Mídia Ninja no Roda Viva: só não entende quem não quer

Mídia-Ninja-no-Roda-Viva

Ontem à noite, o Pablo Capilé e o Bruno Torturra Nogueira, os dois articuladores mais visíveis da Mídia Ninja, ocuparam as cadeiras centrais do Roda Viva na TV Cultura (programa na íntegra logo abaixo). Sabatinados por uma bancada formada integralmente pelo que poderíamos chamar de jornalistas da velha guarda, eles tiveram a oportunidade de explicar, afinal de contas, o que é a Mídia Ninja e pra que ela serve. E, a seu modo e com suas limitações, explicaram. Não entendeu quem não quis – ou porque não vai com a cara deles ou porque não quer ir.

Bastou ouvir Pablo e Bruno (ou antes dar uma googleada básica…) pra saber: a Mídia Ninja é uma iniciativa de mídia alternativa buscando novas perspectivas de ação e cobertura jornalística. Ela é ligada à rede de produção cultural e de ativismo Fora do Eixo, nasceu das experiências do canal de streaming Pós-TV e é bancada por essa rede não apenas financeiramente mas também em termos de entrega pessoal. Ponto final.

A partir disso, poderia-se explorar dois caminhos: como a Mídia Ninja faz o que faz do ponto de vista jornalístico e como ela faz o que faz do ponto de vista político. Para prejuízo da análise das possibilidades de mídia, a bancada do Roda Viva ficou obcecada com o segundo caminho, que deveria, sim, ser explorado. Mas talvez não de forma tão pragmática, tentando com um desespero constrangedor encaixar a dupla de entrevistados dentro de conceitos que não dão mais conta de explicar a complexidade do que está acontecendo. A impressão que se tinha era que estavam tentando cavar uma declaração formal mais ou menos assim: “ok, admitimos, somos parte da asssessoria de imprensa do PT financiados pela Dilma”. Uma ideia que, apesar de sedutora e fácil de comprar, não faz muito sentido.

A Mídia Ninja é, acima de tudo e claramente, uma nova experiência com todas as indefinições que isso tem, sendo a principal um futuro nebuloso: como ela vai se manter relevante? Como vai se financiar? Que contribuições tem a dar no longo prazo? Mas… Ei, peraí… Não são as mesmas perguntas que estão fazendo à mídia tradicional? Bruno e Pablo responderam com clareza e segurança a perguntas que as grandes empresas de mídia não conseguem: vão se manter relevantes se mantendo conectados às ruas; estão buscando quatro diferentes modelos de financiamento (que podem ou não funcionar); pretendem refletir no seu modus operandi a complexidade das demandas e funcionamentos da sociedade brasileira contemporânea, fugindo do reducionismo maniqueísta da reportagem tradicional. Mais claro do que isso, impossível. Só faltou desenhar.

Mas, antes que me acusem de pelego da Mídia Ninja, também coloco aqui minhas ressalvas.

Primeiro, é notória a dificuldade do Pablo e do Fora do Eixo de produzir falas que atinjam pessoas fora de sua rede e de expansões próximas (o Bruno, ao que parece, é mais flexível). Eu entendo perfeitamente o que ele quer dizer com guerra memética (vimos isso o tempo todo nos protestos, de como máscaras do Anonymous e meia dúzia de slogans construíram o imaginário desse momento) ou com mosaico de parcialidades (vamos parar de fingir imparcialidades e compor a partir de nossos posicionamentos). Mas foi preciso me esforçar e aprender um pouco do seu alfabeto, uma disposição que pouca gente tem. Segundo Pablo, o Fora do Eixo tem um vasto sistema de produção que inclui centenas comunicadores e designers, então já está mais do que na hora de rolar um videozinho visual, simples e didático que explique de uma vez por todas como o Fora do Eixo se financia e se o tal dinheiro dos editais é ou não espalhado nominalmente na rede (e não sob a forma de desdobramentos em cards). Um único videozinho – e muita gente vai parar de encher o saco quanto a esse ponto, que, para quem é de fora, é realmente nebuloso.

Segundo, tenho a impressão às vezes que o Fora do Eixo doura sua pílula pois, apesar de estar circulando pouco com a minha banda nos últimos anos, não estou conseguindo enxergar essa rede de oportunidades citada no Roda Viva e que supostamente vem mantendo a sustentabilidade de muitos artistas. Minhas três experiências com eventos do Fora do Eixo foram todas positivas (numa delas, recebi das mãos do próprio Pablo o cachê de um show ANTES de entrar no palco, algo raro em qualquer circuito). Mas não tem faltado gente para criticar a atuação do Fora do Eixo nesse meio – assunto, quem sabe, para mais um videozinho explicativo.

Em terceiro: não concordo com o pensamento dos Ninjas de que todo mundo é mídia. Acho que, na verdade, todo mundo que sabe articular alguma linguagem é que é mídia. Isso não quer dizer que apenas profissionais de comunicação estejam autorizados para “ser mídia”, mas a pessoa precisa ter algum nível de intimidade com algum tipo de linguagem e disseminação. Escrevi sobre isso no post Nem Todo Mundo é Mídia no ano passado justamente depois de participar de um debate na Pós-TV.

Fora isso, longa vida à Mídia Ninja e a suas iniciativas. Eles não são os únicos que estão fazendo alguma coisa, mas souberam embalar sua experiência e relevância (como escrevi aqui) de forma a abrir espaços mais mainstream de divulgação e discussão de novas ideias. E isso não é pouco em um cenário de mídia confuso e em crise.

***

Para ler mais:

Matéria da Camila Hessel no Estadão que conta um pouco trabalhos da Mídia Ninja anteriores aos protestos. (peguei no Matias).

Imagem: Revista Fórum.

Anúncios

12 pensamentos sobre “Mídia Ninja no Roda Viva: só não entende quem não quer

  1. Muito bom o texto. Claro e simples. Bom também que fugiu do bicolorismo partidário do vermelho e azul. Espero ávido para quando chegaremos ao ponto de discussão de qual contribuição o jornalismo Ninja está dando. O chato é que ninguém parece interessado nisso e vê as coisas com um maniqueísmo velho que não cabe na complexidade que hoje vivemos.

  2. Quanto à questão do Ponto de Cultura, a resposta é sim, o Fora do Eixo tem um Ponto de Cultura que, como todos os outros Pontos, recebeu recursos do MinC. Mas, no meu ponto de vista, alguém que trabalhou no MinC com os Pontos de Cultura, posso dizer que isso não quer dizer muita coisa, já que a gestão dos Pontos, de uma forma geral, é bem ruim e não é um sistema financiado continuamente pelo Ministério.

  3. Torturra e Capilé têm que comer muito feijão pra chegar à altura dos jornalistas da velha guarda que os entrevistaram. Ainda estão no ponto de trabalhar como redator do Esquenta da Rede Globo.

  4. A inveja dos que não entendem o não querem aceitar que as coisas mudaram é grande. Ainda não entendo como essas pessoas vem parar em portais como o esquema. Viva o Midia Ninja, viva o Futuro! Parabéns pelo texto!!

  5. perda de tempo discutir imparcialidade, ela não existe. Faltou eles falarem sobre cultura, arte, ja que atuam nesse meio diretamente..tudo muito confuso, principalmente no tocante ao uso do dinheiro público.

  6. Hei, por que razao esses caras aceitaram ir ao Roda Viva? POR QUE???
    Muito paradoxal. Midia Ninja tem que falar pelo canal Midia Ninja e nao pelo conservador e nao democratico sistema chamado “meios de comunicacao de massa” , leia-se rede disso, rede daquilo, tv disso, tv daquilo, radios nacionais jornais nacionais, todos alias porta-vozes das corporacoes e a seus servicos. O que eles foram fazer la? Eles tem que fazer o trabalho deles que eh extremo entre necessario, e nao ir se explicar para o inimigo, porra. Da um tempo… E pra terminar ou pra comecar, quando eu visto uma camiseta estampada em Petra’s garrafais a palavra GAP ou quando uso um tennis escrito NIKE em todos os lados, eu sou midia sim. Somos todos midia. Quer vc queria ou nao.

  7. Acho que ambos perderam uma chance de ampliar o dialogo. Em muitos momentos, especialmente, o Pablo Capilé adotou uma postura muito agressiva, colocando a questão em “vocês contra a gente”, na mesma retorica que estamos acostumados a ouvir na politica brasileira e que invadiu também a midia.
    A “midia tradicional”, “reacionaria”, “velha guarda” – os rotulos são tão inuteis quanto os atribuidos à Midia Ninja – tem conhecimento para, concorde-se com ela ou não, debater o jornalismo no Brasil, pois viveu situações, especialmente na ditadura, que os jovens de hoje não conseguem compreender.
    Acho que o dialogo entre esses dois grupos pode ser muito benéfico para o jornalismo brasileiro. Porém, é preciso adotar uma postura mais aberta. Afinal, de rejeição ao dialogo a ombudsman da Folha de São Paulo provou que o atual cenario da midia brasileiro ja possui a sua cota!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s