Diários de Bicicleta: Em relação à cidade, todo ciclista anda pelado

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No segundo post da série Diários de Bicicleta, contei minha sensação, bastante comum entre quem voltou a pedalar, de ficar mais em contato direto com a cidade: descobrir lojinhas que não via quando andava apenas de carro, me impressionar com aquela fachada de prédio feita de pequeníssimos ladrilhos antigos lindos, atravessar pracinhas escondidas em concavidades internas de um bairro aleatório, e por aí vai. De certa forma, essa sensação me lembra um pouco quando o inverno pesado passa e a gente botar de novo as pernas e os braços de fora na primavera – pescoço, coxas, canelas, antebraços e cotovelos retomam uma exposição subtraída deles durante um período. Nesse retorno, a sensação do sol, do vento e da grama na pele (bem como da pele na pele), que depois se torna corriqueira, é experimentada nas primeiras semanas com um certo frescor. São os divivendos da desproteção.

A bicicleta na cidade dá esse lucro: em relação a andar de carro, ou mesmo de ônibus, você está bem mais desprotegido. Isso pode ser encarado como uma questão de segurança trânsito. Desse ponto de vista, é sinônimo de saber se equipar, de saber andar dentro das orientações técnicas e, também, de uma certa tensão e de uma atenção constantes. Mas também dá pra olhar a desproteção na bicicleta com um viés mais lúdico. Desprotegido da cidade, o ciclista deixa um pouco mais dela entrar por seus poros, não os furinhos na pele, mas os poros gerais dos sentidos.

Por esses poros, muita coisa entra, nem todas desejáveis. As cores, os cheiros, os barulhos e as intenções gerais da rua são experimentadas numa variedade e numa velocidade bastante particulares, diferentes da experiência em carro, na moto, no ônibus ou mesmo a pé. Nos veículos mais rápidos, o buffet urbano é atravessado, cortado. A pé, você se vê invariavelmente envolvido e está numa posição que pode fazer determinadas escolhas. De bicicleta, flutua-se entre o envolvimento e a distância, uma zona esquisita dentro da qual você está munido para colher percepções suficientemente ricas porém sem tempo para desfrutar na hora. O que se absorve terá que ser elaborado e consumido mais tarde. É como passar pelos corredores de uma lojinha, ir enchendo os braços de produtos e só ver de fato o que comprou quando se chega em casa. Andando de bicicleta na cidade, dá pra escolher a lojinha e o corredor, dá pra pegar coisas pelos poros (de carro, ônibus e moto, não), mas não dá pra se certificar 100% de que você pegou só o que queria. Desprotegido, se incorre nesse tipo de descuido e se leva pra nossa casa (física e emocional) bem mais do que se planeja.

Essa nudez relativa é o bônus – entre alguns ônus conhecidos – do ciclista urbano, de todo ciclista urbano. Por mais paramentado que seja o ciclista, há uma série de variáveis que estão sumariamente fora de sua alçada. Ele pode ser o mais cartesiano, cuidadoso e paranóico dos ciclistas, mas ainda assim estará permanentemente sujeito às intempéries poéticas e conceituais do ajuntamento mais complexo e interessante que o ser humano já criou.

***

Desenho: Sarah Lippet.

Um pensamento sobre “Diários de Bicicleta: Em relação à cidade, todo ciclista anda pelado

  1. Um texto rico e preciso do que significa usar a bicicleta como veículo. É de fato a minha própria experiência da forma como a sinto com um talento extraordiário que eu não teria para descrevê-la. ; )

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