Tommy Kambota, campeão mundial de Não Vale Pisar nos Risquinhos nos anos 80

tommykambota

Publicado originalmente na revista Void número 99.

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Um papo com Tommy Kambota

Quando o dentista Tomás Caetano, 47, entra no café que fica dentro do supermercado Zaffari do Menino Deus, em Porto Alegre, ele demora um pouco até chegar à minha mesa. Antes de sentar para começar nossa entrevista, precisa dar atenção aos funcionários e clientes do café, que o reconhecem e querem trocar cordialidades. Caetano é especialmente popular entre os idosos, os quais são a maioria dos presentes nesse horário (quase quatro da Tarde), mas os jovens funcionários também fazem questão de estender a mão por cima do balcão e cumprimentá-lo. Quando finalmente o tenho só para mim, faço menção de me levantar para recebê-lo, mas ele interrompe meu movimento com a mão: “Capaz, fica aí sentado.” A atendente vem logo atrás com um café duplo encimado por chantilly e polvilhado com canela que Caetano nem precisou pedir. “Foi assim nos anos 80”? Perguntei a Caetano. “Foi” ele disse. “Pra mais ou menos umas seis pessoas.” E solta uma gargalhada cavernosa.

Ninguém no café sabe, mas nos anos 80 Tomás Caetano foi Tommy Kambota, o único campeão mundial de um esporte radical que teve uma vida curtíssima porém muito rica enquanto subcultura. “Eu não sabia que isso existia como esporte.” me conta Kambota do alto dos seus quase dois metros sólidos e bem distribuídos em um corpo de 80 quilos coroado por cabelos precocemente brancos. “Pra mim, era uma brincadeira de criança que eu segui fazendo quando cresci. Eu fazia isso escondido, porque se fizesse na frente dos outros iam dizer que eu tinha problemas mentais. Quem é que com 16 anos ainda brinca de Não Vale Pisar nos Risquinhos? Então, quando um amigo meu que tinha parentes em Portugal voltou de lá com um fanzine punk que falava disso, eu fiquei louco. Pensei – bah, achei minha turma!”

Criado em Portugal por filhos entediados de imigrantes angolanos, o Não Vale Pisar nos Risquinhos antecipou em quase uma década a onda do Street Skate nos Estados Unidos e em quase duas décadas a criação do Parkour na França. A simplicidade de seu funcionamento é seu maior trunfo. O praticante de Não Vale Pisar nos Risquinhos escolhe um trecho de calçada qualquer e se propõe a atravessá-lo sem pisar no cimento que une as pedras e sem apoiar as mãos em lugar algum. Como o Street Skate e o Parkour, os melhores atletas de Não Vale Pisar nos Risquinhos são os que estabelecem um diálogo com a cidade e os melhores circuitos em geral dependem das imperfeições e das idiossincrasias da arquitetura urbana. Quanto mais _difícil_ uma calçada, melhor.

Quando leu no fanzine punk português Cadáver Esquisito que angolanos malucos estava fazendo sessions de Não Vale Pisar nos Risquinhos em calçadas dos subúrbios de Lisboa, Kambota se sentiu autorizado a sair do armário como atleta street da modalidade. Quem o vê hoje, de terno e gravata ou de jaleco de protesista, não imagina. “Até essa época, eu pegava umas ruas menores e escondidas, como a Barão do Tefé ou a Uruguaiana. Mas depois de ler a matéria eu pensei – ah, foda-se… eu botava o meu Adidas Marathon, que tinha uma ponta boa, botava uma bermuda e uma camiseta da Ocean Pacific, que era moda na época, um boné pra conseguir enxergar bem no sol e mandava ver. Às vezes, eu saía de casa às três da tarde e ficava fora até a meia noite, pra desespero dos meus pais. Na época não tinha celular e era normal a gente ficar na rua, mas eu sempre exagerava. É que eu realmente fiquei obcecado com Não Vale Pisar nos Risquinhos. Pisar era uma cachaça.”

“Pisar” é como os praticantes de Não Vale Pisar nos Risquinhos se referem às sessions. Aos 16 anos, sem interesse em skate, surf ou bicicross, Kambota assumiu sua idiossincrática cachaça  e passou a pisar diariamente, primeiro cobrindo todo o seu bairro, o Menino Deus. “Aqui era perfeito porque tinha uma variedade de calçadas muito grande. Do lado de lá da Getúlio eram umas ruas com casas mais simples, com aquelas calçadas de basalto irregular, sabe? Que é como o cara começa, umas pedras maiores… Mas as melhores calçadas pra pisar estavam aqui desse lado da Getúlio, na Ganzo e na Bastian. Tinha até uns trechos com umas pedras portuguesas minúsculas que, nossa…” Kambota bufa, como que revivendo por alguns segundos a emoção de dobrar uma esquina e dar de cara com a calçada perfeita – ou imperfeita.

Durante anos, Tommy Kambota pisou solitário explorando Porto Alegre inteira, não encontrando mais ninguém que dividia a obsessão e ganhando fama de maluco no bairro. “Quando tu pisa por muitas horas, tu entra num tipo de transe, porque tudo que tu vê são os próximos dois ou três metros. Tu adquire um tipo de visão tubular que turva tudo ao redor e foca só num corredor estreito que fica bem na tua frente. As pedras parece que sobem alguns centímetros do chão e pra quem pisa bastante é muito simples encontrar o próximo ponto de apoio, porque tu fica com o olhar treinado. É parecido com quem escala na mão, sabe? O cara vê agarras onde ninguém vê. Pois é, pra mim é a mesma coisa com as calçadas, onde tu só vê umas pedras bagunçadas, eu vejo um caminho claro. Eu não enxergo mais nada, eu me concentro cem por cento.”

Curiosamente, o caminho do que fazer com aquele hobby não era tão claro para Kambota. Já com 17 anos e prestando vestibular para odontologia, ele continuava não encontrando parceria para conversar ou praticar Não Vale Pisar no Risquinhos. Mas os fanzines bissextos que chegavam de Portugal o fizeram não desistir. “Eu comecei a me corresponder com os punks de Portugal sim, mas só pra descobrir o endereço dos angolanos. Os punks europeus eram muito loucos, muito politizados. Eu não tinha estofo pra conversar com eles. O cara que escreveu a notinha sobre o Não Vale Pisar nos Risquinhos de lá tinha perdido contato com aquela turma, então eu tive que ficar me correspondendo com eles só pra encher linguiça e convencer eles a procurarem alguém que conhecesse. Um dia rolou. E foi muito louco.”

A conexão direta, via carta, com a pequena turma de angolanos que pisavam na periferia de Lisboa rendeu oito meses de troca de perspectivas sobre o esporte. “Os angolanos tinham uma visão bem poética da história toda. Eles falavam coisas do tipo ‘queremos escrever a crônica definitiva nos cadernos da cidade.’ E eu pensava – então tá né? Eu tinha uma relação mais prática com o Não Vale Pisar nos Risquinhos. Eu queria era pisar, eu queria a experiência direta de me perder na calçada.” A turma era pequena: dois lisboetas e três angolanos vivendo em Lisboa e mais um angolano que ficou em Angola. Mas a correspondência era rica. “A gente trocava muita foto de calçada com anotações de vias e de técnicas de pisada. Também tinha uma ideia de fazer intercâmbio de tênis, mas nunca aconteceu porque a gente era tudo guri novo, sem dinheiro, né? O nossos sonho era ser que nem o pessoal do skate e do surf: ter marcas próprias do nosso esporte, uma cultura visual só nossa. A gente desenhava alguns tênis, umas roupas, uns logotipos, mas era tudo viagem. Acho que o número de praticantes de Não Vale Pisar Nos Risquinhos nunca passou de nós sete.”

Pergunto sobre o campeonato e ele dá uma risada jogando a cabeça pra trás. “Isso foi outra maluquice. Porque se a gente não tinha dinheiro pra trocar tênis, imagina pra viajar. Viajar pra outro país era coisa de milionário nessa época né? Isso era o quê? Oitenta e sete? É. Mas a gente fez o seguinte: a gente decidiu que ia fazer o campeonato por vídeo. Cada um ficou de arrumar um jeito de gravar uma pisada sua em VHS e todo mundo ia mandar pro Michel, um dos angolanos de Lisboa. Ele editou tudo numa fita só e a gente ia mandar pelo Correio um pro outro, fazer um circuito. Cada uma que recebia a fita, fazia uma ficha votando com notas nas pisadas dos outros. O circuito inteiro demorou seis meses e a apuração do Michel deu que eu fui campeão. Recebi um pacote com uma cópia da fita e uma faixa feita pelo pessoal de Lisboa. Foi uma sensação incrível… imagina, tu acha que tu é o cara mais esquisito do mundo e recebe um reconhecimento que, de certa forma, te legitima. Foi muito emocionante, mas eu não contei pra ninguém, foi uma viagem que eu vivi pra mim mesmo.”

O primeiro Campeonato Mundial de Não Vale Pisar nos Risquinhos foi também o último. “A turma de Lisboa foi toda presa numa viagem pra Angola. Eles eram parte de um esquema de mulas de heroína e cocaína. Quem me contou foi o Felizardo, que morava em Luanda mas que fugiu pra Moçambique depois dessa história. Eu fiquei apavorado, tava trocando cartas com fotos e uma fita de vídeo com uns caras que faziam parte de uma rede de tráfico! Imagina, eu tinha 16, 17 anos, fiquei apavorado, queimei tudo, as cartas, as fotos, a fita, a faixa, até meus tênis e as roupas que eu usava pra pisar. Aí fiquei meio bloqueado com isso. Junta com o fato da faculdade estar começando a pegar forte, não só os estudos, mas as festas também, comecei a sair com umas gurias e aos poucos deixei essa história pra trás.”

Caetano me pergunta como é que eu descobri isso tudo e como cheguei nele. Conto da minha pesquisa de fanzines punk portugueses, de como achei a notinha sobre Não Vale Pisar nos Risquinhos e seu redator, Felizardo. Relato que Felizardo está vivo e bem, tocando sua banca de revistas em Maputo, que me deu seu nome verdadeiro e o antigo endereço. Depois, foi um pouco de pesquisa de campo e algum Google para chegar no telefone do consultório. Ele me escuta surpreso, como se eu fosse um tipo esquisito – uma rápida inversão de perspectivas. Mas logo volta ao modo simpático que conquista os velhinhos e balconistas do Menino Deus. Anuncia que precisa voltar ao trabalho de protesista e se levanta para me dar um abraço. Pede para eu enviar a matéria a ele por email quando for publicada; se despede de todo mundo; oferece para colocar meu café na sua conta e sai pelo hall do supermercado – sem olhar para trás, olhando apenas à frente, provavelmente esquadrinhando o chão com seu olhar tubular e sua concentração incomum. Eu dou uma caminhada rápida até a porta e grito, antes que ele dobre a esquina da Avenida Ganzo: “Kambota! Não esquece: não vale pisar nos risquinhos!”

Habitante Irreal de Paulo Scott

Não escrevo sobre esse livro pra resenhá-lo, localizá-lo no cenário cultural, comentá-lo. Escrevo expliciamente pra promovê-lo – especificamente aos que não foram impactados pelas resenhas e comentários elogiosos do ano passado. Ao que me consta, Habitante Irreal foi considerado um dos lançamentos mais importantes e consistentes de 2011 e é um romance que teve sobre mim esse efeito de engajamento. Não me bastou ler e curtir – quero passar adiante, aspiro que outras pessoas vivam uma experiência tão interessante quanto a que vivi lendo suas 264 páginas.

E que experiência é essa? É acompanhar, pelo lado de dentro, uma trajetória que começa com o desencanto de um jovem estagiário de advocacia e militante do PT, passa por uma temporada na Londres do início dos anos 90 e termina com um coquetel de arte performática e legado indígena. E, o mais impressionante tecnicamente, Scott faz a ligação entre esses cenários através das lentes de dois indivíduos que são testemunhas e eventuais protagonistas de ondas históricas – essa é a revisão, a cobertura, o “passar a limpo” da virada dos anos 80 para os 90 e a entrada nos anos 00 do ponto de vista da política e da cultura tão comentados em resenhas literárias. Pode ser, claro, que eu estivesse sensível na semana que me lancei nessa leitura, pode ser que eu esteja exagerando. Mas suspeito fortemente que Paulo Scott conseguiu gerar um daqueles livros interativos – você vai lendo e a história vai apertando botões em locais ermos do inconsciente coletivo.

 

Como naqueles desenhos animados em que cavando no Ocidente você chega, por um túnel, ao Oriente, o Paulo do romance cava tão fundo (às vezes intencionalmente, às vezes por necessidade visceral) que alcança uma outra superfície, que não é sua, mas de todos que compartilharam os anos de sua juventude. A conexão entre os terremotos particulares e as mudanças tectônicas de momentos culturais é matéria prima comum e aceita da literatura, do cinema, da música e das artes em geral. O que destaca certas obras nesse tipo de empreendimento (me veio à cabeça Hanif Kureishi e Stephen Frears) é justamente a capacidade de ligar pontos entre camadas veladas dos personagens e do processo histórico sem precisar desvelá-las. Em Habitante Irreal eu sei que isso acontece, o processo é visível, mas não consigo mapear tais pontos (sem escrever uma monografia) tamanho é o mergulho interno que Scott promoveu.

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E, claro, também tem a matemática, os cálculos.

Os habitantes de uma época costumam achar que são definidos coletivamente pela soma de feitos de sua geração. Porém, mais provavelmente, o que destaca um turma da outra é a última demão de verniz, uma revisão tardia (na literatura, na história, no jornalismo) que condena compulsoriamente certas formas de ação à aposentadoria por invalidez.

Olhando para trás esses habitantes se enxergam como irreais. Mas eles talvez estejam apenas pegando pesado demais com eles mesmos.

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Desenho: Eduardo Nasi

Os dois lados da moeda

Dois toques rápidos sobre quadrinhos de não-ficção e graphic novels.

Quem acompanha esse mundo já vem convivendo há alguns anos com o dia-a-dia atribulado dos refugiados palestinos, cortesia do respeitável trabalho jornalístico de Joe Sacco. O cartunista americano-maltês tem retratado o conflito entre Israel e Palestina com talento e sensibilidade únicos, abrindo feridas e colocando o resto do mundo dentro da casa e da alma de gente que toma na cabeça praticamente todos os dias.

Mas, raramente temos um vislumbre, nessa mesma linha, do cotidiano do outro lado do muro. Por diversos motivos que não cabem a mim explorar, a vida de figuras ordinárias em Israel acaba chegando aqui mais ou menos da mesma forma rasa e superficial que a imagem esteriotipada do desespero e da revolta palestina. É aí que entra Exit Wounds.

A graphic novel da quadrinista israelense Rutu Mondam cobre justamente a vida de um jovem taxista de Tel Aviv – e quando ela é atravessada por fragmentos da guerra. O encontro com uma também jovem oficial do exército traz novidades relacionadas ao paradeiro do pai desaparecido do tal taxista. O que houve? Ele sumiu? Morreu num atentado? As perguntas e as respostas não são simples. Elementos como o exército israelense, atentados sucididas, pessoas desaparecidas e a tensão constante da guerra se alinham com temas como família, amor e solidão. Nesse sentido, Exit Wounds traz bem menos desespero, pobreza e destruição explícitas do que as histórias de Joe Sacco. Mas isso não faz dela, em nenhum momento, menos humana.

Então, é simples: gosta de graphic novel, gosta de Joe Sacco, gosta de um pouco de romance contado de forma inusitada, manda ver em Exit Wounds.

Um lembrete, algo que já escrevi aqui: ler esse tipo de história especificamente EM QUADRINHOS sempre oferece uma dimensão extra à narrativa. Nos desenhos, temos acesso a todo um âmbito visual que é fruto de estilo e escolhas pessoais, o que coloca no relato mais profundidade e personalidade.

Outra nota: tem uma edição da Drawn & Quarterly de Exit Wounds que vem com uma entrevista da Rutu Modan feita por ninguém menos que o próprio Joe Sacco.

Última: vale dar uma olhada no blog da Rutu Modam no New York Times.

Não vou me debruçar demais em cima de Notas sobre Gaza, que terminei de ler esse fim de semana. Então vamos rapidamente e direto ao assunto: quem curte Joe Sacco vai certamente abraçar com gosto esse volumão. Mas vale avisar: não é bem mais do mesmo. É um trabalho diferente de, por exemplo, Palestina ou Gorazde. Bem menos dinâmico e mais investigativo, aqui Sacco foca todo seu poder de fogo em um massacre ocorrido na Faixa de Gaza em 1956. O livro é igualmente o resultado e o relato dessa investigação, uma vez que o autor divide com o leitor seu esforço em espremer a verdade de exaustivas entrevistas pessoais que são equilibradas com documentos oficiais. Uma aula de história, jornalismo investigativo, quadrinhos e, sem dúvida, humanismo.

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Atenção: volta e meia o Submarino anda fazendo promoções dos livros dele.

O estado das coisas

“Já é Guerra pela Água. Já é. Há alguns meses, comecei a escrever uma longa matéria sobre as futuras guerras pela água. Mas vi que já não são “futuras guerras”: já estão aí, já são presentes. Se se examina bem, a guerra da Líbia foi a primeira grande guerra pela água. Haverá muitas outras no Oriente Médio, no sul da Turquia, Israel-Palestina. Mas a guerra da Líbia foi a primeira. E é terrível, por causa do Projeto Great Man Made River – mais de 20 bilhões de dólares, financiados integralmente pelo estado líbio de Gaddafi, com muita tecnologia canadense.”

O Pepe Escobar (que há muito tempo atrás escrevia pra Bizz, lembra?) explica o jogo de poder no mundo hoje. Eu não sabia: há anos ele é articulista de geopolítica do Asian Times e colabora com a Al Jazeera, um canal de TV russo e um de Washington. A entrevista, pra uma publicação alemã, é longa e complexo (e eu teria que ler mais duas vezes pra captar toda a extensão da rede de referências). Mas o investimento de tempo e atenção, garanto, compensa.

Leitura Sugerida

“Tudo isso tem nome: vaporware. O produto anunciado não é nem hardware, nem software. É vapor. Empresas enganam por muitos motivos. No caso da Skiff, eles tinham a tela preto e branco flexível. Mas a empresa foi comprada por Rupert Murdoch, o magnata internacional de imprensa. Ele estava interessado no software, descartou o hardware.”

Pedro Dória fala sobre engambelação na Consumer Electronic Show.

“Online, contrary to Nietzsche’s allegation, God is most certainly not dead. The web is littered with sacred spaces and, if anything, He (or She or It) has been released from traditional doctrine to become everything to everybody.”

Aleks Krotoski fala sobre o efeito que a internet teve nas religiões.

“Quando me passaram o primeiro livro desta série para traduzir (que foi “A princesa de rosa-shocking”), eu fiquei bem feliz, pois ainda estava iniciando minha carreira e senti um voto de confiança da editora Record por me passar um título campeão de vendas. Acabei traduzindo uns 15 livros de Meg Cabot. No meio disto, aconteceu uma coisa muito chata, que foi descobrir no Orkut uma página de meninas que me odiavam por causa das traduções da Princesa – segundo elas, eu fazia tudo errado, e elas só ficavam me xingando e falando mal de mim, divulgavam o meu e-mail e tudo… mas nenhuma jamais me escreveu para perguntar por que eu fazia as coisas do jeito que eu fazia e nem mesmo para me criticar cara a cara. “

A tradutora Ana Ban fala sobre os desafios de traduzir os livros da Meg Cabbot, autora da série de best-sellers O Diário da Princesa (o que me lembrou o bullying em cima do George R.R. Martin.)

Julgamentos

A telinha acima é o documentário “Judgment Day: Intelligent Design on Trial”, que tem inteirinho pra assistir no YouTube (em inglês). Ele cobre, com entrevistas e dramatizações, o conflito que se instalou em uma pequena cidade da Pensilvânia ali por 2004 por conta de uma ação polêmica: a tentativa de embutir o ensino do criacionismo nas aulas de ciência da escola local. O caso, como toda boa história americana, foi parar na justiça.

Ensinar criacionismo como ciência é proibido pela constituição dos Estados Unidos, mas há anos movimentos criacionistas tentam empurrar a sua visão da origem das espécies disfarçando-a de uma suposta teoria científica chamada “Design Inteligente”. O que o filme conta é justamente os detalhes de como se desmontou, peça por peça, a noção de que “Design Inteligente” é algo próximo de uma teoria científica.

Fora de discussões de mesa de bar, não é um assunto fácil. Não dá pra tomar uma decisão judicial com base no “dãã, nada a ver, isso aí não existe, é ÓBVIO que não existe.” Mas o documentário encaminha o raciocínio pra nós, que estamos assistindo, dando rápidas noções de evolucionismo, criacionismo e americanismos. Embora claramente defensor do pensamento científico clássico (o que gerou reclamação dos criacionistas sobre a falta de isenção) , o filme tem umavisão razoável da situação como um todo.

Aproveite enquanto está facinho no YouTube: “Judgment Day” é imperdível e talvez obrigatório numa época de avanço assustador de bancadas ditas “religiosas” no nosso Congresso.

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Diga-se de passagem: apesar de me envolver com o filme e o sugerir como peça importante de reflexão para um fenômeno cultural que estamos vivendo no Brasil, não sou um desses fundamentalistas do pensamento científico. Costumo acompanhar as entrevistas de dois grandes advogados do ateísmo ativo, o Christopher Hitchens e o Richard Dawkins, mas não tenho nenhuma vontade se ser colocado no mesmo balaio deles.

Nesse ponto, tendo a concordar mais com a entrevista do Alain de Botton para o Caderno Cultura da Zero Hora (que, por sinal, anda bem bacana): existe uma multidão silenciosa que não se alinha com os extremos – sejam teístas ou ateístas. É uma imensa área cinzenta que reúne, acredito, algum pessoal disposto a compor diferentes visões, abrindo mão da abordagem mais agressiva e buscando promover uma cultura de paz e compaixão sem necessariamente vincular o Estado a tradições específicas.

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Na verdade, cheguei a esse filme por indicação do professor Charles Watson no terceiro módulo do seu falado Workshop de Processo Criativo. Ele costuma usar, no curso, um trecho do “Judgement Day” em que um cientista explica o funcionamento do mecanismo evolucionário pra derrubar um argumento dos criacionistas. É mais ou menos o seguinte.

Uma das defesas do “design inteligente” se baseia no estudo de uma bactéria que tem uma organela de propulsão tão complexa que, segundo eles, “não poderia ter evoluído de algo mais simples”. Logo, só pode ter sido desenhado por um “designer inteligente”. Esse conceito é chamado de “complexidade irredutível”. Um dos exemplos clássicos pra defender a complexidade irredutível é a ratoeira – aquela que o rato pega o queijo e fica preso num araminho. Para os partidários do design inteligente, a ratoeira não tem função se privada de alguma de suas partes.

A contraexplicação da acusação no Jugdement Day caminha simultaneamente por um lado biológico e outro simbólico. Na biologia, vem à tona uma versão anterior da bactéria citada na qual a organela/motor de propulsão, sem algumas partes, não está totalmente evoluída. Mas, apesar de não servir como propulsor, funciona muito bem como… injetora de veneno.

Pra ilustrar melhor o argumento, o cientista dá seu depoimento usando uma ratoeira como prendedor de gravata. Sem três de suas cinco partes, a ratoeira não serve pra pegar rato. Mas isso não a inutiliza como acessório de vestuário.  Em outras palavras, do ponto de vista da evolução, é possível, sim, que existam etapas intermediárias nas quais os mecanismos biológicos tem funções totalmente diferentes de suas versões evoluídas.

Não sei se ficou claro. Tem que ver o filme mesmo.

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O Charles Watson usa isso como paralelo para o processo criativo: é muito comum que, quando estamos criando, se tenha centenas de idéias aparentemente inúteis ou bestas mas que geralmente servem de escada – ou de etapas intermediárias – para a construção do que se consideraria a solução final. Ou seja: aqueles papéis rascunhados no lixo não são lixo, são só a idéia final ainda na pré-escola.

Leitura Sugerida

Essa semana, peguei dois textos pra ler em sequência e, serendipitosamente, eles faziam muito sentido juntos. Vejamos: primeiro, o artigo do Douglas Rushkoff sobre o #occupywallstreet e toda a questão da crise americana, perguntando: “Desde quando o desemprego é um problema?”. Bem, obviamente a pergunta é retórica e não se dirige às pessoas que estão desempregadas (o que seria perverso).

Rushkoff, isso sim, aproveita o gancho do desemprego pra lembrar que “o que nos falta não é emprego, mas uma maneira de distribuir justamente a abundância que geramos com nossas tecnologias, e uma maneira de criar significado num mundo que produz coisas demais.” Antes disso, vai mais longe: “como podemos organizar uma sociedade em torno de outra coisa que não o emprego?”

O ponto de Rushkoff é que a tecnologia permite que as pessoas, entre outras coisas, divirtam umas às outras, ajudem umas às outras a criar sentido (como sempre, o empreendimento mais difícil). Se o dinheiro circular nesse sentido horizontal, a economia seria um tantinho mais saudável.

Infelizmente, o argumento ainda soa mais filosófico do que prático (o que não deveria nos desanimar). No texto seguinte que entrou na minha fila de leitura, o escritor e ensaísta Sam Harris comenta sobre sua experiência com os Kindle Singles, os “livretos” digitais da Amazon de menor extensão e menor preço, criados justamente pra atender uma nova demenda de leitores que não querem gastar tempo para absorver 600 páginas de argumentação em torno de um assunto.

Diz Harris > “Os editores não conseguem cobrar dinheiro suficiente por livros de 60 páginas. Logo, os autores não conseguem se remunerar com eles. Mas os leitores estão começando a perceber que isso não é problema deles. Pior, a maior parte das pessoas acredita que pode dar um pulo no YouTube e assistir a uma conferência com o autor, ou então dar uma espiada no blog dele e, assim, absorver muito do que ele tem a dizer sobre determinado assunto.”

Ou seja: diminuindo-se os intermediários, é preciso contornar a questão da gratuitade para que as relações horizontais (quando nós consumimos conteúdos que nós criamos) sejam viabilizadas também economicamente. Sem excessos, mas economicamente.

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Imagem: daqui.