Nossas historinhas safadas

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“O mundo hoje consome filmes, romances, teatro e televisão em tanta quantidade e com uma fome tão voraz que as artes da estória viraram a principal fonte de inspiração da humanidade, enquanto ela tenta organizar o caos e ter um panorama da vida. (…) Se nós pararmos para pensar nos padrões e nos significados, a vida, como uma Gestalt, dá reviravoltas: primeiro fica séria, depois cômica; estática, frenética; significativa, sem sentido. Os mais importantes acontecimentos mundiais estão além do nosso controle enquanto os acontecimentos pessoais, apesar do nossos esforço para manter nossas mãos na direção, geralmente nos controlam.”

Essas citações foram extraídas da introdução de Story, o best-seller sobre roteiro que resume um dos respeitados seminários do Robert McKee para roteiristas e escritores no mundo todo. Elas dão uma boa ideia do que significa a arte da narrativa para o ser humano há muitos séculos: narrar diverte, instrui, questiona. Mas, antes de mais nada, narrar organiza. O evento mais deprimente e horripilante pelo qual alguém tenha passado, quando contado, tem a vantagem básica de estar, ao menos, organizado no espaço e no tempo. As coisas estavam assim, então aconteceu isso, daí tudo desmoronou, ficamos desse jeito, então aconteceu uma outra coisa que afetou mais umas quantas pessoas e agora está todo mundo assim. Quando aconteceu, foi desorientador, caleidoscópico, mas ainda bem que agora, contado, tem algo parecido com início, meio e fim.

Aprendemos a narrar uns com os outros, sejam os outros nossos pais, a turma com quem crescemos ou os autores de filmes, romances e canções. Em cada cultura, em cada era, um tipo de narrativa se impõe e influencia o nosso jeito de narrar não apenas no nível profissional mas principalmente no nível pessoal – a maneira como contamos a nossa vida para nós mesmos e para os outros. Olhando para o passado distante, vamos encontrar tradições orais e pictóricas. Mais recentemente, a palavra escrita na forma de folhetins e romances teve um impacto substancial na maneira como o ocidental urbano constituiu suas histórias particulares. Hoje, vivemos sob o regime da imagem em movimento e estamos construindo um novo tipo de narrativa moldado por dois fenômenos: a fragmentação da linearidade e a quantidade de pequenas narrativas amadoras à nossa disposição.

É bastante fácil observar a linearidade fragmentada das narrativas profissionais atuais. Os games, com suas tramas abertas, e a música, com sua mistura cada vez mais desconectada do que seria um arquétipo do tempo presente, são o exemplo mais gritante. Mesmo obras que tem uma primeira camada linear, como os filmes de cinema, os seriados de TV e os romances juvenis de aventura, hoje surgem como um ponto em um ecossistema maior, que precisa de um esforço contínuo para ser acompanhado e apreendido em sua totalidade. Até aqui, pouca novidade. Esse aspecto da modernidade tem sido citado, analisado e criticado à exaustão.

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Já a multiplicação de pequenas narrativas amadoras é algo que me parece mais sutil, similar ao efeito da Lua nas marés. Não estou falando de curta-metragens de baixo orçamento que vão direto para o YouTube, mas de outra coisa ainda mais simples. Vamos chamá-las de narrativas sub-amadoras. São nossos SMS’s, emails, curtidas, compartilhamentos, vídeos, fotos, posts, notificações e status, um conjunto que gera campo gravitacional tão gigantesco que estamos, talvez, influenciando uns aos outros bem mais do que os profissionais de narrativas nos influenciam. Em outras palavras, a maneira como os dramas e comédias da sua amiga aparecem na timeline dela ou na sequência de mensagens piscando no seu celular estão mexendo mais com a sua noção de narrativa do que o roteirsta de Breaking Bad ou o autor da última novela das nove.

Isso é algo visível a olho nu. Há pouco, escrevi um post sobre o que presenciei no Dia dos Namorados de 2012 no Facebook: pessoas prestes a se separar fazendo declarações apaixonadas publicamente nas suas timelines, inundando os feeds dos amigos com sentimentos inflacionados. Como disse no post, não acho que essas pessoas estivessem sendo cínicas, apenas se inserindo na narrativa geral do “Dia dos Namorados no Facebook”. Elas não estavam imitando nada do Manoel Carlos ou do Woody Allen – mas as narrativas sub-amadoras de suas turmas de amigos, que também estavam fazendo declarações parecidas, num processo curioso de retroalimentação industrial. Já que passamos muito mais tempo recebendo sinais das narrativas sub-amadoras de amigos do que das narrativas profissionais de filmes, seriados e livros, é natural que as primeiras exerçam uma influência maior no jeito como construímos as nossas próprias narrativas sub-amadoras.

Pesa também, nesse sentido, o fato de que as narrativas sub-amadoras estão cada vez mais parecidas com as narrativas amadoras ou profissionais. Mesmo que nossos roteirozinhos safados do dia-a-dia não sejam páreo para um “Sopranos”, um “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, as fotos de férias e os pedidos de casamento em vídeo sempre tentam emular um pouco de Hollywood e os filtros de fotografia tem ajudado nessa aproximação. Também não deixemos de notar que a tela que usamos para construir e consumir nossas narrativas sub-amadoras é a mesma onde assistimos seriados e filmes, ouvimos música ou lemos livros.

O que ganhamos ou perdemos com isso tudo, ainda é cedo para dizer. Assim como as pessoas influenciam-se umas às outras na adoção de ondas de comportamento digitais, elas também se cansam com maior rapidez e pulam de uma mania à próxima com a agilidade de uma notificação de instant messenger. Embora as estejamos usando como linguagem interpessoal, não acho que as narrativas sub-amadoras vão substituir integralmente as narrativas profissionais, pelo contrário. A explosão dos roteirozinhos safados que espalhamos via redes sociais no fim só destaca as histórias contadas profissionalmente em qualquer que seja o meio. Bem, essa ao menos é minha forma de enxergar o copo meio cheio. Porque, como diz outro trecho do McKee, agora para fechar: “Estórias falsas e defeituosas substituem substância por espetáculo, verdade por artifícios. (…) Quando uma sociedade experimenta repetitivamente pseudoestórias ocas e envernizadas, ela se degenera. Precisamos de sátiras e tragédias verdadeiras, dramas e comédias que iluminem os cantos mais sombrios da psique humana e da sociedade. Senão, como Yeats avisou, ‘o centro não pode suportar’.”

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Leia também: Nossas Narrativas.

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Imagens: Gratisography & Picjumbo.

4 pensamentos sobre “Nossas historinhas safadas

  1. Acho que esta relação que tu criou tem um pouco a ver com a moda, as vezes a roupa e corte de cabelo dos nossos amigos ou das pessoas de nosso ambiente influenciam mais do que editoriais de moda. Outra coisa que me veio, é uma coluna do Calligaris que ele fala dos VIPs, que as fotos tipo bico de pato e demais trejeitos nos selfies de VIPS não é espontâneo e sim algo que eles imitam de seus seguidores pensando que é isso que eles querem ver, já que é assim que os seguidores se mostram, tipo os formadores de opinião seguindo a seus asseclas e tornando o ciclo vicioso.

  2. Essas narrativas pessoais são muito bem representadas (através de uma narrativa maior) no curta “Noah”, que se passa inteiramente dentro de um computador e acompanha o relacionamento de um adolescente com sua namorada, amigos e com a própria internet.

    Não encontrei link para o filme, mas vale ser procurado com mais afinco.

  3. Mini,

    Vou começar um texto sobre a cultura do sucesso pessoal e pretendo abordar essa cultura da narrativa (meio que criticando a noção de um eu fixo que vai se movendo na vida até que chega na felicidade, que pra muitos é sinônimo de uma boa narrativa, uma vida com boas histórias).

    Teu texto me ajudou porque eu não tinha pensado nisso de comparar a narrativa subamadora com as profissionais, como você descreveu.

    Pra mim esse momento atual é muito rico porque ele desvela mais facilmente a alucinação que é acreditar em uma narrativa. Porque fica mais fácil criar, editar e alternar entre narrativas (mundos, bolhas de realidade, empregos, relações, cidades, culturas), vamos chegando mais facilmente à insatisfação.

    Acho que hoje é mais fácil se perder e por isso mesmo é mais fácil superar essa necessidade de criar uma narrativa coerente e às vezes espiritual da vida. Aposto em relaxar essa ansiedade e viver mais distante da noção de felicidade como uma boa narrativa.

    Faz sentido?

    • Oi Gustavo!

      Pra mim, faz sentido sim.

      Particularmente, sinto que essa fragmentação gera mais brechas por onde sentir a fluidez das identidades – embora, como tu mesmo disse, isso seja assustador e angustiante. Acho que o ponto da cultura contemporânea é que ainda há poucos espaços de suporte para a não-fixação da identidade, onde as pessoas possam aproveitar essas brechas. E porque é difícil mesmo cruzar a arrebentação.

      Acho que em vez da fragmentação gerar esse espaço, ela acaba gerando novas identidades em sucessão que a pessoa não consegue seguir. Por exemplo: “agora você deve ser 100% online, agora você deve fazer o que ama” e no ano seguinte muda tudo “agora você deve viver mais offline, agora você deve fazer outra coisa”. Tem uma certa normatividade no discurso contemporâneo que se revela na imprensa e nos posts de blogs: Faça isso, não faça aquilo, 10 regras pra vc fazer isso ou aquilo, etc… É uma normatividade da mudança constante, mas é normatividade.

      Mas, enfim, não tenho como não concordar com você. Com mais brechas, tem mais portas de saída. 🙂

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