Ela: a pegadinha de Spike Jonze sobre cultura digital.

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Jovem adulto ainda curando as feridas de uma separação e que vive de escrever cartas emocionantes em nome de terceiros em uma sociedade hiper-conectada resolve, um dia, atualizar o sistema operacional do seu celular para uma versão baseada em inteligência artificial. E acaba se apaixonado por ele – ou melhor, por Ela. Adicione a essa trama central o diretor de Quero Ser John Malkovich, Adaptação e Onde Vivem os Monstros e você terá um filme melancólico e reflexivo sobre a solidão contemporânea baseada no uso exagerado de mídias digitais. Mas, se você lembrar que esse mesmo diretor é um dos criadores da série sem noção Jackass e que dirigiu clips sarcásticos memoráveis como Sabotage, Praise You e Buddy Holly, vai pensar duas vezes sobre o que Ela diz de verdade. E se perguntar: será que o Spike Jonze não está tirando uma com a nossa cara?

Entendido em algum nível como um filme ludita, que questiona a relação de certas pessoas com as mídias digitais e da infantilização que vem a reboque, eu prefiro enxergar Ela do ponto de vista dos bugs do amor romântico. Spoiler alert: embora envolto em todo o aparato digital que caracteriza o filme, o romance de Theodore (o homem) e Samantha (o sistema operacional) começa como todos os romances começam (com a promessa de conforto, compreensão e reconhecimento mútuo total) e uma hora termina – simplesmente termina, por causa disso ou daquilo, mas em última análise porque tudo uma hora termina. Descoberta, desejo, paixão, desejo, ciúmes, confusão, fim: a história do casal formado por um humano e um sistema operacional é tão fascinante quanto ordinária.

HER

O tabuleiro de Ela é armado por Jonze para que desprezemos as habilidades sociais de Theodore, mas em geral ele é gente como a gente e a meu ver foi simplesmente sacaneado pelo diretor. Retratado na primeira meia hora de filme como esquivo e anti-social, descobrimos aos poucos que ele tem motivos para isso porque, dentro de suas particularidades, ainda está vivendo o luto de uma separação. É acusado pela ex de ser auto-centrado e de ter problemas com intimidade, mas seus relatos (e as cenas em flashback) sobre os dois mostram que ele a conhecia muito bem, a entendia e a ouvia talvez muito mais do que deixasse transparecer. Os amigos e colegas de Theodore servem de pano de fundo para que a sua solidão contraste – outra sacanagem, como se eles não estivessem vivendo suas próprias dificuldades (e o filme mostra depois que estão). Na verdade, algumas poucas pistas contextuais mostram que muitas das idiossincrasias que servem para caracterizar o protagonista parecem ser traços sociais da época que o filme retrata. Talvez essa seja uma sociedade doente. Ou talvez seja apenas outra cultura. Não sabemos. A confusão é cortesia do Jonze galhofeiro de Jackass, conscientemente ou não.

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É difícil saber o que é o que em Ela. Sistemas operacionais se comportam como humanos e humanos se comportam como sistemas operacionais (preste atenção na atitude de Charles, marido de Amy, que tenta programar o comportamento da esposa). A felicidade de Theodore com Samantha soa ambígua, entre o absurdo e o convencional. A evolução d’Ela parece coisa de ficção científica tanto quanto o crescimento pessoal de um parceiro de relacionamento, quando este resolver quebrar a imagem cristalizada que tínhamos e guardávamos com tanto zelo. Mesmo o título do filme em inglês estampado no cartaz é dúbio: Her, com a carinha triste de Joaquim Phoenix, pode estar se referindo tanto à Ela, Samantha, como ser lido como o pronome posessivo Dela, o que deixa a história ainda mais interessante – Theodore foi Dela por um tempo? Essas ambiguidades são todas, a meu ver, um traço de generosidade – de novo, consciente ou não – de Spike Jonze. Há muito que nós, espectadores, podemos jogar ali dentro. Tem gancho para todo mundo fazer sua própria reflexão.

Aí está, então, a rasteira que Ela passa no espectador: você vai no cinema para assistir a uma crítica e o filme se trata de uma crônica. Como os melhores cronistas, Spike Jonze põe uma lupa no cotidiano e tenta, através de um comentário muito particular, determinar algumas moléculas básicas da cultura contemporânea universal. Como as melhores crônicas, ele (ou Ela) não fecha totalmente suas questões. E é aí que o filme funciona tão bem, porque não me consta nenhuma maneira melhor de sair de um cinema na era digital do que com as mãos cheias de dúvidas e de assunto para regar um bom bate papo nas horas e nos dias que vem a seguir.

***

Algumas notas extras:

* A popularidade da interface de voz talvez seja o aspecto mais fantasioso do filme. Não apenas os softwares parecem bem resolvidos como os códigos sociais surgem adaptados para essa interface – todo mundo no filme acha normal andar por aí com um fone no ouvido falando sozinho. Taí um acerto do filme: não há inovação que se popularize sem aceitação social dos códigos de comportamento que a circundam.

* Curiosamente, Ela é o filme mais Sofia Coppola de Spike Jonze. O ritmo lentão, o figurino fashion no último, aquele monte de cenas de flashbacks a la ensaio fotográfico e a arquitetura moderninha da L.A. futura  lembram muito mais Encontros & Desencontros, As Virgens Suicidas e Um Lugar Qualquer do que John Malkovich & Adaptação. Há quem diga que Ela é a resposta da Jonze a Encontros & Desencontros, mas acho que são apenas as más línguas.

 

***

Links bacanas:

– Algumas fotos no set de Ela.

– Entrevista com Jonze no Guardian.

– Uma dupla de roteiristas acusa Jonze de ter roubado a ideia deles.

– Entrevista com Spike Jonze na Interview.

– Spike Jonze compara Theodore com Lana Watchowski.

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5 pensamentos sobre “Ela: a pegadinha de Spike Jonze sobre cultura digital.

  1. Pingback: Substantivo Plural

  2. Sobre o fato de Ela ser o filme mais Sofia Coppola de Spike Jonze, sugiro essa crítica – análise (?) – que aponta algo interessante e que até mesmo extrapola essa coisa de romance-futurista com um software: http://contonocanto.blogspot.com.br/2014/02/her-o-filme-de-uma-geracao.html

    De introdução, o texto aponta que Her, na verdade, é uma resposta ao Lost In Translation da Sofia, da época em que ela e Spike se separaram. Cada qual contando sua ”experiência” do relacionamento em seus ”tempos finais”…

    Taí algo que pode mudar completamente a forma de ser ler este filme, situando apenas o contexto tecnológico como um plano de fundo para o que há em questão.

  3. De alguma forma a estética da cidade e do futuro me lembrou muito um episódio de Black Mirror

    Mas na real, achei o filme bom, com questionamentos interessantes.
    E é aquilo. Uma love story, é uma love story. Seja em Her ou no “Azul é a cor mais quente” são histórias de amor e como tal precisam que pelo menos um dos lados sinta esse amor e conte essa história e é isso que acontece.
    “…como todos os romances começam (com a promessa de conforto, compreensão e reconhecimento mútuo total) e uma hora termina – simplesmente termina, por causa disso ou daquilo, mas em última análise porque tudo uma hora termina. Descoberta, desejo, paixão, desejo, ciúmes, confusão, fim”

    E, geralmente, quem conta a história é quem sentiu esse amor todo por mais tempo, né?

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