Jorge Drexler en Auditorio Nacional del Sodre 30.05.2014

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Se tem uma coisa estranha pra um portoalegrense fã de Jorge Drexler é chegar em Montevidéu no dia do show de lançamento do disco novo dele e descobrir que ainda tem ingresso disponível. Em Porto Alegre, ingresso pra show do Jorge Drexler costuma durar algumas horas, no máximo umas 24 ou 30 quando estamos falando de duas datas ou de um lugar maior. Drexler é festejado pelos locais, costuma inclusive passar alguns dias na cidade, às vezes trocando ideia e composições com amigos artistas como Vitor Ramil, então imagina entrar numa loja da rede de pagamentos Red Pagos na capital uruguaia, onde Jorge nasceu e passou a maior parte da vida, e descobrir que, sim, tem ingressos pro show de lançamento do disco novo amanhã no Auditorio del Sodre. Coisa mais estranha, eu pensei em 29 de maio passado. Mas também lembrei que é deselegante desconfiar de bençãos cotidianas.

Na noite seguinte, eu e minha mulher chegamos ao Sodre em cima da hora depois de caçar um táxi num chuvoso e tumultuado início de noite de sexta-feira, morrendo de medo de não podermos entrar se chegássemos atrasados. Besteira: apesar do lobby imponente, o moderno Auditório del Sodre faz jus ao espírito relax de Montevidéu e o público continuou entrando e procurando seus lugares por pelo menos 15 minutos depois da hora marcada já que o show ainda não tinha começado. A atmosfera também rescendia a encontro de velhos amigos, com pessoas se cumprimentando de longe com aquela alegria espontânea e infantil que marca os esbarrões em shows de artistas que eu e você curtimos muito e, olha que bacana, todo mundo conseguiu entrar!

Claro que os shows de Drexler, graças à força de seu repertório, à identificação com o público e a seu extraordinário carisma, mesmo em seus formatos mais intimistas e experimentais, sempre incitam esse clima de alto-astral contagiante, parecendo que alguém espargiu fluoxetina no sistema de ar-condicionado. Agora, imagine isso associado a um disco francamente animado, baseado em ritmos latinos que convidam à dança já de cara, com a própria banda entrando no palco coreografadamente sobre uma batida meio techno e executando uma dancinha engraçada a la YMCA. Imagine também que, segundos depois, com os músicos já em suas posições, Drexler declama, sobre uma base meio deep house, “la idea es se ter una mente nueva”, com a banda explodindo a sequência em percussão, metais, bateria, baixo e guitarra enquanto o cantautor manda o refrão: “bailar en la cueva, bailar, bailar, bailar”. O tom da noite está estabelecido.

Nos 120 minutos seguintes, Drexler mostrou a guinada que deu o artista que até ano passado ainda tocava nos seus shows uma canção do disco Eco dizendo “os músicos não dançam”. Seja ao vivo ou no registro gravado, Bailar en La Cueva é daqueles álbuns que lembram o poder do ritmo nas mãos de um autor generoso e profundo. Drexler sempre foi criativo e flexível, permitindo que traços contemporâneos do pop global dos últimos 20 anos dialogassem com seu lado de cantautor do cone sul. Mas agora, ele finalmente abriu as comportas para a invasão de ritmos latinos pelo lado que ainda não havia aberto, o mais chacoalhante, que lota uma pista e não apenas um auditório. É som de branco congelado, mas quando toca ninguém fica parado.

Estou escrevendo um mês depois do show, então não me recordo do set list exato. Mas com certeza, além da faixa título, ouvimos do disco novo pelo menos a “cumbia tropicalista” Bolívia (que conta a história do acolhimento de seus pais judeus durante a segunda guerra e tem participação de Caetano Veloso no disco), a grooventa Data Data, o hit Universos Paralelos e o folk-valsa Todo Cae (todo disco de Drexler tem ao menos uma música dedicada a nos lembrar da impermanência das coisas). Entremeadas, ainda surgiram temas dançantes de outros discos como Las Transeúntes, La Trama y El Desenlace, Todo se transforma e uma surpresa: a melancólica Transoceanica (do algo sombrio 12 Segundos de Oscuridad) em alegríssima versão para bailar. Em clima de ensaio na garagem, durante o show de 2 horas com direito a 3 voltas ao palco para bis ainda apareceram Juan Campodónico, ex-parceiro de produção de Drexler, para executar uma composição dos dois que soava mais como indie rock, e também uma dupla de milongueiros locais de quem eu não guardei o nome. A atmosfera era de absoluta celebração, no palco e na plateia indistintamente.

Durante o show inteiro, eu permaneci com uma ideia na cabeça: “como é encantador esse conceito do Drexler de dançar na cova, essa disposição de sorrir na cara do nosso destino iminente.” O que fazia um certo sentido pois, como escrevi ali em cima, a dissolução e o fim das coisas é um assunto recorrente na obra do uruguaio. Mas alguns dias depois, lendo uma entrevista de Drexler onde ele citava o mito da caverna de Platão, percebi que, dã, cueva é caverna em espanhol e não cova! E que a intenção dele, como diz na letra (“fizemos música muito antes de descobrir a agricultura”) é justamente resgatar a dança como algo atávico, essencial, natural. Tão natural quanto a ida para a cova, se me permitem uma manobra que valida meu entendimento em portunhol…

Bom, seja na cova ou na caverna, o convite de Jorge Drexler é pra dançar com os quadris, com o coração e com o cérebro. Em setembro a turnê de Bailar en la Cueva passa pelo Brasil e se eu fosse você, não perdia a oportunidade de alinhar essas três partes do corpo humano que raramente conseguem se divertir juntas.

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Abaixo, o disco inteiro pra ouvir.

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Vale ler também o relato do crítico Antônio Carlos Miguel, que assistiu ao mesmo show que eu, bem como o Nelson Motta.

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E essa foto?

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Eu já havia postado a história dela no Face esses dias, mas resolvi registrar aqui também.

Em 2005, o Jorge Drexler foi trocado pelo Antonio Banderas e pelo Santana na hora de executar sua Al Otro Lado del Rio na cerimônia do Oscar. A música havia ganho o prêmio de Melhor Canção Original, a primeira para uma cantada em espanhol, a segunda numa língua não-inglesa. Deixado de lado na hora da performance, Drexler teve que cantar um trecho infiltradamente ao receber a estatueta:

Meses depois, o publicitário argentino Fernando Vega Olmos convidou o cantor uruguaio ao palco do Festival de Publicidade de Cannes pra “consertar a situação” fechando sua palestra. Drexler tocou a música inteira, uma performance linda.

Horas depois, eu consegui aparecer de gaiato nessa foto com o uruguaio (e seu agente). Na verdade, eu estava passeando com o Eduardo Axelrud que conhecia o Ricardo Freire (à direita), que conhecia o Jorge Drexler.

Semana passada, essa pequena historieta fez exatamente 9 anos.

Foto de abertura do post: Fanpage Oficial de Jorge Drexler.

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