Fita cassete: o design responsivo dos anos 80?

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Design responsivo é uma abordagem do webdesign que permite que um mesmo site seja acessado de maneira fácil, rápida e coerente por diversos tipo de dispositivos e browsers. Até alguns anos atrás, era precisava desenvolver um site específico pra ver no monitor do computador e uma versão diferente desse mesmo site pra acessar no celular. Hoje, quando se usa o design responsivo, é construído apenas um site e ele se adapta ao dispositivo que você estiver utilizando. O design responsivo é mais do que uma abordagem técnica, é praticamente um conceito cultural entre os designers de experiência.

Bom, isso tudo só pra introduzir a pergunta que a agência de design digital Needmore publicou em seu blog: “a arte das capas de fita cassete eram um início de tudo que fazemos hoje?”. Post completo e outros exemplos bacanas de responsividade em cassete aqui.

Pequenas Igrejas, Grandes Negócios

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O pesquisador Marcelo Del Debbio está com um projeto no Catarse para finalizar seu cardgame Pequenas Igrejas, Grande Negócios. O jogo, que vai ser publicado por uma editora de RPG, se passa em um “futuro fictício” no qual as Igrejas Evangélicas são usadas por pastores falcatruas para fins inescrupulosos – como lavagem de dinheiro e lobby político. O próprio Marcelo explica:

É impressionante, então, a imensa variedade de formatos de crítica social que a gente tem disponível hoje. Manipulação de imagens, memes, vídeos virais, blogs e até cardgames: tá valendo tudo pra se inserir no diálogo político nacional. Cada novo veículo de discussão política inclui um grupo novo que não se sente atraído pela discussão tradicional. Como diz o Claude Troisgros: que marravilha!

O que eu aprendi no Treinamento Nesta/British Council para Empreendedores Criativos

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A palavra “criativo” é um grande problema. Em geral, as pessoas associam “criativo” a coisa “loucas”, “diferentes”, “irreverentes”, “fora da casinha”. Instalações de arte contemporânea, games bizarros, utensílios de cozinha inusitados, filmes experimentais, todos são considerados “criativos” enquanto que o planejamento dos produtores culturais, o fluxo de caixa da empresa de games, os relatórios do contador do estúdio de design e a planilha orçamentária da produtora de cinema são “uma encheção de saco”, “um mal necessário”, alienígenas incompreendidos em um planeta no qual todos praticam bullying com a burocracia.

Combinar na prática esses dois mundos, o pragmático com o imaginativo, foi a lição de fundo que eu aprendi no Treinamento Nesta para Empreendedores Criativos que freqüentei semana retrasada aqui em Porto Alegre. Durante 4 dias, eu e outras 19 almas perdidas fomos recebidos gratuitamente na Escola de Design da Unisinos para um excelente workshop promovido pela Secretaria da Cultura do Governo do RS numa parceria com o British Council e o NESTA, este último o responsável pela metodologia e pelo conteúdo do evento.

Assim como eu, todos os outros integrantes do treinamento estão trabalhando em projetos profissionais ligados à economia criativa. Entre as ideias sendo gestadas ou aperfeiçoadas estavam uma iniciativa de microcrédito para artesãos, uma ocupação cultural de um prédio histórico semi-abandonado, uma produtora de vídeos comerciais com abordagem documental, estúdios de animação, um app para o universo da cerveja artesanal, uma marca de moda, uma entidade associativa para marcas de moda, enfim, empreendimentos que são baseados muito mais em capital intelectual do que financeiro ou físico.

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Criado na Inglaterra como parte de um vasto programa de inovação com foco na economia criativa, o objetivo do Treinamento Nesta é submeter os projetos (ou ideias seminais) a uma bateria de exercícios e dinâmicas que permitem construir, revelar ou refinar seus pilares conceituais e operacionais com a ajuda dos companheiros de workshop. Essa metodologia não é novidade para os empreendedores seriais, para os que já vivem imersos na roda viva das aceleradoras, da busca por investidores, dos livros de negócio. Mas se eu fosse me basear na pequena amostragem desse Treinamento, daria pra dizer que 80% dos empreendedores criativos não tem seus projetos totalmente estruturados de maneira que sobrevivam a suas próprias contradições e lacunas – que dirá a fatores externos. A verdade é que mesmo com a disseminação da cultura e do vocabulário médio das startups no Brasil, a noção de modelar um negócio criativo de maneira formal ainda causa calafrios em muitas pessoas que gostam simplesmente de sentar e criar o que quer que seja. Aliás, eu sou uma dessas pessoas.

O que pra mim fez a diferença no caso do Treinamento Nesta foi o Creative Enterprise Tookit, um apanhado de ferramentas para modelagem de negócios que mistura elementos clássicos (como a matriz de análise SWOT) com contemporâneos (como alguns frameworks do criador do Business Model Generation, Alexander Osterwalder) de uma maneira que que não afugenta que não tem grande apreço por planos de negócios tradicionais. O Tookit é disponibilizado gratuitamente para download (em inglês no site do Nesta ou em português diretamente no meu Dropbox) e ele próprio é um passo-a-passo par ser utilizado independente do workshop. Mas trabalhar com o Tookit em grupo, com um orientador treinado, num ambiente sincero de troca e colaboração como foi o treinamento que participei, não tem preço: a interação com o grupo, bem conduzida, forma um caldo grosso de dúvidas e insights que enriquecem todos os projetos, por mais diferentes que sejam seus objetivos ou seus segmentos. Parabéns à treinadora Phily Page, que conseguiu manter a coesão e a energia do grupo em uma curva ascendente ao longo dos 4 cansativos dias de trabalho.

Fica, então, a esperança (e a reivindicação) que a Secretaria da Cultura dê proseguimento a seu programa RS Mais Criativo e promova mais workshops como esse. Dinheiro para projetos não é a única forma de incentivar empreendimentos criativos. Eu arriscaria a dizer que a maior parte deles se beneficiaria mais de um treinamento assim, seguido de um sistema de apoio de gestão, do que exclusivamente de dinheiro. Embora a grana seja sempre bem-vinda (e ajuda financeira é fundamental para a cultura de um país ainda emergente) um processo de  treinamento contínuo desse calibre é mais estruturante – além de estimulante e viral: aqui estou eu falando da metodologia para minha audiência e tenho certeza que meus colegas também se tornaram mutiplicadores dos saberes que adquiriram.

Aliás, antropologicamente falando, não é assim que as culturas evoluem?

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Em abril, o Treinamento Nesta vai acontecer em Recife. As inscrições já estão encerradas.

De qualquer forma, vale explorar o site do Transform, o programa do British Council que trouxe o Treinamento para o Brasil e que está envolvido em uma série de outros projetos de intercâmbio cultural UK-BR.

O site do próprio Nesta é uma fonte de consulta bastante interessante. Eles tem, por exemplo, dezenas de relatórios e pesquisas nas áreas de inovação e economia criativa. Tudo pra download gratuito. Em inglês.

As eleições deste ano vão ser pura cultura pop

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A combinação de eleições com internet é indiscutivelmente explosiva. Por mais que as campanhas eleitorais no Brasil tenham um pé no pitoresco desde sempre, foi só com o avanço da cultura digital dos últimos dois anos que o marketing político começou a experimentar um outro tipo de relação com o ambiente de comunicação nacional, tendo que levar em consideração um refluxo gigantesco de conteúdos que estão além do controle de políticos e marqueteiros. Esses não são conteúdos que necessariamente mudam os rumos de uma eleição, mas, no mínimo, tornam o diálogo com o eleitor mais complexo e, veja só, mais pop.

Em 2012, tivemos um gostinho do futuro: foi o ano em que o acesso à banda larga fixa e o acesso à internet por celular cresceram substancialmente no país. Além disso, também foi quando o Facebook teve seu verdadeiro boom local, crescendo quase 300% em número de usuários em relação a 2011 e chegando à marca de 35 milhões de brasileiro curtindo e compartilhando tudo que se mexia. Essa nova infra-estrutura fez com que 2012 nos trouxesse: as primeiras guerras de memes políticos, com o Serra liderando o ranking nacional de “memíveis”; um fórmula de sucesso para o jornalismo alternativo na combinação de leitores-ativistas com um ecossistema de disseminação em redes sociais; uma guerra (muitas vezes clandestina) de contra-informação entre partidos; e o fenômenos dos amigos chatos que poluem a sua timeline com campanha para seus candidatos.

Apesar de terem se passado apenas dois anos, as eleições de 2014 vão acontecer em um terreno bastante diferente. Não se trata só de novas estatísticas de telecomunicações, de mais acessos à internet, mais celulares conectados e um Facebook que dobrou de alcance. O que importa, na verdade, é o número maior de pessoas que entrelaçou seu jeito de conversar com colegas de trabalho, familiares e amigos usando os códigos da cultura pop A manipulação de imagens, a edição sarcástica de vídeos, o poder de repassar conteúdos para sua rede, o uso de personagens/bordões/roupas/logotipos de filmes, séries e músicos na comunicação do cotidiano, tudo isso que era uma forma de comunicação dominada e utilizada apenas por nerds e indies está se universalizando. O papa não é mais pop. O papa é meme.

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Agora em março, três eventos em sequência estabeleceram, a meu ver, a abertura oficial das Eleições 2014 no que diz respeito a esse uso de linguagem. Primeiro, o deputado federal Beto Albuquerque discutiu pelo Twitter ao vivo com o real-fake Dilma Bolada, protagonizando um momento fascinante de cruzamento da vida digital com a política dita real. Onde começa uma e termina outra? Em segundo lugar, a queda de braço de Eduardo Cunha com o Planalto lhe deu, na capa da Istoé e em uma reportagem da Carta Capital, o direito de ser comparado (justissimamente) com o congressista sem escrúpulos Frank Underwood, do seriado House of Cards (veiculado exclusivamente em streaming, vale lembrar). Em terceiro lugar, a Piauí de março abriu um pequeno artigo sobre o candidato presidencial do PSOL, Randolfe Rodrigues, lembrando que seu apelido no Senado é Harry Potter. Se Dilma Bolada, Frank Underwood e Harry Potter são a comissão de frente desse carnaval, o que nos espera nas alas seguintes?

Não há dúvida que o ambiente de comunicação política esse ano vai incluir ecos do complexo ativismo digital que se formou durante as Jornadas de Junho do ano passado. Mas minha aposta para 2014 é no crescimento da participação mainstream nesse processo, com um acento mais pop, ancorada na disseminação orgânica de conteúdos não-oficiais por parte dos milhões de usuários que vem exercitando no seu dia-a-dia a auto-expressão por referências. Quem vai ser o candidato incluído digitalmente em vídeos de funk ostentação? Ou que vai ter sua foto manipulada pra incluir aparelhos com borrachinhas coloridas nos dentes? Quem será o Voldemort de Randolfe Rodrigues? As complexas coligações partidárias serão comparadas às casas do Game of Thrones? Qual é o estado que vai ter um vídeo com seus candidatos a governador passando pelo crivo dos jurados do The Voice Brasil?

Essas perguntas serão respondidas ao vivo, online, durante a festa da democracia. Uma festa que agora tem evento marcado no Facebook, convite-spam enviado pra todo mundo e grupinho no What’s App. Pode se preparar.

O pós-hype da Economia Criativa

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“Economia criativa” é uma dessas expressões, como “co-criação”, “crowdfunding” e “big data”, que recebem uma atenção tão concentrada no seu surgimento que acabam correndo dois riscos: serem esquecidas rapidamente em benefício de novas ondas ou se tornarem caricaturas que temperam palestras duvidosas. Mas, felizmente, em uma esfera que fica além dos títulos de posts e dos keynotes descolados, forças com intenções mais perenes se articulam para aprofundar as bases do que vale a pena manter de pé. É o caso da Economia Criativa, ao menos pelo que vi no lançamento da Escola da Indústria Criativa da Unisinos no sábado passado. O evento colocou no mesmo palco a Edna dos Santos-Duisenberg, Chefe do Programa de Economia Criativa da United Nations Conference on Trade &  Development, e a Lala Deheinzelin, especialista em Economia Criativa e Desenvolvimento Sustentável. E a fala das duas (assim como o lançamento da Escola) contrapõe a ideia de que a Economia Criativa possa ser apenas um modismo ou um termo bacanudo.

A Edna começou o papo trazendo uma visão panorâmica bem estruturada sobre os caminhos da Economia Criativa no mundo, destacando a importância desse tipo de negócio na recuperação de crises econômicas (é pra EC que alguns desempregados se voltam pelo baixo investimento inicial que exige) e o DNA do Brasil nesse segmento. Segundo ela, a gente tem uma inclinação à Economia Criativa por conta da nossa riqueza cultural e da nossa habilidade natural de misturar e improvisar. O que falta é aprendermos a transformar essa energia em um ecossistema organizado que permita aos criadores evoluir artísitica e economicamente.

Os casos nacionais bem sucedidos em grande escala são poucos mas exemplares (ao menos em termos financeiros): ela citou o Carnaval, as telenovelas e a música popular como indústrias criativas tipicamente brasileiras, calcadas em uma infraestrutura própria e geradoras de divisas e empregos. Além disso, essas três indústrias ainda colaboram na constituição da identidade do país. Edna chama isso de “soft power”, o poder de gerar riqueza e influência sem ativos tangíveis – algo que, crítica social à parte, os Estados Unidos utilizam muito bem na propagação de seu estilo de vida pelo mundo. Particularmente, senti falta, na fala da Edna, de uma ênfase na “cauda longa” da Economia Criativa – as centenas de nichos culturais que não são tão grandiosos ou populares mas que, combinados, se tornam uma força importante. Mas também entendo que ela tinha pouco tempo no palco e seu trabalho ocorre mesmo num nível mais macro. Segue o baile.

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A Lala Deheinzelin, na sua vez, fez outra comparação valiosa para esclarecer por que é tão necessário olhar para a Economia Criativa de forma estruturada e não apenas com as lentes em aros grossos do hype: “Precisamos de uma Petrobrás para a Economia Criativa brasileira”. Não que a Petrobrás precise ampliar seu programa de patrocínios… o que a Lalá quis dizer é que temos também uma espécie de pré-sal cultural que pede mais do que a capacidade de ser alcançado, tem a necessidade de ser processado para se colocar de pé num sentido econômico, para dar sustentabilidade ao circuito criativo. No Brasil, toda atividade criativa ainda sofre um certo preconceito, como se estivesse em um patamar inferior, menos sério, menos importante. O que é uma tremenda injustiça econômica. A Lala lembrou que o potencial da Economia Criativa é gigantesco por funcionar dentro de uma lógica exponencial: a soma de 2 produto físicos gera a renda de 2 produtos físicos; mas a soma de 2 ideias pode dar origem a uma terceira que gera um valor dez ou cem vezes maior do que a das unidades. O potencial para gerar riqueza dentro da Economia Criativa é nuclear.

Tanto a Edna como a Lala enfatizaram ainda o quanto a Economia Criativa tem um aspecto inerente de diversidade e inclusão. Um ecossistema saudável para o crescimento de Indústrias Criativas oferece outros formatos de vida para pessoas que não se adaptam à lógica econômica linear da indústria pesada ou dos serviços convencionais. Fora isso, se trabalhadas de forma anti-hegemônica, as Indústrias Criativas tem o poder de revelar e amplificar diferentes ângulos da nossa cultura, influindo inclusive sobre a auto-estima de segmentos inteiros da população. Pode ser uma visão otimista da minha parte, mas acho que vale a pena olhar assim.

Em resumo, a Economia Criativa precisa mais do que deslumbre que jogaram sobre ela há alguns anos. Voltando à fala da Edna, ela lembrou que a atuação governamental, por exemplo, não pode ficar restrita ao Ministério da Cultura. Economia Criativa é assunto transversal, que une ministérios diferentes como os ligados à indústria, ao comércio, à tecnologia, à educação e ao turismo. Um papo nesse nível talvez não pegue tão bem numa roda cool, mas pode fazer maravilhas pelo desenvolvimento do Brasil.

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Foto 1: New Old Stock

Foto 2: Rodrigo Blum, divulgação Unisinos

Tem um tibetano pichando/grafitando Porto Alegre?

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Desde o ano passado, diversas paredes em Porto Alegre tem amanhecido com esses incríveis caracteres…

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… que lembram muito a escrita tibetana, em especial o traço chamado “ume”, olha só:

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Não sei quem é o autor, mas certamente é o mesmo cara (ou menina) que há mais tempo vem marcando a cidade com esse símbolo bacana:

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Alguém sabe quem é?

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A imagem da caligrafia tibetana em ume veio daqui.

 

 

O problema do excesso de auto-mensuração

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Os dispositivos digitais de auto-mensuração individual, como o conhecidíssimo Nike Plus, que mostram em gráficos bacanas os quilômetros que a gente corre, as calorias que a gente gasta, os minutos que a gente dorme e coisas do tipo, trouxeram um aspecto científico e lúdico pras atividades cotidianas. Hoje, já existe aplicativos e dispositivos pra quase tudo. Embora a maior parte deles lidem com estatísticas de atividades físicas, também há espaço para coisas como medir sua felicidade, sua capacidade de atingir metas e seu estado cognitivo. Claro: em se tratando de negócios e cultura digital, não há limites para o que possa surgir.

Eu mesmo já usei o Strava por alguns meses e ele foi bastante útil pra descobrir que as minhas voltas de bicicleta estavam dando conta da atividade física que eu precisava semanalmente. Também, claro, me diverti olhando meus trajetos no mapa e conferindo os tempos de outras pessoas em determinadas áreas da cidade. Mas chegou um ponto que eu já tinha a informação que precisava e resolvi deixar o app de lado pra simplesmente andar de bicicleta.

Não há dúvida que esses apps e dispositivos carregam, além de um forte poder de sedução, uma mistura de utilidade com diversão. Mas também é razoável pensar que eles podem deseducar uma pessoa que tem boa consciência corporal ou impedir alguém de aprendê-la. A consciência corporal seria a capacidade de monitoramento próprio, sem a ajuda de dispositivos: saber ouvir o corpo, ler as sensações, calcular não-matematicamente a resposta que precisamos dar a situações físicas que aparecem, como fadiga ou uma reserva extra de energia que ressurge. Estamos falando de uma capacidade que atrofia se não for utilizada constantemente, se for relegada ao segundo plano, colocada atrás da telinha com os gráficos coloridos. Além do mais, quando afiada, ela transcende visualizações matemáticas.

Esse é um dos aspectos complicados da cultura digital, que costuma ser muito comentado pelo americano Douglas Rushkoff: o contato constante com interfaces digitais reduz nossas expressões a formulários e dados. Queiramos ou não, acabamos tendo que espremer o nosso jeito de ser e de viver em campos pré-formatados e em resultados contados numericamente. Nesse sentido, a linha entre a praticidade e o simples materialismo é quase transparente. Claro que tudo pode ser quantificado e calculado, inclusive o afeto que hoje vem na forma de likes e visualizações – mas o que perdemos com isso?

Não chegamos a perder uns aos outros, o que seria drástico e irreal de se declarar. Antes, podemos perder algo mais sutil, perder uma capacidade interna de avaliação que não é visual, numérica ou mesmo exata. Antes, podemos perder a confiança no que não é visual, numérico ou exato. Ou seja, em boa parte do que consideramos ser a experiência humana de primeira mão.

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Foto: Little Visuals.