"A tentação de ser útil é forte demais"

DKR

Em entrevista para o informativo Gentle Voice, o professor budista e cineasta Dzongsar Khyentse Rinpoche (roteirista e diretor e A Copa e Viajantes e Mágicos) dá sua perspectiva sobre o papel do artista no mundo contemporâneo. Entre os conceitos defendidos por ele está a noção do artista como um fazedor de coisas inúteis, como o criador de harmonia, além da ideia de que seria bom ter mais artistas-políticos.

Papo completo, em inglês, aqui.

Jules Feiffer e criatividade

Se tem uma coisa que eu já ouvi umas 286 vezes sobre pessoas que lidam com criatividade é o quanto elas são inseguras e, em certa medida, imaturas emocionalmente. Como se fossem crianças crescidas, brincando com a vida em vez de trabalhar. Não é exatamente uma novidade falar sobre isso, volta e meia aparece um psicólogo ou um cientista ou uma ex-mulher ou ex-marido de alguma persona criativa com histórias pitorescas. Mas talvez quem melhor tenha escrito sobre o tema, e com muitomais propriedade, foi o cartunista americano Jules Feiffer, num livro voltado para o público infanto-juvenil mas que aborda a psiquê de quem mexe com atividades criativas sem uma única teoria psicológica, sem nenhum gráfico ou pesquisa. Isso é O Homem no Teto.

O livro conta, alternando texto e ilustração, as experiências de Jimmy Jibbet, um garoto que não é bom em esportes, não é popular no colégio, não presta atenção na aula, mas desenha e escreve quadrinhos com uma dedicação e um talento vibrantes. O primeiro ponto valioso que brota das entrelinhas de O Homem no Teto é que o envolvimento de Jimmy com os quadrinhos não pode ser definido como mera recreação. Parte de uma família americana de classe média baixa, Jimmy usa as aventuras de seus personagens como forma de elaborar o ambiente no qual está inserido. Histórias sobre um pai idealizado ou sobre um herói chamado Mini-Man vão dando conta de acomodar e processar os conflitos com a irmã maior briguenta, com a menor demandante de atenção, com o pai distante e com a mãe um pouco mais próxima. As encrencas clássicas de escola, como a alienação perante o cotidiano burocrático e a força magnética de um colega que parece perfeito em tudo, também são todas debulhadas no processo criativo solitário de Jimmy. O mecanismo é totalmente alheio para o menino, mas sem dúvida é eficientíssimo.

Essa dinâmica toda ganha mais impulso, tanto para Jimmy quanto para nós, que estamos acompanhando a narrativa, quando entra em cena o tio do garoto, um fracassado compositor de musicais que em certo ponto tem sua carreira estimulada por um pequeno sucesso. O Tio Lester é a luz no fim do túnel para Jimmy, é sua alma gêmea, é a única pessoa em uma pequena multidão que serve de espelho confiável, de verdadeiro conterrâneo no lodoso e complicado terreno das atividades criativas. A interação entre Tio Lester e Jimmy fornece a via de escape pro garoto, resgatando uma jovem mente imaginativa à beira do precipício da auto-anulação. E, o mais importante: sem proselitismo, sem licões de moral, sem recadinho de auto-ajuda hipster. Tudo contado dentro da história pessoal de Jimmy. É presença de um igual – e não explicações racionais – que salvam nosso herói que fazem nossa leitura valer a pena.

Como escreveu outro cartunista premiado, o Art Spiegelmen, Feiffer usa sua “percepção penetrante como um laser com que ele desvenda o mecanismo de motivações das pessoas.” Ou seja, é um livro sobre a criança criativa que existe dentro de cada um de nós e um mapeamento dos obstáculos particulares e sociais que costumam enterrar essa índole. Mais do que isso, O Homem no Teto prova, na prática, que o desenvolvimento ou o resgate da nossa criatividade inata não se dá através de receitas de bolo ou de teorias rasteiras, mas sim por meio de um exemplo no qual possamos nos espelhar e com o qual possamos dialogar – ainda que esse diálogo seja nosso, interno.

Nesse sentido, o Jules Feiffer fez algo realmente genoroso ao nos deixar essa pequena superfície espelhada e profunda em forma de livro infanto-juvenil, com a qual podemos nos enxergar, dialogar e refletir.

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PS: aquele abraço ao André Takeda, que me mostrou esse livro há uns 15 anos. Comprei na época e só recentemente fui ler…

Votos de Ano Novo com ajuda do Bukowski

“Você sabe, eu já tive família e emprego
Alguma coisa sempre ficou no caminho
Mas agora eu vendi minha casa
Eu achei esse lugar, um estúdio grande
Você tinha que ver a luz e o espaço
Pela primeira vez na minha vida
Eu vou ter um lugar e tempo pra criar

NÃO, BABY
Se você vai criar
Você vai criar mesmo trabalhando 16 horas por dia numa mina de carvão
Ou você vai criar num pequeno quarto com três crianças enquanto recebe seguro desemprego
Você vai criar com parte do seu corpo e da sua mente detonados
Você vai criar cego, aleijado e demente
Você vai criar com um gato escalando suas costas enquanto a cidade treme por causa de terremotos, bombardeio, enchente e fogo

Baby, ar e luz e tempo espaço
Não tem NADA a ver com isso
E não criam nada
A não ser, talvez, uma vida longa e desculpas novas”

Considerem esse cartum do Zen Pencils com texto do Bukoswki meus votos de ano novo pra vocês. Até achei um pouco bravateiro demais, mas de qualquer forma, me serviu de empurrão pra trabalhar em algumas coisas no feriadão. Tomara que seja útil pra mais alguém. 🙂

Pitacos em Educação – também quero dar!

Demorou, mas aconteceu: a educação hypou geral. O assunto aparentemente mais chato e subdiscutido do universo (até economia ficou popular ANTES de educação) finalmente ganhou espaço mainstream de debate. Pelo menos de onde posso observar, parece que a conversa atinge estratos diferentes da sociedade, desde grandes veículos (a Veja, a Época, a Globo, o grupo de comunicação sulista RBS com suas reportagens, bandeiras e bravatas) até o pessoal mais ligado e moderno (educação tem sido pauta de blogs de arte, design e cultura digital, documentários, palestras online, projetos no Catarse e por aí vai).

Eu não ia me meter nesse papo, mesmo sendo filho de professores e tendo acompanhado por décadas as questões que agora são debatidas (até porque minha principal preocupação sempre foi o impacto do salário do magistério na minha mesada – ou na inexistência dela). Mas, algumas semanas atrás, fui convidado por uma amiga a participar de um workshop no mestrado dela, dividindo uma mesa de brainstorm sobre o futuro da educação com dois designers, uma arquiteta, uma consultora de educação, uma profissional de TI e uma arte-educadora. Foi uma tarde de muito aprendizado pra mim e me trouxe questões bacanas. Então, agora eu entro na onda, num espírito mais informal, mais papo de boteco. Abaixo, listo e comento rapidamente alguns pontos que passaram pela mesa da qual participei.

* O pressuposto básico de toda reflexão mainstream em educação hoje passa primordialmente por três pontos: os baixos indicadores de desempenho da educação brasileira nos diferentes rankings mundiais ou domésticos; os problemas de recursos (investimentos, infra-estrutura de escolas e professores, que infelizmente são tratados como recursos) e as mudanças de relação com os conteúdos por conta da cultura digital.

* No entanto, pouco se fala a respeito de qual seria o papel da educação em um contexto que trata professores como recursos, alunos como força de trabalho para o mercado e infra-estrutura como moeda política.

* O desinteresse das novas gerações de alunos nos métodos mais comuns usados atualmente no ensino básico e fundamental são frequentemente atribuídos à competição com o universo da tecnologia, mas essa parece uma explicação superficial. A competição não seria entre o celular e o quadro negro, mas sim entre uma atividade que tem sentido na vida do aluno e outra que não tem.

* Desse ponto de vista, a resposta automática para isso é sempre, no caso dos jovens adultos, o “ensino técnico voltado para o mercado de trabalho”, como se o mercado de trabalho fosse ou tivesse que ser o objetivo central de vida de todo mundo (uma ideia impulsionada naturalmente pela situação econômica recente no Brasil). Não há duvida de que o encaminhamento profissional tem o papel importante de inserção social, mas a inserção não pode se resumir a isso pois nem sempre o trabalho dá conta de todas as necessidades de uma pessoa, especialmente as mais subjetivas, especialmente num contexto em que a imensa maioria das pessoas trabalha simplesmente para garantir o seu.

* Uma alternativa a isso seria uma educação orientada a objetivos de vida mais amplos. Por exemplo, a ideia tradicional de alguém que busca um curso de medicina é porque essa pessoa “quer ser médica”. A outra forma de pensar trocaria o “ser” pelo “fazer”: não quero “ser” médico, mas sim quero “tratar pessoas” ou quero “trabalhar no Médico Sem Fronteiras” ou quero “atender na clínica da família” ou quero “ajudar minha região”. A diferença soa sutil mas são abordagens de educação bem distintas que trariam conteúdos e especialidades também distintos. Claro que no ensino básico e fundamental essa abordagem é um pouco mais indireta, mas possivelmente aspirações como “quero ajudar os animais”, “quero ser super herói” ou “quero dar uma casa para minha mãe” poderiam ser utilizadas.

* Dentro dessa abordagem surgem outros formatos de ensino, alguns dos quais já vem sendo utilizados em muitas escolas. Um desses formatos é a cultura de projeto, na qual o aluno aprende conteúdos através de módulos de investigação, reunião de informações, consolidação e apresentação do consolidado.

* A cultura de projetos traz junto a necessidade de desenvolvimento de uma série de habilidades, algumas clássicas e outras nem tanto: buscar informações confiáveis; juntar e criar sentido a partir da junção de informações; fazer a gestão da atenção frente a tantas informações (especialmente na presença de múltiplas telas); o uso de linguagem audiovisual digital como legítima e constante em trabalhos de colégio; e, por fim, a ideia do professor como coach desse processo, como fonte de autoridade desse fazer e não dos saberes (o professor que sabe buscar informação, juntar e criar e não o que sabe responder).

* Última nota: a ocupação avançada de territórios por pequenos centros de pesquisa ligados a instituições de ensino. As bibliotecas e quadras de esportes de escolas públicas são em geral liberadas para uso da comunidade, mas isso pressupõe que as pessoas se dirijam à escola. Esse conceito é mais parecido com a inserção geográfica das lan-houses: pequenos pontos de convergência do público dotados de tecnologia pra busca e combinação de informação e, pelo tamanho reduzido, misturado às comunidades. Mais do que isso, um espaço de convivência lúdica, sem as formalidades e os muros das escolas mas ligadas a ela de alguma forma.

Ok, eu sei que muitos desses pontos são estudados por gente séria e já foram discutidos por aí. Mas eu não resisti a dar meus leigos pitacos entre uma cerveja e outra. Garçom, manda mais uma!!

Como Woody Allen pode mudar a sua vida

O francês Éric Vartzbed é um bravo. Doutor em psicologia e psicoterapia, ele escreveu um livro bem fundamentado e bacana de ler, e na hora de batizar a criança, tacou-lhe no título uma fórmula de auto-ajuda. Cara de ponto de interrogação: por que o Sr. Vartzbed fez isso? Que estranhos motivos o moveram? Falta de imaginação? Canalhice comercial? Ou mais uma brincadeira ambígua e irônica inspirada nos clichês que Woody Allen explora tão bem em seus filmes?

Não sei. Não encontrei muita informação sobre ele na internet (que não estivesse em francês). Mas o que eu sei é que esse espírito espírito meio zombeteiro é bem o que pega nesse “Como Woody Allen Pode Mudar Sua Vida”. Rápido, simpático e elegante, em vez de enveredar pela análise pragmática (e chata) da filmografia de Allen, o que o Vartzbed fez foi a crônica do seu encontro pessoal (incluso aí sua formação de terapeuta) com a obra do nosso querido cineasta novaiorquino. O resultado disso, diferente do que o título rapidamente sugere, não se aproxima nem um pouco do formulismo da auto-ajuda. Pelo contrário, quem procurar aqui receitas prontas pra ser feliz vai encontrar, confissões, costuras, mergulhos, encaixes e sobreposições entre psicanálise, psicologia, filosofia e um cinema muito peculiar. No fundo, o livro é um pouco como as boas comédias do Woody Allen: toca em feridas profundas, mas sabe ser leve, engraçado e fluído quando necessário. Tem ritmo, consistência e bom humor. Um equilíbro raro.

O ponto de partida de Vartzbed é já sair confessando desavergonhadamente seu posto de fã de Woody Allen e o impacto que seus filmes tiveram na sua formação pessoal. Nada de posturas distantes ou falsas imparcialidades. Pra ser mais específico, ele cita emocionado a comoção que sentiu ao assistir A Outra. Nesse filme de 1988, Gena Rowlands interpreta uma professora e ensaísta fria e esquemática que se refugia em um apartamento alugado para terminar de escrever uma tese. O plano, no entanto, se mostra defeituoso pois as sessões de psicanálise em uma sala vizinha vazam para dentro do refúgio por meio do encanamento do ar-condicionado. A voz invasora acaba desencadeando na personagem Marion Post uma corrente de lembranças e reflexões que abalam os fundamentos da sua vida atual.

Vartzbed conta que usou o filme como espelho para resolver questões particulares. E que essa foi apenas a primeira vez de muitas. Capítulo após capítulo, ele mostra como o trabalho de Woody Allen se presta como parceiro de reflexão (de quem está a fim, claro) por abordar feridas universais com a principal ferramenta do seres urbanos – a palavra. Afinal, por mais bem escolhidos que sejam os diretores de fotografia, por mais cativantes que sejam as trilhas sonoras, por mais cuidadosos que sejam os planos, o cinema de Allen é reconhecidamente um cinema da palavra.

Esse é um dos principais pontos de intersecção que Vartzbed encontra entre seu ídolo e o trabalho terapêutico, mais especificamente a psicanálise, também já apelidada de “a cura pela palavra”. Ele lembra que Allen “filma o fosso que separa as palavras do ser.” Seus personagens falam, falam, falam, falam o tempo todo, usando as palavras para mediar uma negociação complexa entre seus anseios, sua formação e o ambiente social que os rodeia, na maior parte das vezes, é bom lembrar, uma classe média urbana – e novaiorquina, o que significa urbana na décima potência. A palavra, para estes habitantes, é instrumento de trabalho, organizadora da vida cotidiana e força subterrânea da ebulição inconsciente. É também uma instância de distanciamento saudável de impulsos incontrolados, como em Vicky Cristina Barcelona onde “a passagem pela língua inglesa permite que o casal formado por Maria Elena e Juan Antonio manter à distância a emoção destrutiva. (…) Várias cenas mostram como o movimento de tradução é acompanhado de um desligamento no qual a raiva se aplaca.”

Mas a primazia da palavra é um aspecto claro em Woody Allen. O que nem sempre aparece, mas que ele já sublinhou em entrevistas, e que Vartzbed faz questão de lembrar, é a visão de mundo otimista, quase redentora, do diretor. Embora pintado como ranzinza, mau humorado, garoto enxaqueca, os filmes de Allen mostram em sua maioria caminhos de pacificação ou de encontro de personagens consigo mesmo. Ainda que em muitos casos esse encontro ou essa pacificação não ocorram (ou ao menos da forma convencional), mesmo as frustrações revelam uma crença na busca por algum tipo de conforto e entendimento de si e do mundo. No já citado A Outra, Marion Post aceita uma voz estrangeira vazada ao acaso como mensageira de desejos interiores. Sandy Bates, de Memórias, termina o filme aceitando que “não posso controlar tudo na vida, a não ser a arte e a masturbação, duas áreas nas quais sou um absoluto perito”. Em Igual a Tudo na Vida, a paranóia patológica de David Dobel acaba ajudando a melhorar a vida de um pupilo. Em Zelig, o protagonista se torna parecido de seus próximos querendo aceitação. Nenhum niilista verdadeiro se permitiria tamanho luxo, tanta energia empregada em tentar se aliar a um mundo de desespero.

Segue Vartzbed: “Até quando seu discurso é sério e desiludido, o tom é tão energizante, apimentado e irriquieto que o espectador deixa a sala assobiando, revigorado.” Sim, O Sonho de Cassandra e Match Point, por exemplo, são filmes pesados, opressivos. Mas é difícil sair do cinema sem algum entusiasmo com a descarga de energia promovida pelo passeio em tal montanha russa.

Mas e aí? Quase 50 anos e mais de 40 filmes depois, Woody Allen pode mudar a sua vida? Claro que não pode. O autor fecha o livro com um capítulo chamado justamente “Como acabar com os tratados sobre a felicidade e outros manuais éticos?” E evoca Freud: “A felicidade é uma questão de economia libidinal individual. Nenhum conselho nesse terreno é válido para todos, cada um deve procurar por conta própria o seu modo de ser feliz.” De qualquer forma, olhe a foto logo acima e veja se este homem não tem uma certa credibilidade para lhe dar alguns conselhos.