Nunca é demais reafirmar o valor do Laerte pra nossa cultura

Laerte_2014

Pra quem acompanha a trajetória do Laerte, pode parecer redundante ficar ressaltando suas qualidades artísticas e sua importância humana na esfera pública. Mas cada entrevista que eu leio dela, cada trabalho que sai, eu me convenço de que é preciso sim martelar a qualidade da contribuição que ela vem dando pra cultura brasileira. Senão, é capaz de tomarmos por garantido uma participação que é na verdade muito única e especial.

Recentemente, o portal do jornal português Públicou botou no ar uma longa e rica entrevista com Laerte. E de novo, ela faz reflexões importantes sobre sua arte e sua vida que, se quisermos, podemos enxergar como sintomáticas do contexto cultural brasileiro. Entre muitas passagens interessantes, destaco uma que me tocou:

Nunca fiz isso (me vestir de mulher) com tanta clareza. Tinha curiosidade e desejos de frequentar a feminilidade, mas não era uma coisa clara.” Outra das diferenças com as outras meninas, afirma Laerte, é ter sido aceite com muita rapidez. “Não só pela minha família, pelo meu entorno, meus colegas, meus empregadores, pelo meu público. Eu fico sentindo, por que é que eu não fiz isso antes? Quanto tempo eu perdi nisso? [risos] O que é um pensamento bobo porque a gente não perde tempo. Este é o meu tempo.”

Estamos vivendo um momento muito particular no país, com ânimos exaltados e muitos conceitos cristalizados sendo questionados, abertos, examinados, remontados. Às vezes, dá a impressão de que queremos, coletivamente, apressar esse processo, como se estivéssemos perdendo tempo se não virássemos o país do avesso. Mas uma coisa é a vontade difusa e intensa de resolver as coisas e outra completamente diferente é o tempo de andamento das nossas estruturas culturais e sociais, que não necessariamente respondem com a mesma velocidade a essa massa disforme de vontades.

Em meio a essa tensão, é bom que haja referências públicas como Laerte, pois ela aborda questões espinhosas com uma sensibilidade poética que amacia e torna próximo o que poderia ser tomado apenas como algo idiossincrático (que é o que acontece com muitos questionamentos no Brasl hoje). Laerte se articula com frescor e humanidade para falar de temas que em geral são discutidos ou com pavor preconceituoso ou com academicismo distante. Repetindo: não tomemos isso como algo garantido. É raro e precisa ser valorizado, destacado, reforçado.

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Foto: Wikimedia Commons

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