Carta aberta da TV à Internet

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Querida Internet

Quem lhe escreve aqui é a TV, aquela tela maior que fica ali na sala. Sei que você não me tem em muito boa conta, que está cheia de compromissos e não pode gastar seu valiosíssimo tempo, tão disputado e fragmentado, com quem já está por aí há muito tempo. Ainda mais eu obrigando você a abrir um envelope e ler uma carta de papel. Mas esse foi justamente o subterfúgio que encontrei pra chamar e prender sua atenção. Quem sabe uma carta de papel lhe cause tanto fascínio que, antes que você desperte do choque, já leu minha mensagem inteira – muito embora ambos saibamos que executar tarefas inteiras não é sua especialidade. Kkkkk. (Não é assim que você ri?)

Me desculpa se já comecei sarcástico (são as reprises de Seinfeld…), mas na verdade meu contato é para fazer alguns agradecimentos e trazer alguns alertas de quem já passou por alguns desafios que você está enfrentando.

Primeiro, os agradecimentos. Obrigado por tirar os pais, médicos e religiosos fundamentalistas de cima de mim. Você não sabe o inferno que era a minha vida com essa gente antes de você chegar. Logo que surgi, assim como você, me tornei o centro das atenções domésticas, o que causou muito ciúmes por aí. As crianças, sempre prontas para abraçar a vanguarda, me adotaram de tal forma que muitos pais espertinhos passaram a me usar de maneira vulgar e exagerada para não precisar cuidar e educar os seus filhos. Bem, talvez eu esteja sendo também vulgar e exagerado, pois na verdade acabei sendo a solução para todo um novo contexto urbano que não necessariamente era responsabilidade dos pais. Alguns trabalhavam tanto e moravam em lugares tão pouco amigáveis que restava às crianças sentar na minha frente por horas e horas para passar o tempo. De qualquer forma, a culpa recaiu sobre mim e me arrumaram até um apelido hoje ultrapassado e usado para um outro eletrodoméstico: babá eletrônica.

Quanto aos religiosos fundamentalistas, você não sabe a loucura que foi. Primeiro, fui acusada de ser um instrumento do diabo por abrir a cabeça das pessoas para toda uma forma de cultura popular que mexeu com costumes tradicionais. Alguns sacerdotes mais exaltados chegaram a fazer exorcismos comigo! Ironicamente, isso não durou muito tempo pois esses sacerdotes rapidamente se deram conta que eu poderia ajudá-los com seus interesses e, antes que eu pudesse perceber, estava possuída por eles! Isso dura até hoje e não pára de crescer! Agora sim, chamem o exorcista, por favor! Kkkk!

Mas chega de falar de mim. Sei que você está passando por algo bastante parecido. Os primeiros 20 anos de holofotes são assim, intensos, vertiginosos. Nós não fomos os primeiros a serem execrados. O rádio, que ainda está por aí, inclusive eu sei que vocês tem andado bastante juntos, enfrentou as mesmas questões. O cinema, a fotografia e a imprensa também. Imagine você que numa das primeiras sessões de cinema da história, que mostrava o filme de um trem em movimento, as pessoas saíram correndo da sala achando que o trem era de verdade. Fala sério, nem eu nem você passamos por algo tão pitoresco…

Tenho acompanhado o noticiário (claro) e volta e meia surgem matérias sobre os perigos de usar você: dizem que a capacidade de concentração das dessoas está sendo afetada, que a sua informação é menos confiável, que você ameaça o sistema clássico de direitos autorais, que acabou com a indústria fonográfica e que vai acabar com o cinema! Hmmm, tá poderosa! Kkkk! Pois esse é justamente o principal segredo da nossa profissão – conferem a nós um poder que não é nosso. Embora eu também esteja impressionada com o que você vem fazendo de positivo (a democratização do conhecimento, a conexão de nichos culturais que estavam isolados geograficamente, a possibilidade de mobilização cultural e política e, o mais importante, os filmes dublados do Jerry Lewis circulando por aí), os responsáveis por tudo isso são as pessoas. Não importa o quanto coloquem o peso sobre nós, são elas que mexem os cordões. Falo isso como amiga, porque estou vendo que você anda se achando e, experiência própria, quando subimos no salto o tombo é muito maior. Olha o que o rádio passou nos últimos anos pra recuperar a auto-estima depois de décadas de protagonismo. Aliás, sei que você tem ajudado muito ele e é bonito isso – porque um dia você pode precisa de ajuda.

Talvez esse dia nem esteja muito longe. Só pra dar um exemplo, se eu não estivesse passando tanto seriado bom hoje em dia, se eu não fosse capaz de reunir tanta gente pra ver futebol ao vivo e se alguns autores de novela não gostasse tanto de mim, talvez as pessoas não tivessem tantos motivos pra usar você. Porque vídeo de gatinho e de bebê fazendo gracinha é legal, mas não a vida toda. Ok, SEGUNDA tela? Ops! Escorreu veneno aqui… Kkkk!

Mas não vamos terminar a carta num clima ruim. No fim das contas, estamos todas no mesmo barco. TV, internet, fotografia, cinema, pintura… acaba que tudo se mistura e é justamente quando a gente se encontra que a coisa fica interessante. Embora hoje eu tenha minha própria personalidade, você não imagina o quanto eu devo ao rádio, ao teatro e ao cinema. Sem eles, eu nem teria começado nesse negócio. Também aproveito pra lembrar que todas nós devemos muito à escrita. No fim das contas, é ela que nos deixa mais instigantes, é ela que nos estrutura, é ela que ainda consegue, em pleno ano de 2013, fazer alguém parar por um pouco mais de tempo e devotar sua atenção a uma coisa tão antiga quanto uma carta.

Cordialmente,
TV
(a PRIMEIRA tela! Kkkk não resisti!)

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