Estamos vivendo uma crise de interface com o usuário

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O conceito de interface com o usuário não é exclusivo das mídias digitais, mas seu significado nessa área está me ajudando a emoldurar mais racionalmente tudo isso aí que está acontecendo. Dentro do design industrial e da computação, a interface com o usuário é todo recurso que permite o diálogo entre a máquina e a pessoa. O mouse do computador é uma interface, bem como a aoarência gráfica dos programas, as telas, botões, menus, tudo aquilo que permite que a gente comande determinado programa. Na internet, a interface de um site é a tradução gráfica de uma montanha interminável de códigos ininteligíveis para a maior parte dos usuários.

Uma interface é crucial para a interação entre as partes e suspeito que o que nos falta, como coletivo nacional, são diversas interfaces em diferentes níveis. Por exemplo, na falência do voto como uma interface com o poder público constituído, restou retomar uma milenar interface política: a rua. As manifestações presenciais no espaço público transformam milhares de pessoas em pixels que se organizam em diversas telas – na TV, na internet, nos visores de câmeras, nas esquadrias das janelas, nas fotos de jornais e revistas. Algumas pessoas, versadas no alfabeto que está sendo usado pelo grupo heterogêneo de manifestantes, compreenderam rapidamente a mensagem consolidada nessa interface. Outras, alheias a uma linguagem que vinha sendo gestada há pelo menos uma década, demoraram ou estão estão demorando a entender.

Claro, o primeiro sinal da ineficiência de uma interface é a perplexidade. Como assim? Onde aperta? Não estou entendendo… O segundo sinal é a impaciência, seguido de perto pelo terceiro, a irritação. Se a situação persiste sem solução, o quarto sinal é a violência. Computadores, caixas eletrônicos e telefones já apanharam muito por conta dos defeitos nas suas interfaces. A interface defeituosa é o diálogo obliterado e um convite à agressividade. A boa interface produz empatia e conduz ao entendimento mútuo.

Existem muitos trabalhos em muitos níveis a serem feitos em interfaces a partir da explosão de manifestações. Existe o nível da política institucionalizada, nos corredores dos três poderes. Existe o nível da discussão teórica, que flana entre as universidades, os institutos, os escritórios particulares de intelectuais, as redações de alguns veículos e os quartos dos articulistas independentes. Existe o nível dos movimentos sociais e suas organizações. Existe as ruas e existe a massa da população debatendo em paradas de ônibus, em bares, nos seus empregos. E existe a internet, o âmbito que até agora tem se provado como o melhor complemento ao trabalho das ruas pela possibilidade congênita e única de replicar a diversidade de anseios e de pontos de vista.

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Luli Radfahrer, em artigo publicado na Folha de São Paulo, destaca a importância da internet na reestruturação do diálogo no país. Bem utilizada, ela é, óbvio, a interface da sociedade em rede. E isso deveria incluir o Governo. A rede não serve apenas para convocar manifestações, compartilhar artigos e passar adiante vídeos e imagens dos protestos. Ela também se presta para duas coisas: estabelecer um canal mais próximo entre Governos e cidadãos e para instituir o choque de transparência que o país precisa. Mas não está sendo utilizada, com raras exceções, para isso. O conceito de dados públicos e de serviços ao cidadão via mídias digitais, na imensa maioria dos casos, naufraga em sites e aplicativos mal projetados, antipáticos e cheios de restrições. Cabe lembrar que não estamos falando de luxos, de brinquedinhos e distrações, mas recursos que poderiam reduzir filas, custos, tempos de espera, número de funcionários públicos e níveis de separação entre Governos e cidadãos.

Em artigo no Globo, Daniel Galera fez um chamado interessante: retornar a publicidade governamental ao seu significado original, que era mais relacionado ao conceito de transparência. As campanhas publicitárias do Governo, hoje, seguem a cartilha do mercado publicitário e funcionam dentro de uma lógica que exige o aporte de milhões de reais para a criação e veiculação de campanhas cuja eficiência, em muitos casos, precisa ser seriamente questionada. É dinheiro público que poderia ser aplicado em outros setores mais urgentes. O escritor propõe que a publicidade oficial deveria se comportar mais como prestação de contas e, eventualmente, como comunicação de conteúdos essenciais. Hoje, ela tem cara (e custo) de venda de produtos industrializados de massa. A meu ver, isso é, em parte, necessidade contextual: o Governo, de fato, concorre pela atenção das pessoas na grande mídia com a Coca-Cola e o Itaú. Mas isso também é, por outro lado, o resultado de um sistema viciado que atende a tantos interesses privados que se torna tabu questionar.

As duas propostas, de Luli e Galera, se complementam. Constrói-se uma nova utopia a guiar nossas reivindicações: com uma estratégia de transparência radical via rede, porém intermediada por interfaces simplificadas e atraentes, os Governos poderiam abrir mão da caríssima publicidade oficial em meios de comunicação de massa. Essa lógica também libertaria o Governo das amarras políticas com os grandes veículos – no Brasil, ser anunciante de porte garante algum poder de barganha no noticiário.

A ideia de unir transparência radical com boas interfaces usando a internet como um canal prioritário de conexão entre Governos e cidadãos se apoia também no papel que a rede está tendo na vida cultural dos brasileiros. Já faz alguns anos que ela está mudando, em alguns casos radicalmente, a forma como as pessoas constróem suas vidas. Já não assistimos futebol e novela como antigamente, não encontramos namorados e namoradas como antigamente, não nos comunicamos com nossas famílias como antigamente, não comparamos preços e compramos como antigamente, não criamos e ouvimos música como antigamente, não vamos ao banco como antigamente… Por que, então, vamos continuar nos relacionando com nossos representantes oficiais como antigamente?

Claro, faço questão de repetir: a proposta (que nem é minha, vem sendo martelada por intelectuais da cultura digital, estou apenas engrossando o coro) tem cara de utopia e exige uma mudança radical de olhar e de cultura. Mas entendo que é pra isso que as pessoas estão indo pra rua. Entendo que eu nem deveria sentar para escrever se fosse para ficar remoendo as velhas soluções.

***

Imagens: Kirra Jaminson

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6 pensamentos sobre “Estamos vivendo uma crise de interface com o usuário

  1. Cara, é um ótima discussão, essa. Na hora lembrei do http://gov.uk, que através de uma interface gráfica simples (com design premiado, inclusive), construiu uma interface atraente entre governo e sociedade. É só um exemplo de solução de interface (digital, nesse caso), entre tantos outros.

  2. opa! ao meu ver, a discussao eh essa: como conciliar as novas ferramentas ou maneiras que a sociedade dispoe para fazer politica (internet, redes sociais) com as antigas (partidos politicos, midia, cultura). desses dois textos que voce mencionou no post, pra mim o que mais chegou ao ponto foi o da Folha:

    “Pede-se a imediata investigação de irregularidades nas obras da copa e olimpíadas, mas quem as fiscalizará? Será que isso já não está sendo feito, só que por um sistema lento e que pode levar à impunidade como aconteceu com o mensalão? Mesmo que haja a relocação do PIB para áreas como saúde ou educação, nada indica que melhorariam. Ou você já se esqueceu da CPMF?”

    esse trecho aqui mais ainda:

    “Boa parte do desinteresse político vem da complexidade do sistema e da impotência de seus usuários. Apresentada de forma técnica, remota e entediante, a política se tornou distante, velha, uma fatalidade. Até mesmo as eleições, para muitos, não passam de um fardo. A impotência é tanta que leva muitos a se esquecerem que políticos são funcionários públicos. Acompanhar seu desempenho é direito e dever e responsabilidade de todos.”

    O negocio eh tentar simplificar, se possivel, esse sistema. Ou pelo menos torna-lo mais facil de entender. Esse eh o papel do governo. Jah pensei nessa “plataforma social” que mediaria o contato do governo com o publico, que o Luli diz no texto, mas ela periga criar um arcabouco tao grande quanto o proprio governo. Ia continuar complicado.

    Pra mim cabe ao governo tornar transparente as acoes dele e cabe a sociedade se organizar pra lidar com essas informacoes. O texto fala de podcasts e audiolivros que ajudariam o cidadao comum a se informar no caminho de casa ou do trabalho das acoes do governo. Soh que a Hora do Brasil ja faz isso, de certa forma. E geral reclama dela. Aih soh ia trocar uma ferramenta por outra, soh pra dizer que eh moderno.

    Eu nao conhecia esse http://gov.uk, mas acho que eh por aih, em todas as esferas do governo.

  3. opa! ao meu ver, a discussao eh essa: como conciliar as novas ferramentas ou maneiras que a sociedade dispoe para fazer politica (internet, redes sociais) com as antigas (partidos politicos, midia, cultura). desses dois textos que voce mencionou no post, pra mim o que mais chegou ao ponto foi o da Folha:

    “Pede-se a imediata investigação de irregularidades nas obras da copa e olimpíadas, mas quem as fiscalizará? Será que isso já não está sendo feito, só que por um sistema lento e que pode levar à impunidade como aconteceu com o mensalão? Mesmo que haja a relocação do PIB para áreas como saúde ou educação, nada indica que melhorariam. Ou você já se esqueceu da CPMF?”

    esse trecho aqui mais ainda:

    “Boa parte do desinteresse político vem da complexidade do sistema e da impotência de seus usuários. Apresentada de forma técnica, remota e entediante, a política se tornou distante, velha, uma fatalidade. Até mesmo as eleições, para muitos, não passam de um fardo. A impotência é tanta que leva muitos a se esquecerem que políticos são funcionários públicos. Acompanhar seu desempenho é direito e dever e responsabilidade de todos.”

    O negocio eh tentar simplificar, se possivel, esse sistema. Ou pelo menos torna-lo mais facil de entender. Esse eh o papel do governo. Jah pensei nessa “plataforma social” que mediaria o contato do governo com o publico, que o Luli diz no texto, mas ela periga criar um arcabouco tao grande quanto o proprio governo. Ia continuar complicado.

    Pra mim cabe ao governo tornar transparente as acoes dele e cabe a sociedade se organizar pra lidar com essas informacoes. O texto fala de podcasts e audiolivros que ajudariam o cidadao comum a se informar no caminho de casa ou do trabalho das acoes do governo. Soh que a Hora do Brasil ja faz isso, de certa forma. E geral reclama dela. Aih soh ia trocar uma ferramenta por outra, soh pra dizer que eh moderno.

    Eu nao conhecia esse http://gov.uk, mas acho que eh por aih, em todas as esferas do governo.

  4. Mini, baita discussão e ótimos os pontos colocados. Eu penso que a questão da interface é fundamental, mas precisa ser acompanhada de uma atualização de sistema. Uma vez eu coloquei nas redes que “O sistema político brasileiro é como windows: até funciona, mas foi feito pra dar pau.” Sem dúvida essa mudança de sistema é a longo prazo e passa, incondicionalmente, pelo envolvimento das pessoas e o entendimento da importância do voto. Talvez a evolução da interface – com mais acesso, mais transparência – seja o motor pra mudança do sistema. E, pra mim, essa mudança de sistema é algo maior, que perpassa a política, mas não fica só nela. Está relacionada também a questões econômicas, sociais, valores morais. Na real, a nossa política nada mais é do que um retrato do nosso Jeitinho Brasileiro. Como bem disse o Luli “É preciso substituir o Jeitinho Brasileiro por um sistema de reputação.”.

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