"Faça o que você faz. Ame o que você ama."

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Foi com esse título que a poeta Camille Rankine abriu um post recente no site da Poetry Foundation comentando o fato de que não há dinheiro no mundo da poesia e que não é demérito ou derrota ter um emprego comum, fora das artes, sustentando o seu amor. A questão está longe de ser nova, mas vem sendo revisitada pela cultura millenial e desafiada por um dos mantras mais poderosos do cânone não-escrito dessa geração: “encontre algo que você ama fazer e nunca mais trabalhe na vida”.

O post de Camille começa justamente com uma bravata de um universitário durante uma aula de escrita. “Não há dinheiro nessa coisa de poesia” ela disse à turma. “Você está se vendendo fácil” desafiou o aluno. Pra responder a isso, em vez de se perder em uma argumentação qualquer a respeito das escolhas e dificuldades de vida que porventura ela tenha passado, Camille escolheu olhar por baixo do conceito de trabalho:

“Eu acho que trabalho é algo pelo qual nós, americanos, meio que nos apaixonamos. Nós tendemos a nos definir pelo nosso trabalho. Mas nesse contexto, quando eu digo trabalho, eu quero dizer como é que ganhamos o dinheiro do dia-a-dia. Quando alguém numa festa pergunta ‘o que você faz?’, essa pessoa não quer dizer ‘o que você faz pra se divertir? O que você faz porque tira alguma satisfação daí? Que atividade em que você se engaja que dá sentido à sua vida?’ A pessoa em geral não quer ouvir sobre seus bordados ou sobre as maratonas de seriados no Netflix. A menos que você tenha transformado isso tudo em negócio. (…) Ela quer saber pelo que você é pago. Isso é, em geral, a primeira coisa que qualquer um quer saber sobre você.

Eu tenho trabalhado em alguma coisa ou outra desde que eu tinha quinze anos. Existe valor nesse trabalho, eu acho. É o tipo de trabalho no qual você dá duro, não porque você ama aquilo, mas porque você tem que fazer e, pra alguns de nós, você quer fazer aquilo bem. Mas esse tipo de trabalho não é o que me define. Ainda assim, muito frequentemente, o seu trabalho é compreendido como o que você é, como a coisa mais valiosa que você tem a oferecer pra sociedade. E, na nossa sociedade, valor é geralmente compreendido em termos econômicos. (…)

Os poetas existem, em sua maioria, fora de todo esse nosso sistema capitalista e seus construtos. E isso confunde muita gente. Não tem dinheiro nisso e ainda assim NÓS CONTINUAMOS ESCREVENDO O QUE HÁ DE ERRADO COM A GENTE??! A poesia morreu! Poesia não importa! Se não está rendendo dinheiro, qual é o objetivo? É claramente irrelevante!!!! Acordem, poetas, vocês estão vivendo uma mentira!!!”

O texto segue em uma série de anotações sobre o estado industrial da poesia e fecha com o seguinte:

“Como eu disse praquele estudante desapontado, não me entenda mal. Eu tenho ambição. Eu só não a exponho demais. A minha ambição é apenas uma porção da chama que mantém aceso o forno nas minhas entranhas. Claro que eu quero fazer algo que queime você. Sim, eu suponho que isso é trabalho. É trabalho porque é muito difícil de fazer. Tenha ou não um contracheque envolvido.”

Tendo vivido intensamente o meio independente brasileiro dos anos 90 (e seus estritos códigos culturais) é impossível não ser tocado por essa linha de pensamento. A pergunta que mais ouvi nessa época, por conta dos Walverdes, foi: “você vive da banda”? Essa era uma obsessão patológica da “cena” nos anos 90, uma cobrança constante que no fim dependia muito menos das bandas e mais da macroeconomia e de questões estruturantes da cultura no país. Ou seja, responder “eu não vivo da banda” parecia que dizia respeito às competências daquele grupo específico quando na verdade era algo que dizia respeito a todo um sistema tentando emular o funcionamento cultural dos Estados Unidos e da Inglaterra. O que não daria certo nem em um milhão de anos.

O mais curioso é que a pergunta “você vive da banda”, no fim das contas, tem sua própria poética – porque ela não fala diretamente em dinheiro. “Viver da banda”, assim como “viver de poesia”, é uma expressão que carrega uma das ambiguidades mais bacanas: o que significa “viver de algo?” Significa apenas que aquele algo paga suas contas? É algo que me pergunto com frequência.

Enfim, esse papo rende.

***

O post completo está aqui: Do What You Do, Love What You Love.

Obrigado ao Guilherme Dable pela dica de leitura.

Já escrevi mais ou menos sobre esse assunto nos seguintes posts:

* A busca pelo sentido no trabalho e as videocassetadas

* Por uma vida mais ordinária

Imagem: New Old Stock.

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