Chega de "a bolsa ou a vida"

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No final de fevereiro, o psicanalista Contardo Calligaris publicou na sua coluna semanal da Folha de São Paulo um artigo muito bacana comentando como a vinda de Yoáni Sanchez ao Brasil ressucitara a discussão de uma “falsa alternativa” política. Segundo Calligaris, e todos pudemos testemunhar isso, ainda há muita gente que pensa e declara abertamente que a blogueira cubana não poderia “criticar a falta de liberdade em Cuba quando o regime acabou com a fome na ilha.” Para o psicanalista, é fato que, “para acabar com a fome na ilha, não era necessário acabar com nenhuma das liberdades dos cubanos.”

Buscando sustentar essa perspectiva, Calligaris evocou Jaques Lacan e seu exemplo a respeito do que chamava de “escolhas forçadas”: no caso de um assaltante que nos manda decidir entre a bolsa ou a vida, não há decisão alguma a se tomar. Quem decide ficar com a bolsa certamente perderá os dois, pois o assaltante não deixará a bolsa com um cadáver. Quem decide pela vida, no ambiente conturbado em que vivemos, corre seriamente o risco de ser morto e, claro, perder também a bolsa. “Em suma”, completa o colunista da Folha, “escolha zero.”

No caso de Cuba, seguindo-se essa lógica, a perda da bolsa (a suposta riqueza que um regime capitalista e livre produziria) não impediu que as pessoas perdessem uma parte da sua vida (suas liberdades civis completas). Fazendo-se o caminho inverso, a perda da vida não impediu que as pessoas perdessem também suas bolsas. O raciocínino é um pouco simplista, mas tudo bem: ao que parece, a coluna não tratava de fazer uma crítica profunda ao socialismo, mas sim de sublinhar a necessidade de resistirmos às alternativas binárias. Calligaris defende que “Se existem, no mínimo, 50 tons de cinza por que razão escusa você tenta me acuar a escolher entre preto e branco?”

Engana-se, porém, quem acha que esse tipo de reducionismo, dessa vida decidida entre preto e branco, é exclusividade de regimes totalitários. O jeito como a gente vive nos países capitalistas emergentes contemporâneos também é coalhado de golpes similares que tentam nos aplicar a todo instante. No fundo, a maior parte das grandes questões que envolvem o nosso coletivo é apenas uma variação surrada do clássico “a bolsa ou a vida?”. Quer alguns exemplos?

O fato da maior parte das grandes cidades estar crescendo pra dentro dos shopping centers (como diz meu amigo Marcelo Firpo) é um dos grandes golpes “A bolsa ou a vida” que estão nos aplicando. Aqui, isso significa o seguinte: ou você abraça a cultura do consumismo, do passeio à base de olhar vitrines, do estacionamento coberto pago, do cinema a preços exorbitantes, ou você perde sua vida num assalto por aí. Infelizmente, a proposição não traz uma escolha de fato, pois uma cidade cujos cidadãos circulam cada vez mais dentro dos shoppings tem sua vida também roubada.

Uma outra versão desse dilema é a que envolve discussões políticas acerca de espaços públicos abandonados. Nesse caso, “a bolsa ou a vida” quer dizer “ou nós colocamos um condomínio de prédios comerciais e residenciais nessa imensa área abandonada ou então ela vai ficar degradada para sempre.” Diante disso, parece que resta aos cidadão ou ao governo apenas entregar a bolsa a algum empreendedor. Mais uma vez, a escolha não existe pois a vida que se instala nesses locais em geral é uma vida que poucos poderão viver e na qual tantos outros não tem o menor interesse em se engajar.

Um terceiro exemplo seria a ética da produção radical que está sendo vendida amplamente hoje no Brasil. Sob a justificativa de não deixarmos a peteca da estabilidade e do crescimento econômico caírem, criou-se coletivamente a ideia de que devemos todos ser enlouquecidamente produtivos na vida e no trabalho. Desse ponto de vista, “a bolsa ou a vida” quer dizer que precisamos encher a nossa bolsa (para em seguida despejá-la no comércio) ou então em breve não teremos mais a vida boa que temos hoje (com carro em 60 prestações e TV de tela plana em 24). É claro que ninguém está escolhendo nada aqui, pois se você se recusar a encher a bolsa no mesmo ritmo perderá também suas condições mínimas de vida na forma como se exige hoje, ao menos nos grandes e médios centros urbanos.

Faço coro, então, com Contardo Calligaris: precisamos nos recusar a responder perguntar binárias, não apenas no âmbito privado, não apenas do ponto de vista das liberdades individuais. Entre “a bolsa e a vida” da nossa coletividade existe um sem número de possibilidades graduais. O estímulo à volta do comércio de bairro com locais para passeio não seria uma boa alternativa econômica e cultural aos shoppings? O foco em soluções que unam comércio e cultura popular para áreas degradadas não soa muito melhor do que prédios de escritórios anódinos? A busca de uma forma alternativa de vida que não se baseie unicamente em trabalhar e consumir soa tão radical assim?

Sei que estamos falando apenas de ideias e conceitos, mas é preciso começar por algum lugar – que seja pela imaginação, que ainda é gratuita. O conceito binário de escolha para nosso futuro precisa ser repetidamente questionado. Porque, a meu ver, o fato de continuarmos olhando para os grandes temas que nos estruturam enquanto país sob o filtro do “a bolsa ou a vida” é justamente uma das causas de continuarmos nos deparando com sujeitos no meio da rua com uma arma nos perguntando “a bolsa ou a vida”.

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Imagem: Justin Mezell

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