O smartphone seduz tanto porque permite segurar a bagunça da vida com uma só mão

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A previsão de estudiosos de tecnologia e comportamento se confirmou: o smartphone é o aparelho símbolo desse início de era digital. Totalmente móvel e finalmente amigável no preço e na operação, o celular com acesso à internet deixou de ser um habitante do mundo da tecnologia e garantiu visto de residência definitiva na cultura mainstream. Ele é usado e desejado por pessoas de diferentes idades, classes sociais e conhecimento tecnológico, e está se inserindo em praticamente todos os aspectos do dia-a-dia, desde tarefas profissionais e escolares até nos meandros dos relacionamentos e em toda e qualquer forma de diversão. A questão que resta sobre o smartphone diante de tudo isso é: como foi que ele conseguiu superar laptops e tablets, que pareciam tão atraentes e mais completos, na preferência geral? Foi graças à acessibilidade financeira? À vasta disponibilidade de apps e joguinhos? À facilidade de conexão? À leveza e portabilidade? Acho que não. Meu palpite é que o trunfo do smartphone não é prático, mas psicológico. Seu poder de atração vem de permitir que qualquer um possa segurar o caos da vida humana na palma de uma mão. Essa sensação, mitologicamente, foi sempre reservada aos deuses e agora está amplamente disponível aos meros mortais.

A notícia de uma tragédia, quando assistida na televisão, nos deixa ergonomicamente desamparados e impassíveis. Ficamos lá, de peito aberto, sem ter o que fazer com as mãos. Uma discussão de relacionamento por chat num laptop, mesmo que possa ser encerrada fechando o computador com raiva, retém um certo peso nas pernas, onde o laptop provavelmente está apoiado. Fotos de um antigo relacionamento sendo revisitadas num tablet precisam ser seguradas e passadas adiante usando as duas mãos, numa pose desajeitada. Já num celular, qualquer um desses conteúdos está a um dedo de ser manipulado (ou dedopulado) e a um simples gesto de ir para o bolso. O smartphone pode ser girado, jogado, apertado entre os dedos. Ele e seus conteúdos parecem muito mais um brinquedinho do que um dispositivo de interação com os vários setores da vida, que ficam todos condensados dentro de alguns centímetros quadrados, esmagados entre os chips, o cartão de memória, a bateria e o processador. É incrível que tanta carga emocional caiba (e tão organizadamente) em tão pouco espaço.

Por mais tumultuado que seja um relacionamento, suas mensagens, fotos, ligações e compromissos estão bem embalados no design minimalista dos aplicativos que o casal usa nos seus smartphones. Por mais intragável que seja um chefe, seus emails podem se tornar reféns de sons de notificação fofinhos selecionados pelo seu empregado no programa de email do celular. Por pior que esteja o tempo lá fora, no app de meteorologia isso significa apenas uma nuvenzinha escura com um raio singelo. Por mais revoltante que seja a declaração de um político no Twitter, graficamente ela se parece muito com a de todos os outros perfis que você segue. Por mais frustrante que seja o engarrafamento que surge lá na frente, no Waze ele está sujeito a se transformar em meras linhas congestionadas em vermelho e povoadas por avatares engraçadinhos. Esqueça as princesas da Disney. O conto de fadas definitivo está sendo narrado agora mesmo, na sua frente, em tempo real, no seu smartphone.

Eu sei que posso estar soando distante e sarcástico, mas de maneira alguma me declaro imune ao falso estado de empoderamento que o smartphone induz. Com ele nas mãos, sinto que o fluxo desordenado e selvagem da vida é filtrado por uma interface mágica e brota aos meus olhos como um reino encantado, de paisagens idílicas em flat design, habitadas por duendes coloridos chamados apps e governado pelo Rei Polegar. Mesmo que seja ilusória, essa perspectiva me deixa tão mais tranquilo que ando pensando em aceitá-la e comprar uma coroa para o meu dedão.

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Foto: Picjumbo

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2 pensamentos sobre “O smartphone seduz tanto porque permite segurar a bagunça da vida com uma só mão

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