Consulta popular e linguagem

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Seja quando for, seja plebiscito ou referendo, se vingar a ideia de uma consulta popular sobre a reforma política, enfrentaremos provavelmente um efeito colateral preocupante: um horário eleitoral gratuito em rádio e televisão para defender os diferentes pontos de vista de cada questão. Assim como os termos da consulta (ou sua realização), tudo ainda é especulação, mas é bastante óbvio que algum tipo de campanha publicitária deve acontecer em pelo menos três níveis: o nível oficial, com a propaganda eleitoral institucionalizada em rádio e TV; o nível sub-oficial, com diversas entidades e movimentos produzindo e divulgando seus argumentos em vários meios; e o nível popular, com a massa em geral discutindo nas ruas e nas redes sociais, reproduzindo, diluindo ou remixando os conceitos dos outros dois níveis em algo totalmente novo.

De qualquer forma, estamos na iminência de um fenômeno completamente novo no que diz respeito à propaganda política. Nada do que aconteceu até hoje nos preparou para o que vamos assistir a seguir. Será um espetáculo midiático experimental por excelência, com todas as implicações naturais de uma novidade: exageros constrangedores, simplificações grosseiras, centenas de novas abordagens e algumas soluções realmente relevantes, funcionais e inspiradoras.

Se arrisco algum prognóstico é o da diversidade. O que me passa pela cabeça no caso de uma batalha publicitária pela reforma política é a combinação de todas as técnicas já existentes, desde a publicidade de massa via televisão e rádio (com sua avançada tecnologia de reduzir o debate a meia dúzia de questões e dois lados) até um incontável número de ações de conscientização e discussão por indivíduos e pequenos grupos na internet. Entre um e outro extremo, milhares contribuirão com um olhar particular, centenas farão a diferença enquanto alguns poucos encherão os bolsos de dinheiro para criar e produzir as campanhas massivas – quanto a estes últimos, não há dúvidas.

Mais do que nunca, a habilidade de compreender a linguagem e as ferramentas de comunicação do nosso tempo será fundamental. Suspeito que os marqueteiros tradicionais enfrentarão alguma dificuldade não apenas pelo barroquismo do assunto “reforma”, mas também pela quantidade de concorrentes de qualidade que vem se formando nas fileiras das mídias digitais. Os protestos de junho mostraram a força dos blogs políticos e de alguns movimentos sociais que dominam magistralmente a cultura digital. Caso você não tenha notado, foram esses dois grupos que forneceram os links que tantos disseminaram enlouquecidamente durante as semanas mais movimentadas do “vem pra rua”.

Sendo assim, prepare sua cabeça e seu estômago, porque a invasão midiática dos protestos de junho parece ter sido apenas o início de uma nova forma de diálogo político nos meios de comunicação – tanto o diálogo espontâneo como o diálogo planejado e moldado. Boa sorte a todos nós.

A esse respeito, vale muito ver “No”, do chileno Pablo Larraín baseado em uma peça de teatro de Antonio Skarmeta. “No” conta de maneira ficcional (mas com uma abordagem gráfica documental incrível, usando antigas câmeras U-Matic) a concepção inovadora da campanha pelo “Não” que defendia o fim da ditadura de Augusto Pinochet em 1988. No filme, um publicitário chileno de sucesso provoca uma reviravolta na forma da campanha do “Não”, importante ainda que considerada fútil por políticos mais tradicionais. É um excelente ponto de partida para discutir a necessidade dos políticos se apropriarem da linguagem do seu tempo e também sobre os limites de profundidade dessa apropriação e uso. O filme foi aclamado pela crítica cinematográfica mas foi duramente atacado por lideranças políticas de esquerda da época que retrata, que consideram “No” caricatural.

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Imagem: Sachin Teng

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