A internet prejudica as cenas musicais geográficas?

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Artigo que saiu no El País já faz mais de ano – Internet Entierra Las Escenas Musicales – mas ainda vale a reflexão: o quanto a rede acabou enfraquecendo as alianças geográficas das cenas culturais? Será que os artistas e produtores mais conectados dão menos atenção àquela casa noturna da esquina, àquelas bandas da mesma cidade e assim por diante? É possível que as cidades ainda produzam artistas e obras com características enraizadas na cultura local, como são os exemplos de Massive Attack/Bristol e Talking Heads/Nova Iorque, exemplos citados pela matéria?

Particularmente, não acredito numa equação tão simples e linear. Por um lado, a internet tem, sim, um efeito de alienação. Muitas vezes, é mais fácil e menos doloroso fechar parcerias com similares distantes do que ser obrigado a se articular num grupo próximo geograficamente mas mais heterogêneo artisticamente. Os parceiros distantes muitas vezes compartilham referências de forma mais visceral e não enfrentam o desgaste do dia-a-dia, da convivência frequente, que no meio artístico é uma questão tão complexa quanto na vida particular. Na aliança da distância, perde-se em riqueza, talvez, mas ganha-se em viabilidade. Especialmente em centros urbanos menores, é muito difícil um artista com uma visão mais “esquisita” encontrar caminhos para crescer.

Os pares locais, por outro lado, são pares por estarem perto e não por cultivarem o mesmo universo de inspirações. Apesar da articulação sofrer com as diferenças de linguagem, ganha em troca e diversidade. Além do mais, mesmo com essas diferenças todos bebem ao menos de um arcabouço comum de conceitos demográficos: frequentaram mais ou menos as mesmas ruas, os mesmos centros culturais, viveram na carne os mesmos ciclos daquela cidade. Por mais complicado que seja em alguns momentos, existe uma base mínima comum sobre a qual construir.

Particularmente, acredito que estamos em um momento de rebote, de retomada do espaço geográfico como parte importante da formação de cenas e artistas. Vão-se aí quase 15 anos da circulação constante de mp3 pela rede, cerca de 20 das listas de internet, dois recursos fundamentais para o desenraizamento da rede cultural brasileira. Bandas já circularam mais (graças ao barateamento das passagens aéreas em relação aos anos 90, tecla em que bato constanetemente), toda uma hierarquia de artistas e produtores se desconstruiu, uma série de mudanças econômicas gerais aconteceram. Talvez o próximo momento da cena musical independente brasileira seja mesmo uma espécie de retomada da geografia como eixo das cenas – algo que talvez somente o Pará venha operando nos últimos cinco anos. Afinal, é humano querer ganhar o mundo e circular, mas é ainda mais humano querer estabelecer uma casa.

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Imagem: Amaia Arrazolla

Minha primeira vez com Ney

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Há três semanas, Ney Matogrosso tocou em Porto Alegre numa das primeiras datas de sua nova turnê, Atento aos Sinais. Diferente dos shows anteriores, mais intimistas e formatados num esquema quase acústico, este é um retorno ao Ney expansivo e explosivo em todos os sentidos. Era justamente o que eu esperava na minha perda de virgindade-de-Nei-Matogrosso.

Pois é, eu nunca tinha visto o Ney Matogrosso ao vivo. É óbvio que eu sei quem é ele e sua importância na música brasileira, mas devido aos meus interesses específicos, acabei deixando-o de lado. Acontece que a marca dele na cultura brasileira é tão forte que a imagem correspondente é bastante clara mesmo quando construída de fragmentos: um intérprete inquestionável, de um artista original, de uma força da natureza especialmente no que diz respeito a equilibrar as energias masculinas e femininas do palco. Ou seja: mesmo sem acompanhar pragmaticamente sua carreira, sei que Ney é o cara.

Atento aos Sinais, claro, mais do que cumpriu com as minhas expectativas de primeira vez com Ney. Pode parecer arrogante falar assim de alguém de tamanho vulto, mas também é esperado, em geral, que artistas do pop se mostrem cansados aos 40 anos de carreira. Definitivamente, não é este o caso. Diante das minhas referências, durante o show me lembrei muito de nomes como Iggy Pop e Neil Young, senão pelo parentesco estético (talvez Iggy, pela presença de palco), certamente pela energia despejada sobre a audiência. Estamos falando de artistas que não tocam, mas derramam música sobre nós – e com isso se derramam juntos. Ney sempre foi desses. Pensei, durante o show: “É incrível que ele ainda possa se entregar tanto pra platéia.” Bem, só entrega muito quem tem muito pra dar. Ney tem tudo que a platéia precisa: tem conteúdo, tem forma, tem verdade e tem linguagem. Tudo próprio, tudo seu. E um pouco nosso, de cada um, muito do Brasil das últimas décadas.

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Além de alguns roqueiros dignos, assistindo ao Ney também me lembrei de nomes como a Nação Zumbi e do Portishead, por conta da maneira como os sons do show são construídos. Pesadas e pungentes ou mais tranquilas e embaladas, as interpretações de Ney e sua banda lembram muito uma certa bricolagem que caracteriza o mangue beat e o trip hop. Essa desconstrução, segura, coesa, como só a experiência permite empreender, não deixa furos, não deixa espaços vazios no som – o maior perigo nessas brincadeiras de desconstruir. Mas claro que Ney não está brincando. Ele brinca mas não brinca. Sabe brincar, por isso desce pro play com tamanha segurança e autoridade.

A escolha do repertório também não deve surpreender os que o acompanham. É quase uma curadoria, é quase um podcast com um olhar especial. Tem Lenine, Arnaldo Antunes, Criolo, Itamar Assumpção, Pedro Luiz, Caetano, Dani Black, Tono, Vitor Ramil, Dan Nakagawa. O rótulo MPB tanto define toda essa gente como soa meio torto, não cola geral. De qualquer forma, nos arranjos da banda liderada pelo tecladista Sacha Amback, tudo acaba ficando meio “Ney Music”, essa colcha de retalhos, esse artesanato pesado e aterrado. Entre tantas peripécias de arranjo, um detalhe rítimco importante me chamou a atenção: as batidas graves e agudas, que numa bateria convencional são executadas por um único baterista usando o bumbo e a caixa, ao longo do show são todas divididas entre os percussionistas Marcos “Eita minino danado” Suzano e Felipe Roseno. Me disseram que é o mesmo esquema do Pedro Luiz e a Parede, ma me remeteu mesmo foi à Nação Zumbi e ao quanto Nei deve ter influenciado tanta gente nos anos 90…

Pra fechar, mais duas supresas. Primeiro, o show é claramente politizado. Não há discursos sobre o Congresso ou sobre os políticos, mas há um bombardeio de imagens no telão. Elas endereçam questões ligadas à urbanização, à violência e à natureza. Elementos que, em mãos erradas, poderiam destoar, ficar grotescos ou perdidos. Mas aqui eles fazem todo sentido do mundo. Ney costura o sentido com a habilidade de um artista que sabe se posicionar dentro da sua linguagem. Ele ainda faz algo dificílimo e digno – se inclui particularmente no viés político, claro, viveu tudo isso. As imagens durante a execução de “Vida Bandida” são um resumo da carreira de Ney. Nem todo artista com quarenta anos de estrada tem ainda a mão pra equilibrar algo do tipo.

A segunda supresa foi uma lebre levantada pela minha mulher e que quebrou totalmente minhas pernas. Eu já tinha visto vídeos e clips, e esperava que fosse diferente, mas ao vivo fica flagrante o fato de que, a despeito de toda energia feminina que ele habilmente manipula, o feminino de Ney não está na dança já que ele, curiosamente, rebola como macho. Veja você.

Por fim, uma certeza: quando as luzes se apagam e começa o show, um facho ilumina Ney Matogrosso, vestido como uma majestade bizarra, como uma corista de uma lua distante, como um alienígena de filme dos anos 70, sentado em um trono feito de espelhos. É estranho, é intenso, é meio insano. Foi aí que eu entendi o truque do Ney: não é que ele se fantasia, é que no palco ele usa alma do avesso.

Trama Virtual & The Deleted City

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Lendo o texto do Matias sobre o fim da Trama Virutal, me lembrei desse projeto, The Deleted City do designer de informação Richard Vijgen. O Deleted é nada mais nada menos do que todo o backup do finado Geocities (digamos assim, o antigo Blogger/Wordpress) formatado visualmente como o mapa arqueológico de uma cidade:

Três rápidos pensamentos a respeito.

Um: como é rápida a sensação de antiguidade no âmbito da cultura digital. O auge da relevância do Geocities se deu no fim dos anos 90 e sua extinção em 2009. Portanto, seria relativamente cedo para arqueologia, mas acontece que as ondas digitais são tão meteóricas que uma década é o suficiente para gerar nostalgia na maior parte dos envolvidos.

Dois: não é por acaso que comparo a Trama Virtual ao Geocities. Ambos eram baseados em uma ideia geográfica. O Geocities intencionalmente. A Trama Virtual por adoção da cena independente. Sim, o site da Trama, a meu ver, era um ponto geográfico ao qual as pessoas iam e se reuniam. Foi o primeiro grande endereço nacional do indie, o correspondente na internet de esquinas malditas espalhadas pelo Brasil físico. Aliás, equipes da Trama estiveram muitas vezes nessas esquinas fazendo a costura. O que a Trama Virtual deixa pra trás (já tinha deixado…) não é a falta de um lugar pra armazenamento, mas um lugar central, um eixo. Mas, enfim, não estamos na era do Fora do Eixo? Sem trocadilhos, o eixo se dissolveu, está mais disperso. Talvez daí o fim da Trama Virtual.

Três: como músico, desde já (já??) bate com uma certa nostalgia. A Trama Virtual é parte da história dos Walverdes. Mas também já faz tempo que estamos conversando sobre a portabilidade do nosso arquivo digital, sobre como ele não pode ficar refém da Trama ou do MySpace ou do SoundCloud ou do Facebook ou do que quer que seja. Nisso, vale o ensinamento do velho mestre Wander Wildner em On The Road (que tocamos em alguns shows): “minha mochila está sempre à mão / e eu tô sempre pronto pra partir.”

Minha Personal Song por Nenung

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A poeira da implosão da indústria tradicional da música, ao que parece, está baixando e agora o volume de alternativas que surgem começa a suplantar o volume de reclamações. É velha história: enquanto uns reclamam, outros constróem o seu caminho. É o caso do Nenung, cantor, violeiro e compositor com uma trajetória que atravessa algumas décadas embalada nos mais diferentes formatos: já se lançou em vinil com a Barata Oriental no fim dos anos 80, em 5 CDs com Os The Darma Lóvers desde o fim dos anos 90 e no esquema streaming/mp3/show ao vivo com o solo Projeto Dragão. Agora, Nenung vai mais além dos formatos de distribuição clássicos e explora também uma nova relação entre artistas e público, que é a da criação e venda direta da ideia da canção ao interessado.

Pois é, Nenung está vendendo seu talento de compositor diretamente ao público final no site Minha Personal Song. A ideia é muito simples: o pretendente entra em contato, passa um briefing, conta qual é o clima que quer e Nenung compõe a música. Aprovado o primeiro rascunho em voz e violão, parte-se para a produção final, que pode ser mais elaborada ou manter o espírito simples que caracteriza muitos dos seus trabalhos. É uma espécie de mecenato democratizado.

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A intenção de Nenung com isso não é apenas buscar uma fonte alternativa de renda em meio a um cenário musical e cultural sedento por soluções inovadoras. Compositor prolífico, ele também pretende dar vazão ao seu incansável exercício de criação. Mesmo colaborando com diversos artistas e tendo duas bandas pra desaguar sua energia, Nenung se sente mais útil oferecendo diretamente ao público final uma participação nesse processo. Afinal, não estamos vivendo o tempo da interatividade?

Nenung não é o único e música por encomenda não é exatamente uma ideia nova, mas geralmente os serviços disponíveis são de produtoras ou músicos mais impessoais e menos autorais. O que Nenung está oferecendo de diferente é o acesso à mesma fonte que já deu um grande sucesso à Paula Toller (Meu Amor Foi Pra Lua) e engordou os repertórios de Dado Villa Lobos (Lucidez) e Marian Aydar (Peixes). Ou seja, o comprador de Nenung estará sempre muito bem de companhia.

Acompanho o trabalho do Nenung desde o Barata Oriental, tenho admiração pelo seu senso de composição, então posso dizer com segurança: música boa nunca faltou pra ele. Além de fecundo, é comprometido com o coração, tem música boa pros Dharma Lóvers, tem pro Projeto Dragão, tem pro Dado Villa Lobos, tem pra Paula Toller e agora tem pra você também.

A estrada do streaming

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Estava dando uma olhada nas reportagens sobre streaming de música que saíram nas últimas semanas, no Globoe no Link do Estadão. É um assunto rico, bem coberto por essas reportagens e ainda vai render muita saliva. Em geral, sou um otimista no que diz respeito ao comportamento ligado a novas tecnologias – as pessoas adotam mais rápido do que qualquer estudo possa imaginar e de um jeito que nenhum empreendedor imaginou. Mas, no caso do streaming, eu deixo meu lado cético aflorar e por um motivo muito simples.

O Brasil, por vocação, é um país que sabe gerar produtos sem gerar a infra-estrutura para utilizá-los. O melhor exemplo de todos é a indústria automobilística. Nosso país tem uma frota numerosa, uma variedade de modelos para todos os gostos e caminhos de compra para todos os bolsos. A rigor, o carro que você quiser, você dá um jeito de comprar. Agora, sai da concessionária com ele: trânsito urbano caótico, ruas esburacadas, furtos e roubos esperando na esquina, estradas municipais, estaduais e federais em estado miserável. O produto está aí, a infra não colabora

Com o streaming, é a mesma coisa. Se por um lado os serviços de streaming pago vão aportando no Brasil e oferecendo boas opções, por outro as conexões wireless com um mínimo de qualidade pra suportar uma vida em streaming ainda são uma raridade relegada a certas áreas de certos centros urbanos. Streaming pra uso em casa ou no escritório das capitais e grandes cidades parece um carro feito só pra circular em condomínio fechado.

Meu ceticismo diz que o streaming só vai deslanchar mesmo quando, entre outros fatores, contar com a colaboração das operadoras de celular na oferta de conexões confiáveis quer você esteja em casa, no ônibus indo trampar ou na BR rumo à praia – qual é a graça de contratar um serviço de streaming que você não pode ouvir decentemente indo pra praia ou pro trabalho? Se não for assim, o streaming vai acabar como mais um item que, pra funcionar, precisa ser acomodado e composto com tantos outros na sua já lotada vida digital.