O dna dos sites mais acessados do mundo

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Segundo o portal de medição Alexa, Google, Facebook e YouTube foram os 3 sites mais visitados do mundo no último mês. Por mais que essa informação tenha cara de óbvia e possa despertar bocejos, acho irresistível dar um passo adiante e perguntar: não é fascinante que os 3 sites mais visitados do mundo sejam também manifestações claras da cultura americana, do seu projeto de poder e do seu apelo sedutor sobre o planeta?

O Google é um ótimo exemplo. Ele é a versão digital do arquétipo do explorador americano. Como o caubói e o astronauta, seu campo de ação é um tipo de oeste selvagem ou de espaço sideral. O buraco negro dos links da internet é o horizonte infinito no qual ele mergulha em missão civilizatória munido de coragem, sagacidade e tecnologia. E, como bom herói, nunca volta de mãos abanando. Vem pra casa em segurança, trazendo algo que faça sentido da imensidão e nos contando da aventura perigosa com um sorrisinho no canto da boca e uma tirada bem humorada. Pensando bem, é impressionante que o Google não tenha sido fundado pelo Clint Eastwood.

O Facebook é a mesma coisa. A rede social mais famosa do sistema solar corporifica a obsessão americana por construir e investigar celebridades de forma sistemática e escalonável. Aplicando conceitos da física quântica ao universo das revistas de fofoca, o Facebook permite que a gente seja celebridade e paparazzi simultaneamente, inclusive que a gente se torne celebridade sendo auto-paparazzi ou se torne paparazzi porque nossas próprias fotos ficaram célebres. As combinações dessa equação são infinitas, enlouquecedoras e tão americanas quanto a ideia de que você pode – e deve – aquecer a economia de um país criando um estilo de vida baseado na vida de celebridades.

O YouTube segue um padrão parecido. A influência dele corresponde à influência do cinema dos Estados Unidos sobre a cultura mundial. Apesar de ter sido os franceses que criaram o cinema, foram os americanos que criaram uma cultura popular de cinema: a paixão pela imersão em uma tela, pela ação cadenciada, pela história contada em uma estrutura previsível de três atos, pela iconografia que transborda das telas para as lojas. Com o YouTube, aconteceu algo parecido, em direção contrária – foi a vida que passou a transbordar de volta para as telas. Mas a contaminação já havia acontecido, pois o incauto que empunha a câmera do celular há décadas já vem com horas de linguagem de cinema & TV embarcada na própria mente.

Se todos nós levamos para o resto da vida as impressões mais fortes da infância, não ia ser diferente com a internet. Ela nasceu americana e, mesmo que tenha já saído da casa dos pais há horas, carrega por aí os genes e os maneirismos que absorveu nos primeiros anos de vida. Claro que esperamos que ela se beneficie do que está aprendendo com seus giros pelo mundo, se torne realmente mais democrática culturalmente. Mas nunca se sabe. Há quem diga que, na medida em que envelhecemos, vamos ficando ainda mais parecido com nossos progenitores. Só falta mesmo é a gente, daqui uns anos, ter que conviver com uma internet americana velha, republicana, ranzinza e conservadora.

Tomara que a internet faça terapia.

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Imagem: San Jose Library

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