CONAR: não desmereça os chatos.

Foi ao ar na TV semana passada a nova campanha do CONAR, o Conselho Nacional de Auto Regulamentação Publicitária. Dois comerciais mostram um garçom e um palhaço sendo questionados de maneira hiper-exagerada por clientes chatíssimos daqueles dedicados a achar cabelo em ovo: o palhaço Peteleco é acusado de ter um nome que incita a violência e a feijoada do restaurante é rotulada de machista porque quase todos os ingredientes são masculinos. São roteiros ótimos, engraçados, bem filmados e que cumprem a função de fazer uma pergunta necessária: será que estamos ficando muito chatos e politicamente corretos? Será que a publicidade está pagando o pato de um excesso de zelo por parte da sociedade?

Apesar de curtir a campanha, minha resposta para essas perguntas é não. O CONAR é um órgão respeitado, que em geral funciona muito bem e tira campanhas do ar o tempo todo a partir de denúncias de autoridades, entidades e pessoas físicas. Ok. Mas por que diabos o CONAR quer coibir os chatos? Os brasileiros estão aprendendo, nos últimos anos, a se valorizar mais e a exigir seus direitos. Associa-se a isso a popularização da internet e a consciência de que as redes sociais funcionam muito bem como trombone para se botar a boca. É claro que essa combinação gera exageros, mas daí a lançar uma campanha institucional pedindo “confie em quem entende” é algo não apenas desnecessário como vai contra o espírito do nosso tempo, que clama por mais horizontalidade na relações sociais. Mal comparando, é mais ou menos como os médicos que dizem aos pacientes que não acessem o Google para pegar informações de suas doenças em vez de ensiná-los a tirar o melhor da ferramenta. Uma coisa não exclui a outra.

A publicidade é parte integrante do quarto poder e, assim como os outros três, é totalmente passível de supervisão e cobrança pelo povo. Esse é um dos pilares da democracia. As marcas que mais anunciam são donas de uma artilharia financeira e política gigantesca e todo gigante financeiro e político precisa ser vigiado de perto pela sociedade civil, mesmo que isso custe algumas boas piadas e dificulte a vida dos publicitários no dia-a-dia. Alguns vem se queixando há pelo menos 10 anos do endurecimento das regras contra a publicidade e da ameaça de projetos de lei no Congresso que se assemelham à censura (evitá-la é a origem do CONAR, lá em 78). Mas, se essa é a questão, o debate é muito mais amplo do que simplesmente “não seja chato, deixe para os especialistas”.

Em qualquer âmbito, não é justo tentar desmerecer os chatos. Graças a eles, fizemos evoluções importantes. Por exemplo, se não fosse pelos ecochatos, nenhuma empresa hoje poderia falar em sustentabilidade, um dos assuntos preferidos das campanhas institucionais de grandes marcas. Antes de andar de terno, a sustentabilidade se chamava ecologia e era coisa de chato. Hoje é coisa de bacana. Na verdade, acho até que os ecochatos não foram chatos o suficiente pois se tivessem realmente pegado pesado, a situação ambiental não estaria do jeito que está. E o CONAR ainda quer desestimular os chatos?

Certamente, um dos alvos principais da campanha do CONAR são as entidades que ficam de olho na publicidade infantil. Eles tem sido tão chatos que estimularam o CONAR a produzir um estudo comparativo sobre as regras de publicidade infantil no mundo todo, chegando à conclusão que a auto-regulamentação promovida pelo CONAR é uma das mais rigorosas do mundo. Tu vê só: sem os chatos, talvez não teríamos nem o rigor e nem o estudo.

Há pouco, li no Cypherpunks uma frase de um ativista de software livre que resume bem o que estou querendo dizer. Não achei a frase certinha a tempo de postar, mas ela diz mais ou menos o seguinte: é fácil saber quando algo é benéfico pra sociedade. É só ver se está querendo aumentar ou reduzir as opções das pessoas. “Confie em quem entende”, infelizmente, parece cair na categoria de tentar, por convencimento, reduzir. Ou estou sendo muito chato?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s