A busca pelo sentido no trabalho e as videocassetadas

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Um assunto relativamente novo entrou na agenda no brasileiro médio nos últimos um ou dois anos: botar um pouco mais de sentido no trabalho diário, ir além do emprego que apenas paga as contas e questionar a jornada e os métodos corporativos que não combinam com aspirações pessoais. Até bem pouco tempo atrás, esse papo era considerado um luxo, coisa para quem podia parar, pensar e escolher. Mas hoje, com uma certo nível de estabilidade econômica e mudanças sociais no país, mais gente está podendo se perguntar até que ponto vale a pena “vestir a camiseta da empresa” quando a contrapartida parece não preencher certas necessidades mais subjetivas.

De início, é contraintuitivo dizer que o tema interessa às massas, mas alguns indícios confrontam o senso comum. Uma pesquisa da Editora Abril com mulheres da comentadíssima “nova classe C” revela que, embora 70% das jovens entrevistadas queiram perseguir  uma carreira, 56% não sacrificam tempo da  família pelo  trabalho. Em outra pesquisa mais abrangente, com jovens de todo o país, o assunto realização pessoal no trabalho ganhou um destaque inédito que atravessa classes sociais. Semana passada, conversando com uma executiva de uma grande rede de varejo, ouvi dela diretamente que “está difícil contratar vendedor porque ninguém mais quer trabalhar no fim de semana. A pessoa prefere ganhar menos e ter mais qualidade de vida”. No início desse ano, como comentei em outro post, conversei com um taxista que reduziu sua carga horária porque não via sentido em ganhar mais dinheiro. Podem não ser os dados mais científicos do mundo, mas é difícil negar que algo está acontecendo nessa área.

Na classe média alta e na classe alta, a busca pelo “trabalho com significado” é mais estabelecida. Tanto que está amplamente documentada  em texto e vídeo através de matérias jornalísticas e relatos pessoais em redes sociais e  em blogs sobre o assunto. Muitas das  pessoas que fizeram transições de carreira escreveram sobre sua experiência, às vezes até mesmo construindo mapas e regras para o processo. Tal produção pode enriquecer as reflexões correntes,  mas também corre o risco de criar um nicho de auto-ajuda de quinta categoria.

Assim, se por um lado temos a interessantíssima abordagem de gente como o escritor Roman Krznaric, por outro temos os textos e vídeos que dão ares épicos e generalizantes a circunstâncias particulares, transformando depoimentos em fórmulas e dando uma dourada na pílula de um jeito que não contribui para uma discussão mais profunda. Vou um pouco mais adiante: relatos épicos que douram a pílula podem inclusive intensificar a angústia de quem está perdidão tentando se encontrar nessa nova aventura social. Tá certo, é possível que as pessoas que fazem vídeos e textos desse tipo sejam bem mais positivas do que eu, ou talvez o plano delas tenha simplesmente dado muito certo (as pessoas cujos planos não dão certo não fazem vídeos e blogs sobre o fracasso). Mas, às vezes, o que seria bom mesmo é encontrar por aí as videocassetadas da busca pela felicidade profissional.

Esse mês faz um ano que eu deixei meu “emprego-fixo-tradicional” e a minha vida se parece bem mais com os vídeos que aparecem no Faustão aos domingos do que com esses vídeos inspiradores de mudança de vida. Eu fiz tudo mais ou menos do jeito certo, até porque tenho família pra sustentar e não posso simplesmente me jogar numa aventura maluca. Planejei grana e atividades, pensei em caminhos, conversei com pessoas que já tinham vivido essa experiência, segui os conselhos do Roman Krznaric, mas não teve jeito: um ano depois, por mais que eu saiba que tomei a decisão certa, sinto como se tivesse tropeçado no topo de um barranco e rolado morro abaixo.

Não que as coisas estejam ruins ou dando tão errado. Pelo contrário. Nesse ano eu consegui fazer um monte de coisas que não conseguia quando estava no “emprego-fixo-tradicional”: ficar uns meses sem trabalhar, ir no cinema de tarde (essa demorou quase um ano), me envolver em uma variedade maior de projetos, experimentar algumas áreas novas, ajudar em um ou dois projetos sociais, tirar um dia só pra resolver as pendências domésticas, participar mais do dia-a-dia do meu filho pequeno, voltar a ler romances, fazer um curso de roteiro, trabalhar com empresas menores e mais jovens, cuidar de projetos do OEsquema, tomar cerveja ou café com amigos às 3 da tarde, gravar com os Walverdes o dia inteiro durante a semana, essas coisas que rendem power points edificantes e palestras entusiasmadas.