A perigosa cultura narrativa do "Como Mudar o Mundo e Sua Vida"

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Mês passado, o Gustavo Gitti publicou no Papo de Homem um texto criticando os excessos do que poderíamos chamar de “cultura do aprimoramento”. Disse ele:

“Estamos na era do aprimoramento pessoal. ‘Como’ e ‘melhorar’ são os novos mantras: como melhorar a alimentação, como melhorar o trabalho, como melhorar o relacionamento… Quando aparece a palavra ‘rim’, é porque o rim não está funcionando bem. Quando se fala muito em paz, é porque não há paz. Se cada vez mais ouvimos sobre desenvolvimento humano, felicidade e transformação, talvez seja por que nunca estivemos tão confusos em relação ao que isso realmente significa.”

O post envereda por questões internas ao ser humano sobre o que de fato significa transformação, buscando falar do que vai além das aparências externas. Sem entrar em questões semânticas absolutas, ele estabelece, para efeito de diálogo, uma distinção entre mudança e transformação:

“O processo da mudança funciona como uma constante busca por novas experiências. Quando alguém diz ‘Mudei’ na maioria das vezes quer dizer: ‘Troquei de experiência’. O processo de transformação trabalha com toda e qualquer experiência, com cada vez menos necessidade de buscar por novas experiências ou de alterá-las externamente.”

Mudança seria, então, uma “revolução” mais aparente e também mais superficial. A transformação, por outro lado, exigiria um auto-entendimento mais refinado e menos dependente de manifestações externas. Mudança se anuncia, transformação se empreende. Mudança rende poemas, canções, videocases. Transformações rendem seu próprio resultado, que muitas vezes vem de um processo longo, demorado e pouco cinematográfico. Às vezes, inclusive, rende apenas seu próprio processo. Mas o fato de, hoje, a mudança ser muito mais popular do que a transformação não deve ser debitado unicamente na conta da dificuldade inerente das transformações. A cultura contemporânea tem celebrado e estimulado intensamente a ideia de mudança – rápida, formulaica e vibrante, já que a transformação não rende boas histórias se contada honestamente, pois demora demais pra acontecer e nem sempre gera fogos de artifício.

Segue Gitti:

“Não é fácil detectar o limite do processo de mudança em uma cultura que promove tantas soluções desse tipo. O site do TED é uma boa amostra desse zeitgeist atual. As palestras, se vistas em conjunto, parecem comunicar uma mensagem assim: Você quer se transformar? Basta saber disso, estudar aquela pesquisa, ler tal livro, não esquecer daquilo, começar a dormir mais, usar esse novo modelo de pensamento, se exercitar assim, comer isso, fazer tal coisa, implementar tal hábito…”

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Os vídeos das conferências TED Talks, que condensam ideias complexas e impactantes de cientistas, intelectuais, artistas e empreendedores em no máximo 18 minutos, são um dos vetores culturais mais poderosos da última década na internet. O site do TED tem cerca de 1500 vídeos que já foram assistidos mais de um bilhão de vezes. A estética TED Talks de apresentar ideias influenciou o mundo corporativo, o universo acadêmico e toda uma geração de jovens empreendedores (bem como os Muppets). Graças ao TED, para milhões de pessoas, um projeto de “mudar” ou de “mudar o mundo” é algo que precisa caber em 18 minutos além de ser necessariamente contado de maneira empolgante. Que medo.

Embora eu tenha assistido com gosto muitos vídeos do TED e reconheça o poder e as virtudes da síntese e do storytelling na vida prática, quando se fala de transformação real e profunda, penso que é temeroso acostumar-se unicamente com um paradigma baseado em “eficiência de plateia”. E é visível, ao menos nos meios que frequento e que acompanho, a confusão gerada pela estética TED Talks nesse sentido. Há os que acham que o resultado da transformação deve caber numa palestra ou num vídeo; há os que acham que a palestra/vídeo É o resultado da transformação; e há, o mais perigoso, os que não reconhecem o valor das pessoas que transformam e que geram transformação mas cuja fala não se alinha com a estética TED Talks. Que medo, de novo…

Semana passada, o site Motherboard aproveitou o buzz em torno da nova rede social Ello para destrinchar a história meteórica da Diaspora. Assim como o Ello, a Diaspora surgiu como uma alternativa ao Facebook, mais livre, mais privada e supostamente embebida em ideais mais nobres. Não sabemos o que será da Ello, mas a Diaspora naufragou devido a uma mistura de obstáculos internos e de contexto econômico-cultural. Isso não impediu que seus criadores fossem assediados pela mídia e erguidos em pedestais cedo demais, muito antes que suas ideias pudessem se provar eficientes e realmente transformadoras. A narrativa de ascensão e queda da Diaspora, dramática porque envolve até mesmo um suicídio, é fruto, em parte, da cultura TED Talks – era esperado por todos os lados que eles condensassem um amadurecimento de ideia aceleradamente. Live fast, die young. O ditado cinquentão ainda faz sentido na era digital.

Narrativas de transformação dificilmente cabem em videocases ou posts, mas podem dar livros interessantes. Procure a trilogia de Fernando Gabeira, por exemplo. Em O que é isso, Companheiro?,  O Crepúsculo do Macho e Entradas e Bandeiras o ex-guerrilheiro conta a longa, batalhada e dolorosa transformação pela qual passou antes, durante e depois da ditadura. Só não espere lições de vida ou listas de atitudes positivas. Outra boa dica é Jovens de um novo tempo, despertai onde o Nobel de Literatura Kenzaburo Oe tenta “explicar todas as coisas do mundo” a seu filho deficiente e se perde nos próprios devaneios e dificuldades tentando triangular a relação com o menino, seu projeto literário e seu amor pela poesia de William Blake. Impossível condensar essa história de transformação em um post de Facebook. Se ainda não estiver convencido, leia Depois do Êxtase, Lave a Roupa Suja, coletânea de centenas de entrevistas do professor de meditação americano Jack Kornfield com monges, lamas, padres, freiras e outros mestres espirituais sobre o lado B da vida espiritual. Acho que nenhum deles ali palestrou no TED.

Em resumo, é bacana e bem vindo que exista no ar essa energia que tende à mudança, à busca de novas perspectivas, de alargamento de horizontes. Mas ela é melhor acompanhada por uma dose certa de ceticismo, daquele tipo que não desestimula a busca por transformação mas que também não aceita tratar de um assunto tão importante com uma abordagem de programa de auditório hipster. O padre jesuíta John Culkin disse no século passado que “Moldamos nossas ferramentas e nossas ferramentas nos moldam”. Neste século, quando a comunicação e a linguagem são forças dominantes mais do que o trabalho, poderíamos dizer: “Moldamos nossas narrativas e nossas narrativas nos moldam”. É algo no qual vale a pena prestar muita atenção.

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Na verdade, se formos um pouquinho mais fundo, vamos encontrar essa narrativa incorporada fortemente à cultura americana, que continua sendo uma das grandes influências da cultura global, não importa o que falem sobre a Ásia ou a América Latina. No dia 11 de setembro, ironicamente,  o The New York Times publicou em sua revista de varieadades um longo ensaio chamado “A Morte da Idade Adulta na Cultura Americana”. Nele, o crítico de cinema A.O.  Scott traça uma linha que começa na literatura do século XIX do seu país e chega até os seriados e as sagas literárias atuais ressaltando, entre outras coisas, sua ode ao escapismo. E cita Love and Death in The American Novel, escrito na década de 60 pela crítica literária Leslie Fiedler, que diz: “Um dos fatores que determina o tema e forma de nossos maiores livros é a estratégia de evasão, essa retirada para a natureza e para a infância que faz nossa literatura (e nossa vida!) tão encantadoramente e irritantemente masculina (boyish).” Não é difícil associar esse tipo de mentalidade com a cultura TED Talks / Vale do Silício.

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Se você gostou desse texto, talvez curta meus próprios relatos de mudança:

– A busca pelo sentido no trabalho e as videocassetadas.

– Por uma vida mais ordinária.

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Fotos: Raumrot

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Sabedoria na Era da Informação: um ensaio visual

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Já não é mais nenhuma novidade destacar que estamos, hoje, soterrados de informação e com grande dificuldade de processar tudo a que temos acesso. Mas, ao mesmo tempo, é justamente essa situação sufocante que torna válido chover no molhado quando o assunto é “infotoxicação”. O vídeo abaixo, um ensaio visual escrito pela Maria Popova do Brainpickings e posto em movimento pelo animador Drew Christie, é mais um lembrete da necessidade de olharmos com mais atenção para o cenário de mídia em que vivemos e a busca por novas formas de construir sentido tanto no âmbito individual quanto coletivo.

Abaixo do vídeo vai a transcrição do texto, que eu traduzi pra vocês.

“Vivemos em um mundo repleto de informação, mas parece que estamos enfrentando uma crescente escassez de sabedoria. E, o que é pior, confundindo as duas coisas. Acreditamos que ter acesso a mais informação produz mais conhecimento, o que resulta em mais sabedoria. Mas, se há algo claro, é que o oposto é verdadeiro – mais e mais informação sem o contexto e interpretação adequados só atrapalha a nossa compreensão de mundo em vez de enriquecê-la.

Esta avalanche de informação facilmente disponível também criou um ambiente em que um dos piores pecados sociais é parecer desinformado. Em nossa cultura, é extremamente constrangedor não ter uma opinião sobre algo. De forma que, para parecermos informados, construímos nossos assim chamados pareceres às pressas, com base em pedaços fragmentados de informações e impressões superficiais, em vez de basear-nos em uma compreensão autêntica.

“Conhecimento”, Emerson escreveu: “é o saber que não podemos saber.”

Para capturar a importância disso, primeiro é importante definirmos esses conceitos como uma escada de entendimento.

Na base da escada está uma unidade de informação, que simplesmente nos conta algum fato básico sobre o mundo. Acima disso vem o conhecimento – a compreensão de como os diferentes pedaços de informação se encaixam para revelar algumas verdades sobre o mundo. Conhecimento depende de um ato de correlação e interpretação. No topo está a sabedoria, que tem um componente moral – é a aplicação da informação que vale a pena lembrar e do conhecimento que é importante para a compreensão não só de como o mundo funciona, mas também da forma como ele deve funcionar. E isso requer uma estrutura moral do que deve e não deve importar, bem como um ideal do mundo em seu mais alto potencial.

É por isso que a figura do contador de histórias é ainda mais urgente e valiosa

Um grande contador de histórias – seja um jornalista ou editor ou diretor ou curador – ajuda as pessoas a descobrirem não só o que importa no mundo, mas também por que aquilo é importante. Um grande contador de histórias dança escada do conhecimento acima a partir de informações passando pelo conhecimento até chegar na sabedoria. Através de símbolos, metáforas e de associações, o contador de histórias nos ajuda a interpretar as informações, integrá-las com o nosso conhecimento existente e transmutar aquilo em sabedoria.

Susan Sontag disse uma vez que “a leitura estabelece padrões.” Storytelling não só estabelece padrões, mas, no seu melhor, nos faz querer viver de acordo com eles para transcendê-los.

Uma grande história, então, não é simples fornecimento de informações, embora certamente ela possa informar. Uma grande história convida a uma expansão da compreensão, a uma auto-transcendência. Mais do que isso, ela planta a semente para isso e torna impossível fazer qualquer coisa além de cultivar uma nova compreensão – do mundo, de nosso lugar nele, de nós mesmos, de algum aspecto sutil ou monumental da existência.

Num ponto em que a informação é cada vez mais barata e sabedoria cada vez mais cara, essa lacuna é o lugar onde reside o valor do contador de histórias moderno.

Eu penso da seguinte maneira.

Informação é ter uma biblioteca de livros sobre construção naval. Conhecimento é o que se aplica na construção de um navio. Acesso à informação – aos livros – é um pré-requisito para o conhecimento, mas não uma garantia do mesmo.

Uma vez que você construiu seu navio, a sabedoria é o que lhe permite navegar sem afundar, protegendo-o da tempestade que toma o horizonte na calada da noite, manobrando de forma que o vento sopra vida em suas velas.

Sabedoria moral ajuda a perceber a diferença entre a direção certa e a direção errada na condução do navio.

Um grande contador de histórias é o capitão gentil que navega seu barco com enorme sabedoria e coragem sem limites; que aponta o nariz na direção de horizontes e mundos escolhidos com o idealismo e a integridade inabaláveis; que nos traz um pouco mais perto da resposta, a nossa resposta particular, para aquela grande questão: por que estamos aqui?”

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Leia também:

– O tempo perdido do gerenciamento de mídias digitais.
– Quando a mente entra em estado de Facebook

Por que Richard Dawkins pisou na bola ao sugerir o aborto de fetos com Síndrome de Down

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No último dia 20 de agosto, o cientista inglês Richard Dawkins, célebre defensor do pensamento científico racional, do evolucionismo e do ateísmo, causou uma onda de revolta na internet após publicar na sua conta do Twitter uma resposta a uma seguidora que soou a muitos ouvidos como uma declaração eugenista, de alguém que prefere eliminar da face da Terra seres humanos com defeitos congênitos. Durante um diálogo travado diretamente na rede social, a seguidora de Dawkins comentou, citando-o, que não saberia o que fazer se descobrisse que estava carregando na barriga um feto com Síndrome de Down. Dawkins respondeu, também citando-a: “Aborte e tente de novo. Seria imoral trazê-lo ao mundo se você tiver escolha”. No dia seguinte, após ter percebido a barbeiragem que fez, o biólogo publicou em seu site uma longa nota que misturava desculpas com esclarecimentos filosóficos acerca de sua posição pró-escolha do aborto. Nela, admite ter se expressado de forma grosseira e insensível em 140 caracteres, mas sustenta que “se a sua moralidade é baseada, como a minha, no desejo de incrementar a felicidade e reduzir o sofrimento, a decisão deliberada de dar à luz a um bebê com Síndrome de Down quando pode escolher abortá-lo nos primeiros estágios gravidez poderia ser, na verdade, imoral do ponto de vista do bem estar da criança”.

Ao tomar contato com essa história, minha primeira reação interna foi uma que Dawkins critica: revanchismo baseado na conexão emocional com meu filho de dois anos e meio portador de uma outra síndrome (falo disso mais adiante). Fiquei irritado e pensei em escrever algum rápido desaforo no Facebook, tagueando pessoas que sei que são fãs de Dawkins (“olha aí, o amigo desalmado de vcs!!”). Mas, diferente dele, já aprendi que redes sociais e reações impulsivas não combinam e fiz um esforço para tentar organizar o que fosse possível dos meus sentimentos antes de escrever qualquer coisa, buscando uma perspectiva com um tempero mais racional que colabore de forma mais positiva para esse debate. Abaixo vai o resultado.

Primeiro ponto: embora eu não considere Dawkins facista, eugenista ou desalmado, tenho certeza que tanto sua abordagem desastrada no Twitter quanto a nota de esclarecimento em seu site são profundamente prejudiciais para uma cultura de aceitação da diversidade não apenas no que diz respeito a portadores de Síndrome de Down, mas sim com todo e qualquer tipo de diferença. Dawkins deixa claro que quando fala de aborto se refere a fetos e quando fala de fetos não os considera ainda humanos compleamente formados, passíveis de sofrimento (não vou entrar nessa discussão aqui). Além disso, ainda ressalta que “existe uma profunda diferença moral entre ‘esse feto deveria ser abortado agora’ e ‘essa pessoa deveria ter sido abortada muito tempo atrás’. Mas, minúcias filosóficas à parte, a mensagem que se propaga é tão simples quanto seu tweet original: escolher ter um filho com síndrome de Down sabendo desde os primeiros estágios que ele vai crescer com limitações é imoral na opinião de um dos mais importantes cientistas do mundo, especialista em evolucionismo. Por mais controverso que seja Richard Dawkins, o efeito social disso não é nada desprezível.

Segundo ponto: provavelmente escapa a Dawkins a tremenda ironia de sua declaração, já que é justamente esse tipo de atitude que torna a vida de qualquer pessoa com deficiência mais difícil e mais sofrida. Antes de mais nada, não faz bem a ninguém ser considerado abortável em retrospecto e, mais uma vez, a explicação de que ele não está falando de humanos completamente formados mas de fetos não é contrapeso suficiente quando temos séculos de preconceito e incompreensão entranhados em nossas estruturas sociais e políticas. Na maior parte do mundo, inclusive nos países mais desenvolvidos economicamente, os indivíduos considerados diferentes da média ainda encontram grandes dificuldades para serem reconhecidos como pessoas e cidadãos. Acesso a tratamento, educação e convivência são frequentemente conquistados graças à luta ferrenha de pais, parentes, ativistas e dos próprios “diferentes”. Na base de obstáculos burocráticos, médicos ou práticos está sempre a dificuldade em ser reconhecido como um ser humano completo.

Como escreve Andrew Solomon em Longe da Árvore, comentadíssimo livro que mergulha no universo de dez categorias de minorias: “Na vasta literatura sobre os direitos dos deficientes, os estudiosos enfatizam a separação entre impairment (dano, debilitação), consequência de uma condição orgânica, e disability (incapacidade, deficiência), resultado do contexto social. Ser incapaz de mover as pernas, por exemplo, é uma debilitação, mas não poder entrar em uma biblioteca pública é uma incapacidade.” Ou seja, muitas das restrições que tornam menos feliz a vida de deficientes, para usar o parâmetro moral de Richard Dawkins, não são fruto de suas limitações, mas sim das limitações do contexto social que os rodeia e da incompreensão acerca de seus direitos e necessidades. Incompreensão essa que Dawkins acaba de ajudar a amplificar.

Nesse sentido, o capítulo sobre Síndrome de Down de Longe da Árvore é asustador para os padrões contemporâneos – mas muito pedagógico. Está tudo lá, com fontes: no século 19, os Downs eram considerados por alguns estudiosos como “pesos mortos para a prosperidade material do Estado.” A Suprema Corte Americana, no final da década de 20, promulgou uma decisão pela esterilização forçada de pessoas com deficiências intelectuais que durou cerca de 50 anos. Em 1968, a respeitada revista Atlantic Monthly publicou um artigo de um especialista em ética que sugeria não haver culpa em se abandonar um bebê com Síndrome de Down porque “a verdadeira culpa surge apenas de um crime contra uma pessoa e alguém com Down não é uma pessoa”. Foi só a partir dos anos 70 que se passou a considerar que portadores de Síndrome de Down poderiam ser estimulados a evoluir intelectualmente e funcionalmente, o que em pouco tempo provou ser viável em um nível absolutamente inimaginável nas décadas anteriores. Eu sei que Dawkins não refuta isso e nem defende diretamente a redução de oportunidade de crescimento para qualquer pessoa com deficiência, mas suas declarações são facilmente depositadas na conta dos deficientes como um pesado débito. De novo: se ele quer mesmo incrementar a felicidade, como reza sua moralidade, seu tweet não está colaborando.

Terceiro ponto: um artigo no The New York Times, motivado pelo tweet de Dawkins, reuniu uma série de estudos que, entre outras coisas, comprovam que jovens adultos com Síndrome de Down tem habilidades adaptativas mais sofisticadas do que sugerem seu baixo QI, o que impacta diretamente numa melhor probabilidade de qualidade de vida. O texto ainda coloca: “os dados indicam que pessoas com Síndrome de Down e os familiares que os cuidam sofrem menos do que se supõe. Além disso, mesmo que a Síndrome de Down interponha desafios inquestionáveis, pesquisas sobre opções de tratamento sugerem que há base para um otimismo cauteloso. Em qualquer cálculo moral que o Sr. Dawkins e outros possam querer fazer, esses fatos merecem ser levados em consideração com seu devido peso.” Sob esse ângulo, tanto a declaração original quanto a explicação extensa de Richard Dawkins soam, no mínimo dos mínimos, mal informadas.

Tenho um filho de dois anos e meio que tem Síndrome de Prader Willi, que é diferente da Síndrome de Down (tenho um sobrinho com Down) mas, para efeitos práticos, não muito menos complicada de se lidar. Logo, é claro que escrevo esse texto com o espírito do pai que quer proteger o filho e se proteger de vê-lo sofrer em dobro, pela sua condição e por conta de uma cultura de diversidade recente, frágil, ainda passível de ser corroída por declarações ignorantes. Mas também tem outro motivo que é ao mesmo tempo egoísta e amplamente social: a convivência íntima com uma pessoa que nasceu e vai crescer tão diferente do que eu imaginava ressaltou minhas próprias inclinações não-conformistas. Apesar de ainda precisar negociar todos os dias com meus próprios preconceitos e bloqueios internos na aceitação do diferente (e eles não são poucos), me dou ao direito de parafrasear Andrew Solomon: “Odeio a perda de diversidade no mundo, ainda que às vezes fique um pouco desgastado por ser essa diversidade.”

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A Síndrome de Prader Willi, que meu filho tem, é uma condição genética um pouco mais rara do que a Síndrome de Down. Se você quer conhecer, leia o material abaixo e cuidado com o que encontra no Google. Há muitos textos e vídeos alarmistas, que tratam os casos mais severos com um certo sensacionalismo. Na apresentação abaixo há links para fontes confiáveis.

Bits & Kids – liberdade perante a tecnologia digital

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Em outubro de 2011, o especialista em tecnologia Jean-Louis Constanza publicou no YouTube um vídeo de sua filha de 1 ano mexendo em um iPad e depois em uma revista. Nas cenas que duram apenas 1 minuto e 25 segundos, a menina passa as telas do iPad para o lado com os dedos e toca nos aplicativos querendo abri-los. O tablet, claro, responde a seus comandos desajeitados. Em seguida, ela tenta usar outros gestos para interagir com a revista, mas não obtém resultado algum: as fotos não passam, os elementos não abrem, enfim, nada de interativo acontece nas páginas impressas. O título do vídeo expõe a visão de seu autor – “uma revista é um iPad que não funciona”.

Na época da postagem original, o vídeo se espalhou pela internet e até hoje continua angariando visualizações. Mais de 4 milhões e 300 mil pessoas já o assistiram no YouTube e a audiência crescente é seguida de comentários que se dividem entre os deslumbrados pela familiaridade das novas gerações com a tecnologia digital e os críticos do que seria uma exposição precoce de um bebê a uma tela interativa. No livro As Teorias da Cibercultura, o mestre, doutor e professor de comunicação da UFRGS e da PUC-RS Francisco Rüdiger classifica essas duas reações à tecnologia como “fáusticas” e “prometéicas”. Fáusticos são os que, num paralelo com a antiga lenda germânica do Dr. Fausto, consideram a tecnologia uma criação humana que pode se emancipar e nos levar à destruição. Os prometéicos, como no mito grego de Prometeu, acham que a tecnologia é a grande solução para todos nossos males e por isso qualquer sacrifício para obtê-la e mantê-la é válido. Fáusticos e prometéicos, segundo Rüdiger, concordam num ponto: enxergam a tecnologia como dona de “um poder autônomo, com uma dinâmica própria.”

Não é pra menos que nós (junto com a maioria dos estudiosos) pensemos assim. Nos últimos dez ou quinze anos, fomos soterrados pela comunicação da indústria da tecnologia nos dizendo “agora você pode fazer o que quiser, na hora e lugar que escolher”. A própria estrutura da tecnologia digital se baseia na ideia de uma conectividade ininterrupta e onipresente. Isso acabou estabelecendo que “é assim mesmo” que se usa um celular ou um computador: atendendo a todos os estímulos que eles lançam – a qualquer hora e em qualquer lugar que escolherem. Mesmo aqueles usuários que se opõe ao uso exagerado das novas tecnologias aceitam essa noção, colocando-se como bravos resistentes em um cenário dramático. Em alguns meios mais conectados, desconectar-se ganhou ares de heroísmo, o que acaba por confirmar a tese de que a conexão total é inevitável.

Bill Fecych and Don Johnson in control room in 1959.

Quando nos deslumbramos ou nos apavoramos com uma criança que mexe com desenvoltura em um iPad, perdemos uma perspectiva de liberdade e conferimos uma certa aura mágica e misteriosa à tecnologia digital. Não há dúvidas de que essas cenas sejam cativantes, mas a verdade é que precisamos mostrar para as crianças de uma vez por todas quem é que manda – não quem é que manda nelas, e sim nos aparelhos, sites e aplicativos que usamos diariamente. A maior parte deles é bem mais carente do que nossos filhos pois foram desenvolvidos de forma que precisamos lhes dar uma atenção tão constante que nem o mais indefeso dos bebês consegue rivalizar. É muito fácil nos deixarmos levar pelo mar de notificações e conteúdos que chegam sem parar via email, mensagens de texto, chats e feeds de redes sociais porque esses sistemas são construídos assim, para gerar fluxos e engajar nossa atenção 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano até o fim dos tempos. Mas, apesar de parecer, eles não tem vida própria e é uma decisão particular de cada um de nós aprender a regular a entrada de notificações e conteúdos em nosso campo de interesse. Está literalmente nas nossas mãos decidir quando vamos ler ou assistir o que está chegando.

Essa automomia perante os estímulos é a habilidade crucial que precisamos desenvolver e ensinar a nossos filhos, porque o rio de informações digitais é ininterrupto e virtualmente infinito. Sempre haverá o que ler ou assistir e se você não coloca os limites, não espere que o Facebook canse de lhe avisar das fotos novas do seu amigo ou que o YouTube encerre as transmissões na madrugada como faziam as antigas emissoras de TV. Como diz o teórico de mídia americano Douglas Rushkoff, “programe ou seja programado”. Quando seus filhos vêem você pular para pegar o celular a cada 30 segundos, não tenha dúvida de que eles vão crescer achando que isso é o que se faz com um celular. Portanto assuma o controle do seu uso digital, estabeleça seus próprios horários e métodos. Não seja escravo do fluxo de informações e você será um exemplo vivo de como lidar com os excessos induzidos pela tecnologia digital.

No livro “Como viver na era digital”, o escritor inglês Tom Chatfield oferece uma dica mais prática e equilibrada: devemos aprender a tirar o melhor dos momentos conectados e dos momentos desconectados. Quando estamos conectados, é hora de pesquisar, coletar informações, obter diferentes visões, mergulhar na produção digital coletiva da humanidade. Quando estamos desconectados, é hora de analisar, filtrar e costurar o que absorvemos quando estávamos conectados. A alternância coordenada entre essas duas modalidades complementares é outra ferramenta valiosa que precisa ser incorporada à educação das crianças. Diz Chatfield: “Simplesmente depreciar um dos dois não serve para nada pois cada um representa um conjunto diferente de possibilidades para o pensamento e a ação. Em vez disso, devemos aprender a nos perguntar – e ensinar nossos filhos a se perguntarem – quais aspectos de uma tarefa, e do viver, são melhores servidos por cada um.”

Esse é o detalhe que passa despercebido no vídeo de 4 milhões e 300 mil visualizações no qual um bebê confunde uma revista com um iPad. Encantador e desconcertante, ele é o retrato da nossa relação com a tecnologia digital. Estamos todos na primeira infância de um novo momento histórico, metendo os pés pelas mãos, perdidos com a função e o conteúdo de cada uma das ferramentas que estão à nossa disposição. A tecnologia digital nos oferece um tipo de autonomia às custas de outra. Pagamos pela magia com nossa atenção irrestrita e assim o “faça o que quiser na hora e lugar que escolher” acaba se tornando “faça o que estamos estimulando você a fazer o tempo todo em todo lugar”. Existem muitas facetas – econômicas, políticas, artísticas e filosóficas – nessa questão, mas por hora basta lembrar que a chave para um uso produtivo das tecnologias digitais é não cedermos à ideia de que elas tem uma vida autônoma mas nós assumirmos nossa autonomia – ensinando às crianças e adolescentes a também serem autônomos e, em última instância, verdadeiramente livres.

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Artigo publicado originalmente na edição 66 da revista Estilo.

Imagem 1: ilustração de Guilherme Dable para revista Estilo.
Imagem 2: New Old Stock
Imagem 3: tradução de lâmina de apresentação de Tom Chatfield para o projeto Sicredi Touch por DZ Estudio.

"Faça o que você faz. Ame o que você ama."

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Foi com esse título que a poeta Camille Rankine abriu um post recente no site da Poetry Foundation comentando o fato de que não há dinheiro no mundo da poesia e que não é demérito ou derrota ter um emprego comum, fora das artes, sustentando o seu amor. A questão está longe de ser nova, mas vem sendo revisitada pela cultura millenial e desafiada por um dos mantras mais poderosos do cânone não-escrito dessa geração: “encontre algo que você ama fazer e nunca mais trabalhe na vida”.

O post de Camille começa justamente com uma bravata de um universitário durante uma aula de escrita. “Não há dinheiro nessa coisa de poesia” ela disse à turma. “Você está se vendendo fácil” desafiou o aluno. Pra responder a isso, em vez de se perder em uma argumentação qualquer a respeito das escolhas e dificuldades de vida que porventura ela tenha passado, Camille escolheu olhar por baixo do conceito de trabalho:

“Eu acho que trabalho é algo pelo qual nós, americanos, meio que nos apaixonamos. Nós tendemos a nos definir pelo nosso trabalho. Mas nesse contexto, quando eu digo trabalho, eu quero dizer como é que ganhamos o dinheiro do dia-a-dia. Quando alguém numa festa pergunta ‘o que você faz?’, essa pessoa não quer dizer ‘o que você faz pra se divertir? O que você faz porque tira alguma satisfação daí? Que atividade em que você se engaja que dá sentido à sua vida?’ A pessoa em geral não quer ouvir sobre seus bordados ou sobre as maratonas de seriados no Netflix. A menos que você tenha transformado isso tudo em negócio. (…) Ela quer saber pelo que você é pago. Isso é, em geral, a primeira coisa que qualquer um quer saber sobre você.

Eu tenho trabalhado em alguma coisa ou outra desde que eu tinha quinze anos. Existe valor nesse trabalho, eu acho. É o tipo de trabalho no qual você dá duro, não porque você ama aquilo, mas porque você tem que fazer e, pra alguns de nós, você quer fazer aquilo bem. Mas esse tipo de trabalho não é o que me define. Ainda assim, muito frequentemente, o seu trabalho é compreendido como o que você é, como a coisa mais valiosa que você tem a oferecer pra sociedade. E, na nossa sociedade, valor é geralmente compreendido em termos econômicos. (…)

Os poetas existem, em sua maioria, fora de todo esse nosso sistema capitalista e seus construtos. E isso confunde muita gente. Não tem dinheiro nisso e ainda assim NÓS CONTINUAMOS ESCREVENDO O QUE HÁ DE ERRADO COM A GENTE??! A poesia morreu! Poesia não importa! Se não está rendendo dinheiro, qual é o objetivo? É claramente irrelevante!!!! Acordem, poetas, vocês estão vivendo uma mentira!!!”

O texto segue em uma série de anotações sobre o estado industrial da poesia e fecha com o seguinte:

“Como eu disse praquele estudante desapontado, não me entenda mal. Eu tenho ambição. Eu só não a exponho demais. A minha ambição é apenas uma porção da chama que mantém aceso o forno nas minhas entranhas. Claro que eu quero fazer algo que queime você. Sim, eu suponho que isso é trabalho. É trabalho porque é muito difícil de fazer. Tenha ou não um contracheque envolvido.”

Tendo vivido intensamente o meio independente brasileiro dos anos 90 (e seus estritos códigos culturais) é impossível não ser tocado por essa linha de pensamento. A pergunta que mais ouvi nessa época, por conta dos Walverdes, foi: “você vive da banda”? Essa era uma obsessão patológica da “cena” nos anos 90, uma cobrança constante que no fim dependia muito menos das bandas e mais da macroeconomia e de questões estruturantes da cultura no país. Ou seja, responder “eu não vivo da banda” parecia que dizia respeito às competências daquele grupo específico quando na verdade era algo que dizia respeito a todo um sistema tentando emular o funcionamento cultural dos Estados Unidos e da Inglaterra. O que não daria certo nem em um milhão de anos.

O mais curioso é que a pergunta “você vive da banda”, no fim das contas, tem sua própria poética – porque ela não fala diretamente em dinheiro. “Viver da banda”, assim como “viver de poesia”, é uma expressão que carrega uma das ambiguidades mais bacanas: o que significa “viver de algo?” Significa apenas que aquele algo paga suas contas? É algo que me pergunto com frequência.

Enfim, esse papo rende.

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O post completo está aqui: Do What You Do, Love What You Love.

Obrigado ao Guilherme Dable pela dica de leitura.

Já escrevi mais ou menos sobre esse assunto nos seguintes posts:

* A busca pelo sentido no trabalho e as videocassetadas

* Por uma vida mais ordinária

Imagem: New Old Stock.

Another Earth: como seria ter uma segunda chance em uma segunda Terra?

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A divulgação, na semana passada, da descoberta de um exoplaneta com dimensões parecidas com as da Terra, atiçou a curiosidade mundial e deu corda à imaginativa audiência da internet. O que se sabe sobre o distante Kepler 186-F não é muito: ele tem o raio de tamanho muito próximo ao da Terra, orbita uma estrela “anã vermelha” e está no limite da chamada Zona Habitável, ou seja, a região do seu sistema solar que permitiria a existência de água em estado líquido, uma condição pra existir também vida como conhecemos. Nada disso significa que o Kepler 186-F seja uma réplica da Terra ou então habitada por algum tipo de extraterreste humanóide. Mas o que se descobriu bastou pra espalhar pela rede manchetes sugestivas falando, em geral, do “planeta mais habitável e mais parecido com a Terra já identificado até hoje”. Quando as manchetes tomaram conta do Facebook, automaticamente me lembrei de Another Earth, um filme meio indie, meio esquisitinho, sobre os desdobramentos da presença de uma segunda Terra na órbita da nossa Terra. Another Earth começa na noite em que a jovem Rodha Williams comemora sua entrada no curso de Astrofísica do MIT. Dirigindo pra casa, bêbada, ela ouve no rádio a notícia da descoberta da Terra 2, procura pela novidade no céu, se distrai e bate violentamente no carro de uma família qualquer, matando a mãe, o filho e deixando o pai em coma. Anos depois, após cumprir sua pena, Rodha tenta reconstruir a vida e acaba tomando dois caminhos excludentes: se aproxima do pai sobrevivente, já saído do coma, e se inscreve em um concurso que vai distribuir as primeiras viagens à ainda inexplorada e desconhecida Terra 2. Um dos grandes charmes do filme é a ausência de explicitações: não sabemos como é que a força gravitacional da Terra 2 não afeta a nossa Terra; não sabemos exatamente o que Rodha pretende ao procurar o pai-viúvo; não sabemos o que ela planeja fazer ao desembarcar no segundo planeta; e, o melhor de tudo, não sabemos muito bem que esforços os governos e empresas da Terra 1 estão empreendendo para saber mais sobre a Terra 2, o que significa que não há cena alguma do Salão Oval da Casa Branca, de laboratórios com cientistas heróicos e muito menos de hangares da Força Aérea se preparando para o combate. O único ponto mais ou menos óbvio em Another Earth é a temática da segunda chance e da estranha gravidade que atrai pessoas que estão, por algum motivo, fora de lugar. Nem mesmo a outra Terra está onde deveria estar, em termos narrativos clássicos de Hollywood: ela aparece o tempo todo no filme estampando o céu como um poderosíssimo coadjuvante e não no eixo principal do roteiro. Another Earth não é um filme do quilate de um 2001 ou (como escreveu Roger Ebert) de um Solaris. Mas tem uma trama e um clima totalmente conectados com a questão de fundo da cultura contemporânea: como lidar com a fluidez compulsória a que estamos todos submetidos, com essa necessidade nos reinventarmos periodicamente diante da enxurrada veloz de mudanças que parecem ter acelerado o curso da história. Em qualquer outra época, a mera possibilidade de exisitir um planeta similar à Terra produziria frenesi, mas dessa vez as reações parecem ter sido mais comedidas mesmo que numerosas. Claro: antigamente, essa era uma ideia de ficção científica, do fantástico, do inconcebível. Hoje, ela é estranhamente familiar, já que o conceito de segunda chance se tornou um item de uso diário, algo que se almeja e se exercita cotidianamente e não em condições de pressão insustentável como aconteceu com Rodha Williams em Another Earth.

A ressaca do "faça o que você ama"

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Ao que tudo indica, a era do “Faça o que você ama. Ame o que você faz.” ou “Encontre algo que você ama fazer e nunca mais trabalhe.” está ganhando sua própria ressaca – ao menos como discurso clichê. Parte inegável de um pedaço da cultura contemporânea, esses mantras nasceram em nichos mais elitistas, cresceram ao ponto de se espalharem por matérias de grandes veículos e ganharam sua encarnação mais pop na figura de Steve Jobs. Mas… todo carnaval tem seu fim.

Recentemente, tenho visto circular uma série de textos que parecem querer denunciar a fragilidade da aplicação generalizada desse raciocínio. A Slate publicou um artigo de Miya Tokumitsu (traduzido pelo Papo de Homem)  dizendo: “A elite abraça o mantra Faça o que Você Ama. Mas isso desvaloriza o trabalho e machuca os trabalhadores.” O Pedro Burgos no OENE comentou o novo livro do Dave Eggers que, segundo ele, “imagina o que o futuro nos reserva se confiarmos nas utopias que nos vendem hoje.” Fê Neute, no Feliz com a Vida, diz que “Siga Sua Paixão Pode Ser um Conselho Furado.”, além de lembrar de “5 Motivos pelos Quais Você Não Deve Largar Seu Emprego para Viajar pelo Mundo.” Até a Fast Company, que vive incitando as pessoas a serem mais amalucadamente produtivas publicou um post com o título “6 motivos pelos quais você deve abraçar a procrastinação” (mas é meio falcatrua, porque é pra você ser mais produtivo, logo, não é procrastinação de verdade).

Toda onda cultural é refém de seus exageros e seguida de uma espécie de versão sua em negativo. Vai ver é isso o que o estudo Youth Mode identificou como sendo o tal do NORMCORE. Por essa lógica, é bem provável que em breve seja cool ter um trabalho comum, com carteira assinada, horário fixo e que você não goste tanto. O que, claro, nunca deixou de ser uma opção para a maior parte das pessoas, seja por inclinação ou porque é o que suas condições permitem.

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Leitura complementar.

Escrevi sobre esse assunto e suas redondezas nos seguintes posts.

Softer, Worser, Slower, Weaker: Steve Jobs e os clichês da liderança para inovação.

A busca pelo sentido no trabalho e as videocassetadas.

Frances Ha e a obsessão contemporânea por dar certo.

Por uma vida mais ordinária

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Foto: New Old Stock