Diários de Bicicleta: o olhar que precede a mudança

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Ao incorporar a bicicleta de volta na minha vida, eu sabia que seria inevitável incorrer em alguns clichês. Soar um pouco militante de vez em quando é um deles. Resmungar com o trânsito dos carros é outro. Descobrir que Porto Alegre, além de morros, tem aclives leves e traiçoeiros seria um terceiro. Mas o quarto é o mais contrangedor: me surpreender com o contato direto com a vida na rua depois de anos andando apenas de carro.

A soma de quatro anos vivendo em cima do morro Santo Antônio com mais dois numa subida de Petrópolis, estes combinados com as demandas da vida em família (supermercado, colégio, médico), mais a vida de banda (ensaios e shows com equipamento pra lá e pra cá) e condições financeiras pra manter um carro próprio acabaram relegando as caminhadas (que adoro) apenas ao status de eventual exercício aeróbico (que não gosto). Dessa forma, nos últimos anos acabei caindo na armadilha de viver Porto Alegre pela janela do motorista ou pelos retrovisores. Às vezes, por mais que você se esforce, a configuração prática da vida discorda de algumas aspirações urbanas e o que deveria ser natural – o curtir sua cidade com um pouco mais de contato direto – exige uma mudança de paradigma ou um aporte de energia extra. Duas soluções que nem sempre estão disponíveis para todos, algo que muitos militantes da bicicleta teimam em não entender.

Pra minha felicidade, algumas novidades no meu esquema profissional nos últimos seis meses permitiram que eu voltasse a andar de bicicleta com muito mais frequência, inclusive para trajetos que antes eu só fazia de carro. E o inevitável aconteceu: descobri que existia um mundo inteiro que andava me escapando. Como eu disse, é um clichê constrangedor e revestido de algum conteúdo social (sei que muita gente não tem opção a não ser viver radicalmente a rua e o transporte coletivo). Mas aconteceu, fazer o quê.

A Protásio Alves é uma das ruas que acabou se tornando parte da minha rotina, uma vez que ela é o escoamento natural pra quem desce Petrópolis de bicicleta. Via de ligação do centro com a área leste da cidade, a Protásio mantém o status combinado de avenida-que-deveria-ser-expressa com rua-de-comércio-local. Ao longo de praticamente toda a Protásio, amontoam-se padarias, resaurantes, lojinhas de material escolar, lavanderias, lojas de decoração, bancas de revista, mercadinhos, lojas de 1,99, lojas de calçado, mecânicas automotivas, farmácias, tudo isso praticamente sem estacionamento em frente aos estabelecimentos e com calçadas estreitas, ou seja, não tem muito clima pra passeio. Ainda que isso tudo caracterize uma espécie de anomalia, é também uma configuração de resistência: o comércio de rua na Protásio, de um jeito ou de outro, empresta um pouco de humanidade para uma avenida massacrada pelo trânsito intenso. Ao menos, ela fica bem menos fantasmagórica do que a Terceira Perimetral, com suas sessões repetidas de condomínios de escritório.

Descer a Protásio de bicicleta não é uma experiência muito agradável, especialmente devido ao trânsito pesado, truncado e ao pouco espaço na rua e nas calçadas. Mas ao menos rende uma olhada nas vitrines, o cruzar com moradores e passantes e, especialmente, um lanche no Priscilla’s (um pequeno café de inspiração americana escondido na Domingos José de Almeida, que de carro eu nunca tinha tempo pra chegar). Cruzando por baixo o viaduto da Silva Só, se trava contato com uma comunidade de sem-teto, uma visão sempre triste, mas menos triste do que constatar que de alguma forma essas pessoas conhecem as fronteiras sociais dos bairros e não costumam ser vistas com muita frequência na parte mais privilegiada de Petrópolis, nos arredores da pracinha da Encol.

E por acaso eu não via tudo isso da janela do carro? Claro que via (e continuo vendo quando saio motorizado na maior parte dos dias). Mas é diferente. De bicicleta, dá pra parar e de qualquer forma, você está mais exposto, menos recoberto por camadas de armadura, está numa velocidade mais lenta, que permite um outro tipo de olhar. Como diz David Byrne, no livro que dá título a essa seção, “Esse ponto de vista – mais rápido que uma caminhada, mais lento que um trem e muitas vezes ligeiramente mais elevador que o de uma pessoa – passou a ser minha janela panorâmica (…). Uma janela enorme e geralmente com vista para um cenário urbano. Através dela, eu acompanho fragmentos de como são as mentes das outras pessoas, que se expressam em meio às cidades onde elas vivem.”

Acho que Porto Alegre está num momento em que há pessoas querendo resgatar esse olhar. A cidade merece isso, sempre mereceu. Há a ideia de que ela precisa ser limpa e arrumada antes de merecer esse olhar, mas isso é sacanagem com Porto Alegre: o novo olhar, ou o resgate de um certo olhar, precede a renovação. Se não enxergarmos a cidade que queremos antes de reconstruí-la, como essa nova face vai se manifestar? Vai brotar de onde? Não é de planos e planejamentos, é antes de um olhar mais aberto, compassivo e que enxergue o que a cidade tem a oferecer mesmo por baixo de suas mazelas, mesmo por trás das filas intermináveis de carros que abarrotam as nossas ruas e avenidas.

É: andar de bicicleta dá o que pensar.

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3 pensamentos sobre “Diários de Bicicleta: o olhar que precede a mudança

  1. Excelente relato, Mini. Como morador sem carro da Protásio há pouco mais de 6 meses, compartilho bastante desse olhar. Minha experiência não é de andar de bicicleta, mas de correr. E o que vejo e percebo nas minhas corridas, indo pela calçada, nunca seria igual ao que se enxerga num carro ou dentro de um ônibus.

    Abraço,

    Bruno

  2. Mini

    Como sempre excelente texto e sensações que só sente quem usa a bicicleta para deslocamento urbano, como eu, você, o Gustavo Spolidoro e tantas outras pessoas que já chegam a milhares na nossa cidade.
    Gostei de vc ter falado, ”voltar a andar de bicicleta”.
    Comigo foi extamente assim, revivi as emoções da infância, da pré adolescência e agora, na terceira idade, me sentir um vitorioso ao manobrar minha bici em baixa velociade, usando o freio, a tração, a direção e o equilíbrio, num verdadeiro execício de reflexos ativos. Sair de um bar da cidade baixa e chegar em casa na mais das vezes, feliz e já com os niveis de cerveja controlados, e os de endorfina e adrenalina, altíssimos tem gosto de vitória.
    Claro, em uma ”bicicletílica” dessas sofri uma queda que me custou um dente dianteiro.
    Mas como de qqer experiência brota um aprendizado, constatei mais uma vez que o ciclista que circula em baixa velocidade, realmente não precisa usar o incômodo capacete.
    Ao cair em baixa velocidade, vc primeiro bate com a extremidade do guidon (bonita palavra né?), depois com o joelho, e finalmente com a costela e no meu caso, com a boca, hehe…
    A cabeça pode ser atingida em caso de alta velocidade, ser atingido por automóvel ou por um ”colega” de duas rodas motorizado, notadamente os profissionais da tele entrega, um perigo !
    Bem, o que dizer dos aromas que vc sente pedalando pelas ruas e calçadas, do ar condicionado que emana das lojas qdo vc já suando, por ali passa e claro, dos odores também, mas dai vc opta por trajetos onde exista um menor numero de fumantes, suores etc…
    Enfim, curti muito teu texto e quem sabe a gente se cruse ”pelái” curtindo nossa redescoberta que já altera sensivelmente meu humor e disposição pra encarar meu dia de trabalho.
    Estou saindo agora daqui do estudio, que vc conhece e indo até o Anchieta buscar meu filhote Pedro, de automóvel, e voltar pra cá pra Fernandes Vieira.
    Ateontem gastei 1.40 hs pra fazer esse trajeto…
    Epopéia total…
    Grande abraço Mini

  3. Muito bom, Mini. Só tenho uma grande reclamação a fazer: sentin falta de um desenho de tua autoria, para valorizar ainda mais o relato. Quem mandou desenhar e escrever bem? : )

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