Minha primeira vez com Ney

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Há três semanas, Ney Matogrosso tocou em Porto Alegre numa das primeiras datas de sua nova turnê, Atento aos Sinais. Diferente dos shows anteriores, mais intimistas e formatados num esquema quase acústico, este é um retorno ao Ney expansivo e explosivo em todos os sentidos. Era justamente o que eu esperava na minha perda de virgindade-de-Nei-Matogrosso.

Pois é, eu nunca tinha visto o Ney Matogrosso ao vivo. É óbvio que eu sei quem é ele e sua importância na música brasileira, mas devido aos meus interesses específicos, acabei deixando-o de lado. Acontece que a marca dele na cultura brasileira é tão forte que a imagem correspondente é bastante clara mesmo quando construída de fragmentos: um intérprete inquestionável, de um artista original, de uma força da natureza especialmente no que diz respeito a equilibrar as energias masculinas e femininas do palco. Ou seja: mesmo sem acompanhar pragmaticamente sua carreira, sei que Ney é o cara.

Atento aos Sinais, claro, mais do que cumpriu com as minhas expectativas de primeira vez com Ney. Pode parecer arrogante falar assim de alguém de tamanho vulto, mas também é esperado, em geral, que artistas do pop se mostrem cansados aos 40 anos de carreira. Definitivamente, não é este o caso. Diante das minhas referências, durante o show me lembrei muito de nomes como Iggy Pop e Neil Young, senão pelo parentesco estético (talvez Iggy, pela presença de palco), certamente pela energia despejada sobre a audiência. Estamos falando de artistas que não tocam, mas derramam música sobre nós – e com isso se derramam juntos. Ney sempre foi desses. Pensei, durante o show: “É incrível que ele ainda possa se entregar tanto pra platéia.” Bem, só entrega muito quem tem muito pra dar. Ney tem tudo que a platéia precisa: tem conteúdo, tem forma, tem verdade e tem linguagem. Tudo próprio, tudo seu. E um pouco nosso, de cada um, muito do Brasil das últimas décadas.

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Além de alguns roqueiros dignos, assistindo ao Ney também me lembrei de nomes como a Nação Zumbi e do Portishead, por conta da maneira como os sons do show são construídos. Pesadas e pungentes ou mais tranquilas e embaladas, as interpretações de Ney e sua banda lembram muito uma certa bricolagem que caracteriza o mangue beat e o trip hop. Essa desconstrução, segura, coesa, como só a experiência permite empreender, não deixa furos, não deixa espaços vazios no som – o maior perigo nessas brincadeiras de desconstruir. Mas claro que Ney não está brincando. Ele brinca mas não brinca. Sabe brincar, por isso desce pro play com tamanha segurança e autoridade.

A escolha do repertório também não deve surpreender os que o acompanham. É quase uma curadoria, é quase um podcast com um olhar especial. Tem Lenine, Arnaldo Antunes, Criolo, Itamar Assumpção, Pedro Luiz, Caetano, Dani Black, Tono, Vitor Ramil, Dan Nakagawa. O rótulo MPB tanto define toda essa gente como soa meio torto, não cola geral. De qualquer forma, nos arranjos da banda liderada pelo tecladista Sacha Amback, tudo acaba ficando meio “Ney Music”, essa colcha de retalhos, esse artesanato pesado e aterrado. Entre tantas peripécias de arranjo, um detalhe rítimco importante me chamou a atenção: as batidas graves e agudas, que numa bateria convencional são executadas por um único baterista usando o bumbo e a caixa, ao longo do show são todas divididas entre os percussionistas Marcos “Eita minino danado” Suzano e Felipe Roseno. Me disseram que é o mesmo esquema do Pedro Luiz e a Parede, ma me remeteu mesmo foi à Nação Zumbi e ao quanto Nei deve ter influenciado tanta gente nos anos 90…

Pra fechar, mais duas supresas. Primeiro, o show é claramente politizado. Não há discursos sobre o Congresso ou sobre os políticos, mas há um bombardeio de imagens no telão. Elas endereçam questões ligadas à urbanização, à violência e à natureza. Elementos que, em mãos erradas, poderiam destoar, ficar grotescos ou perdidos. Mas aqui eles fazem todo sentido do mundo. Ney costura o sentido com a habilidade de um artista que sabe se posicionar dentro da sua linguagem. Ele ainda faz algo dificílimo e digno – se inclui particularmente no viés político, claro, viveu tudo isso. As imagens durante a execução de “Vida Bandida” são um resumo da carreira de Ney. Nem todo artista com quarenta anos de estrada tem ainda a mão pra equilibrar algo do tipo.

A segunda supresa foi uma lebre levantada pela minha mulher e que quebrou totalmente minhas pernas. Eu já tinha visto vídeos e clips, e esperava que fosse diferente, mas ao vivo fica flagrante o fato de que, a despeito de toda energia feminina que ele habilmente manipula, o feminino de Ney não está na dança já que ele, curiosamente, rebola como macho. Veja você.

Por fim, uma certeza: quando as luzes se apagam e começa o show, um facho ilumina Ney Matogrosso, vestido como uma majestade bizarra, como uma corista de uma lua distante, como um alienígena de filme dos anos 70, sentado em um trono feito de espelhos. É estranho, é intenso, é meio insano. Foi aí que eu entendi o truque do Ney: não é que ele se fantasia, é que no palco ele usa alma do avesso.

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7 pensamentos sobre “Minha primeira vez com Ney

  1. Wow. também fui no show. Ainda bem que existem pessoas que conseguem escrever o que a gente sente e não sabe como expressar! :;)

  2. O Ney é foda, muito massa mesmo, na casa dos meus pais tem um disco “Pescador de pérolas” que tinha uma excelente banda, o Rafael Rabello por exemplo, um dos melhores músicos que este Brasil já teve. E como você mesmo falou ali é impossivel não admirar ele pelo que ele é mesmo sendo contra sua música. Grande cara. A melhor interpretação de Mundo é um moinho do Cartola é dele.

  3. “… é que no palco ele usa a alma do avesso.” Excelente. Cara, que texto!!! Li muitas resenhas sobre esse show, escritas por gente que eu admiro, mas a sua trouxe a visão mais inteligente, exata, lúcida do que é esse “Atento aos sinais”, um espetáculo muito especial, realmente. Certa vez li de um jornalista, que o Ney de Souza Pereira (discreto, solene e britânico) da vida pessoal, era apenas um disfarce que o artista usava p/ sair às ruas ou falar c/ pessoas desconhecidas. E que a verdadeira personalidade, a que existia integralmente era mesmo o Ney Matogrosso, a figura provocadora e de voz exuberante que aflorava nos palcos. Fiquei grilado. Porque sempre achei o Ney sem máscara que via em entrevistas tão fascinante e misterioso qto o do palco. Mas vendo esse show, o cara aos quase 72 anos, com a voz incrivelmente perfeita e um físico, um jogo de corpo humanamente impossíveis de se ter nessa idade, fico imaginando que Ney talvez tenha uma chave secreta (rsss..), algo que talvez só ele saiba sobre a vida e que, generosamente, ele entrega aos poucos ao seu público cada vez que está em cena. Um privilégio assisti-lo.
    Gustavo, você escreve muito bem, tem uma grande clareza de ideias e as expressa de um jeito interessante e original. Parabéns! Um abraço.

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