A receita do Queens of The Stone Age pro rock fazer sentido em 2014

5294d0fee3cf1

A morte do rock já foi cantada e decantada e, pra mim, é ponto pacífico. O rock entrou no século 21 agonizante e não sobreviveu aos ventos da mudança. Foi substituído sem solenidade como vetor cultural significativo da juventude, que vem adotando outras formas de identificação e empoderamento bem mais a ver com o ambiente em que vivem. Pop global à base de hip hop + dance music, games, seriados, startups, redes sociais, apps, objetos de fun design produzidos na China, subculturas locais, cozinhar!! Qualquer outra coisa é mais pulsante do que um estilo que já se virou do avesso pelo menos umas cinco vezes.

Se nos seus países de origem, Estados Unidos e Inglaterra, é assim, imagine então no hemisfério sul, onde o rock e seus derivados comportamentais sempre foram um estrangeirismo inoculado pelo tráfico de informação das elites – muitas vezes de forma bem intencionada e gerando híbridos interessantíssimos, mas ainda assim um estrangeirismo. Com a população dos países emergentes se contorcendo em busca de uma identidade que faça jus a um novo protagonismo de classes antes relegadas ao mero papel de audiência, não é de se estranhar que o rock hoje vá se encaminhando, no mundo todo, para uma posição parecida com a do jazz, reservado a clubes e nichos nas suas melhores expressões e a pastiches mainstream nas piores.

E é aí que entra o Queens of The Stone Age, a banda que conseguiu construir a ponte entre o mainstream e o nicho com uma contribuição musical que se pensava impossível a essa altura do campeonato. Seu sexto disco, …Like a Clockwork, base do show que fizeram no último sábado em Porto Alegre, é uma demonstração prática da possibilidade de ainda se lançar música que esteja alinhada historicamente com o que se conhece por “rock” mas conectada a expressões culturais mais contemporâneas – como os já citados hip hop, dance music, startups, games, seriados e subculturas locais. O que, no caso do Queens, não é nenhuma novidade: para ouvidos atentos, a banda nasceu em 1996 já habitando o século 21. Desde o início, a intenção de seu líder Josh Homme foi fugir do clichê macho do rock setentista de espantar as minas da pista com um som que oferece apenas agressividade. A repetição da dance music e os falsetes da disco estiveram presentes já nos primeiros acordes de vida, quebrando a linhagem grunge do ruído antipático aos quadris e antecipando a cantoria melódica do rock dos anos 00, que viria a emergir na sua forma mais conhecida primeiramente com as operetas indie do Radiohead e depois com o Strokes. A música do Queens sempre foi sexy sem ser molenga e sempre foi firme sem ser totalmente pentelha. Mesmo no álbum mais esquisitinho, Era Vulgaris, havia aqui e ali um gancho para que o ouvinte incauto pudesse se segurar.

https://rd.io/i/QXvPgDPxWT0/

Agora, mais do que nunca, o Queens estende seus tentáculos e se liga ao presente via conexões inusitadas: como o hip hop, sobrevive de batidas, recortes, riffs fatiados e vocalistas convidados; como a dance music, busca o transe induzido da repetição e do ritmo; do universo dos games vem um poderoso imaginário gráfico à base de animação e da própria figura dos músicos; dos seriados, quem sabe, a noção de temporadas e de narrativa, já que cada disco demora pra sair e é envolvido em seu próprio drama de bastidores (um integrante demitido, um que cai fora, outro que morre, celebridades convidadas, etc); das startups, o recrutamento minucioso dos parceiros certos, a capacidade de se reconstruir depois de cada álbum; no quesito subcultura locais, o Queens é mestre pois Josh Homme até hoje comenta como tenta ainda reviver o astral da cena das generator parties, da qual fez parte no deserto californiano dos anos 90. Em resumo, o Queens é uma banda que, em termos musicais, soube deixar pra trás o pendor destrutivo de seus predecessores para abraçar a cultura cumulativa do século que recém começa. Ele não detona, ele empilha. Se não há espaço, ele recorta e cola, muitas vezes em ângulos inusitados.

Estamos vivendo uma década bizarra, na qual brotam califados versados em comunicação digtial, epidemias de doenças apocalípticas e tecnologias avançadíssimas que parecem aprofundar crises tanto quanto oferecem soluções. Quem precisa de música niilista nos fones quando todo o resto ao redor está ruindo? O Queens é uma banda que, apesar de não parecer, oferece segurança em tempos caóticos. Sábado passado, em Porto Alegre, cerca de cinco mil pessoas puderam testemunhar o poder de uma jukebox ciborgue de execução precisa porém emocionalmente intensa, que engaja um público certamente não iniciado nos meandros musicais que alimentam a banda mas que nem por isso se sente excluído ou empurrado para longe. O rock que interessa no novo século não vem para destruir ou para bloquear mas para permitir a fruição. Chega de search & destroy, bem-vindo ao rock do search & enjoy.

***

Foto: Matador Records

Anúncios

Jorge Drexler en Auditorio Nacional del Sodre 30.05.2014

10313977_564817860303771_6229535540653566659_n

Se tem uma coisa estranha pra um portoalegrense fã de Jorge Drexler é chegar em Montevidéu no dia do show de lançamento do disco novo dele e descobrir que ainda tem ingresso disponível. Em Porto Alegre, ingresso pra show do Jorge Drexler costuma durar algumas horas, no máximo umas 24 ou 30 quando estamos falando de duas datas ou de um lugar maior. Drexler é festejado pelos locais, costuma inclusive passar alguns dias na cidade, às vezes trocando ideia e composições com amigos artistas como Vitor Ramil, então imagina entrar numa loja da rede de pagamentos Red Pagos na capital uruguaia, onde Jorge nasceu e passou a maior parte da vida, e descobrir que, sim, tem ingressos pro show de lançamento do disco novo amanhã no Auditorio del Sodre. Coisa mais estranha, eu pensei em 29 de maio passado. Mas também lembrei que é deselegante desconfiar de bençãos cotidianas.

Na noite seguinte, eu e minha mulher chegamos ao Sodre em cima da hora depois de caçar um táxi num chuvoso e tumultuado início de noite de sexta-feira, morrendo de medo de não podermos entrar se chegássemos atrasados. Besteira: apesar do lobby imponente, o moderno Auditório del Sodre faz jus ao espírito relax de Montevidéu e o público continuou entrando e procurando seus lugares por pelo menos 15 minutos depois da hora marcada já que o show ainda não tinha começado. A atmosfera também rescendia a encontro de velhos amigos, com pessoas se cumprimentando de longe com aquela alegria espontânea e infantil que marca os esbarrões em shows de artistas que eu e você curtimos muito e, olha que bacana, todo mundo conseguiu entrar!

Claro que os shows de Drexler, graças à força de seu repertório, à identificação com o público e a seu extraordinário carisma, mesmo em seus formatos mais intimistas e experimentais, sempre incitam esse clima de alto-astral contagiante, parecendo que alguém espargiu fluoxetina no sistema de ar-condicionado. Agora, imagine isso associado a um disco francamente animado, baseado em ritmos latinos que convidam à dança já de cara, com a própria banda entrando no palco coreografadamente sobre uma batida meio techno e executando uma dancinha engraçada a la YMCA. Imagine também que, segundos depois, com os músicos já em suas posições, Drexler declama, sobre uma base meio deep house, “la idea es se ter una mente nueva”, com a banda explodindo a sequência em percussão, metais, bateria, baixo e guitarra enquanto o cantautor manda o refrão: “bailar en la cueva, bailar, bailar, bailar”. O tom da noite está estabelecido.

Nos 120 minutos seguintes, Drexler mostrou a guinada que deu o artista que até ano passado ainda tocava nos seus shows uma canção do disco Eco dizendo “os músicos não dançam”. Seja ao vivo ou no registro gravado, Bailar en La Cueva é daqueles álbuns que lembram o poder do ritmo nas mãos de um autor generoso e profundo. Drexler sempre foi criativo e flexível, permitindo que traços contemporâneos do pop global dos últimos 20 anos dialogassem com seu lado de cantautor do cone sul. Mas agora, ele finalmente abriu as comportas para a invasão de ritmos latinos pelo lado que ainda não havia aberto, o mais chacoalhante, que lota uma pista e não apenas um auditório. É som de branco congelado, mas quando toca ninguém fica parado.

Estou escrevendo um mês depois do show, então não me recordo do set list exato. Mas com certeza, além da faixa título, ouvimos do disco novo pelo menos a “cumbia tropicalista” Bolívia (que conta a história do acolhimento de seus pais judeus durante a segunda guerra e tem participação de Caetano Veloso no disco), a grooventa Data Data, o hit Universos Paralelos e o folk-valsa Todo Cae (todo disco de Drexler tem ao menos uma música dedicada a nos lembrar da impermanência das coisas). Entremeadas, ainda surgiram temas dançantes de outros discos como Las Transeúntes, La Trama y El Desenlace, Todo se transforma e uma surpresa: a melancólica Transoceanica (do algo sombrio 12 Segundos de Oscuridad) em alegríssima versão para bailar. Em clima de ensaio na garagem, durante o show de 2 horas com direito a 3 voltas ao palco para bis ainda apareceram Juan Campodónico, ex-parceiro de produção de Drexler, para executar uma composição dos dois que soava mais como indie rock, e também uma dupla de milongueiros locais de quem eu não guardei o nome. A atmosfera era de absoluta celebração, no palco e na plateia indistintamente.

Durante o show inteiro, eu permaneci com uma ideia na cabeça: “como é encantador esse conceito do Drexler de dançar na cova, essa disposição de sorrir na cara do nosso destino iminente.” O que fazia um certo sentido pois, como escrevi ali em cima, a dissolução e o fim das coisas é um assunto recorrente na obra do uruguaio. Mas alguns dias depois, lendo uma entrevista de Drexler onde ele citava o mito da caverna de Platão, percebi que, dã, cueva é caverna em espanhol e não cova! E que a intenção dele, como diz na letra (“fizemos música muito antes de descobrir a agricultura”) é justamente resgatar a dança como algo atávico, essencial, natural. Tão natural quanto a ida para a cova, se me permitem uma manobra que valida meu entendimento em portunhol…

Bom, seja na cova ou na caverna, o convite de Jorge Drexler é pra dançar com os quadris, com o coração e com o cérebro. Em setembro a turnê de Bailar en la Cueva passa pelo Brasil e se eu fosse você, não perdia a oportunidade de alinhar essas três partes do corpo humano que raramente conseguem se divertir juntas.

***

Abaixo, o disco inteiro pra ouvir.

***

Vale ler também o relato do crítico Antônio Carlos Miguel, que assistiu ao mesmo show que eu, bem como o Nelson Motta.

***

E essa foto?

M3367S-4507

Eu já havia postado a história dela no Face esses dias, mas resolvi registrar aqui também.

Em 2005, o Jorge Drexler foi trocado pelo Antonio Banderas e pelo Santana na hora de executar sua Al Otro Lado del Rio na cerimônia do Oscar. A música havia ganho o prêmio de Melhor Canção Original, a primeira para uma cantada em espanhol, a segunda numa língua não-inglesa. Deixado de lado na hora da performance, Drexler teve que cantar um trecho infiltradamente ao receber a estatueta:

Meses depois, o publicitário argentino Fernando Vega Olmos convidou o cantor uruguaio ao palco do Festival de Publicidade de Cannes pra “consertar a situação” fechando sua palestra. Drexler tocou a música inteira, uma performance linda.

Horas depois, eu consegui aparecer de gaiato nessa foto com o uruguaio (e seu agente). Na verdade, eu estava passeando com o Eduardo Axelrud que conhecia o Ricardo Freire (à direita), que conhecia o Jorge Drexler.

Semana passada, essa pequena historieta fez exatamente 9 anos.

Foto de abertura do post: Fanpage Oficial de Jorge Drexler.

Fita cassete: o design responsivo dos anos 80?

police-cover-responsive-design

Design responsivo é uma abordagem do webdesign que permite que um mesmo site seja acessado de maneira fácil, rápida e coerente por diversos tipo de dispositivos e browsers. Até alguns anos atrás, era precisava desenvolver um site específico pra ver no monitor do computador e uma versão diferente desse mesmo site pra acessar no celular. Hoje, quando se usa o design responsivo, é construído apenas um site e ele se adapta ao dispositivo que você estiver utilizando. O design responsivo é mais do que uma abordagem técnica, é praticamente um conceito cultural entre os designers de experiência.

Bom, isso tudo só pra introduzir a pergunta que a agência de design digital Needmore publicou em seu blog: “a arte das capas de fita cassete eram um início de tudo que fazemos hoje?”. Post completo e outros exemplos bacanas de responsividade em cassete aqui.

Carta aberta ao fantasma de Kurt Cobain

584px-Kurt_cobain3

Caro Kurt

Hoje faz 20 anos e 10 dias que você morreu. A data normal pra escrever algo seria 10 dias atrás, mas como você era um cara alternativo, eu pensei “que coisa mais corporativa essa história de 20 anos! Eu vou chutar o pau da barraca e esperar 10 dias”. Sim, foi por isso que demorei, não foi porque me esqueci da data.

Achei por bem fornecer um pouco de contexto pra falar desses 20 anos. Caso não tenha internet onde você está, é bom avisar que o mundo pop mudou consideravelmente. A primeira coisa digna de nota é que a geração de vocês foi a última que deu a impressão de que poderia fazer alguma diferença através do rock. E, com isso, não estou querendo dizer que não surgiram bandas interessantes, criativas e relevantes nesse meio tempo. Surgiram sim. Mas, que eu me lembre, da parte da audiência ninguém mais espera que elas causem algum tipo de rutpura cultural. Todo mundo procura isso em outros lugares, não mais nos palcos ou nos discos. O rock se tornou apenas rock. Tu vê só, se isso acontecesse naquela época, talvez menos peso recaísse sobre seus ombros. Vai saber.

Lembra quando você apareceu na capa da Rolling Stone com uma camiseta dizendo “Corporate magazine still suck”? Pois é, eu sei que na época isso meio que causou, dividindo o pessoal entre os que aplaudiam a sua rebeldia e os que chamavam isso de rebeldia de butique, afinal que rebeldia havia em aparecer na capa da Rolling Stone? Hoje essa camiseta seria desnecessária porque não há mais praticamente resistência alguma. Rock e corporações convivem bem e servem um ao outro quando preciso. Pouca gente faz drama quanto a isso e parece que o sonho de uma boa parte da juventude não é contrapor, mas sim construir a sua própria corporação. Em vez de bandas, o pessoal está montando startups. Loucura, né?

Outra coisa curiosa é o que aconteceu com as roupas que vocês usavam. Cara, definitivamente aquela história de se vestir de qualquer jeito, com umas roupas meio detonadas e tal, aquilo não vingou MESMO. Hoje o pessoal mais alternativo se veste direito, como se estivesse indo sempre a uma reunião de negócios, e se você quer NOMES pra saber quem começou com essa moda, procure pelo pessoal do Strokes. Eles até tiravam uma certa onda de sujinhos, mas não eram não, foi ali que começou isso de se vestir decentemente. Bom, goste-se ou não, a moda pegou. Alguns grandes estilistas até vem tentando reeditar uma suposta moda grunge, mas na verdade é só roupa dos Strokes com estampas xadrez.

A mesma coisa aconteceu com o som. O arquétipo da sua turma era o vocal gritado e as guitarras bem distorcidas. Embora sempre apareçam umas bandas mais pesadas aqui e ali, o arquétipo do momento são vocais com gritinhos e guitarras com pouca distorção. O que, de novo, não é um problema em si. Mas quando vocês apareceram tinha aquela ideia de resgate de um rock mais sujo depois do som mais processado dos anos 80. Agora, riffs de rock e gritos são assunto de super DJs de pop e filmes infantis. Tá anotando?

Juro que não tô querendo fazer fofoca. Isso tudo é só contextualização. O ambiente muda externamente, mas lá no fundo o que é importante permanece importante. E eu resgatei essas mudanças porque me lembrei que o legado que você e sua turma nos deixaram não tem a ver com rebeldia anti-corporativa, com roupas detonadas e um som mais sujo. Não. Isso era só o invólucro, a embalagem. Tinha uma coisa maior, mais forte e que eu levo comigo até hoje.

Era uma certa conexão com a energia primal e desorganizada que a gente carrega dentro, lá no fundo. O lado escuro da lua. A nossa caixa de gordura. De tempos em tempos, surgem artistas que conseguem construir uma ponte entre esse subterrâneo e o mundo da superfície. Todo mundo sai ganhando quando aparecem artistas assim que, em vez de abafar o que vem dos subterrâneos do ser humano, conseguem processá-lo e trazê-lo à superfície de um jeito que as pessoas intuem que é subterrâneo mas não viram a cara nem tampam o nariz, e sim CURTEM. Entende? Ganhar as pessoas com florzinhas e pôneis é barbada. Mas com o esgoto? Cara… isso já é um talento de se fazer num pequeno segmento, reconhecido por alguns fãs e especialistas. E vocês fizeram vendendo milhões de discos no mundo inteiro, influenciando milhões de outros artistas, servindo de catalisadores pra toda uma mudança que estava acontecendo no mundo.

É realmente triste que você, como pessoa, não tenha sobrevivido a esse processo. Porque acho que o mundo volta e meia precisa de uma chacoalhada através dessa conexão direta entre subterrâneo e superfície. Não que as coisas estejam muito tranquilas e precisem de esgoto extra. Mas é que coletivamente a gente tem uma tendência de ficar passando Bom Ar em vez de abraçar o subterrâneo e processá-lo. Por mais bagunçado que você estivesse, era bom ter a sua contribuição artística de corpo presente nesse assunto.

Abraços aê
Gustavo Mini

***

Desenho: Thomas Mikael / WikiCommons

Conector entrevista: Will Prestes/Wahgee

artworks-000067203982-lg29gb-t500x500

Ok, vamos deixar claro. Isso não é bem uma entrevista, é um papo entre amigos. Conheço o Will há muitos anos, vi ao vivo as bandas dele de colégio e estamos sempre trocando ideia sobre música & coisas da vida. Claro, então, que há pelo menos dois anos ouço notícias e trechos do EP que ele recém lançou sob o codinome Wahgee – Will And His Good Enough English. Mas não adianta: quando a coisa é realmente colocada no mundo, de forma consolidada, o todo oferece uma outra perspectiva que mesmo os amigos precisam decodificar. Ouvido como uma pequena coleção de sons baseados em violão, voz e algumas percussões eletrônicas, Town & Country ganha uma força específica que tem, sim, um pé no powerpop que o Will abraçou durante os anos 00 com a Wonkavision. O outro pé está num lugar que eu quis descobrir direto com ele:

Conector: Antes de mais nada: como começou essa história de country/folk?
Will: Hmmm, é difícil ser preciso. Mas acho que nos anos 80. Ouvi muito o primeiro do Violent Femmes, e minha irmã tinha uma trilha de um filme gravado pela Dolly Parton. E nos 90 ouvi muito The Proclaimers, e algo de country pop que chegava aqui.

Conector: Eu ia justamente dizer que não me parece uma coisa de country/folk nessa onda recente, me parece com coisas mais antigas que tu fazia, mesmo ates da Wonkavision, coisas que só os amigos e colegas do colégio ouviram.

Will: Eu confesso que sempre quis ter uma formação como a do Violent Femmes do primeiro disco, mais acústica. Baterista de pé, etc. Mas tu tem razão. Tive uma banda chamada $uper nos anos 90. Não chegava a ser um folk, mas tinha violão, ao invés de guitarra.

Conector: Uma vez tu me contou de uma viagem que tu fez pros EUA e tinha um lugar muito sinistro… era New Orleans? Ou era Nashville? Eu fiquei com a impressão que tem algo disso nas músicas do Wahgee.
Will: Era a Beale St., em Memphis, na verdade. Coisa de louco aquilo num sábado a noite. É insano. Mas onde tu achou algo disso nas músicas do WAHGEE?

Conector: Não sei, alguma coisa na atitude caubói de se meter a tocar sozinho um som bem americano, com gaitinha e toda essas referências oitentistas. Pra mim soa como uma coisa destemida.
Will: Hahahaha. Bom, acho que a Broadway de Nashville tem mais a ver com isso. A Beale St. foi como estar num filme do David Lynch, ao som de Elvis, e com muitos, mas muitos anões. Inclusive a garçonete do Alfredo’s. Vale a experiência.

Conector: E como foi a experiência de gravar Town & Country? Foi bom? Foi um trabalho prazeroso ou foi um parto difícil? Quanto tempo demorou? Como tu fez?
Will: Foi bem diferente de outras gravações que eu fiz. A começar por não saber se dava pra gravar. Como a ideia é o-que-você-vê-é-o-que-você-ouve, eu não sabia se só eu tocando tudo ia encher o suficiente pra manter essa proposta. Eu tinha alguma ideia de como ficaria, porque durante uma semana aluguei um estúdio pelas manhãs e gravei ao vivão num iPad várias músicas. Ali, tive o primeiro sinal que seria possível. Quando fui gravar no Bunker, falei pro Rod (Rodrigo Brandão, produtor): “Cara, vamos tentar e gravar do jeito que eu toco, com os sons que eu toco ao vivo. Se faltar coisa, a gente repensa.” Mas deu tudo certo e não faltou nada.

Conector: Então é tudo ao vivo? Ou é só o que poderia entrar ao vivo?
Will: Só me ferrei nas harmonias de voz. Porque quando eu fiz o teste, fiz algo bem mais reto e simples. Na gravação, resolvi alternar voz solo com harmonias mais vezes. Agora tenho que treinar meu equilíbrio pra não cair enquanto ligo e desligo o pedal de harmonias, pois o outro está marcando a percussão. Não gravei ao vivo, mas os elementos são como se fosse. É a segunda opção, “só o que poderia entrar ao vivo”.

Conector: Quanto tempo demorou pra ficar pronto?
Will: Eu fiz aquela semana de testes no Nazari em dezembro de 2012 e comecei a gravar no Bunker em Fevereiro de 2013. A última master veio em dezembro de 2013. Como eu disse, foi bem tranquilo. Mas cara, acho que mais importante que as datas foi o processo de mudança, de encontro de um novo estilo. Come Home, que é a primeira do EP, eu escrevi em 2009. Foi um processo bem lento de achar um novo som e uma nova voz. E, nesse processo, o country foi tomando mais presença, principalmente nos licks e nas letras. Pra mim a cultura das letras da música country é fascinante, com todas aquelas analogias e temas singelos. O Country tem muitas fases e a mais moderninha se traduz nesse gênero “americana”, onde entra The Lumineers, Mumford & Sons, talvez Civil War. Sei que nunca vou fazer música country, pois é algo tão enraizado na cultura americana que seria algo totalmente sintético e falso se fosse feito por mim. O que eu tento é usar os elementos que gosto e tentar a duras penas fazer do meu jeito. Daí sai este folk com algumas pitadas de outras coisas. E mesmo eu citando o Violent Femmes, acho que os anos 80 aí não tem relevância. O som deles não é facilmente encaixável nos 80’s. Falo mais por ser algo que me marcou muito. Lembro de ter aula com o Yves, quando tava aprendendo a tocar violão e perguntar pra ele: cara, por que esses caras tocam desafinado? Na real, não era desafinado, mas os caras batiam tão forte naquele violão e no baixo acústico que o trastejado e as mil harmônicas que saíam enviesadas deixavam uma estranheza sensacional no som. Sem falar na voz esganiçada do Gordon Gano e nas letras cheias de angústia que ele escreveu na pós-adolescência. Eles eram uma banda punk acústica. Tiveram uma fase country e depois cagaram tudo colocando guitarras demais.

Conector: E os planos pra agora?
Will: Quero gravar uns lyric videos pra divulgar e começar a tocar em casas e apartamentos (comerciais ou de amigos). O importante é ter algo mais intimista…

Ligue os pontos

DALT

Em janeiro do ano passado, percebi que estava acompanhando as discussões sobre a reformatação da cena cultural independente brasileira de forma muito fragmentada: lia um artigo aqui, outro ali, tudo muito espalhado. Achei que seria bom reunir os textos que eu considerava mais interessantes em uma espécie de linha do tempo, porque muita coisa ficava melhor e mais útil quando combinada e/ou confrontada.

O resultado está aqui no tumblr Discurso Alternativo e com o reaquecimento da discussão sobre o Fora do Eixo a partir do Roda Viva da Mídia Ninja, voltei a alimentar a biblioteca, que já conta com os textos de Beatriz Seigner, Rafael Vilela e Bruno Torturra.

O país sumiu? Acho que não, só está mudando

hqdefault

Estava ouvindo “Country Disappeared”, linda canção do Wilco, e me dei conta que a letra bate um pouco com o que estamos vivendo. Mas eu prefiro me agarrar ao último verso do que às imagens mais sombrias do meio da letra. Vamos virar o rosto para o sol…

“Acorde, nós estamos aqui, é muito pior do que temíamos
Não há nada aqui, o país desapareceu
As árvores de inverno sangrando, deixe o sangue vermelho
O doce sonho de verão, corado de abril
Mas nada disso vai significar tanto para mim de novo

Estenda sua mão, tanto que você não entende
Então, fique tão perto quanto possível, junto com os melhores planos
Você tem as nuvens brancas penduradas acima de você
Você tem os helicópteros balançando, inclinando para atirar
Os tiros, para alimentar a equipe faminta do noticiário de domingo

Então, toda noite, pode-se assistir de cima
Cidades esmagadas como um inseto
Dobre-nos uns aos outros em torno da nossa coragem
Vire nossos rostos para o sol

Eu não vou aceitar um não, eu não vou deixar você ir
É tudo com você, oh não, você precisa da minha ajuda
Quando a noite fria sacode você como a chama em um candelabro
Os flocos de neve rompem a atmosfera
Se derretem na respiração gelada dos leiloeiros e somem

Todas as noites, podemos ver de cima
Cidades esmagadas como um inseto
Dobre-nos uns aos outros em torno da nossa coragem
Vire nossos rostos para o sol”