"A Copa no Brasil levou a seleção a se euxarir como identidade."

69H

Entre tantas opiniões, análises e chutes, fico com duas frases do jornalista de Zero Hora Moisés Mendes como a melhor equação do espírito nacional em relação à Copa até o momento. Disse ele nesse domingo, no artigo A Pátria Sem Chuteiras, que a confiança no futebol brasileiro e na sua capacidade de nos colocar simbolicamente no mapa-mundi nasceu na final da Copa de 58, especificamente após o primeiro gol da Suécia, recém aos cinco minutos de jogo. Esse tenso momento é quando “Bellini vai ao fundo da rede e pega a bola, caminha até a risca da área, onde encontra Didi, que está indo ao seu encontro. Didi se adona do balão e caminha em direção ao centro do campo, (…) sem pressa, mas certo de que é possível dar um jeito naquilo”. Mais adiante, Mendes compara: “A Copa de 2014 é a face sombria do que se construiu até aqui, ou o reverso do que Didi fez naquela final. Algo muito sério se extraviou pelo caminho.” E conclui com a proposição que me chamou a atenção: “A Copa no Brasil levou a seleção a se euxarir como identidade. Pode ter chegado a hora de experimentar outros signos de pertencimento.”

Eu não entendo absolutamente nada de futebol. Mas qualquer um que tenha um olhar minimamente sensível à comunicação de massa fica constrangido com o descompasso entre os milhões de reais/dólares investidos no marketing da euforia e o gigantesco pé atrás com que os cidadãos brasileiros começaram a Copa. Uma ou duas copas atrás era mais fácil insuflar a torcida coletiva: o martelar insistente do jornalismo mainstream, os comerciais dos grandes anunciantes e as vitrines dos lojistas encontravam corações dispostos a se entregar à Seleção e à Copa. Mas, como escreveu Vladimir Salflate na Folha, “o povo brasileiro saiu do lugar. Ele tinha um lugar previamente definido. Sua função era celebrar e aclamar. (…) Mas algo saiu definitivamente do lugar.” Mas, se levarmos em consideração as possibilidades que foram abertas com os protestos de Junho do ano passado, fica claro que a Seleção, mesmo que chegue ao Hexa, não comporta mais a ebulição da nossa sociedade, especialmente pelo seu caráter unidimensional: de uma Seleção brasileira se espera apenas que ela ganhe e seja aclamada ou o oposto direto. Não há meio termo, não há espaço para qualquer tipo de complexidade. Seleção combina com euforia e depressão, com vitória esmagadora ou fiasco retumbante. Para um país que tem forças latentes querendo transcender antigos scripts e construir uma estrutura social mais matizada, a Seleção como narrativa bipolar está se tornando uma relíquia, uma camiseta vintage que lembra tempos supostamente mais inocentes. Sim, está tendo Copa e está bacana. Mas não, não é a mais a mesma coisa.

Retomando Moisés Mendes, chegou mesmo a hora de experimentar outros signos de pertencimento. Não faltam opções. Dê um Google em “protestos no Brasil junho de 2013” que transbordam exemplos de garra, de união, de superação, de força de vontade, de ginga, de jogo de cintura, de habilidade em campo, de orgulho nacional, de referência mundial, de tudo aquilo que até maio de 2013 o brasileiro procurava única e exclusivamente na nossa Seleção.

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