Bits & Kids – liberdade perante a tecnologia digital

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Em outubro de 2011, o especialista em tecnologia Jean-Louis Constanza publicou no YouTube um vídeo de sua filha de 1 ano mexendo em um iPad e depois em uma revista. Nas cenas que duram apenas 1 minuto e 25 segundos, a menina passa as telas do iPad para o lado com os dedos e toca nos aplicativos querendo abri-los. O tablet, claro, responde a seus comandos desajeitados. Em seguida, ela tenta usar outros gestos para interagir com a revista, mas não obtém resultado algum: as fotos não passam, os elementos não abrem, enfim, nada de interativo acontece nas páginas impressas. O título do vídeo expõe a visão de seu autor – “uma revista é um iPad que não funciona”.

Na época da postagem original, o vídeo se espalhou pela internet e até hoje continua angariando visualizações. Mais de 4 milhões e 300 mil pessoas já o assistiram no YouTube e a audiência crescente é seguida de comentários que se dividem entre os deslumbrados pela familiaridade das novas gerações com a tecnologia digital e os críticos do que seria uma exposição precoce de um bebê a uma tela interativa. No livro As Teorias da Cibercultura, o mestre, doutor e professor de comunicação da UFRGS e da PUC-RS Francisco Rüdiger classifica essas duas reações à tecnologia como “fáusticas” e “prometéicas”. Fáusticos são os que, num paralelo com a antiga lenda germânica do Dr. Fausto, consideram a tecnologia uma criação humana que pode se emancipar e nos levar à destruição. Os prometéicos, como no mito grego de Prometeu, acham que a tecnologia é a grande solução para todos nossos males e por isso qualquer sacrifício para obtê-la e mantê-la é válido. Fáusticos e prometéicos, segundo Rüdiger, concordam num ponto: enxergam a tecnologia como dona de “um poder autônomo, com uma dinâmica própria.”

Não é pra menos que nós (junto com a maioria dos estudiosos) pensemos assim. Nos últimos dez ou quinze anos, fomos soterrados pela comunicação da indústria da tecnologia nos dizendo “agora você pode fazer o que quiser, na hora e lugar que escolher”. A própria estrutura da tecnologia digital se baseia na ideia de uma conectividade ininterrupta e onipresente. Isso acabou estabelecendo que “é assim mesmo” que se usa um celular ou um computador: atendendo a todos os estímulos que eles lançam – a qualquer hora e em qualquer lugar que escolherem. Mesmo aqueles usuários que se opõe ao uso exagerado das novas tecnologias aceitam essa noção, colocando-se como bravos resistentes em um cenário dramático. Em alguns meios mais conectados, desconectar-se ganhou ares de heroísmo, o que acaba por confirmar a tese de que a conexão total é inevitável.

Bill Fecych and Don Johnson in control room in 1959.

Quando nos deslumbramos ou nos apavoramos com uma criança que mexe com desenvoltura em um iPad, perdemos uma perspectiva de liberdade e conferimos uma certa aura mágica e misteriosa à tecnologia digital. Não há dúvidas de que essas cenas sejam cativantes, mas a verdade é que precisamos mostrar para as crianças de uma vez por todas quem é que manda – não quem é que manda nelas, e sim nos aparelhos, sites e aplicativos que usamos diariamente. A maior parte deles é bem mais carente do que nossos filhos pois foram desenvolvidos de forma que precisamos lhes dar uma atenção tão constante que nem o mais indefeso dos bebês consegue rivalizar. É muito fácil nos deixarmos levar pelo mar de notificações e conteúdos que chegam sem parar via email, mensagens de texto, chats e feeds de redes sociais porque esses sistemas são construídos assim, para gerar fluxos e engajar nossa atenção 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano até o fim dos tempos. Mas, apesar de parecer, eles não tem vida própria e é uma decisão particular de cada um de nós aprender a regular a entrada de notificações e conteúdos em nosso campo de interesse. Está literalmente nas nossas mãos decidir quando vamos ler ou assistir o que está chegando.

Essa automomia perante os estímulos é a habilidade crucial que precisamos desenvolver e ensinar a nossos filhos, porque o rio de informações digitais é ininterrupto e virtualmente infinito. Sempre haverá o que ler ou assistir e se você não coloca os limites, não espere que o Facebook canse de lhe avisar das fotos novas do seu amigo ou que o YouTube encerre as transmissões na madrugada como faziam as antigas emissoras de TV. Como diz o teórico de mídia americano Douglas Rushkoff, “programe ou seja programado”. Quando seus filhos vêem você pular para pegar o celular a cada 30 segundos, não tenha dúvida de que eles vão crescer achando que isso é o que se faz com um celular. Portanto assuma o controle do seu uso digital, estabeleça seus próprios horários e métodos. Não seja escravo do fluxo de informações e você será um exemplo vivo de como lidar com os excessos induzidos pela tecnologia digital.

No livro “Como viver na era digital”, o escritor inglês Tom Chatfield oferece uma dica mais prática e equilibrada: devemos aprender a tirar o melhor dos momentos conectados e dos momentos desconectados. Quando estamos conectados, é hora de pesquisar, coletar informações, obter diferentes visões, mergulhar na produção digital coletiva da humanidade. Quando estamos desconectados, é hora de analisar, filtrar e costurar o que absorvemos quando estávamos conectados. A alternância coordenada entre essas duas modalidades complementares é outra ferramenta valiosa que precisa ser incorporada à educação das crianças. Diz Chatfield: “Simplesmente depreciar um dos dois não serve para nada pois cada um representa um conjunto diferente de possibilidades para o pensamento e a ação. Em vez disso, devemos aprender a nos perguntar – e ensinar nossos filhos a se perguntarem – quais aspectos de uma tarefa, e do viver, são melhores servidos por cada um.”

Esse é o detalhe que passa despercebido no vídeo de 4 milhões e 300 mil visualizações no qual um bebê confunde uma revista com um iPad. Encantador e desconcertante, ele é o retrato da nossa relação com a tecnologia digital. Estamos todos na primeira infância de um novo momento histórico, metendo os pés pelas mãos, perdidos com a função e o conteúdo de cada uma das ferramentas que estão à nossa disposição. A tecnologia digital nos oferece um tipo de autonomia às custas de outra. Pagamos pela magia com nossa atenção irrestrita e assim o “faça o que quiser na hora e lugar que escolher” acaba se tornando “faça o que estamos estimulando você a fazer o tempo todo em todo lugar”. Existem muitas facetas – econômicas, políticas, artísticas e filosóficas – nessa questão, mas por hora basta lembrar que a chave para um uso produtivo das tecnologias digitais é não cedermos à ideia de que elas tem uma vida autônoma mas nós assumirmos nossa autonomia – ensinando às crianças e adolescentes a também serem autônomos e, em última instância, verdadeiramente livres.

***

Artigo publicado originalmente na edição 66 da revista Estilo.

Imagem 1: ilustração de Guilherme Dable para revista Estilo.
Imagem 2: New Old Stock
Imagem 3: tradução de lâmina de apresentação de Tom Chatfield para o projeto Sicredi Touch por DZ Estudio.

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