Carta aberta ao fantasma de Kurt Cobain

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Caro Kurt

Hoje faz 20 anos e 10 dias que você morreu. A data normal pra escrever algo seria 10 dias atrás, mas como você era um cara alternativo, eu pensei “que coisa mais corporativa essa história de 20 anos! Eu vou chutar o pau da barraca e esperar 10 dias”. Sim, foi por isso que demorei, não foi porque me esqueci da data.

Achei por bem fornecer um pouco de contexto pra falar desses 20 anos. Caso não tenha internet onde você está, é bom avisar que o mundo pop mudou consideravelmente. A primeira coisa digna de nota é que a geração de vocês foi a última que deu a impressão de que poderia fazer alguma diferença através do rock. E, com isso, não estou querendo dizer que não surgiram bandas interessantes, criativas e relevantes nesse meio tempo. Surgiram sim. Mas, que eu me lembre, da parte da audiência ninguém mais espera que elas causem algum tipo de rutpura cultural. Todo mundo procura isso em outros lugares, não mais nos palcos ou nos discos. O rock se tornou apenas rock. Tu vê só, se isso acontecesse naquela época, talvez menos peso recaísse sobre seus ombros. Vai saber.

Lembra quando você apareceu na capa da Rolling Stone com uma camiseta dizendo “Corporate magazine still suck”? Pois é, eu sei que na época isso meio que causou, dividindo o pessoal entre os que aplaudiam a sua rebeldia e os que chamavam isso de rebeldia de butique, afinal que rebeldia havia em aparecer na capa da Rolling Stone? Hoje essa camiseta seria desnecessária porque não há mais praticamente resistência alguma. Rock e corporações convivem bem e servem um ao outro quando preciso. Pouca gente faz drama quanto a isso e parece que o sonho de uma boa parte da juventude não é contrapor, mas sim construir a sua própria corporação. Em vez de bandas, o pessoal está montando startups. Loucura, né?

Outra coisa curiosa é o que aconteceu com as roupas que vocês usavam. Cara, definitivamente aquela história de se vestir de qualquer jeito, com umas roupas meio detonadas e tal, aquilo não vingou MESMO. Hoje o pessoal mais alternativo se veste direito, como se estivesse indo sempre a uma reunião de negócios, e se você quer NOMES pra saber quem começou com essa moda, procure pelo pessoal do Strokes. Eles até tiravam uma certa onda de sujinhos, mas não eram não, foi ali que começou isso de se vestir decentemente. Bom, goste-se ou não, a moda pegou. Alguns grandes estilistas até vem tentando reeditar uma suposta moda grunge, mas na verdade é só roupa dos Strokes com estampas xadrez.

A mesma coisa aconteceu com o som. O arquétipo da sua turma era o vocal gritado e as guitarras bem distorcidas. Embora sempre apareçam umas bandas mais pesadas aqui e ali, o arquétipo do momento são vocais com gritinhos e guitarras com pouca distorção. O que, de novo, não é um problema em si. Mas quando vocês apareceram tinha aquela ideia de resgate de um rock mais sujo depois do som mais processado dos anos 80. Agora, riffs de rock e gritos são assunto de super DJs de pop e filmes infantis. Tá anotando?

Juro que não tô querendo fazer fofoca. Isso tudo é só contextualização. O ambiente muda externamente, mas lá no fundo o que é importante permanece importante. E eu resgatei essas mudanças porque me lembrei que o legado que você e sua turma nos deixaram não tem a ver com rebeldia anti-corporativa, com roupas detonadas e um som mais sujo. Não. Isso era só o invólucro, a embalagem. Tinha uma coisa maior, mais forte e que eu levo comigo até hoje.

Era uma certa conexão com a energia primal e desorganizada que a gente carrega dentro, lá no fundo. O lado escuro da lua. A nossa caixa de gordura. De tempos em tempos, surgem artistas que conseguem construir uma ponte entre esse subterrâneo e o mundo da superfície. Todo mundo sai ganhando quando aparecem artistas assim que, em vez de abafar o que vem dos subterrâneos do ser humano, conseguem processá-lo e trazê-lo à superfície de um jeito que as pessoas intuem que é subterrâneo mas não viram a cara nem tampam o nariz, e sim CURTEM. Entende? Ganhar as pessoas com florzinhas e pôneis é barbada. Mas com o esgoto? Cara… isso já é um talento de se fazer num pequeno segmento, reconhecido por alguns fãs e especialistas. E vocês fizeram vendendo milhões de discos no mundo inteiro, influenciando milhões de outros artistas, servindo de catalisadores pra toda uma mudança que estava acontecendo no mundo.

É realmente triste que você, como pessoa, não tenha sobrevivido a esse processo. Porque acho que o mundo volta e meia precisa de uma chacoalhada através dessa conexão direta entre subterrâneo e superfície. Não que as coisas estejam muito tranquilas e precisem de esgoto extra. Mas é que coletivamente a gente tem uma tendência de ficar passando Bom Ar em vez de abraçar o subterrâneo e processá-lo. Por mais bagunçado que você estivesse, era bom ter a sua contribuição artística de corpo presente nesse assunto.

Abraços aê
Gustavo Mini

***

Desenho: Thomas Mikael / WikiCommons

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