Sobre John Maeda em Porto Alegre

2012-02-08-JohnMaeda

Estive ontem na palestra do designer, artista e cientista americano John Maeda aqui na cidade. Também Presidente da Rhode Island School of Design (popularmente conhecida como “o lugar onde os Talking Heads se conheceram”), ele veio falar nas comemorações de 40 anos da agência de publicidade Escala, que resgatou uma tradição sua bacana de trazer nomes relevantes para despejar bom conteúdo no mercado local. Durante os anos em que trabalhei na Escala, entre 2003 e 2010, assisti a apresentações ou participei de workshops de gente como Gilles Lipovetski, Carl Rhodes, Charles Watson, Jailton Moreira, Ronaldo Fraga, Heitor Dhalia, Arnaldo Antunes, entre outros.

O papo do John Maeda girou em torno de uma busca íntima dele: descobrir ou redefinir “o que é design” em relação a um cenário tomado pela tecnologia – uma questão que considera ainda aberta e que diz enfrentar desde os primeiros anos de estudante, quando seu pai ouviu seu professor dizer que ele era bom em matemática e artes e ignorou o “artes” da frase, dando um computador de presente para o menino quando o computador ainda não tinha nada de artístico. Mas o lado “artes” do cientista perdurou, traduzido em interesse por design gráfico durante seus estudos no MIT Media Lab. Por isso, ontem, na apresentação, Maeda estabeleceu seu raciocínio a partir da definição do lendário designer Paul Rand, que dizia ser o design “um método para colocar forma e conteúdo juntos”, um conceito a princípio agnóstico. Contou também seu encontro pessoal com Rand e sua tentativa de transformá-lo em professor do Media Lab, intervindo junto a Nicholas Negroponte no sentido de aproximar um designer gráfico clássico do mundo da computação experimental acadêmica. A parceria com Rand não foi pra frente devido à sua morte logo em seguida, mas o conceito obviamente vingou. Uma das linhas de força do trabalho de Rand era criar identidades que pudessem sobreviver à desfiguração, função essencial em qualquer trabalho contemporâneo de design devido à multiplicação de plataformas onde ele precisa se manifestar.

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Ao longo da palestra, Maeda abriu diversas frentes de pensamento, como se fossem novas abas de um browser. Falou sobre os aspectos fundamentais de uma liderança de empresas mais eficiente num momento em que os funcionários desconhecem a hierarquia por muitas vezes estarem de posse de tanta informação quanto seu chefe; nesse sentido, sugeriu que a informação essencial aos líderes corporativos é aquela que coleta dados sobre as relações sociais de suas equipes. Em outra aba, explorou o conceito de empresas “end-ups”, mais estáveis e sólidas, em contraste às start-ups; sobre isso, argumentou que não deveria ser objetivo das end-ups manter sua posição, mas sim se lançarem no vazio, darem um passo suicida à frente no topo da montanha, rolar morro abaixo, morrer e aprender a renascer. Um tanto quanto oriental, um tanto quanto gamer, ou seja, uma abordagem que cai bem hoje em dia.

A terceira aba, e a mais bacana, que amarrou esses dois outros caminhos com a proposição inicial da palestra, confrontou os conceitos de “velho” e “novo”. No telão, Maeda ilustrou o “velho” com um montinho de terra e o “novo” com uma nuvem – sim, “a” nuvem do “cloud computing”. Unidas em uma animação, a nuvem “choveu” sobre a “terra” e fez crescer um broto que ilustrava a palavra “bom”. Ou seja, para Maeda, o que vale é algo ser bom, e o bom transcende temporalidades.

Falando assim, eu sei que soa óbvio e simplista, mas preciso ressaltar: foi um enorme prazer assistir a uma palestra que privilegia a convivência de conceitos simples, em geral considerados antípodas, em um meio no qual o “novo” é alavanca para a criação de cenários apocalípticos resolvidos por ideias milagrosas (geralmente vendidas pelo palestrante). Bem longe da retórica da maioria das palestras hoje em dia, Maeda ofereceu uma combinação rara e aberta de conceitos e aplicações de design com uso de tecnologia e uma abordagem humanista nada ingênua porque leva em consideração o contexto econômico em que vivemos.

***

PS: Sobre Maeda, já escrevi algumas vezes por aqui. Os posts com a tag dele estão aqui. Alguns são antigos, revisitei e não gostei da redação, mas foi o que pude fazer na época 🙂

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7 pensamentos sobre “Sobre John Maeda em Porto Alegre

  1. Interessante como esse pensamento é consonante com o do próprio Paul Rand. Nunca me esqueço duma frase do Rand que dizia: ”Não tente ser original, seja somente bom“ algo, como você diz, mais realista e pra lá de necessário. (Dá pra fazer um paralelo com algo que o Arnaldo Branco disse esses dias num podcast: “2013 e as pessoas ainda querem ser originais.”)

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