Por uma vida mais ordinária

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Esses dias peguei um táxi aqui em Porto Alegre e aconteceu o inevitável: depois de poucas quadras, nos metemos em um engarrafamento e o motorista começou a reclamar: era recém quarta-feira, dizia, e já estava estressado como se fosse sexta, por causa desse trânsito dos infernos! Me solidarizei e dei corda pra conversa, perguntando que horas pegava e que horas largava. E ele me contou o seguinte: “pego cedo, tipo seis, sete e largo às quatro porque não dá. Eu até podia trabalhar mais pra ganhar mais dinheiro, mas pra quê? Pra ficar ainda mais estressado? Então eu prefiro ir pra casa e fazer minhas coisinhas, tô construindo uma garagem eu mesmo, com um quartinho embaixo pra minha esposa costurar. O táxi não é meu, o dinheiro que eu ganho é o suficiente, pra que vou me matar?”

Até esse dia, por ingenuidade ou alienação, eu ainda pensava que essa onda de questionamentos a respeito de carga horária de trabalho e o valor de se sobrecarregar em troca de salários ou posições melhores fosse algo restrito a uma certa elite cultural, coisa de gente bem nascida ou já completamente estruturada, que teria condições financeiras de fazer reflexões e escolhas que não estão no horizonte da maior parte dos brasileiros, que precisa simplesmente batalhar o básico. Mas, ao que parece, a ideia de espremer a própria energia em busca de uma ascensão cujos frutos são às vezes duvidosos está bem mais disseminada do que minha mente estreita imaginava.

A fala do taxista combina com uma série de textos que cruzaram meu caminho nos últimos meses. Destes, o que parece ter causado mais impacto no meu círculo de conhecidos digitais foi “O Seu Estilo de Vida Já Foi Projetado”, no qual o blogueiro David Cain conta como ter voltado à jornada formal de trabalho de oito horas dentro de uma empresa começou a empurrá-lo para um tipo de consumo mais impulsivo e desnecessário. A lógica que ele sublinha é bastante simples do ponto de vista físico: o tempo livre, quando comprimido pelo formato clássico de emprego, exige um tipo de aproveitamento mais intenso, especialmente ao ser combinado com os equipamentos de consumo de grandes cidades. Do ponto de vista de Cain, “fazer com que as pessoas tenham pouco tempo livre significa que elas vão pagar bem mais por conveniência, gratificação e qualquer outro alívio que possam comprar. Faz com que elas continuem assistindo televisão, e os seus comerciais. As mantém pouco ambiciosas fora do trabalho.”

Semanas antes, o Valor Econômico publicou a matéria Menos é Mais, com uma série de exemplos individuais, no Brasil e no exterior, de gente que está reformulando seu estilo de vida, aparando arestas, tentando reduzir o desnecessário. Claro que o desnecessário é sempre uma visão particular: para alguns é trocar os livros de papel por um tablet, para outros é abrir mão totalmente de lidar com dinheiro. Essa visão democrática sobre simplicidade é importante, sob pena de se criar algum tipo de dogmatismo sobre o que é certo e o que é errado na busca por uma vida mais significativa e com menos penduricalhos. A Galileu também publicou um post na mesma batida em um de seus blogs, com um foco na digitalização de bens materiais como uma alternativa para quem quer deixar sua bagagem física mais leve e facilitar a mobilidade. Outro: meses antes de ler isso tudo, recebi do Ariel um link da Fast Company que publicou o resumo do livro In 2052: A Global Forecast for the Next Forty Years. Uma das questões cruciais levantadas nesse relatório é “Eu serei mais pobre em 2052?” O autor do trabalho sugere: “Você está fazendo a pergunta errada. Você deveria perguntar ‘eu estarei mais satisfeito?’ Para a maioria de nós, existe todo um conjunto de fatores que influenciam nosso bem estar – trabalho, saúde, família, comunidade, perspectivas – além de renda.”

Obviamente não estou ligando todos estes pontos por acaso. No ano passado, eu mesmo resolvi fechar um ciclo de 20 anos trabalhando no esquema das 9 às 19, dentro de empresas maiores, com salário e benefícios, em busca de uma outra experiência, com outros benefícios e outros obstáculos. Na construção dessa viabilidade, muita coisa pesou e pensei muito. Li bastante e fui fortemente influenciado pelo tipo de pensamento que as matérias acima descrevem. Passei também por muita besteira, muita fantasia, mas no fim das contas percebi que parece existir, sim, um caldo cultural no “Brasil da nova classe C” para fazer algumas perguntas mais profundas a respeito desse esquema todo.

O ponto aqui não é demonizar o emprego tradicional, ainda importante na nossa economia e na nossa cultura geral, como estrutura social e do indivíduo. E muito menos bater na tecla do empreendedorismo clássico, que é apenas uma outra forma de emprego formal, hoje disfarçada de manifesto libertário modernoso. O ponto é tentar entender ou ao menos pensar a relação entre esforço e fruto, investimento e dividendos na forma como a nossa sociedade está estruturada. E também enxergar que no novo momento que o país vive existem algumas frestas, alguns espaços, nos quais se pode fazer algumas experiências novas. Eu e minha mulher, que deixamos nossos empregos formais e supostamente estáveis no ano passado, costumamos comentar que nossa atual escolha profissional não seria possível no Brasil de quinze anos atrás – não havia contexto econômico que sustentasse as nossas atividades específicas de forma autônoma. De qualquer forma, a ideia não é simplesmente que algumas pessoas aproveitem as sobras de um sistema clássico, mas sim repensar a ideia de trabalho por um viés estrutural e, acima de tudo, humano.

Enfim, essa não é uma conversa fácil, é cheia de nuances, mas me parece necessária no momento que estamos vivendo no Brasil. Melhor conversarmos isso agora, que temos um país borbulhante, do que em retrospecto, quando novas estruturas já estiverem sedimentadas.

***

Leitura Complementar

* Não deixe de ler os comentários, com opiniões e depoimentos que trazem outras considerações importantes.
* Para geração com 20 e poucos anos, ambição tem preço – matéria no Ig.
* Very Little Need & Much Contentment – por Dzigar Kongtrul Rinpoche.
* Profissionais Apaixonados – por Eduf.
* Sem Trabalho – Como Sobreviver num Mundo Sem Emprego – ebook em PDF do Gilmar Renato da Silva.

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7 pensamentos sobre “Por uma vida mais ordinária

  1. Eu acho sinceramente que a questão não é tão simples. Eu sou adepto do viver com pouco, reduzir o consumo e não gastar com o que não preciso. Meu celular custou R$50 usado (seria uns R$100 novo), não gosto de dirigir e do stress que causa (mas também não prego a bicicleta nem nada, só ando de ônibus, também acharia ter que andar de bicicleta um saco), e outras coisas.

    Mas trabalho 8h por dia num emprego “chato”, não abro mão do dinheiro e a segurança que ele traz.

    O triste é ver como as coisas são estereotipadas, e muitas vezes por causa do ressentimento de quem escolheu “viver do que ama” e ganha pouco com isso, que solta coisas como “prefiro ganhar pouco do que viver infeliz”. Ou muita gente mimada, que nasceu com tudo e que diz coisas como “argh, não me vejo trabalhando de terno e gravata num escritório”.

    Aliás, que estereótipo é mais famoso do que o engravatado infeliz com a vida? Bom, há muitos assim

    Mas não é tão simples.

    Eu trabalho em um lugar assim e sou mais feliz do que muita gente que conheço e “faz o que ama”, disso você pode ter certeza.

    Pois a não ser que aconteça uma nova grande revolução na economia mundial, o dinheiro é a base de tudo, de tudo que você precisará fazer. E ele traz uma coisa que para alguns é sinônimo de felicidade: Segurança.

    A questão não é só ONDE e COMO conseguir o dinheiro. Não trabalho com freelance, mesmo fazendo “o que amo”, porque não quero passar um dia só da minha vida indo dormir preocupado se vou ter ou não trabalho pra fazer no outro dia, porque nesse dia meu trabalho não será mais minha paixão, será meu pão, minha sobrevivência.

    Prefiro trabalhar 8h normalmente, chegar em casa e tocar meus hobbies, do que transformar esse hobbie em obrigação diária. Nunca consegui criar sob pressão. Nunca me senti mais feliz por ter que criar algo, mesmo que fosse minha “paixão”, com prazo, briefing e preço tabelado.

    Admiro que consegue “trabalhar com o que ama”, mas esse não é o segredo da felicidade nem a máxima suprema verdade. Há pessoas e pessoas. Eu prefiro a segurança. Prefiro ir dormir sabendo que, não importa o que eu fizer no dia seguinte, se eu pintar um quadro, fazer uma música, escrever um texto ou não fizer NADA, eu vou ter meu dinheirinho reservado no fim do mês.

    ISSO pra mim é liberdade.

    Mas claro, isso varia de pessoa pra pessoa, de personalidade para personalidade. Tem pessoas que são muito felizes mesmo com toda a insegurança que “fazer o que ama” pode trazer. Inclusive conheço alguns tão bem sucedidos que provavelmente nunca terão problemas com insegurança, sempre terão trabalho. Sinceramente? Queria ser assim. Mas não sou.

    O que quis mostrar apenas é que essa não é uma equação simples. Há muitas variáveis, mutias pessoas, muitas formas de se sentir satisfeito, muitas formas de felicidade.

    • Bom A, entendo o teu ponto de vista (e que ótimo tu conseguir se sentir bem no restante da tua vida) uma vez já pensei assim, mas um dia vi o vídeo no TED do Matthieu Ricard sobre felicidade e me interessei pela visão dele (budista) sobre a real felicidade, e uma matéria sobre a ciência da felicidade, e outra do psicólogo Martin Seligman e outras tantas visões além da budista e científica por conseguintes, e comecei a entender o que é isso, e hoje, é claro, tenho outra visão sobre o assunto e levei esse conhecimento para minha vida.
      Então, o bom mesmo seria tu se sentir melhor também no teu trabalho profissional convencional, não tem o porque não, né? rs. Mesmo algo sendo chato podemos sim melhorá-lo, se o fizermos com engajamento, mas não vou dizer como fazê-lo, se tu se interessar, já está aí o primeiro passo para que possas buscar como fazê-lo rs. Boa sorte!

  2. Bom, concordamos na maior parte das ideias. Também acho esses esteriótipos perigosos e também acho que é totalmente legítimo buscar a felicidade da forma como você colocou. De minha parte, tendo vivido 20 anos com o salário caindo todo fim de mês na conta, posso dizer que de fato nem sempre é fácil ir dormir pensando no mês seguinte. Mas a experiência está valendo a pena, porque compreende uma série de outras recompensas. E também eu não estava dormindo muito bem de qualquer forma…

  3. Bom, eu chutei meu balde.
    Como mencionei contigo uma vez Gustavo, tava numa rotina de 10h diárias, etc.
    E também não tava dormindo direito.

    Larguei o emprego com um pé de meia X e vim pro Chile. Tou há 3 semanas de “férias”. 1 semana na casa de uma amiga, 1 semana num hostel, 1 semana num quarto de pensão que vou alugar por um mês.

    Tenho 23 anos, e enquanto eu trabalhava um monte invejava a vida simples dos meus amigos que ainda estão na faculdade, penosa muitas vezes, mas mais simples. “Putz, é domingo e ainda não fiz o trabalho X”

    Acho que o tempo vai ser a moeda do futuro. Uma diretora da WGSN disse uma vez (o Tiago Mattos da Perestroika postou): “A atenção é o novo luxo.”
    E o que é a atenção senão tempo de imersão versus assimilação de conteúdo?
    Quando morava em São Paulo e trabalhava muito, li algo como 2 ou 3 livros num ano, a muito custo. Hoje tenho mais tempo pra imersão em assuntos complexos. É nisso que eu aposto como a moeda de troca pra um novo tipo de valorização profissional. Agora tá tudo fazendo sentido.

    Além disso, a ambição humana por status social por muito tempo estava relacionada à bens de consumo culturais, como ver filmes do Fellini, que era super inacessível, só tinha em locadora de cidade grande. Hoje qualquer mortal pode baixar em casa, no interior de Minas Gerais por exemplo. Depois que escutar Bossa Nova ou ver Fellini não é mais o mainstream do status do cosmopolita, pra quê se matar de trabalhar se aquele show do Lollapallooza que você se matou pra ir eu vi do conforto do meu sofá? É tipo isso, os alvos mudam, os “players” também.

    😛

  4. Amigo, tenho 24 anos…
    Faz um ano e pouco que me formei na graduação e essas questões sempre vem em mente de quem está iniciando a carreira profissional (principalmente com um diploma na mão).
    Eu e meus amigos da universidade sempre nos reunimos no bar para conversar sobre essas tendências de futuro, sobre o que faremos nas nossas próximas escolhas, pois estas podem traçar rumos de uma vida inteira.

    Então surgiu-me a questão e como já tenho experiência de mercado sempre acabo por bater nesta tecla (meio que minha filosofia de vida).

    Cara, sou Bacharel em Logística (uma das áreas mais sangradas, aonde você abdica de finais de semana, sábados, domingos, feriados e madrugadas) trabalhei muito tempo no comércio exterior aonde tinha que virar noites no trabalho aguardando os chineses acordarem para concluir alguns embarques e coisas e tal.
    Chegava cedo no trabalho, afinal setores públicos como Receita Federal e até instituições bancárias sacaneiam com a vida dos seres humanos.

    Até que decidi dar uma fugida desse foco. Achava que o problema estava na calça social, a camisa e o sapato, no cabelinho bem cortado e nos relatórios em inglês.

    Fiz uma tatuagem, comecei a tocar instrumentos musicais (meu sonho de guri era ter uma banda) e arranjei um emprego de subsistência (o objetivo era para não passar fome). Hoje já com uma situação melhor, continuo abdicando de oportunidades “melhores” afinal elas são apenas financeiras, para trabalhar em um setor adverso ao meu (trabalho na logística da moda) fazendo horários flexíveis aonde conheço pessoas descoladas e consigo tempo para meu lazer.

    Aí que vem o cerne da questão… As vezes essa vida “insana” está apenas na mente das pessoas. Se elas respeitarem o horário de trabalho com a filosofia do seu Madruga (Não existe trabalho ruim, o ruim é ter que trabalhar), conseguir aliar boas escolhas como caminhar ao final da tarde com fone de ouvido, enfim…
    Se divertir no resto do tempo. Aquela rotina não passa a ser mais um fardo. E sim um meio de sustentar (manter) toda a diversão que ela leva depois daquele horário de aluguel da força física.

    Esse entendimento ajuda as pessoas a perceberem felicidade em tanta coisa que não se faz necessária a fuga de todos os padrões sociais para que se perceba o quão grande é o mundo ao seu redor.

    Valeu amigo, favoritei teu trabalho e espero continuar em contato.

  5. Acho que as duas opções são perfeitamente viáveis, justamente dentro da ideia de que cada um é feliz à sua maneira. Eu, servidora pública com um segundo emprego privado, com duas filhas na universidade, também prezo a questão da tranquilidade financeira. Esses dias um colega foi demitido e eu fiquei pensando: já imaginou se, a essa altura do campeonato, eu tivesse que me preocupar com como pagar as contas? Minha sorte (ou mérito, talvez) é que, nos dois trabalhos, eu faço o que gosto, e em nenhum dos dois ambiciono “mais” justamente porque sei que, para isso, vou ter que fazer coisas chatas e assumir responsabilidades que não estou a fim de assumir. E por causa disso, entre outras coisas, também me sinto livre e satisfeita. Vejo esse movimento do “menos é mais” com muito inspirador, mas de forma muito abrangente, e acho que o artigo tem também essa visão.

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