Precisamos de uma Revolução Cool

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Muito está sendo dito nesses últimos dias a respeito dos protestos que vem tomando conta de todo o Brasil. Existem evidências, números, fotos, vídeos e textos que vem abordando uma série de ângulos e permitem defender diferentes pontos de vista. Cada pessoa ou cada pequeno grupo parece estar fazendo a sua leitura, tentando construir um sentido mais consistente para algo que, nos momentos mais calorosos, baseia seu sentido nos atos de urgência: marchar, brandir, gritar.

Mas esse tipo de convulsão, se funciona maravilhosamente bem como sinalização ou como sintoma, tem o perigo inerente de cristalizar a ideia de que atitudes violentas são indispensáveis e eficientes num processo de mudança. Nas ruas, em plena batalha campal, com uma PM mandando bala, essa reflexão pode ser mais complicada. Mas não há desculpas para não exercermos um pouco mais de ponderação no âmbito digital, por mais adrenalinante e sedutor que seja acompanhar os protestos via redes sociais (e eu acho que é). Ceder à tentação de incentivar a violência contra as polícias que estão sendo violentas é mais do que entregar de bandeja uma boa oportunidade a comandantes e policiais sem noção – é, de certa forma, obedecer ao comando deles.

Nas redes sociais e nos blogs, fazemos isso não apenas diretamente, com palavras de ordem ou bravatas contra a polícia, mas também compartilhando conceitos que construam esse cenário. Músicas anti-polícia, por exemplo, fartamente disponíveis no imaginário do rock, são excelentes como catarse mas talvez contraproducentes para o distensionamento de um cenário de guerra (que, repito, serve mais ao militares que são sem noção). Eu sei que é praticamente irresistível, em certas situações, compartilhar “Polícia” dos Titãs, mas não sei se esse ato vale na construção de uma nova ideia de viabilidade social. Me soa um pouco como um requentamento que nos puxa para trás.

Talvez precisemos o que o pensador e atvista americano Robert Thurman chama de Revolução Cool, sendo que cool aqui é utilizado no sentido de “frio”, de ter a cabeça fria para decidir, momento a momento, qual é de fato a melhor atitude a se tomar. E, embora exista toda uma cultura constituída a respeito dos supostos benefícios de “explodir” (a cultura pop, inclusive, é pródiga nisso), em geral dificilmente se toma boas atitudes de cabeça quente. No livro “Inner Revolution” (Revolução Interna), Thurman defende que “Explodir de ódio não é sinal de resistência justa à opressão – é a capitulação final à opressão, a rendição da consciência livre e da força de vontade ao impulso cego.” Também diz que “Nós não percebemos que podemos ser muito mais assertivos sem ódio (…). Essa é primeira lição de qualquer arte marcial autêntica. Você se desidentifica do papel de vítima e não identifica o outro como propositalmente atacando. Você percebe o ataque contra você como uma força cega e impessoal que saiu de controle. Você pode, então, intervir friamente (…).”

Como eu disse ali em cima, é claro que pensar dessa forma sendo ameaçado em batalha campal é algo muito difícil, um visão reservada a pessoas extremamente treinadas. Mas eu, que não tenho ido às ruas, me sinto na obrigação de participar da onda sem me deixar levar pelo calor da situação. Aqui, sentado em frente ao computador, tenho certos privilégios que pretendo usar a favor do que acredito que seja o melhor caminho – e o mais importante desses privilégios é ter tempo e espaço mental para poder refletir e não insuflar um clima de agressão mútua.

Meu principal cuidado nesse sentido tem sido não compartilhar imagens, músicas ou filmes que possam corroborar a ideia de retaliação violenta. Isso não é fácil, pois a maior parte das manifestações culturais revolucionárias estão dentro desse escopo e são esteticamente bacanas, sedutoras e interessantes. No entanto, sigo pensando que uma construir uma revolução cool – no sentido de “fria” – ainda é o melhor caminho para uma revolução cool – no sentido de “interessante”, de “condizente com uma linguagem nova e contemporânea”. E precisamos, mais do que nunca, do novo.

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2 pensamentos sobre “Precisamos de uma Revolução Cool

  1. Pensar friamente, disse tudo. Para que as mudanças almejadas aconteçam de fato, todos precisam ceder ou perder algo também, e é preciso ter isso em mente quando se provoca uma discussão dessas.
    E como diz meu professor, e concordo cada vez mais com ele, meditar é revolucionário.
    Abs

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