Carol Bensimon: vida e morte das cidades brasileiras

2013-03-24 13.19.07

Atenção povo que se preocupa com os rumos da sua cidade: a escritora Carol Bensimon produziu recentemente uma pequena pérola que serve de manifesto pra quem acha que a especulação imobiliária está deixando nossas ruas menos humanas, menos agradáveis e menos interessante. Na verdade, são dois textos que saíram no Caderno de Cultura da Zero Hora (parabéns ao editor) mas que deveriam estar nas primeiras páginas do jornal – de preferência antes dos anúncios de construtoras.

Em “Crescimento desordenado de Porto Alegre acabou criando sensação de desconforto” e em Pelas ruas da cidade, a Carol reuniu alguns dos principais argumentos de urbanistas e filósofos para contrapôr a lógica da atual expansão imobiliária, que na verdade não tem realmente uma lógica. Ao menos uma lógica aceitável. Na esteira de um plano diretor aparentemente comprometido mais com o negócio das construtoras do que com quem quer viver bem, centenas de terrenos arborizados e pontuados com casas antigas em Porto Alegre vem dando lugar a condomínios anódinos de prédios altíssimos que transformam bairros inteiros em zonas exclusivamente residenciais. Com pouco comércio de rua, com os moradores empoleirados em apartamentos de janelas minúsculas, totalmente distantes de qualquer atividade na calçada, esses bairros acabam parecendo mais perspectivas em 3D do que lugares realmente confortáveis pra se viver – é o que levantam os artigos.

Nesse cenário, uma das ironias mais tristes sublinhadas pela Carol é o nome desses condomínios. Geralmente eles são inspirados em bairros charmosos e interessantes da Europa, locais de arquitetura clássica preservada, de edificações mais baixas, de jardins mais convidativos e de intensa movimentação na rua. Importa-se apenas o nome e, talvez a programação visual para o logotipo e para o folder de vendas. Raramente o estilo de vida.

São complexas as causas desse fenômeno e dificilmente dá pra apontar um único responsável. Tem as construtoras, tem a Prefeitura, tem o momento econômico, tem o momento cultural. Mas essa teia de relações não nos exime de pensar e questionar. Frequentemente flutua a ideia de que certos caminhos são inevitáveis, mas isso não é verdade. Se é possível pensar diferente e escrever diferente, como a Carol fez, tenho certeza que é possível fazer diferente. Não é fácil, não é rápido, mas é possível e começa bem assim, por proclamar e passar adiante uma outra mentalidade que não a dos vetores acelerados do imediatismo.

***

A foto lá em cima é da quadra em frente ao meu apartamento, cheia de casas. Metade dela (talvez mais) será botada abaixo pra receber um condomínio novo. Além de um pouco de vista, vamos perder todas essas árvores dos quintais e os cachorros que latiam quando a gente passava em frente.

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8 pensamentos sobre “Carol Bensimon: vida e morte das cidades brasileiras

  1. Uma das ironias, talvez, esteja contida no final do seu texto. Se você tirou essa foto da janela do seu apartamento, isso mostra o quanto você mesma é, apesar de questionadora, causadora desse processo. Afinal, onde hoje está seu prédio, um dia pode ter sido um conjunto de residências, de comércio, de pessoas na calçada, de árvores, etc. Você mesma, que hoje reclama a iminência de perder “a vista e todas essas árvores dos quintais e os cachorros” etc, é também co-responsável por tirar estes prazeres de outras pessoas que chegaram no bairro antes do seu condomínio existir.

    A solução, se é que existe, para esse processo é mais complexa do que pode parecer…

  2. Uma das ironias, talvez, esteja contida no final do seu texto. Se você tirou essa foto da janela do seu apartamento, isso mostra o quanto você mesma é, apesar de questionadora, causadora desse processo. Afinal, onde hoje está seu prédio, um dia pode ter sido um conjunto de residências, de comércio, de pessoas na calçada, de árvores, etc. Você mesma, que hoje reclama a iminência de perder “a vista e todas essas árvores dos quintais e os cachorros” etc, é também co-responsável por tirar estes prazeres de outras pessoas que chegaram no bairro antes do seu condomínio existir.

    A solução, se é que existe, para esse processo é mais complexa do que pode parecer…

  3. Chico, meu prédio, pelo que sei, foi o primeiro de toda essa região, data do início dos anos 70. Embora ele tenha apenas 8 andares e não 16, os vizinhos não devem ter gostado nada de perder uma parte do sol por causa dele…

    Tenho bem consciência das contradições envolvidas na minha posição, mas isso não me impede de refletir e de defender uma urbanização mais humana e menos irrefletida.

    Quando procuramos um apartamento pra nos mudarmos, vimos diferentes tipos de prédios e apartamentos e acabamos escolhendo o mais antigo de todos – por uma questão de conforto pessoal, são peças enormes, aberturas gigantes, é outro astral. Além do preço. Os apartamentos novos que visitamos refletiam uma outra mentalidade, eram todos minúsculos com um preço muito maior e um estilo de prédio muito impessoal, que acho que depõe contra a cidade.

    A questão é que chega um ponto em que parece não haver opção. Se você olhar ao redor, vai ver que todos os prédios novos se parecem. É incrível que com tanto dinheiro rolando no setor imobliário não tenha aparecido UM empresário com um olhar realmente diferente, que não tenha dado uma grana pra um arquiteto maluco fazer alguma coisa marcante e interessante para a cidade e para as pessoas.

    Então, não se trata apenas de quintais e árvores. Como tu mesmo colocou, a situação é bem mais complexa. A solução também. Mas não é porque é complexa que vamos deixar de discutir.

  4. Chico, meu prédio, pelo que sei, foi o primeiro de toda essa região, data do início dos anos 70. Embora ele tenha apenas 8 andares e não 16, os vizinhos não devem ter gostado nada de perder uma parte do sol por causa dele…

    Tenho bem consciência das contradições envolvidas na minha posição, mas isso não me impede de refletir e de defender uma urbanização mais humana e menos irrefletida.

    Quando procuramos um apartamento pra nos mudarmos, vimos diferentes tipos de prédios e apartamentos e acabamos escolhendo o mais antigo de todos – por uma questão de conforto pessoal, são peças enormes, aberturas gigantes, é outro astral. Além do preço. Os apartamentos novos que visitamos refletiam uma outra mentalidade, eram todos minúsculos com um preço muito maior e um estilo de prédio muito impessoal, que acho que depõe contra a cidade.

    A questão é que chega um ponto em que parece não haver opção. Se você olhar ao redor, vai ver que todos os prédios novos se parecem. É incrível que com tanto dinheiro rolando no setor imobliário não tenha aparecido UM empresário com um olhar realmente diferente, que não tenha dado uma grana pra um arquiteto maluco fazer alguma coisa marcante e interessante para a cidade e para as pessoas.

    Então, não se trata apenas de quintais e árvores. Como tu mesmo colocou, a situação é bem mais complexa. A solução também. Mas não é porque é complexa que vamos deixar de discutir.

  5. “É incrível que com tanto dinheiro rolando no setor imobliário não tenha aparecido UM empresário com um olhar realmente diferente, que não tenha dado uma grana pra um arquiteto maluco fazer alguma coisa marcante e interessante para a cidade e para as pessoas.”. E quanto é que custaria morar em um lugar destes que vc tem em mente???? Certamente, uma fortuna para poucos. Anyway, não tenho dúvidas: capital é coisa pra maluco, fábrica de doido (sem exagero, sem drama). Moro no interior do paraná, numa cidade de 300 mil habitantes e já decidi: se for pra mudar daqui, só pra lugar menor. Me sinto privilegiado, perto da loucura que é a vida de tanta gente, por poder morar há cinco minutos do meu trabalho, ter uma casa com quintal por um valor decente, ter amigos próximos e acessíveis, enfim, aquilo que chamamos de qualidade de vida. Na medida que o admirável mundo novo do progresso começar a sufocar demais as coisas por aqui, fujo pra longe.

  6. “É incrível que com tanto dinheiro rolando no setor imobliário não tenha aparecido UM empresário com um olhar realmente diferente, que não tenha dado uma grana pra um arquiteto maluco fazer alguma coisa marcante e interessante para a cidade e para as pessoas.”. E quanto é que custaria morar em um lugar destes que vc tem em mente???? Certamente, uma fortuna para poucos. Anyway, não tenho dúvidas: capital é coisa pra maluco, fábrica de doido (sem exagero, sem drama). Moro no interior do paraná, numa cidade de 300 mil habitantes e já decidi: se for pra mudar daqui, só pra lugar menor. Me sinto privilegiado, perto da loucura que é a vida de tanta gente, por poder morar há cinco minutos do meu trabalho, ter uma casa com quintal por um valor decente, ter amigos próximos e acessíveis, enfim, aquilo que chamamos de qualidade de vida. Na medida que o admirável mundo novo do progresso começar a sufocar demais as coisas por aqui, fujo pra longe.

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