Como mudar o mundo lavando a louça

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Um dos efeitos mais interessantes do avanço da cultura digital é a globalização definitiva da ideia de que tem muita coisa pra se consertar no mundo. Antes da internet, nosso contato com os problemas ao redor do planeta não apenas dependiam da edição das agências de notícia e dos grandes veículos como tinham interferência limitada no nosso cotidiano, ficando restritos aos horários de noticiários de rádio e tv ou ao momento da leitura do jornal. Com a internet, a coisa é bem diferente: a qualquer momento podemos ser (e frequentemente somos) impactados via rede social ou email por fotos, vídeos, reportagens, abaixo-assinados e todo o tipo de registro de mazelas, tragédias e falcatruas. Como se não bastasse, esses impactos vem dos lugares mais variados. Pode ser um desabamento no estado vizinho ou um assalto no prédio vizinho, um atentado terrorista do outro lado do oceano ou crianças passando fome do outro lado da rua. A avalanche de informação típica da era digital não é feita apenas de frivolidades e o contato constante com certas realidades toca a todos por alguns segundos, deixando sempre uma pergunta no ar: o que é que eu posso fazer?

Segundo o jornalista inglês John-Paul Flintoff, autor do pequeno e simpático manual “Como mudar o mundo”, você pode fazer muita coisa. E, o mais importante: fazer algo não significa exclusivamente se lançar em missões dramáticas como largar tudo e se juntar aos Médico Sem Fronteiras ou entregar sopa quente aos sem-teto nas noites frias de inverno. Para Flintoff, a ideia de que só ajudamos no mundo através de um determinado tipo de ação e com uma alta carga de intensidade é o que impede muitas pessoas de empreenderem pequenos atos dentro de seus desejos e possibilidades, o que poderia fazer uma grande diferença. Em se tratando de ativismo social, não existe ação pequena ou desperdiçada. Você não precisa se tornar um messias para ajudar a melhorar as coisas.

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Essa é a principal beleza de “Como mudar o mundo”. Não queremos mais alguém nos dizendo populisticamente que deveríamos levantar a bunda do sofá e revolucionar as coisas. Esse tipo de chamado acaba distanciando as pessoas do ativismo social por deixar pesado um campo que já não é fácil de digerir. Embora bilhões de pessoas se comovam com as dificuldades de seus pares, poucos se consideram à altura de Gandhi ou de Nelson Mandela na hora de botar a mão na massa. As histórias de figuras como essas são repletas de lances grandiosos e momentos históricos, o que pode nos ensimesmar diante do desafios cada vez maiores que se apresentam do ponto de vista da coletividade. Diz no capítulo 2 de “Como mudar o mundo”: “Concentrar-se demais em batalhas monumentais – como aquela do estudante chinês solitário que, na Praça da Paz Celestial, em 1989, foi com suas sacolas de compras bloquear uma fileira de tanques – pode ser desnorteador. A ética surge em nossas vidas de formas muito mais comuns, corriqueiras. John Ruskin indagou por que damos medalhas a pessoas que, no calor do momento e sem muita ponderação, salvam a vida de alguém mas não damos medalha a pessoas que dedicam anos à criação de uma criança”. Aí se entende o famoso ditado “Todos querem mudar o mundo e ninguém quer lavar a louça”: é porque não se tem notícias de um mártir que tenha sido condecorado por apresentar uma pia tinindo de limpa.

Para Flintoff, depois de superar o derrotismo e aceitar que é possível fazer alguma coisa pelo mundo, o mais importante é que a pessoa disposta a mudar o mundo encontre dentro de si uma motivação genuína para agir. Ajudar uma entidade ou um vizinho desamparado podem se tornar fardos problemáticos se não estão conectados com atividades ou vontades que façam sentido para quem se coloca à disposição. “Não nos sentiremos motivados a mudar o mundo sob a ameaça de que isso se torne uma obrigação chata – mas se encontrarmos maneiras que coincidam com as coisas de que mais gostamos na vida, maiores as chances de que as levemos adiante.” Em outras palavras, seria um desperdício ter você mal humorado tentando colaborar com refugiados no Oriente Médio quando sua paixão por direito tributário pode solucionar um problemão fiscal e evitar o fechamento de uma creche do seu bairro. Isso talvez não renda um Nobel, mas é uma contribuição inestimável para algumas famílias. E você o fez trabalhando no computador com a bunda grudada na cadeira.

Outra palavra central em “Como mudar o mundo” é  estratégia, ou seja, o princípio de raciocinar antes de agir. Além de questionar-se sobre suas motivações, Flintoff também instiga o leitor a organizar o que considera suas próprias prioridades para mudar o mundo. “Se você não souber o que quer consertar, será impossível fazê-lo.” Listar questões genéricas como “guerra, fome e pobreza” não são de muita utilidade e o autor sugere ao longo de pelo menos dez páginas que precisamos refinar nossos impulsos, traduzindo-os em linhas de ação factíveis. Depois disso, lembra que existem níveis diferentes de atuação: você pode querer trabalhar para reduzir a fome entregando quentinhas a sem-teto no inverno, criando campanhas publicitárias para uma ONG, filmando um documentário sobre o assunto ou candidatando-se a vereador para influenciar nas políticas públicas. Todas as vias são válidas e a eficiência de cada uma tem menos a ver com a atividade em si do que com a combinação de vocação, oportunidades e condições do momento.

Ok, mas digamos que você tem esse sentimento contraditório de querer mesmo fazer alguma coisa mas não sentir a menor inclinação pra se envolver diretamente no universo do ativismo social. Não tem problema. Ainda assim “Como mudar o mundo” traz duas sugestões de como você pode contribuir para… mudar o mundo: dar testemunho e acrescentar beleza ao mundo. Dar testemunho é a quintessência da ajuda na era digital. “Somos capazes de mudar o mundo tanto ao passar adiante notícias sobre coisa que precisam ser corrigidas como ao ajudar a promover as tentativas dos outros de consertar essas coisas.” Qualquer um que trabalhe com ativismo social sabe o quanto é penoso jogar luz sobre sua causa, ainda mais se ela não está na agenda da hora da grande mídia. Literalmente milhões de pequenas causas e batalhas estão nas sombras contando com colaboradores que repassem suas mensagens de uma maneira positiva e produtiva. Ou, como diz o filósofo Raymond Willias citado no livro, “a questão não é tornar o desespero convincente, mas sim a esperança possível.” Não deixe, então, que o acusem de slacktivist, de ativista de sofá: a multidão de pessoas que repassam mensagens e vídeos por email ou por redes sociais tem um papel fundamental na mudança do mundo.

Por outro lado, quem simplesmente quer deixar as coisas mais leves ou criativas também está fazendo a sua parte. “Talvez o que nos seduza seja o lado estético da vida.” argumenta Flintoff, abrindo mais uma porta para quem quer mudar o mundo. E ele não está falando de estudar belas arte, se tornar pintor ou escultor, mas considerando válidas mesmo as inclinações mais prosaicas como bordar roupas de segunda mão, criar artesanato em sua própria oficina, abrir um café aconchegante. E segue: “A princípio esses desejos podem parecer totalmente egoístas. Mas não precisamos nos aborrecer com isso, pois quando nos engajamos criativamente no mundo, estamos provocando um impacto. (…) A história mostra que assim que as necessidades mais básicas das pessoas são supridas, o impulso estético entra em atividade. (…) Essas necessidades estão no âmago do que somos e jamais devem ser sacrificadas em nome de um conceito errôneo de seriedade. (…) Para mudar o mundo, também devemos considerar nossos próprios interesses e habilidades – seremos mais eficazes se fizermos coisas que nos vêem naturalmente.”

Em resumo, o grande mérito de “Como mudar o mundo” é abrir dezenas de portas para todo tipo de possibilidade. Mudar o mundo, desse ponto de vista, não é um campo de ação no qual apenas certas pessoas com habilidades e energias específicas podem atuar, mas sim um terreno fértil no qual qualquer um pode brotar como protagonista. Como diz a escritora e ativista Rebeca Solnit, citada no livro, “a menos que tenhamos a sensação de que nós podemos fazer alguma coisa, não temos esperança”. O que John -Paul Flintoff nos oferece é justamente isso: incentivo, estratégia, relatos e exercícios que podem fornecer a literalmente qualquer um a poderosa sensação de que pode fazer alguma coisa.

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“Como mudar o mundo” faz parte de uma coleção bem bacana que inclui outros rápidos manuais de reflexão e ação para a vida contemporânea. Além do livro de Flintoff, eu já li outros dois: Como viver na era digital e Como encontrar o trabalho da sua vida. Todos são altamente recomendáveis e encontráveis em português.

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Há alguns meses, escrevi um post sobre o trabalho do Gene Sharp que lista 198 formas não-violentas de fazer uma revolução e que o Flintoff cita extensivamente em seu livro.

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Foto de abertura do post: New Old Stock.

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3 pensamentos sobre “Como mudar o mundo lavando a louça

  1. Sobre propagar ações, tenho um pensamento contraditório, ao mesmo tempo que tento fazer isso na minha time line sob o ponto de vista cultural e também fazer as pessoas pararem para pensar, tipo, vou compartilhar esta tua colocação. Mas acho um saco alguns compartilhamentos que as pessoas só colocam para parecerem estar colaborando com uma causa, os ativistas de sofá no mau sentido.
    Hoje dos meus amigos virtuais eu só leio 2% do que vejo, pois sei que estas pessoas olham as fontes antes de propagar o salvamentos de duendes e fadas das florestas tropicais.

  2. Eu mudei o mundo e estou sempre mudando.Isso me deixa uma mulher feliz.Me comunico com diversos tipos de pessoas e animais.
    Gosto de pintar e até de cuidar do que é meu e ain
    ainda não consegui tempo de me lançar no mundo das arte.da encontro tempo de orientar as pessôas menos esclarecidas a se livrarem de cobranças abusivas pois sempre fui empresária.

  3. Pingback: O andarilho do amor | PapodeHomem

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