A ressaca do "faça o que você ama"

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Ao que tudo indica, a era do “Faça o que você ama. Ame o que você faz.” ou “Encontre algo que você ama fazer e nunca mais trabalhe.” está ganhando sua própria ressaca – ao menos como discurso clichê. Parte inegável de um pedaço da cultura contemporânea, esses mantras nasceram em nichos mais elitistas, cresceram ao ponto de se espalharem por matérias de grandes veículos e ganharam sua encarnação mais pop na figura de Steve Jobs. Mas… todo carnaval tem seu fim.

Recentemente, tenho visto circular uma série de textos que parecem querer denunciar a fragilidade da aplicação generalizada desse raciocínio. A Slate publicou um artigo de Miya Tokumitsu (traduzido pelo Papo de Homem)  dizendo: “A elite abraça o mantra Faça o que Você Ama. Mas isso desvaloriza o trabalho e machuca os trabalhadores.” O Pedro Burgos no OENE comentou o novo livro do Dave Eggers que, segundo ele, “imagina o que o futuro nos reserva se confiarmos nas utopias que nos vendem hoje.” Fê Neute, no Feliz com a Vida, diz que “Siga Sua Paixão Pode Ser um Conselho Furado.”, além de lembrar de “5 Motivos pelos Quais Você Não Deve Largar Seu Emprego para Viajar pelo Mundo.” Até a Fast Company, que vive incitando as pessoas a serem mais amalucadamente produtivas publicou um post com o título “6 motivos pelos quais você deve abraçar a procrastinação” (mas é meio falcatrua, porque é pra você ser mais produtivo, logo, não é procrastinação de verdade).

Toda onda cultural é refém de seus exageros e seguida de uma espécie de versão sua em negativo. Vai ver é isso o que o estudo Youth Mode identificou como sendo o tal do NORMCORE. Por essa lógica, é bem provável que em breve seja cool ter um trabalho comum, com carteira assinada, horário fixo e que você não goste tanto. O que, claro, nunca deixou de ser uma opção para a maior parte das pessoas, seja por inclinação ou porque é o que suas condições permitem.

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Leitura complementar.

Escrevi sobre esse assunto e suas redondezas nos seguintes posts.

Softer, Worser, Slower, Weaker: Steve Jobs e os clichês da liderança para inovação.

A busca pelo sentido no trabalho e as videocassetadas.

Frances Ha e a obsessão contemporânea por dar certo.

Por uma vida mais ordinária

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Foto: New Old Stock

6 pensamentos sobre “A ressaca do "faça o que você ama"

  1. O que me incomoda nesse discurso de “parem de trabalhar de amor” é a falta de explicação que se tem do trabalho por amor. Acho que o texto da Tokumitsu é bem esclarecedor nesse sentido, existe um formalismo de trabalhos que são dignos de ser amados e são esses que devem ser buscados. A pregação, na verdade, não é “trabalhe por amor”, é “trabalhe nessas carreiras que são dignas de serem amadas”.

    Como escrevi num texto meu esses dias, a felicidade está no reconhecimento do seu trabalho através de uma palestra no TED (https://medium.com/p/e7e7a0b3180d).

  2. O que me incomoda nesse discurso de “parem de trabalhar de amor” é a falta de explicação que se tem do trabalho por amor. Acho que o texto da Tokumitsu é bem esclarecedor nesse sentido, existe um formalismo de trabalhos que são dignos de ser amados e são esses que devem ser buscados. A pregação, na verdade, não é “trabalhe por amor”, é “trabalhe nessas carreiras que são dignas de serem amadas”.

    Como escrevi num texto meu esses dias, a felicidade está no reconhecimento do seu trabalho através de uma palestra no TED (https://medium.com/p/e7e7a0b3180d).

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