Diários de Bicicleta: a cidade ainda mais cidade.

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Novos hábitos culturais costumam progredir à base de imaginários exagerados. Assim como o vegetarianismo, a espiritualidade new age e a sustentabilidade, a bicicleta como meio de transporte urbano costuma levar na garupa uma carga de ideias progressistas disformes que são úteis para inspirar as pessoas mas que também são reféns de associações distorcidas. Uma conexão comum que se faz é entre a pedalada na cidade e uma suposta experiência mais natural e humana, uma coisa assim, “trocar o carro pela bicicleta de vez em quando me coloca mais em contato com as pessoas e com o meio ambiente”. Mas o que ocorre, muitas vezes, é exatamente o contrário: de bicicleta, a cidade se torna radicalmente cidade, intensamente metropolitana. Humana, sim, mas de um jeito um pouco enviesado.

Tudo aquilo que hoje usamos para caracterizar uma metrópole – engarrafamento, expansão imobiliária desfigurante, poluição do ar e da água, decadência de equipamentos públicos, impaciência crônica, insegurança pública – em cima de uma bicicleta é experimentado de maneira amplificada. Embora o pedestre convicto e o usuário do transporte público também enfrentem essas dificuldades, quando estamos em estado de ciclista elas se tornam mais proeminentes pela peculiaridade dos trajetos e da velocidade do deslocamento, como já comentei em outro post dessa série.

Semana passada, peguei a ciclovia da Avenida Ipiranga numa sexta-feira às sete da noite. Era um final de dia agradável do ponto de vista dos elementos. O céu estava claro, sem nuvens e a temperatura estava amena. Essa avenida, uma das mais importantes de Porto Alegre, margeia um arroio que corta uma dúzia de bairros no sentido nascente-poente. Portanto, eu pedalava sem suar em direção a um aprazível pôr-do-sol, ladeado aqui e ali por algumas árvores respeitáveis, cruzando com outros ciclistas e com pedestres que faziam seu exerciciozinho vespertino. O cenário descrito beira o bucólico, mas a faixa de prazer dessa configuração era estreita. À minha direita, o trânsito conflagrado da Ipiranga rugia furiosamente à base de motores, buzinas, marcha lenta e freadas bruscas. À minha esquerda, o arroio Dilúvio corria entediado, levando para o Guaíba a água marrom, malcheirosa e cheia de lixo flutuante. Embaixo das pontes, os sem teto conversavam, fumavam, faziam seus arranjos. Nas guardas do arroio, as pixações convocavam a revolução. A cidade se manifestava em sua totalidade transbordante, com cheiros, sons e visuais eminentemente urbanos, cinzentos, rudes.

Ali, a bicicleta me colocou, sim, em contato com a natureza. Mas com a natureza humana na sua forma mais inteira, com a poesia e o concreto, com o pacote completo. Mais especificamente, respirei um pouco mais de perto o resultado desajeitado da nossa busca por conforto e proteção, uma ação que sempre produz efeitos contraditórios em relação ao objetivo inicial, seja na escala mais íntima do indivíduo, seja no projeto hiper-coletivo da cidade.

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Leia todos os posts da série Diários de Bicicleta aqui.

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