Trama Virtual & The Deleted City

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Lendo o texto do Matias sobre o fim da Trama Virutal, me lembrei desse projeto, The Deleted City do designer de informação Richard Vijgen. O Deleted é nada mais nada menos do que todo o backup do finado Geocities (digamos assim, o antigo Blogger/Wordpress) formatado visualmente como o mapa arqueológico de uma cidade:

Três rápidos pensamentos a respeito.

Um: como é rápida a sensação de antiguidade no âmbito da cultura digital. O auge da relevância do Geocities se deu no fim dos anos 90 e sua extinção em 2009. Portanto, seria relativamente cedo para arqueologia, mas acontece que as ondas digitais são tão meteóricas que uma década é o suficiente para gerar nostalgia na maior parte dos envolvidos.

Dois: não é por acaso que comparo a Trama Virtual ao Geocities. Ambos eram baseados em uma ideia geográfica. O Geocities intencionalmente. A Trama Virtual por adoção da cena independente. Sim, o site da Trama, a meu ver, era um ponto geográfico ao qual as pessoas iam e se reuniam. Foi o primeiro grande endereço nacional do indie, o correspondente na internet de esquinas malditas espalhadas pelo Brasil físico. Aliás, equipes da Trama estiveram muitas vezes nessas esquinas fazendo a costura. O que a Trama Virtual deixa pra trás (já tinha deixado…) não é a falta de um lugar pra armazenamento, mas um lugar central, um eixo. Mas, enfim, não estamos na era do Fora do Eixo? Sem trocadilhos, o eixo se dissolveu, está mais disperso. Talvez daí o fim da Trama Virtual.

Três: como músico, desde já (já??) bate com uma certa nostalgia. A Trama Virtual é parte da história dos Walverdes. Mas também já faz tempo que estamos conversando sobre a portabilidade do nosso arquivo digital, sobre como ele não pode ficar refém da Trama ou do MySpace ou do SoundCloud ou do Facebook ou do que quer que seja. Nisso, vale o ensinamento do velho mestre Wander Wildner em On The Road (que tocamos em alguns shows): “minha mochila está sempre à mão / e eu tô sempre pronto pra partir.”

Minha Personal Song por Nenung

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A poeira da implosão da indústria tradicional da música, ao que parece, está baixando e agora o volume de alternativas que surgem começa a suplantar o volume de reclamações. É velha história: enquanto uns reclamam, outros constróem o seu caminho. É o caso do Nenung, cantor, violeiro e compositor com uma trajetória que atravessa algumas décadas embalada nos mais diferentes formatos: já se lançou em vinil com a Barata Oriental no fim dos anos 80, em 5 CDs com Os The Darma Lóvers desde o fim dos anos 90 e no esquema streaming/mp3/show ao vivo com o solo Projeto Dragão. Agora, Nenung vai mais além dos formatos de distribuição clássicos e explora também uma nova relação entre artistas e público, que é a da criação e venda direta da ideia da canção ao interessado.

Pois é, Nenung está vendendo seu talento de compositor diretamente ao público final no site Minha Personal Song. A ideia é muito simples: o pretendente entra em contato, passa um briefing, conta qual é o clima que quer e Nenung compõe a música. Aprovado o primeiro rascunho em voz e violão, parte-se para a produção final, que pode ser mais elaborada ou manter o espírito simples que caracteriza muitos dos seus trabalhos. É uma espécie de mecenato democratizado.

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A intenção de Nenung com isso não é apenas buscar uma fonte alternativa de renda em meio a um cenário musical e cultural sedento por soluções inovadoras. Compositor prolífico, ele também pretende dar vazão ao seu incansável exercício de criação. Mesmo colaborando com diversos artistas e tendo duas bandas pra desaguar sua energia, Nenung se sente mais útil oferecendo diretamente ao público final uma participação nesse processo. Afinal, não estamos vivendo o tempo da interatividade?

Nenung não é o único e música por encomenda não é exatamente uma ideia nova, mas geralmente os serviços disponíveis são de produtoras ou músicos mais impessoais e menos autorais. O que Nenung está oferecendo de diferente é o acesso à mesma fonte que já deu um grande sucesso à Paula Toller (Meu Amor Foi Pra Lua) e engordou os repertórios de Dado Villa Lobos (Lucidez) e Marian Aydar (Peixes). Ou seja, o comprador de Nenung estará sempre muito bem de companhia.

Acompanho o trabalho do Nenung desde o Barata Oriental, tenho admiração pelo seu senso de composição, então posso dizer com segurança: música boa nunca faltou pra ele. Além de fecundo, é comprometido com o coração, tem música boa pros Dharma Lóvers, tem pro Projeto Dragão, tem pro Dado Villa Lobos, tem pra Paula Toller e agora tem pra você também.

A estrada do streaming

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Estava dando uma olhada nas reportagens sobre streaming de música que saíram nas últimas semanas, no Globoe no Link do Estadão. É um assunto rico, bem coberto por essas reportagens e ainda vai render muita saliva. Em geral, sou um otimista no que diz respeito ao comportamento ligado a novas tecnologias – as pessoas adotam mais rápido do que qualquer estudo possa imaginar e de um jeito que nenhum empreendedor imaginou. Mas, no caso do streaming, eu deixo meu lado cético aflorar e por um motivo muito simples.

O Brasil, por vocação, é um país que sabe gerar produtos sem gerar a infra-estrutura para utilizá-los. O melhor exemplo de todos é a indústria automobilística. Nosso país tem uma frota numerosa, uma variedade de modelos para todos os gostos e caminhos de compra para todos os bolsos. A rigor, o carro que você quiser, você dá um jeito de comprar. Agora, sai da concessionária com ele: trânsito urbano caótico, ruas esburacadas, furtos e roubos esperando na esquina, estradas municipais, estaduais e federais em estado miserável. O produto está aí, a infra não colabora

Com o streaming, é a mesma coisa. Se por um lado os serviços de streaming pago vão aportando no Brasil e oferecendo boas opções, por outro as conexões wireless com um mínimo de qualidade pra suportar uma vida em streaming ainda são uma raridade relegada a certas áreas de certos centros urbanos. Streaming pra uso em casa ou no escritório das capitais e grandes cidades parece um carro feito só pra circular em condomínio fechado.

Meu ceticismo diz que o streaming só vai deslanchar mesmo quando, entre outros fatores, contar com a colaboração das operadoras de celular na oferta de conexões confiáveis quer você esteja em casa, no ônibus indo trampar ou na BR rumo à praia – qual é a graça de contratar um serviço de streaming que você não pode ouvir decentemente indo pra praia ou pro trabalho? Se não for assim, o streaming vai acabar como mais um item que, pra funcionar, precisa ser acomodado e composto com tantos outros na sua já lotada vida digital.

Chorão não se fez ouvir

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Escrevo esse texto com alguma apreensão: ainda são nebulosas as circunstâncias da morte do Chorão e uma pesquisa rápida no Google não traz esclarecimentos muito além do que a grande mídia está divulgando. Juntando os cacos até agora, o resumo diz que Chorão não estava bem por conta de uma separação de seis meses atrás, que andava deprimido e reclamava de solidão. Mais recentemente, segundo apuração preliminar da polícia, se hospedou em quatro hotéis diferentes em uma semana, demonstrava “mania de perseguição” ou alguma perturbação parecida. Fotos do quarto onde ele foi encontrado morto mostram um ambiente sujo e destruído, sinais de degradação. Descarta-se a princípio as teses de suicídio e homicídio. Trabalha-se com a hipótese de overdose de drogas ou remédios. O tempo logo esclarecerá.

O que me interessa nesse caso todo são os sinais do brutal desamparo de um ser humano. Lembro de uma conversa com meu terapeuta na época da morte de Amy Winehouse. Ele comentou comigo num papo pós-sessão: “será que não tinha ninguém pra escutar ela?” Nem sempre casos mais agudos de desamparo são resolvidos exclusivamente pela escuta atenta e amorosa, mas essa é sempre uma porta importante. Lembro também de uma palestra do Lama Padma Samtem onde ele dizia: “o problema não é quando a pessoa não tem dinheiro, mas quando ela não tem rede”. Dizer que Chorão não tinha rede ou que não tinha escuta pode soar como uma agressão aos familiares e amigos. Não sei. Pode ser também que ele não tenha se feito ouvir, não tenha utilizado uma rede disponível. Tem gente que, por absoluta confusão, pula do trapézio pro chão, ignora sua valiosa rede. Talvez Chorão tivesse rede, mas não pode se utilizar dela. Talvez, especulo, pelo tipo de cultura em que estava inserido.

Como a muitos outros fãs de música e críticos culturais, Chorão não me interessava como artista, mas como fenômeno pop. Ele personificou um estilo que caracterizou a passagem dos anos 90 para os 00 no Brasil. Antecipou a tão falada ascensão da classe C ao cantar o orgulho de um certo jeito de viver urbano, malandro, calcado na mistura de uma musicalidade pop americana com a cultura das ruas brasileiras – não exatamente a periferia, mas aquela zona cinzenta em que circulam e se misturam personagens marginais com filhos razoavelmente bem nascidos da antiga classe média. Era um recorte vertical e não horizontal da juventude nacional, algo que foi identificado apenas alguns anos depois do surgimento do Charlie Brown Jr. por alguns institutos de pesquisa mais antenados.

Infelizmente, a autenticidade dessa cultura não era acompanhada de muita sofisticação no comportamento. A face mais triste disso era uma certa truculência, um peito empinado, uma empáfia de rua talvez necessária para a sobrevivência em certos ambientes conturbado, mas perniciosa quando transplantada para o mundo dos códigos pop. Um dos pontos significativos nessa estrada foi o soco que Chorão deu em Marcelo Camelo alguns anos atrás em um aeroporto. Para alguns, o gesto era envernizado com um certo ar de molecagem e de macheza diante de um artista chato e sensível. O que é uma total bobagem. O ato foi apenas o desequilíbrio de uma pessoa que não tinha outro meio de se relacionar com uma crítica a não ser batendo em quem o criticou. Triste que tenha acontecido, mais triste que tenha sido revestido de qualquer tipo de justificativa. O jornalista Ricardo Alexandre identificou muito bem esse aspecto mais arisco do Charlie Brown Jr. em uma resenha para a exinta Bizz. Se bem me lembro, ele associava essa truculência com os resquícios da cultura de violência e do autoritarismo do regime militar. Achei brilhante, mas falhei em encontrar esse texto na internet.

Então, por trás de letras cheias de bravatas comportamentais e sociais, provavelmente estava escondido o lamento de uma mente conturbada. Não que Chorão fosse muito diferente de mim ou de você, pelo contrário. O que me move a escrever esse texto é justamente encontrar um ponto comum com um artista pelo qual nunca nutri qualquer simpatia. Como Chorão, tenho – todos temos – angústias, contradições, momentos de desolamento e solidão, épocas de confusão e turbulência emocional. Diferente de Chorão, tive acesso a uma boa quantidade de ferramentas pra lidar com isso tudo, algumas delas ainda cercadas de desconhecimento. Mais importante do que isso, sempre me senti autorizado a usar essas ferramentas sem preconceito.

Apenas um dos vários exemplos são as psicoterapias, sejam elas as mais estabelecidas e socialmente aceitas – psicanálise, psicoterapia, terapia cognitiva-comportamental – ou as que ainda enfrentam o estigma de “alternativas”, como as terapias corporais (derivadas do trabalho de Willhem Reich), as terapias com uso de medicamentos naturais e assim por diante. Mesmo no caso das terapias mais aceitas, o binômio preconceito-desconhecimento ainda parecer manter afastadas pessoas que poderiam se beneficiar imensamente de uma abordagem e um ambiente que proporcione um olhar panorâmico sobre as próprias angústias. Chorão pode ter sido paciente de qualquer uma dessas terapias e pode não ter aderido por um motivo ou por outro, pode não ter encontrado o tratamento certo, pode ter sido mal atendido. Ou pode também não ter sido atendido, não ter buscado, não ter ouvido as orientações. Não sei.

Estou usando o gancho do Chorão pra levantar essa lebre. Espaços de escuta e abordagem terapêutica como essas que eu comentei acima ainda são muito estigmatizados. Não se tem informação suficiente, seja para chegar num profissional, seja para compreender quais são as ofertas e quais são as possibilidades. Uma pessoa pode ter uma experiência ruim com um terapeuta e abandonar para sempre as tentativas de tratar suas questões subjetivas por meio do contato direto com elas. Muita gente acaba retornando ao que a sociedade estabeleceu como o método mais rápido e correto, que é o afogamento das angústias em drogas autorizadas (álcool, remédios pra depressão e ansiedade) ou o amortecimento dos sentidos com consumo de música, filme, revistas, aplicativos e assim por diante. Caminhos que só abafam, e por vezes fermentam, problemas difíceis de entender e verbalizar. Mas que são em geral comuns todos nós e não exclusivos de “pessoas problemáticas”.

Uma das coisas que mais está se repetindo sobre Chorão nesse momento é como ele falava muito bem com um certo público. Suas letras, de fato, encontravam uma poderosa ressonância com um segmento do público consumidor de música pop. Durante os meses em que treinei numa academia de escalada indoor, o professor colocava um dos discos do Charlie Brown Jr. pra tocar TODOS os dias. Ouvi repetidamente e sempre me impressionava a falta de sofisticação das letras, mas também a clara conexão delas com o momento que o país estava vivendo. Chorão, pelo jeito, sabia muito bem falar com as multidões, sabia muito bem traduzir o ar cultural que o cercava. Mas talvez não soubesse SE traduzir. Infelizmente, especulo de novo, parece que ele não encontrou uma forma de se fazer ouvir no que mais precisava botar pra fora.

A batalha contra a ironia está perdida

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Christy Wampole, professora-assistente de língua francesa da Universidade de Princeton, se lançou numa das mais ingratas tarefas da modernidade em um ensaio publicado recentemente num blog do New York Times e traduzido pela revista Serrote. Munida de bons argumentos, argúcia textual e muita sinceridade – talvez até demais – Wampole decidiu confrontar o que chamamos de “cultura hipster” e explicar ao mundo “Como Viver Sem Ironia”.

Foi com a maior simpatia e boa vontade que me joguei na leitura do ensaio e já nos primeiros parágrafos é difícil não compactuar com a lógica de Wampole quando ela escreve que “Se a ironia é o éthos de nossa época – e ela de fato é –, então o hipster é o nosso arquétipo do estilo de vida irônico”. Também é natural sorrir com condescendência quando ela chama o hipster de “esse arlequim contemporâneo” ou quando constata que ele “cultiva a esquisitice e o constrangimento e passa por várias etapas de autoavaliação antes mesmo de tomar qualquer decisão”, chegando à óbvia conclusão de que o hipster “é um alvo fácil para piadas”. Como tiro de misericórdia da introdução, o texto ainda faz a acusação cirúrgica de que “o hipster pode fazer investimentos frívolos em falso capital social sem precisar pagar de volta um único centavo sincero.” Soa tudo bastante lógico e implacável.

Indo adiante, percebe-se que o bullying intelectual não é centrado em um grupo de contornos definidos, em frequentadores de determinadas casas noturnas, cafés ou bairros, mas cobre formas de interação e de consumo que estão se tornando a característica de uma geração inteira. Isso fica bastante claro quando o artigo atesta que “a publicidade, a política, a moda, a televisão – quase todas as categorias da realidade contemporânea exibem essa vontade de ironia.” E é exatamente nesse ponto que a autora do ensaio parece torcer em torno de seu próprio eixo e jogar uma sombra em uma constatação importante: se a ironia hipster contaminou o lençol freático da cultura pop a ponto de colorir a publicidade e a televisão mais popular, é sinal de que, sim, é hora de estudar esse assunto; mas também é hora de parar de levá-lo tão a sério.

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O problema é que levar a sério é justamente o que Wampole mais faz nos 20 parágrafos seguintes, chegando ao ponto de confessar seus próprios pendores hipsters. Ela conta, desbragadamente, que também tem tendências irônicas e que sofre uma certa dificuldade em comprar presentes honestos para seus amigos. O que são presentes honestos nesse contexto? São presentes que significam o que significam, que não são piadas internas, que não são recobertos por uma camada extra de significado. Não são “Presentes bons para dar risada na hora, mas que valem pouco a longo prazo.” segundo ela. Os presentes bons para dar risada, diz ela, é o tal do “investimento frívolo em capital social” que nunca será cobrado na conta do hipster. Claramente, Wampole está querendo ser sincera e limpar a sua barra para poder criticar o hipsterismo. Isso é o que eu chamo de levar a sério demais. A situação é de fato complicada, mas não exigia tanto.

Sim, eu entendo e concordo que a ironia hipster funciona como escudo e como um campo de força que alguns usam para não travarem contato com questões ordinárias mas essenciais da vida (o tédio, a morte, as convenções sociais), mas chegamos num ponto – muito comum da cultura pop – onde mesmo a ironia utilizada como defesa já está deixando de ser eficiente porque está sendo incorporada à linguagem contemporânea popular. Quando esse assunto é levantado, eu automaticamente me lembro dos seriados que a minha enteada de 11 anos assiste (e que eu assisto junto). Pode escolher um: iCarly, Drake e Josh, Os Feiticeiros de Waverly Place, Life with Boys, Zach & Cody – Gêmeos a Bordo. Nos últimos anos, toda essa leva de programas infanto-juvenis, absolutamente pop (metade desse aí passa na Globo) tem como marca principal de sua linguagem uma ironia rasgada e perturbadora. Não são piadinhas infames ou inocentes: é sarcasmo puro, ácido sulfúrico adicionado na fórmula de cada gag individual que compõe a trama de cada episódio. É, provavelmente, material produzido por roteiristas criados à base de um Toddy concentrado feito de Tarantino, South Park e Beavis & Butthead, mas devidamente cooptados pela mais eficiente encarnação da indústria cultural – o segmento infanto-juvenil.

Programas como esses nos lembram que existe um ponto no comportamento coletivo da cultura pop em que a essência de uma época se bifurca. Um caminho leva essa essência para as manifestações de nicho, que duram por quanto tempo for possível durar – aqui entra todo o escopo da contracultura americana da década de 50 e 60, o modernismo europeu da virada do século XIX pro XX, o jazz clássico etc. O outro caminha esguicha essa essência na cultura mainstream, nos filmes de grande bilheteria, nos seriados de grande audiência, nas novelas, na moda popular, e assim por diante. Nesse sentido, a batalha contra a ironia hipster está perdida, não por incompetência, mas por extrema competência. Essa ironia é tão boa, tão útil, que ela se tornou parte do jogo de cores da Disney e da Nickelodeon. E quando chegamos nesse ponto, o que nos resta fazer? A ironia vai consumir a si própria nessa engrenagem, como tudo mais.

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Kurt Cobain na capa da Spin com a camiseta “Corporate magazines still sucks”

Talvez eu esteja apenas prestando tributo à minha própria formação noventista, também citada no ensaio. Talvez eu esteja apenas dizendo “Oh well, whatever, nevermind”, deixa pra lá. Mas não. Eu concordo com a proposta de Wampole de resgatar uma certa sinceridade intencional em contraste à ironia hipster, que consome o que consome por colateralidade, só porque é interessante fora do contexto tradicional. Só acho que essa sinceridade não pode ser tão pesada, tão intencional, tão preocupada em encontrar o cerne autêntico das coisas. Porque essa é outra batalha perdida. Foi cavando para encontrar o cerne autêntico das coisas que os hipsters chegaram na ironia – esse é o segredo não contado a respeito da autenticidade. A frustração de não encontrar esse cerne é que leva à ironia excessiva que distancia a pessoa das experiências mais ordinárias.

Se eu posso dar alguma contribuição a “Como Viver Sem Ironia”, aqui está: voto com a relatora, pelo resgate da sinceridade e da entrega, mas temperada com as cores da ironia. A ironia como tempero, e não como eixo, não cansa, não satura, não causa congestão. E ainda pode funcionar como um antídoto contra a sinceridade exagerada e fofinha que embala o entusiasmo anabolizado que também é característica dos empreendimentos contemporâneos.

Lugar do Caralho – a estética do brio

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Eu tenho a seguinte tese: é possível explicar a cultura urbana de Porto Alegre dos últimos 25 anos a partir de três álbuns – o A Sétima Efervescência do Júpiter (na época) Maçã, o Baladas Sangrentas do Wander Wildner e o Carteira Nacional de Apaixonado do Frank Jorge. São discos que saíram mais ou menos na mesma época (entre 96 e 2000) e que cumprem duas funções: fecham a tampa dos anos 85 a 95 e inauguram esteticamente a década seguinte. Não por acaso, também, são registros solo de frontmen de bandas altamente relevantes da época imediatamente anterior (o Cascavelettes e o Replicantes), ou seja, um apanhado de artistas ligadíssimos que simultaneamente captaram e definiram conceitos, comportamentos, estéticas e tetos pretíssimos de todo um povo e toda uma era.

Mas…….. como eu não ando com tempo de escrever um livro inteiro sobre isso, brindo vocês com um single: a análise de Um Lugar do Caralho, música do Júpiter, também gravada pelo Wander, uma canção que diz muito sobre as nossas façanhas que deveriam servir de modelo a toda terra. Com jeitão de hino, parente próximo de Amigo Punk da Graforréia Xilarmônica, Um Lugar do Caralho foi registrada no mesmo ano em dois álbuns distintos: o A Sétima Efervescência e o Baladas Sangrentas, cada um com sua versão mas todos baseados na estética do brio – essa crueza, esse direto-ao-assunto, essa ausência de frescura que caracteriza a composição, as produções e os arranjos. Na temática, Lugar do Caralho é o retrato fiel da abordagem portoalegrense do entretenimento especificamente nesse período entre a metade dos anos 80 e o final dos anos 90.

Para explorar um pouco mais esse ângulo, acompanhem-me nesta jornada profunda e misteriosa pelos meandros da letra de Lugar do Caralho.

“Eu preciso encontrar
Um lugar legal pra mim dançar
E me escabelar”

O primeiro verso já revela a alma boêmia portoalegrense: não é que o sujeito queira, deseje, esteja a fim, marque com os amigos, busque por diversão. Revelando a neurose urbana da capital gaúcha, o sujeito PRECISA. Portoalegrense é assim: ele PRECISA das coisas, MUITO, de forma extrema, senão vai MORRER. Um exagero, mas, enfim, uma realidade.

E o que é que essa cepa de sujeitos precisam de forma tão ardente? Um lugar legal. Não é um lugar ESPETACULAR, um lugar SHOW DE BOLA, um lugar UHUU!, um lugar SENSACIONAL, nada disso. É um lugar LEGAL, alguns degraus acima de PALHA, um ou dois estratos acima de BAGACEIRO. Para iniciados, um lugar LEGAL é facilmente identificável, mas o Júpiter é generoso com as massas e passa, então a definir o que seria um lugar LEGAL.

O ponto primordial de um lugar LEGAL, como definido na canção, é que este é um lugar PRA MIM DANÇAR. Não é, de forma alguma, um lugar PRA EU DANÇAR, porque quando EU DANÇA, você percebe um certo nariz empinado envolvido no processo. Um lugar onde MIM DANÇA, por definição, é mais primitivo, mais solto, mais divertido. Para não deixar dúvidas, Júpiter sublinha: E ME ESCABELAR. Aí está a química do LUGAR LEGAL: um lugar onde MIM DANÇA, um lugar pra ME ESCABELAR. Na época, eram poucos os lugares em Porto Alegre que ofereciam essa combinação, sendo provavelmente o Garagem Hermética o mais célebre, mas não o único. Para fazer o contraste, o Dado Bier seria fundamentalmente um lugar PRA EU DANÇAR SEM ME ESCABELAR, enquanto que o Garagem Hermética (ou o Circus ou o Megazine) seria um lugar PRA MIM DANÇAR E ME ESCABELAR.

Seguindo a linha didática da música, Júpiter continua enumerando os predicados de um LUGAR LEGAL.

“Tem que ter um som legal
Tem que ter gente legal
E ter cerveja barata”

Mais claro impossível! Júpiter, aqui, praticamente redige um Manual do SEBRAE para empreendedores da indústria criativa. Se os primeiros versos trabalhavam na subjetividade lúdica, nesse ponto encontramos elementos concretos que tornam um simples lugar num lugar LEGAL. Afinado com todas as grandes religiões do mundo, Júpiter reduz os elementos a três, uma santíssima trindade de fácil memorização. Não se fala em DECORAÇÃO, não se fala em ILUMINAÇÃO, não se fala em CHAPELARIA, SEGURANÇA ou VALET. A cultura do GALPÃO, tão cara ao tradicionalismo gaúcho, reveladora de uma arquitetura básica e nua, sem FIRULAS, surge aqui em sua versão urbana-boêmia. Aos não-gaúchos, esclarecemos que o GALPÃO é a edificação da FAZENDA ou da ESTÂNCIA onde os PEÕES se reúnem após um dia de trabalho duro lavourando ou tocando o gado. O GALPÃO se caracteriza, como já falado, pela simplicidade absoluta. O fogo para aquecer a comida e a água do chimarrão é no chão, geralmente de terra, as paredes tem frestas enormes por onde sopra o vento que vem das coxilhas, enfim, são instalações muito simples – o que lembra a maior parte dos bares estilo LUGAR DO CARALHO na época em Porto Alegre.

Ainda assim, restam algumas dúvidas. Não é difícil chegar a um consenso sobre o que seja cerveja barata. Já gente legal e som legal ainda frequentam o lodoso terreno da subjetividade. O que é legal para você pode não ser legal pra mim. Mas Júpiter, sagaz, continua, esclarecendo.

“Um lugar onde as pessoas sejam mesmo afudê
Um lugar onde as pessoas sejam loucas
E superchapadas
Um lugar do caralho”

Aí está, para os mais confusos: gente legal é o alegre encontro de pessoas afudê, pessoas loucas e pessoas superchapadas – muitas vezes no mesmo indivíduo, diga-se de passagem. Nota-se aqui um certo bairrismo quando Júpiter exclui da equação pessoas maneiras, pessoas firmeza e assim por diante. Também não são aceitas pessoas piradas ou lesas. Estamos em território gaudério, falamos de uma área ao sul do Mampituba, não há dúvidas. Qualquer um que frequentou o underground portoalegrense no período comentado acima sabe que ser AFUDÊ, LOUCO e SUPERCHAPADO era praticamente um dress code psíquico para entrar em determinados bares. Não é que pessoas PALHA, CORRETAS e CARETAS não fossem aceitas, mas é que elas simplesmente não achavam a porta.

Mas, bem. Vamos adiante. O compositor passa a régua indo além do mero LUGAR LEGAL. Quando preenchidos todos os requisitos, estamos falando de um lugar cujo todo é maior do que a soma das partes – o segredo matemático do LUGAR DO CARALHO.

Sendo esta estrofe bastante clara, passemos à seguinte.

“Sozinho pelas ruas de São Paulo
Eu quero achar alguém pra mim
Um alguém tipo assim”

No momento mais triste da canção, Júpiter evoca a imagem do desespero que é estar numa grande metrópole da América do Sul, uma das maiores do mundo (lembrando, tema também abordado de forma pungente por Wander Wildner em Bebendo Vinho, mas com foco no Rio de Janeiro). Ao declarar a busca por alguém PRA MIM, “um alguém tipo assim”, definido pelo desejo e não por externalidades, nosso compositor antecipa em cerca de 15 anos o hit de Criolo, ‘Não Existe Amor em SP’. Não é que não existe amor em SP: é que não existe um LUGAR DO CARALHO onde se possa encontrá-lo. Em Porto Alegre, na época, existia. Daí o disco do Frank, Carteira Nacional de Apaixonado.

Primando pelo didatismo, não querendo perpetuar mal entendidos, Júpiter, com paciência monástica, segue enumerando e explicando os elementos básicos da sua tabela periódica. Afinal, o que é um alguém tipo assim?

É, nas palavras dele alguém:

“Que goste de beber e falar
LSD queira tomar
E curta Syd Barrett e os Beatles”

Em primeiro lugar, o DNA de ‘um alguém tipo assim’ é revelado. O TIPO ASSIM (excluindo o TIPO ASSADO) gosta de beber, mas não ficar num canto sem dar papo para os outros frequentadores do LUGAR DO CARALHO. Bebendo, ele FALA, e COMO FALA, fala pelos cotovelos, desfia teorias, resolve os problemas do mundo, tudo isso ENQUANTO BEBE, o que gerava imensas onda de migração de perdigotos. Além de beber e falar, simultaneamente, este sujeito LSD QUER TOMAR. Novamente a inversão na frase revela a identidade: num LUGAR DO CARALHO você dificilmente vai encontrar alguém que queira tomar LSD, mas sim muitos que LSD QUEREM TOMAR.

Na mesma estrofe, Júpiter ainda resolve uma perna da equação que havia ficado (propositalmente) para trás: o que é um SOM LEGAL? Aí está: Syd Barret e os Beatles! Esse verso sozinho mereceria uma monografia ou um estudo antropológico-visual a respeito de toda a onda dos famosos TERNINHOS, os MODS PORTOALEGRENSES que se proliferaram feito alga no Guaíba em época de desequilíbrio ambiental. O poder do verbo de Júpiter Maçã também se provou magnânimo na capacidade de injetar mais de R$ 34 milhões na forma de COMPRAS EM BRECHÓS, um setor que cresceu 237% entre 1996 (quando o Sétima Efervescência foi lançado) e 1999, quando a onda MOD PORTOALEGRENSE atingiu seu auge (* dados da Câmara Setorial de Comércio da Minha Cabeça). Também digna de nota é a produção sessentista e acertada de Egisto Dal Santo (do Colarinhos Caóticos) que também contribuiu para a cara do som portoalegrense nos anos seguintes e a prosperidade econômica dos brechós na época.

Retornando ao som.

A essa altura, a mente do ouvinte já deu mil voltas e experimentou revelações místicas. Mas Júpiter não se perde em digressões inúteis e continua, sistematicamente, a ensinar a engenharia da montagem de um LUGAR DO CARALHO:

“Um lugar e um alguém
Que tornarão-me mais feliz
Um lugar onde as pessoas
Sejam loucas e super chapadas
Um lugar do caralho
Lugar do caralho”

Os primeiros dois versos dessa estrofe delineiam a missão e o objetivo de um LUGAR DO CARALHO: um lugar onde se encontra um alguém que tornarão o vivente mais feliz. All you need is love, diria Mick Jagger. No fim, a dança, a música, a chapação, a loucura, é tudo cortina de fumaça para uma busca mais prosaica, a busca por amor (de novo, algo que Frank iria consolidar no Carteira Nacional de Apaixonado em 2000 e que o Wander abraçou em sua carreira solo como um todo). Os versos seguintes, complementares, retomam temas de estrofes idas, com o intuito de reforçar a importância da pessoa humana na construção de um LUGAR DO CARALHO, o que nos traz ao âmago da questão proposta por Júpiter: o LUGAR DO CARALHO não é um LUGAR, mas o ESPÍRITO DE UM CERTO TEMPO.

Como foi Thurston Moore em Porto Alegre

Está provado & comprovado: Thurston Moore é um fanfarrão! O guitar-anti-hero mais célebre do rock contemporâneo abriu ontem sua tour pelo Brasil sacaneando os namorados & namoradas de fãs do Sonic Youth que levaram seus pares ao bar Opinião com a promessa de que “o disco solo dele é bem calminho, quase tudo no violão.” Bom, de fato, durante 80% do show o ovacionado TÃRSTON empunhou seu violão acompanhado de parceiros com outro violão, um violino e uma bateria que estava mais pra percussão do que tum-tum-dá de rock. Mas não demorou muito pra que os desavisados do local fossem apresentados ao que TÃRSTON sabe fazer melhor: barulho fino, bem estruturado, caos que consegue ser cerebral e visceral, ruído branco alternado com dedilhados elegantes entremeados pelas cordas dos três instrumentos & carregados por um baterista tarimbado. E tudo sem largar o violão na maior parte do set.

Tãrston

O clima geral, claro, era de celebração. Aquele bom e velho encontro de gerações portoalegrenses interessadas em gente interessante. E que esperava há muito tempo pela presença de uma figura tão emblemática, tão fundamental na formação musical de toda uma geração de roqueiros “alternativos”. Claro que por baixo estava o desejo de ser o Sonic Youth naquele palco, mas rapidamente se dissipou qualquer traço de resmungo que pudesse surgir no ar: o ruivão supriu totalmente a carência sônica do público empreendendo longas jams de microfonia & distorção entre um sonzinho calmo e outro. Não havia o que duvidar: é o bom e velho talento do cara para escrever canções que sobrevivem em ambientes sonoros inóspitos e agressivos. Quase um ensinamento de vida.

Foi um golpe experiente atrás do outro: um show de abertura em clima de revival anos 90 (embora o tal de Kurt Ville me lembrou até Galaxie 500 uma hora); canções decentes que bebem na fonte da sua banda original mas que não soam como sobras; piadinhas sarcásticas e nonsense; uma banda com músicos de personalidade; jams milimetricamente afiadas; COVER DE IT’S ONLY ROCK’N’ROLL BUT I LIKE IT, e, pra fechar com chave de ouro: ELE NÃO TOCOU O HIT DO DISCO, Benediction.

Entendeu? O TÃRSTON veio, trouxe o violão, fez barulho, botou um Stones no meio e não tocou o hit.

É muita malandragem…

***

A foto que abre o post é do Fernando Halal. As outras são do meu celular.

Terapia Indie

Não tenho tempo pra articular um post maior, mas vocês não estão com a impressão de que está rolando a maior terapia em grupo na mídia por parte da geração independente dos anos 80/90? Vejamos.

Aqui no Brasil é bem óbvio que isso está acontecendo – e já faz algum tempo. Toda a discussão em torno do Circuito Fora do Eixo esse ano foi, na verdade, uma requentada da polêmica do ano passado (lembra da a carta do João Parahyba?). Esse ano, a coisa foi reativada pela coluna do Álvaro Pereira Jr., pela visão do China e pela resposta do Bruno do Macaco Bong, pra não falar do desabafo do Bernardo do Elma no Facebook, contando os rolos com a produção do Cedo e Sentado (você veja que já tem bibliografia o debate e eu nem linkei 1/10 da parada…).

(Até pensei em escrever sobre isso tudo do ponto de vista de artista, mas resolvi responder tocando com os Walverdes por aí.)

Mas não é só na órbita do Fora do Eixo que gira a terapia em grupo. Bandas como o DeFalla voltando, o Rodolfo do Raimundos em matéria na Rolling Stone, a inacreditável ronha entre o Lobão e o Lolapalooza (o simbolismo disso me deixa pasmo), o lance entre o Ultraje e o Peter Gabriel, o Adriano saindo do CSS (não pude não lembrar de emails inflamados da época da Poplist, mesmo com a posterior entrevista mais comedida)… enfim… como diz aquela irresistível canção, “alguma coisa está fora da ordem” – ou fora do eixo (tum-tum-pish!)

No meio disso tudo, poucas coisas que li esse ano me deixaram tão intrigado e boquiaberto quanto o depoimento da mina do LeTigre sobre não poder construir uma vida estruturada materialmente com seu ofício de artista nos Estados Unidos. Ainda que legítimo, não dá pra um artista brasileiro ler o texto e não achar esquisito. É outra peça absurdamente forte e simbólica, porque é um sinal de estruturas (financeiras, sociais e conceituais) ruindo.

Outros indícios da grande terapia de grupo indie das últimas décadas: depoimentos como o do Bob Mould (Sugar/Husker Dü) e do Low Barlow, abrindo motivações, alguns podres e bastidores de momentos culturais singulares e fundamentais do fim do século passado. Pra não falar da separação do casal ícone do underground – Kim Deal Gordon e Thurston Moore, com direito a declarações emotivas do George Harrison do Sonic Youth, Lee Ranaldo.

(Em tempo: em 2009 Kim e Thurston abriram sua casa pra revista americana Nylon. O que mais me chamou a atenção nessa matéria foi o tom desculposo da dupla ao comentar que tem dois carros na garagem, como se tivessem que justificar pra patota alternativa tamanho luxo… a patrulha indie é implacável! A resposta aparece agora: dois carros pra cada um ficar com um… tumtu-pish!)

Rapaz, que momento!

Nevermind em 12 faixas

Smells Like a Teen Spirit

O Nevermind não foi um disco que eu escutei. Foi um disco que eu vivi. Porto Alegre, na época do Nevermind, teve sua própria versão da “cena de Seattle”, da “explosão do rock alternativo”, guardada as devidíssimas proporções. Não tinha internet, mp3, banda gringa da hora tocando na cidade e muito lugar pra tocar/sair. Mas tinha a Osvaldo Aranha e depois a Barros Cassal, ruas que reuniram centenas de bermudões e camisas xadrez nos fins de semana. Toda geração precisa de um som, uma roupa e um pólo geográfico. De um jeito ou de outro, tivemos aqui a nossa filial dessa história, como um posto americano avançado numa republiqueta tropical. É nesse contexto que o Nevermind aterissou na minha vida.

In Bloom

O Forastieri comentou que o Nevermind é um disco de fechamento de ciclo e não de abertura. Concordo e, de fato, as 12 faixas meio que consolidam as décadas anteriores. A melodia dos anos 60, o glam e a virulência dos 70, os excesso e experimentos dos 80, está tudo lá. Mesmo como seu inegável frescor, o álbum diz muito mais sobre as décadas prévias do que as que viriam a seguir.

Come As You Are

Embora o Nevermind seja lembrado como um representante do resgate do “do it yourself” punk, a verdadeira energia que permeava tudo era a atitude slacker do “tô nem aí”. E essa sim foi a grande mudança nos 20 anos do Nevermind. Enquanto a cultura digital tansformou o “do it yourself” em cultura popular, o “tô nem aí” foi meio esquecido. Hoje, todo alternativo é hiperativo e se jogar nas cordas, definitivamente, não pega bem. (Falo por experiência própria.)

Breed

De todos os efeitos colaterais que um disco desses causa, o pior é a horda de filhotes bastardos. A quantidade de sub-nirvana que apareceu na cola do trio original são ao mesmo tempo uma prova da importância e um legado pentelho. Silverchair, Bush e mais um bando de zé mané conseguiram a façanha de nos servir comida congelada requentada quando bastava fritar um ovo direito ou caprichar num sanduíche.

Lithium

O filósofo Zygmunt Bauman (agora a coisa ficou séria!!) diz que “A ambivalência, quando não é suportada, é detestada.”. Impossível ler essa frase e não lembrar de “I hate myself and i want to die” título emblemático de uma canção que Cobain queria usar pra nomear o sucessos do Nevermind, In Utero. O alcance popular do Nirvana (e de toda uma geração musical) exigiu uma energia pesada investida no dilema alternativo x mainstream. Era muito mau humor. Ia acabar dando no que deu.

(No fim das contas, tudo se resolveu ao longo dos anos 00, quando “banda que mistura rock e eletrônica” deixou de ser diferencial e Cristina Aguillera e Strokes puderam conviver numa boa na mesma faixa. Não dá pra dizer que foi energia desperdiçada, mas é meio irônico. Pra que tudo aquilo? Bom, como diz uma amiga minha, espernear faz parte da vida.)

Polly

Um verdadeiro presente para garotos ao redor do mundo: uma das músicas mais fáceis de se tocar no violão em toda a história do pop. Isso sim é OPEN SOURCE.

Territorial Pissing

E, de repente, uma banda de uns caipiras do interior do noroeste americano vai parar em camisetas de camelô no centrão de Porto Alegre. E, de repente, as camisas pretas já não são mais exclusividade dos metaleiros. E, de repente rock pesado também é coisa de gente sensível e deprimida. Não é pouca coisa.

Drain You

Em tempos de hard rock, funk metal, axé e tecnopop farofa, era bom ver a potência e o impacto da simplicidade. Três caras. Guitarra, baixo e bateria. Umas amarguras, umas boas melodias e muita distorção. Lembrar que faz-se milagre com pouco – e com os aspectos mais negros da mente humana – é algo que precisa de reforço periódico, faz parte dos ciclos culturais. Estamos precisando disso novamente…

Lounge Act

A música mais legal do disco.

Stay Away

As pessoas falam, falam, falam de internet e mp3, mas esquecem da Gol. Quando o Nirvana veio tocar no Brasil, passagem de avião tinha preços proibitivos e o jeito foi ir pra praia e deixar gravando no programa do videocassete. Uma felicidade: chegar em casa na segunda e perceber que a gravação tinha dado certo. Vi muito essa fita mas fiquei meio decepcionado: o Dave Grohl tocando de boné, o Cobain castanho e o Novoselic de cabelo curto. Cadê os caras dos clips? Cadê os caras do Nevermind?

On a Plain

O Nevermind pode não ser o melhor disco da sua época, nem o único, nem o mais importante musicalmente, nem o mais profundo. Mas ele foi um dos primeiros símbolos da velocidade e abrangência da nova cultura global. Um ponto destacado numa rede de eventos.

Há 20 anos, parecia que o Nevermind chegava pra simbolizar a resistência do underground, a dicotomia, a tensão. Hoje, fica mais claro que ele veio pra simbolizar a distensão, a mistura, a construção de pontes que, de fato, se consolidaram na cultura pop.

Something in The Way

Todo sistema que sofre uma sobrecarga precisa ser reiniciado. Então pra mim é isso: o Nevermind foi a sobrecarga (distorção, angústia, desespero) que resetou o sistema.