Diários de Bicicleta: Mais amor mesmo com motor

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Um rápido pensamento que me ocorreu essa semana quando tirei a foto acima: sim, seria bacana ter menos motor e mais amor na cidade, como reza o clássico chamado dos militantes da bicicleta. Mas mais amor mesmo com motor também daria conta do que precisamos. Sou partidário dessa pressão midiática, dos slogans, dos cartazes, dos gritos de guerra que sintetizam uma filosofia inteira, mas também estou percebendo que o caminho para as evoluções urbanas também pode (talvez deva) ser pavimentado com um pouco de temperança e de gente em cima do muro.

Sim, precisamos cada vez de mais ciclistas com o punho em riste, mas junto com isso, simultaneamente, enquanto não vem as ciclovias e a mudança de cultura, também precisamos de mais motoristas com a mentalidade de ciclistas – ou de pedestres. MOTORISTA não é uma condição irreversível, é uma forma de pensar e de encarar o mundo ligada ao uso de um equipamento – muito embora muita gente assuma como cultura. Vincular a ideia do motorista com a imagem do motor no lugar do coração é muito bom em termos de marketing, mas não tão bacana do ponto de vista humano porque congela milhares de pessoas dentro de um rótulo que não necessariamente se aplica a elas.

Eu mesmo, apesar de estar adorando usar bem mais a bicicleta, não abandonei o carro e não pretendo tão cedo. Mas quando estou fechado no meu bólido, envolto por aquela armadura pesada, vidros erguidos, ar ligado, meu coração não fica gelado nem cheio de engrenagens, as minhas orelhas não ficam pontudas e nem sai fogo das minhas ventas. Da mesma forma, milhares de outros motoristas também estão percebendo que tem ciclista na pista ao lado, que seria bom poder caminhar um pouco mais e depender menos do carro e que alguma coisa com a política de mobilidade está errada se cada nova duplicação de avenida gera também engarrafamento em dobro.

Muitos deles, se alheios a soluções pessoais de alternativas, dificilmente serão convocados à revolução com sarcasmo e virulência. Se a coisa continuar assim, corremos o risco de começar a surgir cartazes em postes reivindicando um outro tipo de visão, o outro lado da história. Eu não me surpreenderia se visse, um dia, um carro adesivado com o grito de quem não quer ser rotulado tão automaticamente: “Mais amor e menos sarcasmo.”

***

Veja aqui todos os posts da série Diários de Bicicleta.

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3 pensamentos sobre “Diários de Bicicleta: Mais amor mesmo com motor

  1. Excelente reflexão. E um adendo:

    Tem também o CICLISTA MOTORISTA, cada vez mais comum na cidade: anda a milhão sobre as calçadas, não para em sinal de pedestre, fura sinal de trânsito, etc. Quando estou correndo, sou mais bem tratado na faixa de pedestres por motoristas de carro do que por ciclistas.

  2. Perfeito. Como nenhuma revolução concreta virá tão cedo, é importante tentar cultivar em pedestres, ciclista e, principalmente, motoristas, o respeito mútuo e a consciência de uma relação que precisa ser menos turbulenta.

  3. Perfeito. Como nenhuma revolução concreta virá tão cedo, é importante tentar cultivar em pedestres, ciclista e, principalmente, motoristas, o respeito mútuo e a consciência de uma relação que precisa ser menos turbulenta.

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