Law and Order: Special Vândalos Unit

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Sou fã das franquias Law and Order e por um motivo muito claro: adoro a forma como os roteiros do seriado organizam o caos que se instala quando o lado mais horroroso do ser humano emerge. Em cerca de 45 minutos, uma barbárie acontece, causa surpresa e indignação, é investigada, questionada, explicada e, no espaço de um único episódio, todo o quebra cabeças é montado. Mesmo com desfechos depressivos, mesmo quando tudo dá errado, ao menos ficamos com um dos consolos da cultura humana, que é a possibilidade de transformar eventos em uma história, o que coloca um mínimo de lógica nessa vida loka. Se a lógica não é moral ou ética, ao menos é narrativa. Se não temos justiça, pelo menos temos início, meio e fim.

Algo similar, me parece, aconteceu a partir da prisão arbitrária, violenta e bizarra dos oito manifestantes que participavam dos protestos de segunda-feira no Rio de Janeiro. Na segunda, acompanhei as transmissões ao vivo da Mídia Ninja. E, nos dias que se seguiram, testemunhei, como muitos outros, o caos daquela noite sendo desmontando peça por peça e remontado até que fizesse sentido. Os protagonistas dessa montagem? Pessoas indignadas, conectadas em rede, subindo vídeos, comentando-os, compartilhando-os e adicionando camadas e mais camadas de links, análises e indignações, até que aos poucos uma narrativa linear de algo que parecia surreal fosse emergindo.

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Dá um certo trabalho montar o quebra-cabeças e muito mais gente viu a história linear no Jornal Nacional ontem do que nos diversos posts espalhados pelo Facebook . Mas, enfim, o trabalho está sendo feito e, como falei, em rede. Em rede não significa um grupo articulado ou sectarizado, pois até mesmo a Globo se tornou um ponto dela. Tempos incríveis.

Primeiro aprendizado: para olhos contemporâneos, o mosaico da construção de sentido em rede é menos caótico do que a narrativa linear oficial – como a que a Polícia Militar do Rio tentou fazer vingar.

Segundo aprendizado: a rede não pertence a ninguém, nem mesmo às pessoas que dizem dominar as linguagens de rede. A narrativa linear e tradicional do Jornal Nacional ontem à noite e as barbeiragens criminosas da Polícia Militar carioca no Twitter no início da semana são camadas tão importantes e tão construtoras do que está acontecendo quanto os protagonistas individuais com celulares nas mãos.

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Alguns textos interessantes que caíram nas minhas mãos:

As Vozes das Ruas por Marcos Rolim.
A Militância e as Responsabilidades do Jornalismo por Sylvia Debossan Moretzsohn

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Foto: Ana Carolina Fernandes

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