Quando a mente entra em Estado de Facebook

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Geralmente, eu me considero um cara equilibrado na relação com a tecnologia, ao menos levando-se em consideração as atividades que desenvolvo e o estilo de vida no qual estou imerso – a vida de um publicitário, músico, blogueiro, interessado em cultura digital e morador de área intensamente urbana. Dentro do possível, sempre procurei estabelecer alguns limites e parâmetros de uso e, acima de tudo, ficar atento ao jeito como a minha mente reage aos diferentes ambientes digitais e seus estímulos, nem que seja por um tipo de curiosidade científica. Ainda assim, por mais que eu cuide, não adianta: é muito fácil eu ser arrastado pelo balançar das ondas da rede social mais famosa do mundo.

“Estado de Facebook” é como eu chamo (pra mim mesmo) o jeito como a minha mente fica quando me conecto, claro, no Facebook. O primeiro sintoma desse Estado é a tendência de passar os olhos com mais rapidez pelos blocos complexos de informação formados por fotos, vídeos, dezenas e centenas de caracteres, escaneando a tela e precisando fazer um certo esforço, mínimo que seja, pra parar e olhar adequadamente para uma foto ou ler adequadamente um pequeno texto. O segundo sintoma é o dedinho rolando a tela pra cima, fazendo subir o feed de notícias pra saber o que tem embaixo. Combinados, o escaneamento rápido com os olhos e o dedinho rolando a tela pra cima me colocam num modo meio zumbi, no qual eu raramento paro de fato em algum conteúdo – creio que morreria de vergonha de ver como fica a minha cara fazendo isso.

O terceiro sintoma é o aculturamento da minha mente no assunto preponderante que brota do feed de notícias naquele momento. Eu sou muito permeável a algumas influências (termo científico: maria-vai-com-as-outras) e se um tema se repete no feed, eu me sinto um tanto quanto Zelig, pois passo a filtrar meus pensamentos e minha energia por aquele tema durante algum tempo. O quarto sintoma é derivado do terceiro (e indiretamente dos dois primeiros), pois eu passo a formular, na cabeça, opiniões, proposições e conteúdos relacionados ao tal tema preponderante, de maneira sistemática e repetitiva, como um cacoete de redator publicitário (nessa área, trabalha-se com geração de quantidade para chegar a alguma eventual qualidade). O quinto sintoma é postar uma ou mais dessas formulações e o sexto seria eu me engajar em discussões sem fim no Facebook. Mas, agradeço aos céus todos os dias, superei essa sexta tendência muitos anos atrás depois de larga experiência em listas de discussão por email.

A rigor, o Estado de Facebook não me causa grandes estragos, mas eu gosto de ficar de olho nisso. Há algum tempo, vi num post do Eduf o termo “mindless browsing”, que é a atitude de ficar clicando de site em site, seguindo os hyperlinks de maneira meio desmiolada, sem muito objetivo, vagando simplesmente. O que nos primórdios da internet era até interessante pra descobrir conteúdos novos mas, hoje, com a quantidade absurda de informação interligada, se torna uma viagem perigosa, sem fim, na qual você anda, anda e nunca pára pra desfrutar o que coletou a menos que tenha alguma disciplina. No caso do Facebook, voltando ao assunto, o “mindless browsing” se torna “mindless liking, sharing & commenting”. E, na minha experiência, raramente, muuuuuito raramente, se obtém dividendos na mesma proporção da energia e do tempo investidos.

O que, claro, é um problema meu e vocês não tem nada a ver com isso. Aliás, achar que você tem alguma coisa a ver com o problema dos outros ou que os outros tem alguma coisa a ver com os seus problemas seria o sétimo sintoma do Estado de Facebook. Curiosamente se manifestando agora, ao vivo, no formato de “post de blog”. Melhor parar por aqui.

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Foto: Superfamous

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2 pensamentos sobre “Quando a mente entra em Estado de Facebook

  1. Perfeito, também uso de modo bem parecido, acrescentaria outros itens que certamente é comum a muitos. a)desejo de expor e colocar o comentário mais fodão e definitivo em todos os assuntos, b)querer assumir as rédeas do post inicial… opsss é amesma coisa de antes. c)Com uma certa frequência tentar retribuir os joinhas recebidos, mesmo que seja difícil achar um assunto relevante d)se culpar por não conseguir ler todo aquele texto enfadonho que é muito cool e)cair na bobagem de clicar em um link tosco e ficar preocupado que ele possa ter uma armadilha e ele aparecer no seu feed…

  2. Perfeito, também uso de modo bem parecido, acrescentaria outros itens que certamente é comum a muitos. a)desejo de expor e colocar o comentário mais fodão e definitivo em todos os assuntos, b)querer assumir as rédeas do post inicial… opsss é amesma coisa de antes. c)Com uma certa frequência tentar retribuir os joinhas recebidos, mesmo que seja difícil achar um assunto relevante d)se culpar por não conseguir ler todo aquele texto enfadonho que é muito cool e)cair na bobagem de clicar em um link tosco e ficar preocupado que ele possa ter uma armadilha e ele aparecer no seu feed…

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