Dia dos Namorados Macabro

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Chegou junho e, junto com ele, algo bastante assustador: o Dia dos Namorados. Eu não sei se você lembra, mas o 12 de junho do ano passado foi uma das coisas mais bizarras dos últimos tempos, porque marcou o encontro de duas ondas respeitáveis – o dia que simboliza um dos grandes ícones da latinidade (o amor romântico) com uma época de inegável expansão da rede social mais famosa do mundo no Brasil. Dia dos Namorados e Facebook no país que ama novela, uma mistura explosiva.

Se minha memória está correta, duas camada de manifestações tomaram conta do Dia dos Namorados em 2012. Uma se deu na Timeline de todo mundo e se dividia entre posts apaixonados (“fulana tagueada” é meu amor pra toda a eternidade), posts cínicos (odeio amor declarado) e posts críticos (hoje só tem post declamando e post reclamando). A outra camada foram os comentários SOBRE o Dia dos Namorados no Facebook FORA do Facebook.

O segundo caso me interessa mais, porque, na época, no espaço de dois ou três dias, eu ouvi comentários interessantíssimos. Um veio de duas colegas de trabalho falando das declarações a-pai-xo-na-díssimas de um casal de conhecidos que estava – fora do Facebook- à beira da separação. Outro, veio de uma amiga que confessou estar se sentindo mal por não ter postado (e nem ter vontade de postar) declarações intensas, gráficas e explícitas de amor ao marido. Nos dois casos, uma pergunta pairava no ar: que poder é esse da Timeline do Facebook pra gerar uma força gravitacional que parece obrigar os casais a postarem o que não sentem ou constranger quem não entra na dança?

A resposta mais fácil é dizer que todo mundo é gado, que as pessoas seguem umas às outras sem pensar. Mas isso é chutar cachorro morto. Eu prefiro pensar na lógica da Guerra Fria: não é que meu país PRECISE de 10.000 mísseis nucleares quando 5 dão conta. É que o país rival tem 9.999 mísseis e 1 a mais me dá uma vantagem estratégica. O mesmo acontece com o amor romântico em tempos digitais.

Quando uma massa de declarações apaixonadas se enfileira e se acumula na Timeline, pode dar a impressão que um bilhetinho, um olhar, uma mão dada não é o suficiente. Assim, inflaciona-se o mercado das declarações. Um só míssil, embora desse conta do recado,não é mais o suficiente. O motivo pelo qual isso acontece não é a histeria das pessoas, mas o fato de que o Facebook torna a declaração muito fácil, muito simples. Também aí vale a comparação com a guerra nuclear: mesmo com 10.000 mísseis à mão, não é preciso grandes empreendimentos para atingir o alvo, basta apertar alguns botões.

Como sempre, em se tratando de cultura digital, nada disso é novidade em termos de sentimentos. O amor romântico, com ou sem internet, tem seus âmbitos offline de comparação e de declarações exageradas. Da mesma forma que em todas as outras áreas da nossa vida, o que é novo é essa disponibilidade das ferramentas digitais, essa facilidade de expressão audiviosual tão à mão e distribuída, agora, de forma tão massiva.

Com a expansão ainda maior da internet no Brasil do ano passado pra cá e pelo fato do amor romântico continuar em alta, quem se irrita com a bolha de declarações vai passar melhor o Dia dos Namorados longe do Facebook. Se, por motivos profissionais e pessoais, a conexão for necessária, aqui vai uma dica para ter paciência: imagine como seria pior se, em vez do Facebook, o que tivesse explodido fosse o uso daqueles carros de Tele-Mensagem.

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Imagem: Dr. Strangelove.

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