As eleições deste ano vão ser pura cultura pop

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A combinação de eleições com internet é indiscutivelmente explosiva. Por mais que as campanhas eleitorais no Brasil tenham um pé no pitoresco desde sempre, foi só com o avanço da cultura digital dos últimos dois anos que o marketing político começou a experimentar um outro tipo de relação com o ambiente de comunicação nacional, tendo que levar em consideração um refluxo gigantesco de conteúdos que estão além do controle de políticos e marqueteiros. Esses não são conteúdos que necessariamente mudam os rumos de uma eleição, mas, no mínimo, tornam o diálogo com o eleitor mais complexo e, veja só, mais pop.

Em 2012, tivemos um gostinho do futuro: foi o ano em que o acesso à banda larga fixa e o acesso à internet por celular cresceram substancialmente no país. Além disso, também foi quando o Facebook teve seu verdadeiro boom local, crescendo quase 300% em número de usuários em relação a 2011 e chegando à marca de 35 milhões de brasileiro curtindo e compartilhando tudo que se mexia. Essa nova infra-estrutura fez com que 2012 nos trouxesse: as primeiras guerras de memes políticos, com o Serra liderando o ranking nacional de “memíveis”; um fórmula de sucesso para o jornalismo alternativo na combinação de leitores-ativistas com um ecossistema de disseminação em redes sociais; uma guerra (muitas vezes clandestina) de contra-informação entre partidos; e o fenômenos dos amigos chatos que poluem a sua timeline com campanha para seus candidatos.

Apesar de terem se passado apenas dois anos, as eleições de 2014 vão acontecer em um terreno bastante diferente. Não se trata só de novas estatísticas de telecomunicações, de mais acessos à internet, mais celulares conectados e um Facebook que dobrou de alcance. O que importa, na verdade, é o número maior de pessoas que entrelaçou seu jeito de conversar com colegas de trabalho, familiares e amigos usando os códigos da cultura pop A manipulação de imagens, a edição sarcástica de vídeos, o poder de repassar conteúdos para sua rede, o uso de personagens/bordões/roupas/logotipos de filmes, séries e músicos na comunicação do cotidiano, tudo isso que era uma forma de comunicação dominada e utilizada apenas por nerds e indies está se universalizando. O papa não é mais pop. O papa é meme.

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Agora em março, três eventos em sequência estabeleceram, a meu ver, a abertura oficial das Eleições 2014 no que diz respeito a esse uso de linguagem. Primeiro, o deputado federal Beto Albuquerque discutiu pelo Twitter ao vivo com o real-fake Dilma Bolada, protagonizando um momento fascinante de cruzamento da vida digital com a política dita real. Onde começa uma e termina outra? Em segundo lugar, a queda de braço de Eduardo Cunha com o Planalto lhe deu, na capa da Istoé e em uma reportagem da Carta Capital, o direito de ser comparado (justissimamente) com o congressista sem escrúpulos Frank Underwood, do seriado House of Cards (veiculado exclusivamente em streaming, vale lembrar). Em terceiro lugar, a Piauí de março abriu um pequeno artigo sobre o candidato presidencial do PSOL, Randolfe Rodrigues, lembrando que seu apelido no Senado é Harry Potter. Se Dilma Bolada, Frank Underwood e Harry Potter são a comissão de frente desse carnaval, o que nos espera nas alas seguintes?

Não há dúvida que o ambiente de comunicação política esse ano vai incluir ecos do complexo ativismo digital que se formou durante as Jornadas de Junho do ano passado. Mas minha aposta para 2014 é no crescimento da participação mainstream nesse processo, com um acento mais pop, ancorada na disseminação orgânica de conteúdos não-oficiais por parte dos milhões de usuários que vem exercitando no seu dia-a-dia a auto-expressão por referências. Quem vai ser o candidato incluído digitalmente em vídeos de funk ostentação? Ou que vai ter sua foto manipulada pra incluir aparelhos com borrachinhas coloridas nos dentes? Quem será o Voldemort de Randolfe Rodrigues? As complexas coligações partidárias serão comparadas às casas do Game of Thrones? Qual é o estado que vai ter um vídeo com seus candidatos a governador passando pelo crivo dos jurados do The Voice Brasil?

Essas perguntas serão respondidas ao vivo, online, durante a festa da democracia. Uma festa que agora tem evento marcado no Facebook, convite-spam enviado pra todo mundo e grupinho no What’s App. Pode se preparar.

O pós-hype da Economia Criativa

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“Economia criativa” é uma dessas expressões, como “co-criação”, “crowdfunding” e “big data”, que recebem uma atenção tão concentrada no seu surgimento que acabam correndo dois riscos: serem esquecidas rapidamente em benefício de novas ondas ou se tornarem caricaturas que temperam palestras duvidosas. Mas, felizmente, em uma esfera que fica além dos títulos de posts e dos keynotes descolados, forças com intenções mais perenes se articulam para aprofundar as bases do que vale a pena manter de pé. É o caso da Economia Criativa, ao menos pelo que vi no lançamento da Escola da Indústria Criativa da Unisinos no sábado passado. O evento colocou no mesmo palco a Edna dos Santos-Duisenberg, Chefe do Programa de Economia Criativa da United Nations Conference on Trade &  Development, e a Lala Deheinzelin, especialista em Economia Criativa e Desenvolvimento Sustentável. E a fala das duas (assim como o lançamento da Escola) contrapõe a ideia de que a Economia Criativa possa ser apenas um modismo ou um termo bacanudo.

A Edna começou o papo trazendo uma visão panorâmica bem estruturada sobre os caminhos da Economia Criativa no mundo, destacando a importância desse tipo de negócio na recuperação de crises econômicas (é pra EC que alguns desempregados se voltam pelo baixo investimento inicial que exige) e o DNA do Brasil nesse segmento. Segundo ela, a gente tem uma inclinação à Economia Criativa por conta da nossa riqueza cultural e da nossa habilidade natural de misturar e improvisar. O que falta é aprendermos a transformar essa energia em um ecossistema organizado que permita aos criadores evoluir artísitica e economicamente.

Os casos nacionais bem sucedidos em grande escala são poucos mas exemplares (ao menos em termos financeiros): ela citou o Carnaval, as telenovelas e a música popular como indústrias criativas tipicamente brasileiras, calcadas em uma infraestrutura própria e geradoras de divisas e empregos. Além disso, essas três indústrias ainda colaboram na constituição da identidade do país. Edna chama isso de “soft power”, o poder de gerar riqueza e influência sem ativos tangíveis – algo que, crítica social à parte, os Estados Unidos utilizam muito bem na propagação de seu estilo de vida pelo mundo. Particularmente, senti falta, na fala da Edna, de uma ênfase na “cauda longa” da Economia Criativa – as centenas de nichos culturais que não são tão grandiosos ou populares mas que, combinados, se tornam uma força importante. Mas também entendo que ela tinha pouco tempo no palco e seu trabalho ocorre mesmo num nível mais macro. Segue o baile.

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A Lala Deheinzelin, na sua vez, fez outra comparação valiosa para esclarecer por que é tão necessário olhar para a Economia Criativa de forma estruturada e não apenas com as lentes em aros grossos do hype: “Precisamos de uma Petrobrás para a Economia Criativa brasileira”. Não que a Petrobrás precise ampliar seu programa de patrocínios… o que a Lalá quis dizer é que temos também uma espécie de pré-sal cultural que pede mais do que a capacidade de ser alcançado, tem a necessidade de ser processado para se colocar de pé num sentido econômico, para dar sustentabilidade ao circuito criativo. No Brasil, toda atividade criativa ainda sofre um certo preconceito, como se estivesse em um patamar inferior, menos sério, menos importante. O que é uma tremenda injustiça econômica. A Lala lembrou que o potencial da Economia Criativa é gigantesco por funcionar dentro de uma lógica exponencial: a soma de 2 produto físicos gera a renda de 2 produtos físicos; mas a soma de 2 ideias pode dar origem a uma terceira que gera um valor dez ou cem vezes maior do que a das unidades. O potencial para gerar riqueza dentro da Economia Criativa é nuclear.

Tanto a Edna como a Lala enfatizaram ainda o quanto a Economia Criativa tem um aspecto inerente de diversidade e inclusão. Um ecossistema saudável para o crescimento de Indústrias Criativas oferece outros formatos de vida para pessoas que não se adaptam à lógica econômica linear da indústria pesada ou dos serviços convencionais. Fora isso, se trabalhadas de forma anti-hegemônica, as Indústrias Criativas tem o poder de revelar e amplificar diferentes ângulos da nossa cultura, influindo inclusive sobre a auto-estima de segmentos inteiros da população. Pode ser uma visão otimista da minha parte, mas acho que vale a pena olhar assim.

Em resumo, a Economia Criativa precisa mais do que deslumbre que jogaram sobre ela há alguns anos. Voltando à fala da Edna, ela lembrou que a atuação governamental, por exemplo, não pode ficar restrita ao Ministério da Cultura. Economia Criativa é assunto transversal, que une ministérios diferentes como os ligados à indústria, ao comércio, à tecnologia, à educação e ao turismo. Um papo nesse nível talvez não pegue tão bem numa roda cool, mas pode fazer maravilhas pelo desenvolvimento do Brasil.

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Foto 1: New Old Stock

Foto 2: Rodrigo Blum, divulgação Unisinos

Tem um tibetano pichando/grafitando Porto Alegre?

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Desde o ano passado, diversas paredes em Porto Alegre tem amanhecido com esses incríveis caracteres…

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… que lembram muito a escrita tibetana, em especial o traço chamado “ume”, olha só:

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Não sei quem é o autor, mas certamente é o mesmo cara (ou menina) que há mais tempo vem marcando a cidade com esse símbolo bacana:

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Alguém sabe quem é?

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A imagem da caligrafia tibetana em ume veio daqui.

 

 

O problema do excesso de auto-mensuração

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Os dispositivos digitais de auto-mensuração individual, como o conhecidíssimo Nike Plus, que mostram em gráficos bacanas os quilômetros que a gente corre, as calorias que a gente gasta, os minutos que a gente dorme e coisas do tipo, trouxeram um aspecto científico e lúdico pras atividades cotidianas. Hoje, já existe aplicativos e dispositivos pra quase tudo. Embora a maior parte deles lidem com estatísticas de atividades físicas, também há espaço para coisas como medir sua felicidade, sua capacidade de atingir metas e seu estado cognitivo. Claro: em se tratando de negócios e cultura digital, não há limites para o que possa surgir.

Eu mesmo já usei o Strava por alguns meses e ele foi bastante útil pra descobrir que as minhas voltas de bicicleta estavam dando conta da atividade física que eu precisava semanalmente. Também, claro, me diverti olhando meus trajetos no mapa e conferindo os tempos de outras pessoas em determinadas áreas da cidade. Mas chegou um ponto que eu já tinha a informação que precisava e resolvi deixar o app de lado pra simplesmente andar de bicicleta.

Não há dúvida que esses apps e dispositivos carregam, além de um forte poder de sedução, uma mistura de utilidade com diversão. Mas também é razoável pensar que eles podem deseducar uma pessoa que tem boa consciência corporal ou impedir alguém de aprendê-la. A consciência corporal seria a capacidade de monitoramento próprio, sem a ajuda de dispositivos: saber ouvir o corpo, ler as sensações, calcular não-matematicamente a resposta que precisamos dar a situações físicas que aparecem, como fadiga ou uma reserva extra de energia que ressurge. Estamos falando de uma capacidade que atrofia se não for utilizada constantemente, se for relegada ao segundo plano, colocada atrás da telinha com os gráficos coloridos. Além do mais, quando afiada, ela transcende visualizações matemáticas.

Esse é um dos aspectos complicados da cultura digital, que costuma ser muito comentado pelo americano Douglas Rushkoff: o contato constante com interfaces digitais reduz nossas expressões a formulários e dados. Queiramos ou não, acabamos tendo que espremer o nosso jeito de ser e de viver em campos pré-formatados e em resultados contados numericamente. Nesse sentido, a linha entre a praticidade e o simples materialismo é quase transparente. Claro que tudo pode ser quantificado e calculado, inclusive o afeto que hoje vem na forma de likes e visualizações – mas o que perdemos com isso?

Não chegamos a perder uns aos outros, o que seria drástico e irreal de se declarar. Antes, podemos perder algo mais sutil, perder uma capacidade interna de avaliação que não é visual, numérica ou mesmo exata. Antes, podemos perder a confiança no que não é visual, numérico ou exato. Ou seja, em boa parte do que consideramos ser a experiência humana de primeira mão.

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Foto: Little Visuals.

Black block contra o consumismo

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Não jogue esse bloco preto na vitrine de um banco! A ideia do holandês Pim De Graaff é que ele sirva de lembrete sólido e presencial do consumismo contemporâneo no meio da sua sala.  Pelo menos, foi isso que ele disse à Fast Company sobre a escultura Nothing, que ele faz à mão e vende diretamente aqui por 29 euros. Sem dúvida a intenção de De Graaff é nobre, mas hoje em dia iniciativas como o Nothing nascem com o perigo embutido de se tornarem o que combatem. Na fanpage do Nothing, já começa a rolar o certo fetichismo pelo bloco. Se Nothing se tornar Something, significa que ele não está funcionando, que ele vem quebrado.

Via Alessandro Carlucci.

 

7 notas para 2014

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1. A questão que vem se impondo anualmente em relação à cultura digital – qual é a próxima rede social da hora? – já foi respondida em 8 de dezembro de 2013 pelo Tiago Doria: é o smartphone. No post “Não espere pelo próximo Facebook” (em inglês), ele faz eco à visão do consultor inglês Ben Evans, o qual considera que o hardware que carregamos no bolso interessa muito mais do que esse ou aquele app. “Talvez seus contatos do smartphone seja sua nova lista de amigos, o WhatsApp é sua nova timeline, o Vine é seu novo player de vídeo. A maneira como você se move entre esses apps cria um novo fluxo e uma instância de uso fluído.” Há um ditado no Vale do Silício – “o hardware é o novo software” – que provavelmente não é usado nesse contexto. Mas deveria ser.

2. Simbolicamente, a ideia do smartphone como rede social se conecta com o fato de que a avalanche de conteúdo à disposição coloca nas nossas mãos a decisão do que e como consumir. Na prática, isso é complicado e deve se complicar ainda mais em 2014. No Brasil, teremos essa combinação que se tornou potencialmente explosiva com as jornadas de junho: Copa, Eleições e um uso mais mainstream de internet. O ano será inevitavelmente cacofônico e a habilidade de consolidar por nós próprios o que está acontecendo ao redor será essencial.

3. Se fosse pra fazer um exercício de síntese, eu diria que a palavra mais importante para 2014 é, justamente, narrativa. No âmbito pessoal e coletivo, narrar significa mais ou menos dar sentido, colocar em sequência os acontecimentos caóticos da vida. Boa sorte pra nós ao tentarmos fazer sentido do que vem por aí esse ano. São grandes as chances de que vivamos situações novas em diversos aspectos culturais, o que é sempre, ao mesmo tempo, curioso e assustador.

4. É por isso que, a ideia de que estamos vivendo uma transição de uma era de conteúdo que se consome em hora e lugar certos para uma era de escolha livre é um pouco capcciosa. Um potente filtro continua (e continuará) sendo feito de um jeito ou de outro, seja pelos grandes portais de notícias, seja pelas primeiras telas de interfaces como o Netflix e o Now da NET. A imensa maioria das pessoas ainda busca alguma bússola para saber o que ler-assistir-ouvir. Não é questão de paternalismo, é uma questão absolutamente prática: com tanto estímulo, pra onde eu olho? Eu diria “pra dentro”, mas isso é assunto pra outro post.

5. Sendo otimista: em um ano cacofônico, há mais espaço para navegação aleatória e na busca por segurança pode prosperar a possibilidade de que as pessoas adotem outros curadores nos quais confiam além dos usuais. Não é preciso que o potencial de pluralidade de mídia se realize de maneira radical: algumas dezenas de veículos digitais independentes que reúnam vozes dissonantes e ofereçam perspectivas contextualizadas já são o suficiente, se não desejável. Meus votos são para que essas dezenas tenham a capacidade de alcançar, mesmo que temporária e controversamente, os milhares ou os milhões.

6. Falando em vozes dissonantes, vale perceber que um ícone importante da cultura digital parece que entra 2014 mais apagadinho: o empreendedor digital como messias. A história da computação e da internet nasceram mescladas com uma mitologia revolucionária. Mas, como escreveu Adrian Wooldrige no The Economist, “os geeks acabaram por se mostrar alguns dos capitalistas mais implacáveis do pedaço”. Tudo bem que os gigantes da cultura digital queiram formar e manter seus oligopólios, mas está mais do que na hora de abrirem mão de uma vez por todas da conversa pra boi dormir do tipo “queremos um mundo melhor para todos”.

7. Aliás, a retórica messiânica da cultura contemporânea como um todo está repetitiva e cansativa, gerando um derrame suspeito de gurus e metodologias com promessas tão interessantes quanto pretensiosas. Um dos grandes representantes dessa vertente, o TED Talks, sofreu uma crítica interessantíssima do professor de Artes Visuais Benjamin Bratton. No artigo “We need to talk about TED“, baseado num “talk” dele mesmo em um TEDx, diz: “Eu proponho que operar astrofísica dentro do modelo do American Idol é uma receita nacional para o desastre.” Eu arremedaria: não apenas a astrofísica, mas todos os segmentos da vida, né?

Feliz Ano Novo!

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Foto: Gratisography.

R.I.P. Canini – o verdadeiro criador do Zé Carioca

 

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Morreu noite passada em Pelotas (RS), o cartunista Renato Canini, um nome cuja menção nunca vai dar conta da sua importância. Além de um forte trabalho autoral, foi ele que criou a versão mais essencial do Zé Carioca: traço propositalmente errático, cenários urbanos favelizados, piadas internas, tudo isso dentro de uma indústria bastante tradicional. Nem ele entendia como durou seis anos trabalhando pra Disney. Entre as diversas curiosidades dessa relação, está o fato de que, apesar de ter criado toda uma iconografia local para o Zé Carioca, Canini nunca esteve no Rio de Janeiro.

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Tive o privilégio de, na 5ª série, há quase 30 anos, ter entrevistado o Canini pra um trabalho de colégio. Eu era fã, meu pai me levou na casa dele em Porto Alegre e tudo que lembro foi de ter sido muito bem recebido e ter tido atenção incomum. Não sei se foi mesmo ou se eu estava embevecido de conhecer o desenhista do Zé Carioca. No início desse ano, escrevi aqui sobre o último livro dele, o excelente Pago Pra Ver.

Vai em paz, Canini!

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Tirei a foto acima de um post do Blog do Orlando, que também traz uma entrevista com Canini.

Diários de Bicicleta: pedalando em Montreal

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Este é um post atrasadíssimo: eu e minha mulher estivemos em Montreal em 2010 e, como não sou blogueiro de viagem, sempre empurrei com a barriga um possível texto sobre a cidade (que adorei). Mas agora, como entrei numas de escrever sobre minhas voltas de bicicleta, me lembrei que poderia começar por uma das melhores experiências que tivemos lá – andar nas bicicletas públicas do sistema Bixi.

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Montreal tem hoje cerca de 600 Km entre ciclovias e ciclofaixas em toda a região metropolitana, o que faz da cidade um dos destinos mais procurados por quem gosta de cicloturismo. Não era o nosso caso, não somos cicloturistas, mas o sistemas de vias/faixas, o aluguel de bicicleta na rua e o trânsito relativamente tranquilo da cidade (comparado com a nossa realidade em Porto Alegre) são fatores que acaba formando um conjunto extremamente convidativo para ciclistas casuais. O que leva ao primeiro ponto desse post: uma cultura de transporte urbano alternativo pode ter sua base de início nos grupos ativistas, nos hard-users, mas é quando a cidade oferece um contexto que transcende o nicho que pessoas não totalmente envolvidas na alternativa se sentem confortáveis em entrar para o time.

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Usamos a Bixi em três oportunidades, duas delas para fazer longas tours e chegar a bairros mais distantes do nosso hotel, sem pressa, e uma noite para ir a um show. Em todas as vezes, não tivemos problema algum para pegar e devolver as bicicletas nas estações e muito menos no trânsito. A pedalada mais bacana que fizemos é uma bastante recomendada: descemos da estação Bixi do parque Mont Royal até o centro histórico da cidade, depois rumamos de táxi até o lindo Atwater Market, onde pegamos novamente as bicicletas e voltamos ao centro margeando o Lachine Canal numa ciclovia que passa por bairros residenciais e armazéns abandonados até chegar novamente na área central.

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De qualquer maneira, reforçando o que falei ali em cima, o que me marcou nas pedaladas em Montreal não foram condições técnicas específicas, que são melhores que aqui mas não isentas de problemas, e sim a impressão de que se está numa metrópole com um astral que dá suporte à cultura da bicicleta. Se eu fosse resumir Montreal numa palavra, seria RIPONGA e não tenha dúvidas de que passear de bicicleta numa metrópole RIPONGA é bem mais amigável do que numa metrópole YUPPIE. Eu sei que muita gente que confunde riponguice com provincianismo e atraso, mas neste caso é o contrário. Até onde sei, a famosa “escala humana”, que vem a ser planejar a cidade levando-se em consideração a circulação a pé ou de bicicleta, tem sido a tônica do que se considera um planejamento urbano mais avançado. Cidades como Montreal mostram que andando a pé ou de bicicleta se vai mais lento – mas também se vai mais longe.

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Todos os posts da série Diários de Bicicleta aqui.

Sobre John Maeda em Porto Alegre

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Estive ontem na palestra do designer, artista e cientista americano John Maeda aqui na cidade. Também Presidente da Rhode Island School of Design (popularmente conhecida como “o lugar onde os Talking Heads se conheceram”), ele veio falar nas comemorações de 40 anos da agência de publicidade Escala, que resgatou uma tradição sua bacana de trazer nomes relevantes para despejar bom conteúdo no mercado local. Durante os anos em que trabalhei na Escala, entre 2003 e 2010, assisti a apresentações ou participei de workshops de gente como Gilles Lipovetski, Carl Rhodes, Charles Watson, Jailton Moreira, Ronaldo Fraga, Heitor Dhalia, Arnaldo Antunes, entre outros.

O papo do John Maeda girou em torno de uma busca íntima dele: descobrir ou redefinir “o que é design” em relação a um cenário tomado pela tecnologia – uma questão que considera ainda aberta e que diz enfrentar desde os primeiros anos de estudante, quando seu pai ouviu seu professor dizer que ele era bom em matemática e artes e ignorou o “artes” da frase, dando um computador de presente para o menino quando o computador ainda não tinha nada de artístico. Mas o lado “artes” do cientista perdurou, traduzido em interesse por design gráfico durante seus estudos no MIT Media Lab. Por isso, ontem, na apresentação, Maeda estabeleceu seu raciocínio a partir da definição do lendário designer Paul Rand, que dizia ser o design “um método para colocar forma e conteúdo juntos”, um conceito a princípio agnóstico. Contou também seu encontro pessoal com Rand e sua tentativa de transformá-lo em professor do Media Lab, intervindo junto a Nicholas Negroponte no sentido de aproximar um designer gráfico clássico do mundo da computação experimental acadêmica. A parceria com Rand não foi pra frente devido à sua morte logo em seguida, mas o conceito obviamente vingou. Uma das linhas de força do trabalho de Rand era criar identidades que pudessem sobreviver à desfiguração, função essencial em qualquer trabalho contemporâneo de design devido à multiplicação de plataformas onde ele precisa se manifestar.

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Ao longo da palestra, Maeda abriu diversas frentes de pensamento, como se fossem novas abas de um browser. Falou sobre os aspectos fundamentais de uma liderança de empresas mais eficiente num momento em que os funcionários desconhecem a hierarquia por muitas vezes estarem de posse de tanta informação quanto seu chefe; nesse sentido, sugeriu que a informação essencial aos líderes corporativos é aquela que coleta dados sobre as relações sociais de suas equipes. Em outra aba, explorou o conceito de empresas “end-ups”, mais estáveis e sólidas, em contraste às start-ups; sobre isso, argumentou que não deveria ser objetivo das end-ups manter sua posição, mas sim se lançarem no vazio, darem um passo suicida à frente no topo da montanha, rolar morro abaixo, morrer e aprender a renascer. Um tanto quanto oriental, um tanto quanto gamer, ou seja, uma abordagem que cai bem hoje em dia.

A terceira aba, e a mais bacana, que amarrou esses dois outros caminhos com a proposição inicial da palestra, confrontou os conceitos de “velho” e “novo”. No telão, Maeda ilustrou o “velho” com um montinho de terra e o “novo” com uma nuvem – sim, “a” nuvem do “cloud computing”. Unidas em uma animação, a nuvem “choveu” sobre a “terra” e fez crescer um broto que ilustrava a palavra “bom”. Ou seja, para Maeda, o que vale é algo ser bom, e o bom transcende temporalidades.

Falando assim, eu sei que soa óbvio e simplista, mas preciso ressaltar: foi um enorme prazer assistir a uma palestra que privilegia a convivência de conceitos simples, em geral considerados antípodas, em um meio no qual o “novo” é alavanca para a criação de cenários apocalípticos resolvidos por ideias milagrosas (geralmente vendidas pelo palestrante). Bem longe da retórica da maioria das palestras hoje em dia, Maeda ofereceu uma combinação rara e aberta de conceitos e aplicações de design com uso de tecnologia e uma abordagem humanista nada ingênua porque leva em consideração o contexto econômico em que vivemos.

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PS: Sobre Maeda, já escrevi algumas vezes por aqui. Os posts com a tag dele estão aqui. Alguns são antigos, revisitei e não gostei da redação, mas foi o que pude fazer na época 🙂

O email está vivinho da silva

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O noticiário de tecnologia e comportamento adora uma manchete sangrenta e o email tem sido uma vítima recorrente nos últimos dois ou três anos (embora você encontre por aí matérias dando o email como ultrapassado já em 2004). A Fast Company, a Slate, a PC Magazine e o Independent são apenas alguns exemplos de dezenas ou talvez centenas de veículos que se apressaram a abraçar as pesquisas que vinham indicando a migração de usuários jovens para outras formas de mensagem, mas alguns indícios mostram que, no meio de tanta mensagem instantânea, de tanta caixa de mensagem de redes sociais, o bom e (nem tão) velho email está resgatando seu valor. Por que acho isso? Vamos aos tais indícios.

1.A vontade de escrever esse post veio se construindo ao longo de alguns links com os quais esbarrei nas últimas semanas, sendo o mais recente o serviço de “higienização de inbox” Unroll.me. Através do Unroll.me, lançado em beta no ano passado, você pode organizar todos aqueles serviços e newsletter que assinou e condensá-los em um único email diário, o que abre espaço na sua caixa de entrada para os emails realmente relevantes, de amigos, família ou contatos profissionais. Não assinei o Unroll e nem sei se vou. Mas acho que ele está apontando algo interessante.

2. Some-se a isso a nova classificação por tabs do Gmail e você tem mais um movimento curioso que parece querer “arrumar a casa” do email para que ele seja mais e melhor utilizado diante da bagunça que se tornaram outras formas de comunicação. Afinal, particularmente nunca me caiu bem essa história de tentar colocar todos os serviços em um único messenger, como o Facebook tentou emplacar.

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3. Outro link curioso que chegou até mim foi o do Email Design Conference, um evento de uma empresa de teste e tracking de email em três cidade cujo texto de apresentação diz: “Nós amamos emails e amamos design”. Há quanto tempo você não via as palavras “email” e “design” juntas com um certo respeito, dessa forma? Para um meio dado como morto, é interessante a atenção que ele está recebendo.

4. O site de crowdsourcing de ideias Crowdspring recentemente publicou um artigo sobre a relevância do email marketing em relação aos consumidores captados via redes sociais. Mas a questão não é apenas comercial. Muitos sites e blogs de notícias, que estão turbinando suas newsletter já que o algoritmo do Facebook faz com que suas postagens de fanpage não estejam mais atingindo tanta gente quanto há um ou dois anos. O email, bem feito e adequado, acaba sendo mais eficiente e mais interessante para essa finalidade. Assine a newsletter do Red Bull Music Academy ou da Vice e você vai saber do que estou falando.

Em resumo: como sempre acontece, as mortes anunciadas de tecnologias e ferramentas costumam ser mais dramáticas e voltadas à geração de factóides do que propriamente realidades cristalizadas. A ideia de revalorização do email pode estar se apoiando numa certa saturação das mídias sociais, que nos últimos anos vem tentando intensamente encampar tudo que é serviço que lhes é possível, desde a mensagem instantânea até o conteúdo em vídeo. Ao que parece, a troca de mensagens mais longas e relevantes é mesmo do email e, estando vivinho da silva, ninguém tasca dele.

Mas e daí, qual a relevância disso? Bom, eu suponho que o email, bem organizado e bem utilizado, pode induzir a uma redução de poluição online, especialmente nas mídias sociais. Lembra há dois anos quando muita gente usava o Twitter como messenger? Lembra que saco era? Pois então, pode ser que um resgate do uso do email limpe um pouco os newsfeed e as timelines de expressões pessoais e promoções que seriam mais adequadas (ou ficariam mais escondidas…) se empreendidas via email.

A ver.