação à militância.

No retorno do exílio, a questão se manifestou no âmbito público nacional com as peculiaridades do nosso país:

“A primeira polêmica que enfrentei foi por ter ido de sunga à praia. Não tinha a mínima intenção de provocá-la. Já usara a sunga na Suécia e, em algumas praias da Grécia, andava nu. Se a polêmica precisar de um rótulo, eu diria que ela girou em torno da política do corpo, um tema vasto que, no fundo, preunciava uma nova época, eficazmente aproveitada pelo capitalismo, que multiplicou academias, artigos de beleza, cirurgias plásticas, produtos dietéticos. Enfim, o capitalismo achou um novo modo de se aprofundar.”

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O corpo é objeto pouco discutido mas muito utilizado em todos os campos políticos. Em uma análise rápida, é o corpo que faz a mediação entre o mundo e a mente do indivíduo. Portanto, é natural que ele seja objeto de violência e regulação em ambientes conturbados. E também de protesto (o que obstruiu a passagem daquele tanque chinês? Uma ideia ou um corpo?). Em contextos democráticos, diz-se que que o encontro entre candidatos e eleitores se chama “corpo a corpo.” Em ambas as situações, o corpo acaba no arcabouço da alienação, esquecido, como se não fosse conectado à mente do indivíduo mas sim apenas uma peça de um sistema maior. Mesmo numa sociedade de mercado, supostamente livre, o corpo é submetido a todo tipo de regras comerciais e sociais, em geral disfarçadas de costumes ou de escolhas estéticas.

A relação com o corpo, aparentemente, foi a base particular sobre a qual Gabeira construiu suas andanças no movimento ecológico. Estudou dança, pegou a estrada de jipe pra conhecer comunidades alternativas no Brasil inteiro. Para ganhar a vida, escreveu livros também sobre isso tudo. Chegou num ponto, nos anos 80, em que essas opções se esgotaram e o ciclo se fechou sobre si mesmo: Gabeira voltou ao jornalismo e, em seguida, à vida pública. Mas nunca deixou de incluir o corpo – o seu e o do outro – na sua visão de política. Durante o caso de uso indevido de cotas de passagem do Congresso Nacional, no qual Gabeira estava envolvido, conta:

“Confesso que apanhei muito. Crônicas, reportagens, comentários, piadas. Olhando pra trás, creio ter aprendido uma lição na crise. Quando tive a impressão de que todos estava contra mim, percebi que eu mesmo tinha que estar ao meu lado. Música, meditação, silêncio, tudo isso ajudou. Tenho a natação como hábito diário. Ela já tinha me ensinado alguma coisa. Sempre que havia um aborrecimento, alguma insinuação nos jornais, eu notava que nadar me ajudava a superar ressentimentos. Nos primeiros cem metros, você começa a achar que os críticos não são tão agressivos como parecem. Nos quatrocentos, mesmo achando que eles não tem razão, você começa a procurar algo na crítica que possa te ajudar. E no final termina quase agradecido. Talvez a produção de endorfina nos trone mais tolerantes.”

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A política centrada no corpo, ainda que não diretamente, foi sempre um tema para Gabeira após sua volta ao Brasil. Ao fundar o PV e entrar na vida pública, passou a abraçar, além da ecologia (antigo nome da sustentabilidade) causas como a profissionalização da prostituição, o casamento homossexual e a descriminalização da maconha. São temas próximos ao que Gabeira viveu, pois sentiu na carne a violência e os pré-julgamentos não apenas na época da ditadura, mas também no retorno do exílio. É coerente, portanto, que tenha abandonado um tipo de radicalismo para abraçar uma visão mais ampla, mais centrada nas possibilidades do indivíduo do que em grandes ideologias.

E aí chegamos no que de mais bonito o livro tem – além de uma linda escrita: capítulo após capítulo, Gabeira deixa claro que suas opções e ações nasceram entrelaçadas com questões absolutamente pessoais. Salvar o mundo? Claro. Mas baseado no quê? Na vontade de ser pleno e feliz. Parece ser assim: Gabeira se torna respeitoso e combatente pela necessidade do outro devido à batalha pessoal do reconhecimento das próprias necessidades. Na construção do respeito ao outro, não tem estrada mais firme. Melhor a honestidade de admitir essas necessidades do que mergulhar numa vazia retórica altruísta, pois é essa que liga a fisiologia política da velha guarda com a grandiloquência perigosa de novos setores do ativismo.

Em resumo, é mais ou menos como diz uma frase que volta e meia circula por aí: todo mundo quer mudar o mundo, ninguém quer lavar a louça. A história de Gabeira é a história de alguém que lavou muita louça, começando pela pia de casa, passando por cozinhas da Europa, da África, do Chile e terminando décadas depois no Congresso Nacional. Há de se respeitar as memórias políticas de alguém com tamanha experiência doméstica.

***

Um último adendo.

É curioso também como a trajetória de Gabeira serve de exemplo para a política do futuro. Lá atrás ele já enxergou o que vivemos hoje e o que temos pela frente. Muito antes da informalidade e da conectividade do ativismo atual, ele já vivia conectado ao mundo e exercendo sua política de forma pessal e em rede. Muito antes de todos sermos mídia, ele sempre foi um pequeno conglomerado de mídia ambulante. Muito antes de se falar em marketing de guerrilha, ele usou táticas inovadoras e inusitadas para promover suas candidaturas. Muito antes de se falar em meme, ele criou um bordão auditivo viciante pra fazer render os poucos segundos da propaganda gratuita na eleição de 89. Olhe pra trás e veja quão poucos fizeram algo parecido tanto tempo atrás.

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