Jonathan Harris: os dados não vão nos salvar

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Já faz um bom tempo que o artista/designer americano Jonathan Harris vem desenvolvendo trabalhos que mostram a necessidade de sermos menos pragmáticos no trato com os dados. Inclusive, sobre isso, o entrevistei em 2007 para o primeiro número da revista Soma (você pode ler aqui a primeira parte, aqui a segunda e aqui um apêndice). Em geral, os projetos de Harris são projetos lúdicos e de forte estrutura digital como o aclamado We Feel Fine ou o I Want You to Want Me. Mas, diante do furor que se criou em torno da expressão Big Data, é curioso e emblemático que ele tenha escolhido se expressar, recentemente, em um texto simples e diagramado em um simples jpg (link original aqui, no New York Times). O jeito vintage não é apenas na forma: o conteúdo também lembra aquelas correntes por email muito frequentes alguns anos atrás, mas no bom sentido. De vez em quando precisamos de uma dose disso para quebrar o cinismo.

Não encontrei o texto em formato texto e nem em português. Portanto, resolvi traduzi-lo aqui embaixo. Correções serão bem-vindas.

“Dados vão nos ajudar a lembrar, mas vão nos ajudar a esquecer? Vão ajudar políticos a serem eleitos, mas vão ajudá-los a liderar? Vão ajudar empresas a criar produtos viciantes, mas vão ajudar a nos libertar? Vão ajudar os publicitários a ver as pessoas como estatísticas, mas vão ajudar a nos lembrar que aquelas estatísticas são pessoas? Vão ajudar os bancos a prevenir fraudes de cartão de crédito, mas vão nos ajudar a não quebrar? Vão ajudar empresas de cartão de crédito a prever o problemático fim de casamentos, mas vão impedir nossos casamentos de se dissolverem?

Vão ajudar os pais a gerarem filhos geneticamente perfeitos, mas vão ajudar a amá-los independente de qualquer coisa? Vão permitir que corretores de alta frequência vendam ações em nanossegundos, mas vão proteger nossos mercados dos feedback loops em seus programas? Vão permitir que meteorologistas prevejam furacões e tornados, mas ajudarão a reconstruir a casa dos desabrigados? Vão ajudar biólogos a mapear a migração dos peixes, mas irá impedir que pesquemos até extingui-los? Vão ajudar os físicos a encontrarem a Partícula Deus em um super acelerador de partículas, mas vai nos ajudar a concordar sobre Deus? Vão ajudar os astrônomos a buscar por sinais de vida alienígena, mas vão nos ajudar a descobrir se eles são amigos ou inimigos? Vão ajudar cardiologistas a monitorar marcapassos com WI-FI, mas vão impedir hackers de acessarem nosso coração?

Vão ajudar epidemiologistas a publicarem o genoma das grandes doenças, mas vão impedir terroristas de desenvolverem armas biológicas? Vão ajudar soldados a matar inimigos remotamente com drones, mas vão nos ajudar a ver a guerra como mais que um jogo? Vão ajudar urbanistas a construir grandes cidades inteligentes, mas o que será das pequenas cidades? Vão ajudar os governantes a mapearem o consumo nas metrópoles, mas vão ajudar a nos tornarmos menos dependentes de consumo? Vão ajudar hackers a vazarem evidências de vigilância governamental, mas vamos tratar esses hackers como heróis ou vilões? Vão ajudar a polícia a triangular a localização de armas de fogo, mas vão ajudar a abordar as causas mais profundas da violência? Vão ajudar educadores a criarem testes padronizados com excelência, mas vão nos ajudar a abraçar diferentes conceitos de excelência? Vão ajudar fazendeiros a desenvolverem lavouras para colher maiores safras, mas vão impedir as corporações de patentearem a nossa comida?

Vão ajudar mecanismos de buscas a descobrirem quantas vezes as pessoas procuram por “amor”, mas vão ajuda essas pessoas a encontrá-lo? Vão ajudar solteiros a marcar centenas de primeiros encontros, mas vão ajudá-las a encontrar a pessoa certa? Vão ajudar donos de bichos de estimação a clonar seus gatos e cachorros, mas vão nos ajudar a amar os clones tanto quanto os clonados? Vão ajudar os neurologistas a implantar chips em nossos cérebros, mas vão ajudar-nos a desligar o blablablá? Vão ajudar geneticistas a sequenciar nosso genoma, mas vão nos ajudar a entendermos quem somos? Vão nos ajudar a nos sentirmos conectados, mas vão nos ajudar a nos sentirmos amados? Vão nos ajudar a descortinar os fatos, mas vão nos deixar mais espertos?

Vão nos ajudar a viver pra sempre, mas vão nos ajudar a perceber que o sentido da vida brota do fato de que ela termina? Vão nos ajudar a contar tudo na vida, mas vão nos ajudar a perceber que nem tudo que conta na vida pode ser contado? Vão nos ajudar a ver o mundo como ele é, mas vão nos ajudar a ver o mundo como ele poderia ser?”

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2 pensamentos sobre “Jonathan Harris: os dados não vão nos salvar

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