30 Ferramentas para Inovação Social

HelloDIY Apaixonados por esquemas e metodologias, chorai no cantinho. O Nesta, uma ONG britânica focada em incentivo à inovação (com forte atuação na área da economia criativa) lançou no início do ano um compêndio de 30 ferramentas para facilitar processos de inovação em ações sociais,  o Development Impact & You. Em bom português, Impacto de Desenvolvimento & Você. Apesar de ter participado de um evento do Nesta e já ter explorado o site deles, eu ainda não tinha travado contato com essa verdadeira maravilha. O DIY Toolkit mistura ferramentas bastante conhecidas (como a Matriz SWOT, o Business Model Canvas e o Thinking Hats) com outras menos usuais, todas elas já existentes e selecionadas, segundo os organizadores, a partir do estudo de centenas de alternativas testadas na prática. Cada uma delas está devidamente classificada de acordo com seu objetivo, tem seu uso explicado didaticamente em vídeo e, por serem ferramentas visuais, acompanhadas de pranchas em PDF para baixar, imprimir e usar na hora. Tudo gratuitamente. nestatoolkit Há ferramentas para desenvolver planos, para gerar ideias, para organizar informações, para captar informação, para conduzir entrevistas de pesquisa, para testar hipóteses e por aí vai. Além do mais, há uma sessão de background teórico pra quem quiser se aprofundar, e um blog com textos complementares e estudos de caso. Em resumo, são subsídios para incentivar não apenas ações sociais inovadoras, mas também ações sociais estratégicas, ou seja, precedidas por uma reflexão ampla que dê suporte a soluções novas, eficientes e de efeito mais profundo. Você pode visualizar, ler, aprender e baixar o Development Impact & You Kit no próprio site do projeto. A única nota triste disso tudo é que o DIY ainda não está disponível em português. Mas uma vez que o Nesta já esteve presente no Brasil com o treinamento para empreendedores criativos via British Council (e eu estive lá), quem sabe em breve não sai uma versão nacional do kit.

*** Leia também: Jam: uma ferramenta de processo criativo simples e visual.

Quatro posts com dicas sobre financiamento do jornalismo na era digital

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Eis um assunto quente, que une diferentes hierarquias e organizações: das salas caras e bem decoradas dos executivos da grande mídia às reuniões improvisadas dos coletivos de midialivrismo, todos os que trabalham com isso ou que estão interessados em uma nova perspectiva de jornalismo ainda buscam respostas satisfatórias sobre qual o modelo comercial (ou não-comercial) que vai dar suporte a essa jornada. Nas últimas semanas, li quatro posts interessantes sobre o tema que achei que valia a pena compartilhar. Comento um pouco sobre cada um deles abaixo.

Primeiro: matéria de segunda agora no New York Times conta como o fenômeno digital BuzzFeed está administrando seu crescimento. O site de memes mais famoso do mundo acaba de receber um enorme aporte de fundos e busca abrir os horizontes para seus negócios, uma vez que o modelo atual manda bem na audiência mas nem tanto no faturamento. Segundo o NYT, a maior parte dos ganhos do BuzzFeed vem do BuzzFeed Creative, estúdio dedicado a criar projetos de conteúdos para marcas. Insight poderoso (e assustador) que se tira daí: todo mundo procurando um modelo novo de agência de propaganda e de veículo jornalístico e talvez a solução esteja num híbrido. Não é só o BuzzFeed que está indo por este caminho. O conglomerado Vice vem crescendo assim e muitos outros títulos americanos tem áreas dedicadas ao que se chama agora de Native Advertising – o merchandising da era digital.

Segundo post: a Publica, uma agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos, é por si só uma nova experiência de jornalismo que parece estar andando bem. Por trás da Publica estão alguns mecenas de porte, como a Ford Foundation (sim, aquela do Henry Ford) e a Omydiar Network (do criador do Ebay Pierre Omydiar), mas a agência também vem utilizando um modelo de crowdfunding direto junto aos leitores para financiar reportagens específicas. Alguns dias atrás, a jornalista Natália Viana publicou um post relatando sua participação no 9º Congresso da Abraji onde apresentou o case de busca de financiamento direto e listou seus 10 Mandamentos do Crowdfunding. Leia o post completo aqui.

Terceira dica de leitura: também há pouco mais de uma semana, o jornalista americano David Carr, que cobre o cenário de mídia para o The New York Times, publicou um artigo sobre sua visita ao QG do jornalista inglês Glenn Greenwald, mais conhecido por compor junto com Edward Snowden e Julian Assange o Trio Parada Dura do vazamento de informações do governo americano. O texto de Carr não é todo sobre modelo de financiamento de jornalismo, mas a certa altura o tema entra em pauta, e Greenwald solta uma boa a respeito do apoio financeiro que seu novo projeto The Interceptor vem recebendo também da Omydiar Network: “Existe muita desconfiança quanto aos bilionários e ao modelo oligárquico. As pessoas não acreditam que você vai ser de fato jornalisticamente independente. Mas você não pode reclamar que não existe jornalismo investigativo sério contra as grandes corporações e governos e ao mesmo tempo se opor a cada modelo que permite que você tenha o tipo de financiamento que é necessário (para esse tipo de trabalho).”

Pra terminar: 10 maneira que o Washington Post mudou desde que Jeff Bezzos comprou a empresa.  Post no Digiday que levanta desde questões comerciais como crescimento nacional e expansão mundial até itens de tecnologia, como o desenvolvimento de um novo sistema de comentários e o aumento do número de engenheiros próximos aos jornalistas na busca de novos formatos para a notícia.

Uma solução definitiva para o futuro do jornalismo com certeza ainda não existe. Mas exercícios intelectuais e práticos que apontem para novos caminhos não estão em falta.

Boa leitura!

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Leia também:

– Omelete, Papo de Homem e Noize contam o que deixa um site independente de pé em 2014

– Sobre os desafios de ser seu próprio editor.

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Foto: New Old Stock

Brands as publishers: como estruturar a publicação de conteúdo digital para marcas

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Se, por um lado, a internet bagunçou o mundo do marketing e da publicidade com a multiplicação dos canais para os quais se precisa criar conteúdo (sem o mesmo tempo e a mesma grana de antigamente), por outro quem trabalha com isso não pode reclamar da quantidade de estudos, relatórios, sistemas, frameworks e pitacos sobre como fazer um bom projeto dessa natureza no ambiente digital.

Um ótimo exemplo é o relatório gratuito Brands as Publisher da agência digital Huge, que traz um apanhado organizadíssimo dos principais desafios de criadores de conteúdo digital para marcas bem como uma série de linhas de ação práticas para o desenvolvimento e o, mais importante, a manutenção no dia-a-dia de um projeto de qualidade.

Dentre todos os achados, o que eu considero fundamental é a noção de que, nas palavras do relatório, “projetos de conteúdo eficientes requerem múltiplos fluxos de trabalhos com staff dedicado com sistemas e tecnologias dando suporte a cada um dos fluxos. Essa abordagem permite às organizações produzir diversos tipos de conteúdo que sustentam diferentes objetivos, como informações fresquinhas sobre produtos, ofertas promocionais e tópicos em tempo real sem precisar gerenciar conflitos de prioridade o tempo todo.”

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Em outras palavras: quem trabalha com conteúdo de marca para ambiente digital não pode viver se virando nos 30, como ainda é a regra em muitas empresas e agências digitais. O aspecto mais lúdico, horizontal e caótico da internet faz parecer que as operações relacionadas a ela também podem ou devem ser informais e soltas, quando é justamente o contrário. O único jeito de navegar de maneira mais tranquila pelas águas turbulentas da interatividade entre marcas e consumidores é sendo metódico, sistematizado e hierárquico.

Além disso, o relatório ainda responde a cinco questões cruciais para quem opera no ramo:

– Por que as marcas deveriam gerar conteúdo?
– O que significa isso?
– Quais são os drivers fundamentais de sucesso dos projetos de conteúdo?
– Como uma marca pode gerenciar bem operações de conteúdo?
– Quais são os investimentos chave necessários para a empreitada?

Está tudo lá explicadinho, tim-tim por tim-tim, inclusive com fluxogramas. É só ler e aplicar. Depois, não vem reclamar.

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Aproveitando o assunto, vale a pena ler também o post de Tom Goodwin no Digigay onde ele lista os 5 grandes mitos da publicidade moderna. Em relação ao tema acima, Goodwin defende que os consumidores NÃO querem conversar com as marcas e que marcas NÃO precisam gerar conteúdo. A argumentação é curta e rápida, mas o contraponto é interessante e super válido.

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Leia também:

7 Pesquisas que Vale a Pena Você Conhecer

– Por que você é impactado por tanta publicidade

Omelete, Papo de Homem e Noize contam o que deixa um site independente de pé em 2014

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Um dos traços mais marcantes da cultura digital é a facilidade de se botar um projeto na rua. Hoje, qualquer um pode, em poucos minutos, fazer o setup básico de um blog, de uma pequena loja, de um selo de música, de uma galeria digital de arte, de um canal de vídeo, bastando pra isso ter um computador e acesso à internet. A facilidade é tão grande que você não precisa nem mesmo ter grandes planos, basta o impulso inicial já que o resto (até mesmo ideias) a rede providencia.

Por outro lado, empreendimentos digitais são como tamagochis: coloridos e engraçadinhos, nos distraem divertidamente por um tempo, até você perceber que, se não alimentar direito o bichinho, ele pode simplesmente morrer de inanição. Muitos empreendimentos digitais lembram tamagochis esquecidos pois, em geral, nascem de vontades momentâneas que não se sustentam ao longo do tempo. A rigor, isso não é um grande problema, nem tudo que surge precisa realmente se edificar, mas com frequência imagino quantas pessoas não iniciaram empreendimentos digitais perseguindo um entusiasmo inicial, se iludiram com as supostas facilidades da rede e acabaram se frustrando com uma dura realidade: a internet também faz parte da realidade.

Algumas semanas atrás, eu e meus parceiros-fundadores do OEsquema Alexandre Matias e Bruno Natal estivemos no You Pix Festival coordenando três da dezenas de mesas de debates que formam o evento. A mim coube mediar, justamente, o papo sobre como se estruturam três dos sites independentes mais interessantes da internet nacional: Papo de Homem, Omelete e Noize, iniciativas diferentes, de trajetórias e assuntos diversos mas que tem em comum o fato de terem nascido de paixões e estarem hoje de pé e vivos, andando com as próprias pernas. A ideia da mesa surgiu do momento que nós mesmos, do OEsquema, estamos vivendo, nosso próprio ponto de reestruturação de uma ideia inicial, passando do “juntar os trapinhos para compartilhar servidor e design” a “estruturar um site de cultura baseado em blogs independentes que tem algo a dizer”. Que melhor maneira de aprender um pouco senão ouvindo três casos bem sucedidos na missão de se manterem relevantes culturalmente e ativos na internet brasileira?

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Quem espera por alguma fórmula mágica ou por algum mantra de auto-ajuda digital vai se decepcionar. A grande contribuição que Marcelo Hessel (colaborador do Omelete), Maria Joana (editora da Noize) e Guilherme Valladares (criador do Papo de Homem) deixaram, a meu ver, foi confirmar que o ar de zuêra da internet não significa que dá pra fazer tudo de qualquer jeito se você quer ir pra frente. Como a maior parte dos empreendimentos digitais, os três sites aos quais eles são associados se sustentam sobre pilares bastante lógicos que misturam uma visão clássica de negócios de mídia com o novo jeito de fazer as coisas da internet. Do ponto de vista tradicional, podemos começar citando seus escopos muito bem definidos de conteúdo: o Omelete aposta na produção audiovisual pop, especialmente a baseada em quadrinhos (a origem do Omelete), que é a tônica da indústria do entretenimento hoje; o Papo de Homem identificou sabiamente a necessidade de se retratar as novas formas masculinas de se estar no mundo, fugindo da receita tradicional da mídia macha; e a Noize consegue a incrível proeza de ainda espremer relevância cultural do fragmentado e confuso cenário musical atual. Levando-se em consideração a flutuação de humores e interesses da internet, certamente a longevidade dos três projetos, em especial do Omelete, deve algo à fidelidade ao nicho que escolheram cobrir. Em tempos líquidos, um pouco terra firme também atrai e retém audiência.

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O segundo ponto que eu classificaria como tradicional na história do Omelete, Noize e PdH é sua estrutura comercial e administrativa. Os três representantes presentes no debate relataram como a dor do crescimento se manifesta especialmente incômoda na necessidade de vender seus produtos no mercado publicitário (que é o que ainda sustenta grande parte dos veículos mesmo na era digital) e de organizar a vida financeira. Quando o assunto é finanças, não tem saída: todos tiveram que se tornar empresas no sentido mais cotidiano da palavra. É ponto de partida para o crescimento. No caso do comercial, cada um buscou um caminho. O Omelete contou inicialmente com o representante do portal no qual estavam hospedados para furar a barreira dos mídias das agência de publicidade. A Noize nasceu com uma estrutura paralela de ações promocionais e branded content que sustentou o site e a revista por anos e que hoje é apenas mais uma unidade de comunicação a andar de mãos dadas com seus veículos. E o Papo de Homem, além de investir em comercial próprio, apostou na criatividade de novos formatos para anunciantes, sendo o mais impressionante deles o sistema de mecenato. Em todos os casos, se prezou por um profissionalização tradicional a partir da ideia de que dinheiro não vem voando pela janela e de que as formas alternativas de remuneração (como assinaturas ou crowdfundings) ainda estão no caminho de se tornarem opções viáveis para empreendimentos de fôlego.

O terceiro ponto que eu consolidei a partir do papo é o gene que marca o DNA dos três como digital. Tanto Omelete como Noize e Papo de Homem são empreendimentos que prosperam baseados no cuidado que tem com as comunidades que se criaram em torno de seus veículos, o que está intimamente ligado ao primeiro ponto, do escopo bem definido de conteúdo. Diferente dos veículos tradicionais, junto com Omelete, Noize e Papo de Homem nasceram comunidades que sustentam e impulsionam não apenas a audiência numérica, mas principalmente o conceito de cada site. E não são leitores, peças hierarquicamente inferiores, são realmente comunidades, que participam, debatem e enriquecem os conteúdos dos sites, não raramente acabando por funcionar como campo de recrutamento para futuros colaboradores. As comunidades se manifestam das mais diversas maneiras: por email, nas redes sociais e principalmente nos comentários, que muitas vezes se tornam extensões legítimas do espaço oficial.

Eu falei que não traria nenhum mantra de auto-ajuda digital, mas aí está talvez um tripé interessante para quem está pensando em profissionalizar seu blog ou seu site: proposta de conteúdo afinada com a cultura contemporânea, indispensável profissionalização da estrutura e uma comunidade bem nutrida em torno do seu trabalho. Pronto. Aí está a fórmula “mágica”. Agora é só botar de pé.

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Rápida nota sobre o You Pix.

O You Pix é, já há algum tempo, o principal festival e veículo da cultura de internet brasileira, cobrindo com uma sensibilidade impressionante uma gama gigante de manifestações culturais nascidas quase que exclusivamente na rede. Apesar de ser leitor frequente do site, confesso com certa vergonha que nunca tinha ido ao festival. A experiência é obrigatória para quem trabalha ou vive esse meio.

No You Pix, a zuêra e a zoeira se encontram. O murmúrio digital que brota nas nossas telas eclético e desordenado se manifesta da mesma forma no segundo andar do Pavilhão da Bienal. São centenas de convidados que se distribuem em 9 palcos com debates e apresentações simultâneas, além de dezenas de ações de marketing dos patrocinadores, aliás muito disputadas pelo público, que fez fila para tirar fotos como Minions, fazer selfies com zumbis e compartilhar fotos para ganhar café de graça. Passeando pela versão física do You Pix, me senti um pouco como Colin Laney, protagonista de Idoru do William Gibson, navegando vastas quantidades de dados vivos em busca de pontos nodais.

Aliás, tem bastante conteúdo sobre o festival no próprio site deles. Não perda.

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Crédito das fotos.

A primeira foto do post é do Facebook da Maria Joana, que fez a foto enquanto eu iniciava o debate. Todas as outras são do meu celular, também tiradas durante o debate.

Um manual prático de Design para Impacto Social

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É prática estabelecida no mercado de comunicação que agências de publicidade e estúdios de design procurem ONGs e entidades sociais para colaborar nas suas ações e estabelecer parcerias. Às vezes, a parceria serve mais à agência/estúdio, que busca trabalhos que possam lhe render prêmios. Mas, em muitas ocasiões, surgem parcerias realmente relevantes, especialmente quando são baseadas numa visão estratégica de longo prazo – tanto para a entidade quanto para a agência/estúdio.

É justamente para definir quais são os pilares que sustentam essa parceria de longo prazo que a americana Ideo criou, em 2005, duas ferramentas simplíssimas de colaboração entre entidades sociais e empresas de design (o que, a meu ver, está valendo também pra agências de publicidade). Trata-se de um guia e um workbook com o passo-a-passo pra estruturar projetos que sejam frutíferos para ambas as partes e, portanto, com maior chance de prosperar no tempo.

Mais informações e downloads do tookit, no site da Ideo:

– Informações sobre o projeto Design for Social Impact.
– Download do Design For Social Impact Guide.
Download do Design For Social Impact Workbook.

Normcore, esse incompreendido

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No fim de 2013, os escritórios de pesquisa de tendências Box 1824 e K-Hole lançaram um relatório chamado Youth Mode – Um Estudo Sobre Liberdade. O objetivo desse tipo de estudo, em geral, é identificar em movimentos de vanguarda os primeiros sinais de novos ventos culturais que começam soprando em nichos e que acabam, depois de um tempo, varrendo a vasta planície do mainstream com sua influência. Um destino comum para esses relatórios é a mesa de diretores de marketing de marcas globais, que costumam procurar desesperadamente por elementos de diferenciação que possam resolver um sério problema no consumo hoje: o fato de que quase tudo é tão rapidamente absorvido pelas pessoas e pelo mercado que logo se torna parte da paisagem.

Smartphones, calças skinny, tênis Converse, sacolas ecológicas e música indie são alguns exemplos de produtos que começaram seu ciclo de vida como elementos de diferenciação para quem os usava mas que acabaram se popularizando numa velocidade nova, perdendo o contato com os nichos originais e, também, seu status de diferenciadores. Isso tem diversas consequências. Por um lado, pode criar um problema mercadológico, já que a lógica do capitalismo desde os anos 50 vem sendo absorver os movimentos culturais alternativos e devolvê-los digeridos, embalados para o consumo seguro de um público mais amplo. Por outro lado, essa saturação abre um novo ângulo de abordagem da individualidade no momento em que o consumo de novidades passaria a não servir mais como diferenciador de identidade.

Essa perspectiva é consolidada pela Box/K-Hole no conceito de Normcore, a atitude de transcender a diferenciação industrial em vez de contrapô-la. Normcore é “entender o processo de diferenciação através de uma perspectiva não-linear. (…) Não é a liberdade de se tornar alguém, é a liberdade de poder estar com qualquer pessoa. Você pode não entender nada de futebol e mesmo assim sentir um arrepio com o grito da torcida na Copa do Mundo. Em Normcore, a pessoa não finge estar acima da vergonha de querer pertencer.” No território de extrema complexidade que se tornou a sociedade urbana, o Normcore surge como um comportamento de abertura ao todo muito mais do que como uma definição de uma nova reserva de atitude. Mas nem todo mundo entendeu assim.

Em fevereiro, a New York Magazine publicou um artigo intitulado “Normcore: Moda pra quem percebeu que é só mais um em um milhão”. O foco do texto eram os hipsters nova-iorquinos vestindo tênis New Balance, calças cáqui Uniqlo e jaquetas Patagonia (no Brasil, talvez o correspondente seria Nike Shox e conjunto de abrigo de tac-tel). No mesmo mês, a Dazed and Confused perguntou qual seria a trilha musical do Normcore. E respondeu: seria a playlist de dance music superficial que se ouve na academia. Em ambas as matérias, e em tantos outros posts internet afora, o ponto do Normcore foi perdido completamente. O New York Times identificou isso em março, declarando que Normcore é possivelmente “um meme de internet que se tornou uma gigantesca piada interna na qual a mídia insiste em cair”, como a GQ, que abraçou o Normcore como tendência de moda, e a Elle.com, que o denunciou como fraude. Normcore não é uma coisa nem outra. Talvez seja apenas um comentário cultural de duas empresas com objetivos híbridos que flutuam entre a investigação sociológica, o jornalismo, a arte e a consultoria comercial.

Hypes à parte, Normcore é um bom termo para resumir como a dinâmica de propagação de tendências pode estar mudando. Até pouco tempo atrás, esse esquema costumava se parecer com a imagem de um líquido viscoso sendo derramado no topo de uma pirâmide e escorrendo lentamente paredes abaixo. No topo da pirâmide estava uma espécie de elite cultural, não no sentido de “bem educadas formalmente”, mas mais como verdadeiras antenas da sociedade, pessoas que, indiferente de sua classe social ou formação, captavam antes dos outros novos modos de ser e de agir. Um bom exemplo disso foram os DJs e jornalistas que abraçaram o funk carioca desde o início, identificando nele uma onda cultural relevante e que se tornaria abrangente, parte do novo imaginário nacional. O que demorou, mas aconteceu.

Sob a lente do Normcore, essa demora, representada aqui na imagem do líquido viscoso descendo a pirâmide, não faz mais sentido. Hoje, é mais realista pensar que as ondas culturais se disseminam como uma bala de paintball explodindo dentro da pirâmide, espalhando tinta de maneira não-uniforme para todos os lados, manchando diferentes segmentos sociais em splashes pollockianos. Foi o que aconteceu com o sertanejo universitário moderno, que não pode ter uma origem traçada de forma tão linear quanto à do funk carioca. Se bem me lembro, nenhum relatório de tendência dos últimos anos destacava como vetor de comportamento um paranaense criado no Mato Grosso rebolando ao som de “Ai Se Eu Te Pego”. De onde veio essa? Não veio das antenas sociais, mas das “pessoas normais” para quem “o entendimento de que só a adaptabilidade leva ao pertencimento”, como diz o relatório Youth Mode, é uma ferramenta básica de sobrevivência desde sempre e não um conceito desenvolvido em laboratório.

O Brasil é um campo rico para a discussão do Normcore. Primeiro, porque sempre celebramos nosso mainstream. Aqui, a busca pelo pertencimento em comunidades amplas é quase um valor nacional e para poucos grupos sociais a ideia de adaptar seu estilo dinamicamente é uma novidade ou um desafio, quanto mais um conceito sociológico. Além disso, a recente mistura de ascensão econômica da classe C com a digitalização de pelo menos metade da população bagunçou completamente o esquema pelo qual operava a disseminação de ondas culturais e, consequentemente, da ideia de diferenciação. Você passa na rua por alguém de camisa xadrez e tênis Converse e não sabe se a pessoa é apaixonada por anos 90, sertanejo universitário ou Sambô. Ou tudo isso ao mesmo tempo. Normcore na veia.

Numa perspectiva extremamente otimista, talvez a ideia de Normcore como uma hiperadapabilidade em busca de conexão humana seja um cansaço natural de 60 anos de busca por individualidade através de códigos comerciais externos. A noção de que uma pessoa consome alinhando seus valores pessoais com os valores construídos pelo branding de uma marca já caducou como conceito e, se tudo der certo, deve caducar como prática. Quem se importa se você é Mac ou PC quando ambos são montados na China pelas mesmas fábricas com condições de trabalho questionáveis? Outro ponto seria rever a ideia ocidental-capitalista de uma individualidade que serve pra nos separar uns dos outros. A psicanálise, meio fora de moda com o avanço da indústria química sobre o cérebro, há muito tempo defende a singularidade do sujeito como um ponto de conexão e empatia e não necessariamente de afastamento uns dos outros. Somos semelhantes nas nossas singularidades e não apesar delas. Do ponto de vista do Normcore, poderia se dizer: de perto, ninguém é normal e mais de perto ainda ninguém é anormal.

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Esse artigo saiu na página 77 da nova revista Void. A revista está inteira lá no Issuu. Desde que escrevi, uma série de outras matérias e artigos saíram sobre o assunto. Em breve, voltarei a ele.

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Imagem do tumblr True Detective? More like True Normcore.

O smartphone seduz tanto porque permite segurar a bagunça da vida com uma só mão

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A previsão de estudiosos de tecnologia e comportamento se confirmou: o smartphone é o aparelho símbolo desse início de era digital. Totalmente móvel e finalmente amigável no preço e na operação, o celular com acesso à internet deixou de ser um habitante do mundo da tecnologia e garantiu visto de residência definitiva na cultura mainstream. Ele é usado e desejado por pessoas de diferentes idades, classes sociais e conhecimento tecnológico, e está se inserindo em praticamente todos os aspectos do dia-a-dia, desde tarefas profissionais e escolares até nos meandros dos relacionamentos e em toda e qualquer forma de diversão. A questão que resta sobre o smartphone diante de tudo isso é: como foi que ele conseguiu superar laptops e tablets, que pareciam tão atraentes e mais completos, na preferência geral? Foi graças à acessibilidade financeira? À vasta disponibilidade de apps e joguinhos? À facilidade de conexão? À leveza e portabilidade? Acho que não. Meu palpite é que o trunfo do smartphone não é prático, mas psicológico. Seu poder de atração vem de permitir que qualquer um possa segurar o caos da vida humana na palma de uma mão. Essa sensação, mitologicamente, foi sempre reservada aos deuses e agora está amplamente disponível aos meros mortais.

A notícia de uma tragédia, quando assistida na televisão, nos deixa ergonomicamente desamparados e impassíveis. Ficamos lá, de peito aberto, sem ter o que fazer com as mãos. Uma discussão de relacionamento por chat num laptop, mesmo que possa ser encerrada fechando o computador com raiva, retém um certo peso nas pernas, onde o laptop provavelmente está apoiado. Fotos de um antigo relacionamento sendo revisitadas num tablet precisam ser seguradas e passadas adiante usando as duas mãos, numa pose desajeitada. Já num celular, qualquer um desses conteúdos está a um dedo de ser manipulado (ou dedopulado) e a um simples gesto de ir para o bolso. O smartphone pode ser girado, jogado, apertado entre os dedos. Ele e seus conteúdos parecem muito mais um brinquedinho do que um dispositivo de interação com os vários setores da vida, que ficam todos condensados dentro de alguns centímetros quadrados, esmagados entre os chips, o cartão de memória, a bateria e o processador. É incrível que tanta carga emocional caiba (e tão organizadamente) em tão pouco espaço.

Por mais tumultuado que seja um relacionamento, suas mensagens, fotos, ligações e compromissos estão bem embalados no design minimalista dos aplicativos que o casal usa nos seus smartphones. Por mais intragável que seja um chefe, seus emails podem se tornar reféns de sons de notificação fofinhos selecionados pelo seu empregado no programa de email do celular. Por pior que esteja o tempo lá fora, no app de meteorologia isso significa apenas uma nuvenzinha escura com um raio singelo. Por mais revoltante que seja a declaração de um político no Twitter, graficamente ela se parece muito com a de todos os outros perfis que você segue. Por mais frustrante que seja o engarrafamento que surge lá na frente, no Waze ele está sujeito a se transformar em meras linhas congestionadas em vermelho e povoadas por avatares engraçadinhos. Esqueça as princesas da Disney. O conto de fadas definitivo está sendo narrado agora mesmo, na sua frente, em tempo real, no seu smartphone.

Eu sei que posso estar soando distante e sarcástico, mas de maneira alguma me declaro imune ao falso estado de empoderamento que o smartphone induz. Com ele nas mãos, sinto que o fluxo desordenado e selvagem da vida é filtrado por uma interface mágica e brota aos meus olhos como um reino encantado, de paisagens idílicas em flat design, habitadas por duendes coloridos chamados apps e governado pelo Rei Polegar. Mesmo que seja ilusória, essa perspectiva me deixa tão mais tranquilo que ando pensando em aceitá-la e comprar uma coroa para o meu dedão.

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Foto: Picjumbo

O que eu aprendi no Treinamento Nesta/British Council para Empreendedores Criativos

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A palavra “criativo” é um grande problema. Em geral, as pessoas associam “criativo” a coisa “loucas”, “diferentes”, “irreverentes”, “fora da casinha”. Instalações de arte contemporânea, games bizarros, utensílios de cozinha inusitados, filmes experimentais, todos são considerados “criativos” enquanto que o planejamento dos produtores culturais, o fluxo de caixa da empresa de games, os relatórios do contador do estúdio de design e a planilha orçamentária da produtora de cinema são “uma encheção de saco”, “um mal necessário”, alienígenas incompreendidos em um planeta no qual todos praticam bullying com a burocracia.

Combinar na prática esses dois mundos, o pragmático com o imaginativo, foi a lição de fundo que eu aprendi no Treinamento Nesta para Empreendedores Criativos que freqüentei semana retrasada aqui em Porto Alegre. Durante 4 dias, eu e outras 19 almas perdidas fomos recebidos gratuitamente na Escola de Design da Unisinos para um excelente workshop promovido pela Secretaria da Cultura do Governo do RS numa parceria com o British Council e o NESTA, este último o responsável pela metodologia e pelo conteúdo do evento.

Assim como eu, todos os outros integrantes do treinamento estão trabalhando em projetos profissionais ligados à economia criativa. Entre as ideias sendo gestadas ou aperfeiçoadas estavam uma iniciativa de microcrédito para artesãos, uma ocupação cultural de um prédio histórico semi-abandonado, uma produtora de vídeos comerciais com abordagem documental, estúdios de animação, um app para o universo da cerveja artesanal, uma marca de moda, uma entidade associativa para marcas de moda, enfim, empreendimentos que são baseados muito mais em capital intelectual do que financeiro ou físico.

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Criado na Inglaterra como parte de um vasto programa de inovação com foco na economia criativa, o objetivo do Treinamento Nesta é submeter os projetos (ou ideias seminais) a uma bateria de exercícios e dinâmicas que permitem construir, revelar ou refinar seus pilares conceituais e operacionais com a ajuda dos companheiros de workshop. Essa metodologia não é novidade para os empreendedores seriais, para os que já vivem imersos na roda viva das aceleradoras, da busca por investidores, dos livros de negócio. Mas se eu fosse me basear na pequena amostragem desse Treinamento, daria pra dizer que 80% dos empreendedores criativos não tem seus projetos totalmente estruturados de maneira que sobrevivam a suas próprias contradições e lacunas – que dirá a fatores externos. A verdade é que mesmo com a disseminação da cultura e do vocabulário médio das startups no Brasil, a noção de modelar um negócio criativo de maneira formal ainda causa calafrios em muitas pessoas que gostam simplesmente de sentar e criar o que quer que seja. Aliás, eu sou uma dessas pessoas.

O que pra mim fez a diferença no caso do Treinamento Nesta foi o Creative Enterprise Tookit, um apanhado de ferramentas para modelagem de negócios que mistura elementos clássicos (como a matriz de análise SWOT) com contemporâneos (como alguns frameworks do criador do Business Model Generation, Alexander Osterwalder) de uma maneira que que não afugenta que não tem grande apreço por planos de negócios tradicionais. O Tookit é disponibilizado gratuitamente para download (em inglês no site do Nesta ou em português diretamente no meu Dropbox) e ele próprio é um passo-a-passo par ser utilizado independente do workshop. Mas trabalhar com o Tookit em grupo, com um orientador treinado, num ambiente sincero de troca e colaboração como foi o treinamento que participei, não tem preço: a interação com o grupo, bem conduzida, forma um caldo grosso de dúvidas e insights que enriquecem todos os projetos, por mais diferentes que sejam seus objetivos ou seus segmentos. Parabéns à treinadora Phily Page, que conseguiu manter a coesão e a energia do grupo em uma curva ascendente ao longo dos 4 cansativos dias de trabalho.

Fica, então, a esperança (e a reivindicação) que a Secretaria da Cultura dê proseguimento a seu programa RS Mais Criativo e promova mais workshops como esse. Dinheiro para projetos não é a única forma de incentivar empreendimentos criativos. Eu arriscaria a dizer que a maior parte deles se beneficiaria mais de um treinamento assim, seguido de um sistema de apoio de gestão, do que exclusivamente de dinheiro. Embora a grana seja sempre bem-vinda (e ajuda financeira é fundamental para a cultura de um país ainda emergente) um processo de  treinamento contínuo desse calibre é mais estruturante – além de estimulante e viral: aqui estou eu falando da metodologia para minha audiência e tenho certeza que meus colegas também se tornaram mutiplicadores dos saberes que adquiriram.

Aliás, antropologicamente falando, não é assim que as culturas evoluem?

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Em abril, o Treinamento Nesta vai acontecer em Recife. As inscrições já estão encerradas.

De qualquer forma, vale explorar o site do Transform, o programa do British Council que trouxe o Treinamento para o Brasil e que está envolvido em uma série de outros projetos de intercâmbio cultural UK-BR.

O site do próprio Nesta é uma fonte de consulta bastante interessante. Eles tem, por exemplo, dezenas de relatórios e pesquisas nas áreas de inovação e economia criativa. Tudo pra download gratuito. Em inglês.

O pós-hype da Economia Criativa

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“Economia criativa” é uma dessas expressões, como “co-criação”, “crowdfunding” e “big data”, que recebem uma atenção tão concentrada no seu surgimento que acabam correndo dois riscos: serem esquecidas rapidamente em benefício de novas ondas ou se tornarem caricaturas que temperam palestras duvidosas. Mas, felizmente, em uma esfera que fica além dos títulos de posts e dos keynotes descolados, forças com intenções mais perenes se articulam para aprofundar as bases do que vale a pena manter de pé. É o caso da Economia Criativa, ao menos pelo que vi no lançamento da Escola da Indústria Criativa da Unisinos no sábado passado. O evento colocou no mesmo palco a Edna dos Santos-Duisenberg, Chefe do Programa de Economia Criativa da United Nations Conference on Trade &  Development, e a Lala Deheinzelin, especialista em Economia Criativa e Desenvolvimento Sustentável. E a fala das duas (assim como o lançamento da Escola) contrapõe a ideia de que a Economia Criativa possa ser apenas um modismo ou um termo bacanudo.

A Edna começou o papo trazendo uma visão panorâmica bem estruturada sobre os caminhos da Economia Criativa no mundo, destacando a importância desse tipo de negócio na recuperação de crises econômicas (é pra EC que alguns desempregados se voltam pelo baixo investimento inicial que exige) e o DNA do Brasil nesse segmento. Segundo ela, a gente tem uma inclinação à Economia Criativa por conta da nossa riqueza cultural e da nossa habilidade natural de misturar e improvisar. O que falta é aprendermos a transformar essa energia em um ecossistema organizado que permita aos criadores evoluir artísitica e economicamente.

Os casos nacionais bem sucedidos em grande escala são poucos mas exemplares (ao menos em termos financeiros): ela citou o Carnaval, as telenovelas e a música popular como indústrias criativas tipicamente brasileiras, calcadas em uma infraestrutura própria e geradoras de divisas e empregos. Além disso, essas três indústrias ainda colaboram na constituição da identidade do país. Edna chama isso de “soft power”, o poder de gerar riqueza e influência sem ativos tangíveis – algo que, crítica social à parte, os Estados Unidos utilizam muito bem na propagação de seu estilo de vida pelo mundo. Particularmente, senti falta, na fala da Edna, de uma ênfase na “cauda longa” da Economia Criativa – as centenas de nichos culturais que não são tão grandiosos ou populares mas que, combinados, se tornam uma força importante. Mas também entendo que ela tinha pouco tempo no palco e seu trabalho ocorre mesmo num nível mais macro. Segue o baile.

Lala Deheinzelin_por RodrigoBlum

A Lala Deheinzelin, na sua vez, fez outra comparação valiosa para esclarecer por que é tão necessário olhar para a Economia Criativa de forma estruturada e não apenas com as lentes em aros grossos do hype: “Precisamos de uma Petrobrás para a Economia Criativa brasileira”. Não que a Petrobrás precise ampliar seu programa de patrocínios… o que a Lalá quis dizer é que temos também uma espécie de pré-sal cultural que pede mais do que a capacidade de ser alcançado, tem a necessidade de ser processado para se colocar de pé num sentido econômico, para dar sustentabilidade ao circuito criativo. No Brasil, toda atividade criativa ainda sofre um certo preconceito, como se estivesse em um patamar inferior, menos sério, menos importante. O que é uma tremenda injustiça econômica. A Lala lembrou que o potencial da Economia Criativa é gigantesco por funcionar dentro de uma lógica exponencial: a soma de 2 produto físicos gera a renda de 2 produtos físicos; mas a soma de 2 ideias pode dar origem a uma terceira que gera um valor dez ou cem vezes maior do que a das unidades. O potencial para gerar riqueza dentro da Economia Criativa é nuclear.

Tanto a Edna como a Lala enfatizaram ainda o quanto a Economia Criativa tem um aspecto inerente de diversidade e inclusão. Um ecossistema saudável para o crescimento de Indústrias Criativas oferece outros formatos de vida para pessoas que não se adaptam à lógica econômica linear da indústria pesada ou dos serviços convencionais. Fora isso, se trabalhadas de forma anti-hegemônica, as Indústrias Criativas tem o poder de revelar e amplificar diferentes ângulos da nossa cultura, influindo inclusive sobre a auto-estima de segmentos inteiros da população. Pode ser uma visão otimista da minha parte, mas acho que vale a pena olhar assim.

Em resumo, a Economia Criativa precisa mais do que deslumbre que jogaram sobre ela há alguns anos. Voltando à fala da Edna, ela lembrou que a atuação governamental, por exemplo, não pode ficar restrita ao Ministério da Cultura. Economia Criativa é assunto transversal, que une ministérios diferentes como os ligados à indústria, ao comércio, à tecnologia, à educação e ao turismo. Um papo nesse nível talvez não pegue tão bem numa roda cool, mas pode fazer maravilhas pelo desenvolvimento do Brasil.

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Foto 1: New Old Stock

Foto 2: Rodrigo Blum, divulgação Unisinos

O problema do excesso de auto-mensuração

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Os dispositivos digitais de auto-mensuração individual, como o conhecidíssimo Nike Plus, que mostram em gráficos bacanas os quilômetros que a gente corre, as calorias que a gente gasta, os minutos que a gente dorme e coisas do tipo, trouxeram um aspecto científico e lúdico pras atividades cotidianas. Hoje, já existe aplicativos e dispositivos pra quase tudo. Embora a maior parte deles lidem com estatísticas de atividades físicas, também há espaço para coisas como medir sua felicidade, sua capacidade de atingir metas e seu estado cognitivo. Claro: em se tratando de negócios e cultura digital, não há limites para o que possa surgir.

Eu mesmo já usei o Strava por alguns meses e ele foi bastante útil pra descobrir que as minhas voltas de bicicleta estavam dando conta da atividade física que eu precisava semanalmente. Também, claro, me diverti olhando meus trajetos no mapa e conferindo os tempos de outras pessoas em determinadas áreas da cidade. Mas chegou um ponto que eu já tinha a informação que precisava e resolvi deixar o app de lado pra simplesmente andar de bicicleta.

Não há dúvida que esses apps e dispositivos carregam, além de um forte poder de sedução, uma mistura de utilidade com diversão. Mas também é razoável pensar que eles podem deseducar uma pessoa que tem boa consciência corporal ou impedir alguém de aprendê-la. A consciência corporal seria a capacidade de monitoramento próprio, sem a ajuda de dispositivos: saber ouvir o corpo, ler as sensações, calcular não-matematicamente a resposta que precisamos dar a situações físicas que aparecem, como fadiga ou uma reserva extra de energia que ressurge. Estamos falando de uma capacidade que atrofia se não for utilizada constantemente, se for relegada ao segundo plano, colocada atrás da telinha com os gráficos coloridos. Além do mais, quando afiada, ela transcende visualizações matemáticas.

Esse é um dos aspectos complicados da cultura digital, que costuma ser muito comentado pelo americano Douglas Rushkoff: o contato constante com interfaces digitais reduz nossas expressões a formulários e dados. Queiramos ou não, acabamos tendo que espremer o nosso jeito de ser e de viver em campos pré-formatados e em resultados contados numericamente. Nesse sentido, a linha entre a praticidade e o simples materialismo é quase transparente. Claro que tudo pode ser quantificado e calculado, inclusive o afeto que hoje vem na forma de likes e visualizações – mas o que perdemos com isso?

Não chegamos a perder uns aos outros, o que seria drástico e irreal de se declarar. Antes, podemos perder algo mais sutil, perder uma capacidade interna de avaliação que não é visual, numérica ou mesmo exata. Antes, podemos perder a confiança no que não é visual, numérico ou exato. Ou seja, em boa parte do que consideramos ser a experiência humana de primeira mão.

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Foto: Little Visuals.