30 Ferramentas para Inovação Social

HelloDIY Apaixonados por esquemas e metodologias, chorai no cantinho. O Nesta, uma ONG britânica focada em incentivo à inovação (com forte atuação na área da economia criativa) lançou no início do ano um compêndio de 30 ferramentas para facilitar processos de inovação em ações sociais,  o Development Impact & You. Em bom português, Impacto de Desenvolvimento & Você. Apesar de ter participado de um evento do Nesta e já ter explorado o site deles, eu ainda não tinha travado contato com essa verdadeira maravilha. O DIY Toolkit mistura ferramentas bastante conhecidas (como a Matriz SWOT, o Business Model Canvas e o Thinking Hats) com outras menos usuais, todas elas já existentes e selecionadas, segundo os organizadores, a partir do estudo de centenas de alternativas testadas na prática. Cada uma delas está devidamente classificada de acordo com seu objetivo, tem seu uso explicado didaticamente em vídeo e, por serem ferramentas visuais, acompanhadas de pranchas em PDF para baixar, imprimir e usar na hora. Tudo gratuitamente. nestatoolkit Há ferramentas para desenvolver planos, para gerar ideias, para organizar informações, para captar informação, para conduzir entrevistas de pesquisa, para testar hipóteses e por aí vai. Além do mais, há uma sessão de background teórico pra quem quiser se aprofundar, e um blog com textos complementares e estudos de caso. Em resumo, são subsídios para incentivar não apenas ações sociais inovadoras, mas também ações sociais estratégicas, ou seja, precedidas por uma reflexão ampla que dê suporte a soluções novas, eficientes e de efeito mais profundo. Você pode visualizar, ler, aprender e baixar o Development Impact & You Kit no próprio site do projeto. A única nota triste disso tudo é que o DIY ainda não está disponível em português. Mas uma vez que o Nesta já esteve presente no Brasil com o treinamento para empreendedores criativos via British Council (e eu estive lá), quem sabe em breve não sai uma versão nacional do kit.

*** Leia também: Jam: uma ferramenta de processo criativo simples e visual.

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Um manual prático de Design para Impacto Social

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É prática estabelecida no mercado de comunicação que agências de publicidade e estúdios de design procurem ONGs e entidades sociais para colaborar nas suas ações e estabelecer parcerias. Às vezes, a parceria serve mais à agência/estúdio, que busca trabalhos que possam lhe render prêmios. Mas, em muitas ocasiões, surgem parcerias realmente relevantes, especialmente quando são baseadas numa visão estratégica de longo prazo – tanto para a entidade quanto para a agência/estúdio.

É justamente para definir quais são os pilares que sustentam essa parceria de longo prazo que a americana Ideo criou, em 2005, duas ferramentas simplíssimas de colaboração entre entidades sociais e empresas de design (o que, a meu ver, está valendo também pra agências de publicidade). Trata-se de um guia e um workbook com o passo-a-passo pra estruturar projetos que sejam frutíferos para ambas as partes e, portanto, com maior chance de prosperar no tempo.

Mais informações e downloads do tookit, no site da Ideo:

– Informações sobre o projeto Design for Social Impact.
– Download do Design For Social Impact Guide.
Download do Design For Social Impact Workbook.

Normcore, esse incompreendido

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No fim de 2013, os escritórios de pesquisa de tendências Box 1824 e K-Hole lançaram um relatório chamado Youth Mode – Um Estudo Sobre Liberdade. O objetivo desse tipo de estudo, em geral, é identificar em movimentos de vanguarda os primeiros sinais de novos ventos culturais que começam soprando em nichos e que acabam, depois de um tempo, varrendo a vasta planície do mainstream com sua influência. Um destino comum para esses relatórios é a mesa de diretores de marketing de marcas globais, que costumam procurar desesperadamente por elementos de diferenciação que possam resolver um sério problema no consumo hoje: o fato de que quase tudo é tão rapidamente absorvido pelas pessoas e pelo mercado que logo se torna parte da paisagem.

Smartphones, calças skinny, tênis Converse, sacolas ecológicas e música indie são alguns exemplos de produtos que começaram seu ciclo de vida como elementos de diferenciação para quem os usava mas que acabaram se popularizando numa velocidade nova, perdendo o contato com os nichos originais e, também, seu status de diferenciadores. Isso tem diversas consequências. Por um lado, pode criar um problema mercadológico, já que a lógica do capitalismo desde os anos 50 vem sendo absorver os movimentos culturais alternativos e devolvê-los digeridos, embalados para o consumo seguro de um público mais amplo. Por outro lado, essa saturação abre um novo ângulo de abordagem da individualidade no momento em que o consumo de novidades passaria a não servir mais como diferenciador de identidade.

Essa perspectiva é consolidada pela Box/K-Hole no conceito de Normcore, a atitude de transcender a diferenciação industrial em vez de contrapô-la. Normcore é “entender o processo de diferenciação através de uma perspectiva não-linear. (…) Não é a liberdade de se tornar alguém, é a liberdade de poder estar com qualquer pessoa. Você pode não entender nada de futebol e mesmo assim sentir um arrepio com o grito da torcida na Copa do Mundo. Em Normcore, a pessoa não finge estar acima da vergonha de querer pertencer.” No território de extrema complexidade que se tornou a sociedade urbana, o Normcore surge como um comportamento de abertura ao todo muito mais do que como uma definição de uma nova reserva de atitude. Mas nem todo mundo entendeu assim.

Em fevereiro, a New York Magazine publicou um artigo intitulado “Normcore: Moda pra quem percebeu que é só mais um em um milhão”. O foco do texto eram os hipsters nova-iorquinos vestindo tênis New Balance, calças cáqui Uniqlo e jaquetas Patagonia (no Brasil, talvez o correspondente seria Nike Shox e conjunto de abrigo de tac-tel). No mesmo mês, a Dazed and Confused perguntou qual seria a trilha musical do Normcore. E respondeu: seria a playlist de dance music superficial que se ouve na academia. Em ambas as matérias, e em tantos outros posts internet afora, o ponto do Normcore foi perdido completamente. O New York Times identificou isso em março, declarando que Normcore é possivelmente “um meme de internet que se tornou uma gigantesca piada interna na qual a mídia insiste em cair”, como a GQ, que abraçou o Normcore como tendência de moda, e a Elle.com, que o denunciou como fraude. Normcore não é uma coisa nem outra. Talvez seja apenas um comentário cultural de duas empresas com objetivos híbridos que flutuam entre a investigação sociológica, o jornalismo, a arte e a consultoria comercial.

Hypes à parte, Normcore é um bom termo para resumir como a dinâmica de propagação de tendências pode estar mudando. Até pouco tempo atrás, esse esquema costumava se parecer com a imagem de um líquido viscoso sendo derramado no topo de uma pirâmide e escorrendo lentamente paredes abaixo. No topo da pirâmide estava uma espécie de elite cultural, não no sentido de “bem educadas formalmente”, mas mais como verdadeiras antenas da sociedade, pessoas que, indiferente de sua classe social ou formação, captavam antes dos outros novos modos de ser e de agir. Um bom exemplo disso foram os DJs e jornalistas que abraçaram o funk carioca desde o início, identificando nele uma onda cultural relevante e que se tornaria abrangente, parte do novo imaginário nacional. O que demorou, mas aconteceu.

Sob a lente do Normcore, essa demora, representada aqui na imagem do líquido viscoso descendo a pirâmide, não faz mais sentido. Hoje, é mais realista pensar que as ondas culturais se disseminam como uma bala de paintball explodindo dentro da pirâmide, espalhando tinta de maneira não-uniforme para todos os lados, manchando diferentes segmentos sociais em splashes pollockianos. Foi o que aconteceu com o sertanejo universitário moderno, que não pode ter uma origem traçada de forma tão linear quanto à do funk carioca. Se bem me lembro, nenhum relatório de tendência dos últimos anos destacava como vetor de comportamento um paranaense criado no Mato Grosso rebolando ao som de “Ai Se Eu Te Pego”. De onde veio essa? Não veio das antenas sociais, mas das “pessoas normais” para quem “o entendimento de que só a adaptabilidade leva ao pertencimento”, como diz o relatório Youth Mode, é uma ferramenta básica de sobrevivência desde sempre e não um conceito desenvolvido em laboratório.

O Brasil é um campo rico para a discussão do Normcore. Primeiro, porque sempre celebramos nosso mainstream. Aqui, a busca pelo pertencimento em comunidades amplas é quase um valor nacional e para poucos grupos sociais a ideia de adaptar seu estilo dinamicamente é uma novidade ou um desafio, quanto mais um conceito sociológico. Além disso, a recente mistura de ascensão econômica da classe C com a digitalização de pelo menos metade da população bagunçou completamente o esquema pelo qual operava a disseminação de ondas culturais e, consequentemente, da ideia de diferenciação. Você passa na rua por alguém de camisa xadrez e tênis Converse e não sabe se a pessoa é apaixonada por anos 90, sertanejo universitário ou Sambô. Ou tudo isso ao mesmo tempo. Normcore na veia.

Numa perspectiva extremamente otimista, talvez a ideia de Normcore como uma hiperadapabilidade em busca de conexão humana seja um cansaço natural de 60 anos de busca por individualidade através de códigos comerciais externos. A noção de que uma pessoa consome alinhando seus valores pessoais com os valores construídos pelo branding de uma marca já caducou como conceito e, se tudo der certo, deve caducar como prática. Quem se importa se você é Mac ou PC quando ambos são montados na China pelas mesmas fábricas com condições de trabalho questionáveis? Outro ponto seria rever a ideia ocidental-capitalista de uma individualidade que serve pra nos separar uns dos outros. A psicanálise, meio fora de moda com o avanço da indústria química sobre o cérebro, há muito tempo defende a singularidade do sujeito como um ponto de conexão e empatia e não necessariamente de afastamento uns dos outros. Somos semelhantes nas nossas singularidades e não apesar delas. Do ponto de vista do Normcore, poderia se dizer: de perto, ninguém é normal e mais de perto ainda ninguém é anormal.

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Esse artigo saiu na página 77 da nova revista Void. A revista está inteira lá no Issuu. Desde que escrevi, uma série de outras matérias e artigos saíram sobre o assunto. Em breve, voltarei a ele.

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Imagem do tumblr True Detective? More like True Normcore.

O que eu aprendi no Treinamento Nesta/British Council para Empreendedores Criativos

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A palavra “criativo” é um grande problema. Em geral, as pessoas associam “criativo” a coisa “loucas”, “diferentes”, “irreverentes”, “fora da casinha”. Instalações de arte contemporânea, games bizarros, utensílios de cozinha inusitados, filmes experimentais, todos são considerados “criativos” enquanto que o planejamento dos produtores culturais, o fluxo de caixa da empresa de games, os relatórios do contador do estúdio de design e a planilha orçamentária da produtora de cinema são “uma encheção de saco”, “um mal necessário”, alienígenas incompreendidos em um planeta no qual todos praticam bullying com a burocracia.

Combinar na prática esses dois mundos, o pragmático com o imaginativo, foi a lição de fundo que eu aprendi no Treinamento Nesta para Empreendedores Criativos que freqüentei semana retrasada aqui em Porto Alegre. Durante 4 dias, eu e outras 19 almas perdidas fomos recebidos gratuitamente na Escola de Design da Unisinos para um excelente workshop promovido pela Secretaria da Cultura do Governo do RS numa parceria com o British Council e o NESTA, este último o responsável pela metodologia e pelo conteúdo do evento.

Assim como eu, todos os outros integrantes do treinamento estão trabalhando em projetos profissionais ligados à economia criativa. Entre as ideias sendo gestadas ou aperfeiçoadas estavam uma iniciativa de microcrédito para artesãos, uma ocupação cultural de um prédio histórico semi-abandonado, uma produtora de vídeos comerciais com abordagem documental, estúdios de animação, um app para o universo da cerveja artesanal, uma marca de moda, uma entidade associativa para marcas de moda, enfim, empreendimentos que são baseados muito mais em capital intelectual do que financeiro ou físico.

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Criado na Inglaterra como parte de um vasto programa de inovação com foco na economia criativa, o objetivo do Treinamento Nesta é submeter os projetos (ou ideias seminais) a uma bateria de exercícios e dinâmicas que permitem construir, revelar ou refinar seus pilares conceituais e operacionais com a ajuda dos companheiros de workshop. Essa metodologia não é novidade para os empreendedores seriais, para os que já vivem imersos na roda viva das aceleradoras, da busca por investidores, dos livros de negócio. Mas se eu fosse me basear na pequena amostragem desse Treinamento, daria pra dizer que 80% dos empreendedores criativos não tem seus projetos totalmente estruturados de maneira que sobrevivam a suas próprias contradições e lacunas – que dirá a fatores externos. A verdade é que mesmo com a disseminação da cultura e do vocabulário médio das startups no Brasil, a noção de modelar um negócio criativo de maneira formal ainda causa calafrios em muitas pessoas que gostam simplesmente de sentar e criar o que quer que seja. Aliás, eu sou uma dessas pessoas.

O que pra mim fez a diferença no caso do Treinamento Nesta foi o Creative Enterprise Tookit, um apanhado de ferramentas para modelagem de negócios que mistura elementos clássicos (como a matriz de análise SWOT) com contemporâneos (como alguns frameworks do criador do Business Model Generation, Alexander Osterwalder) de uma maneira que que não afugenta que não tem grande apreço por planos de negócios tradicionais. O Tookit é disponibilizado gratuitamente para download (em inglês no site do Nesta ou em português diretamente no meu Dropbox) e ele próprio é um passo-a-passo par ser utilizado independente do workshop. Mas trabalhar com o Tookit em grupo, com um orientador treinado, num ambiente sincero de troca e colaboração como foi o treinamento que participei, não tem preço: a interação com o grupo, bem conduzida, forma um caldo grosso de dúvidas e insights que enriquecem todos os projetos, por mais diferentes que sejam seus objetivos ou seus segmentos. Parabéns à treinadora Phily Page, que conseguiu manter a coesão e a energia do grupo em uma curva ascendente ao longo dos 4 cansativos dias de trabalho.

Fica, então, a esperança (e a reivindicação) que a Secretaria da Cultura dê proseguimento a seu programa RS Mais Criativo e promova mais workshops como esse. Dinheiro para projetos não é a única forma de incentivar empreendimentos criativos. Eu arriscaria a dizer que a maior parte deles se beneficiaria mais de um treinamento assim, seguido de um sistema de apoio de gestão, do que exclusivamente de dinheiro. Embora a grana seja sempre bem-vinda (e ajuda financeira é fundamental para a cultura de um país ainda emergente) um processo de  treinamento contínuo desse calibre é mais estruturante – além de estimulante e viral: aqui estou eu falando da metodologia para minha audiência e tenho certeza que meus colegas também se tornaram mutiplicadores dos saberes que adquiriram.

Aliás, antropologicamente falando, não é assim que as culturas evoluem?

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Em abril, o Treinamento Nesta vai acontecer em Recife. As inscrições já estão encerradas.

De qualquer forma, vale explorar o site do Transform, o programa do British Council que trouxe o Treinamento para o Brasil e que está envolvido em uma série de outros projetos de intercâmbio cultural UK-BR.

O site do próprio Nesta é uma fonte de consulta bastante interessante. Eles tem, por exemplo, dezenas de relatórios e pesquisas nas áreas de inovação e economia criativa. Tudo pra download gratuito. Em inglês.

7 pesquisas que vale a pena você conhecer

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Uma das coisas mais surpreendentes na intersecção entre o mundo da publicidade e a internet é a quantidade de pesquisas, estudos e relatórios que circulam livres por aí. E livres mesmo, para download gratuito. Infelizmente, a maior parte acaba ficando restrita ao pessoal da publicidade e do marketing mas tenho certeza que profissionais de muitas outras áreas se beneficiariam se chegassem até esse material. Pensando nisso, resolvi fazer um apanhado de 7 pesquisas que eu acho bacanas e que estão liberadas pra visualização ou download. Dê uma olhada nas que lhe interessam e repasse para amigos que possam curtir. Também estou aceitando dicas para fazer uma segunda lista mais adiante.

1) Most Contagious

A revista inglesa Contagious faz desde 2009 uma seleção anual das campanhas e tendências mais relevantes no marketing levando-se em consideração inovações tecnológicas, ondas comportamentais e impacto de consumo. O resultado não é um simples ranking de “melhores do ano”, mas uma real panorâmica das principais forças econômicas e tecnológicas no mundo na forma como elas se manifestam na comunicação.

2) Pesquisa F/Radar

Já há alguns anos a agência brasileira F/Nazca Saatchi & Saatchi vem formando uma parceria com o Datafolha para radiografar o uso da internet pelos brasileiros. A 13ª edição destaca o incrível crescimento da internet mobile e seus desdobramentos comportamentais em uma apresentação de leitura dinâmica e agradável. Clique aqui com o botão direito e dê salvar como para fazer o download do PDF.

3) O Sonho Brasileiro

Essa pesquisa na verdade transcendeu o âmbito da publicidade, foi concebida pra isso, mas eu acho que sempre merece menção. Realizado pela Box1824, “O Sonho Brasileiro” é um dos mais interessantes estudos que eu li nos últimos anos – e eu li cada parágrafo das suas mais de 300 páginas. Fazer o download e mergulhar nele é meio caminho andado pra entender a maior parte dos movimentos sociais e comportamentais do Brasil nos últimos anos. Você pode baixar o PDF ou ler online no site da pesquisa.

4) As Poderosas da Nova Classe Média

Haters gonna hate: essa pesquisa da Editora Abril em parceria com o Data Popular tem um olhar bastante consumista sobre a “nova mulher da classe C”, mas também traz insights sociais interessantes. Ela combina pesquisa online com mais de 30 mil mulheres, 500 horas de observação etnográfica e entrevistas com alguns especialistas, o que fornece um quadro bem completo.

5) O Jovem Digital Brasileiro

Há tempos que o YouPix já vinha mapeando os hábitos do jovem digital brasileiro – mas de maneira informal, através das próprias matérias do site. Ano passado, eles se juntaram com o IBOPE Mídia e com a Conecta pra produzir um estudo com um pouco mais de rigor e metodologia que assina embaixo de muitas suspeitas de quem acompanha a evolução da internet no país.

6) A Debandada

Um estudo sobre a relação da classe c da América Latina com o ambiente digital por olhos gringos. Produzido pela agência digital Razorfish e pelo Terra, foi apresentado no South By Southwest em 2010 pelo VP de estratégia da agência Joe Crump, um antropólogo por formação.

7) An Anatomy of the Male Shopper

E, por último: nem todo mundo vai se interessar por essa, mas eu garanto que vale dar uma olhada nem que seja pelo inusitado: uma análise do comportamento masculino de compra, tanto em lojas físicas quanto em lojas online.

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Como eu disse, isso é apenas a ponta do iceberg. Prometo fazer mais dois ou três posts com pesquisas e estudos gratuitos que vale a pena conhecer. Aceitamos novas sugestões.

Sobre John Maeda em Porto Alegre

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Estive ontem na palestra do designer, artista e cientista americano John Maeda aqui na cidade. Também Presidente da Rhode Island School of Design (popularmente conhecida como “o lugar onde os Talking Heads se conheceram”), ele veio falar nas comemorações de 40 anos da agência de publicidade Escala, que resgatou uma tradição sua bacana de trazer nomes relevantes para despejar bom conteúdo no mercado local. Durante os anos em que trabalhei na Escala, entre 2003 e 2010, assisti a apresentações ou participei de workshops de gente como Gilles Lipovetski, Carl Rhodes, Charles Watson, Jailton Moreira, Ronaldo Fraga, Heitor Dhalia, Arnaldo Antunes, entre outros.

O papo do John Maeda girou em torno de uma busca íntima dele: descobrir ou redefinir “o que é design” em relação a um cenário tomado pela tecnologia – uma questão que considera ainda aberta e que diz enfrentar desde os primeiros anos de estudante, quando seu pai ouviu seu professor dizer que ele era bom em matemática e artes e ignorou o “artes” da frase, dando um computador de presente para o menino quando o computador ainda não tinha nada de artístico. Mas o lado “artes” do cientista perdurou, traduzido em interesse por design gráfico durante seus estudos no MIT Media Lab. Por isso, ontem, na apresentação, Maeda estabeleceu seu raciocínio a partir da definição do lendário designer Paul Rand, que dizia ser o design “um método para colocar forma e conteúdo juntos”, um conceito a princípio agnóstico. Contou também seu encontro pessoal com Rand e sua tentativa de transformá-lo em professor do Media Lab, intervindo junto a Nicholas Negroponte no sentido de aproximar um designer gráfico clássico do mundo da computação experimental acadêmica. A parceria com Rand não foi pra frente devido à sua morte logo em seguida, mas o conceito obviamente vingou. Uma das linhas de força do trabalho de Rand era criar identidades que pudessem sobreviver à desfiguração, função essencial em qualquer trabalho contemporâneo de design devido à multiplicação de plataformas onde ele precisa se manifestar.

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Ao longo da palestra, Maeda abriu diversas frentes de pensamento, como se fossem novas abas de um browser. Falou sobre os aspectos fundamentais de uma liderança de empresas mais eficiente num momento em que os funcionários desconhecem a hierarquia por muitas vezes estarem de posse de tanta informação quanto seu chefe; nesse sentido, sugeriu que a informação essencial aos líderes corporativos é aquela que coleta dados sobre as relações sociais de suas equipes. Em outra aba, explorou o conceito de empresas “end-ups”, mais estáveis e sólidas, em contraste às start-ups; sobre isso, argumentou que não deveria ser objetivo das end-ups manter sua posição, mas sim se lançarem no vazio, darem um passo suicida à frente no topo da montanha, rolar morro abaixo, morrer e aprender a renascer. Um tanto quanto oriental, um tanto quanto gamer, ou seja, uma abordagem que cai bem hoje em dia.

A terceira aba, e a mais bacana, que amarrou esses dois outros caminhos com a proposição inicial da palestra, confrontou os conceitos de “velho” e “novo”. No telão, Maeda ilustrou o “velho” com um montinho de terra e o “novo” com uma nuvem – sim, “a” nuvem do “cloud computing”. Unidas em uma animação, a nuvem “choveu” sobre a “terra” e fez crescer um broto que ilustrava a palavra “bom”. Ou seja, para Maeda, o que vale é algo ser bom, e o bom transcende temporalidades.

Falando assim, eu sei que soa óbvio e simplista, mas preciso ressaltar: foi um enorme prazer assistir a uma palestra que privilegia a convivência de conceitos simples, em geral considerados antípodas, em um meio no qual o “novo” é alavanca para a criação de cenários apocalípticos resolvidos por ideias milagrosas (geralmente vendidas pelo palestrante). Bem longe da retórica da maioria das palestras hoje em dia, Maeda ofereceu uma combinação rara e aberta de conceitos e aplicações de design com uso de tecnologia e uma abordagem humanista nada ingênua porque leva em consideração o contexto econômico em que vivemos.

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PS: Sobre Maeda, já escrevi algumas vezes por aqui. Os posts com a tag dele estão aqui. Alguns são antigos, revisitei e não gostei da redação, mas foi o que pude fazer na época 🙂

Jonathan Harris: os dados não vão nos salvar

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Já faz um bom tempo que o artista/designer americano Jonathan Harris vem desenvolvendo trabalhos que mostram a necessidade de sermos menos pragmáticos no trato com os dados. Inclusive, sobre isso, o entrevistei em 2007 para o primeiro número da revista Soma (você pode ler aqui a primeira parte, aqui a segunda e aqui um apêndice). Em geral, os projetos de Harris são projetos lúdicos e de forte estrutura digital como o aclamado We Feel Fine ou o I Want You to Want Me. Mas, diante do furor que se criou em torno da expressão Big Data, é curioso e emblemático que ele tenha escolhido se expressar, recentemente, em um texto simples e diagramado em um simples jpg (link original aqui, no New York Times). O jeito vintage não é apenas na forma: o conteúdo também lembra aquelas correntes por email muito frequentes alguns anos atrás, mas no bom sentido. De vez em quando precisamos de uma dose disso para quebrar o cinismo.

Não encontrei o texto em formato texto e nem em português. Portanto, resolvi traduzi-lo aqui embaixo. Correções serão bem-vindas.

“Dados vão nos ajudar a lembrar, mas vão nos ajudar a esquecer? Vão ajudar políticos a serem eleitos, mas vão ajudá-los a liderar? Vão ajudar empresas a criar produtos viciantes, mas vão ajudar a nos libertar? Vão ajudar os publicitários a ver as pessoas como estatísticas, mas vão ajudar a nos lembrar que aquelas estatísticas são pessoas? Vão ajudar os bancos a prevenir fraudes de cartão de crédito, mas vão nos ajudar a não quebrar? Vão ajudar empresas de cartão de crédito a prever o problemático fim de casamentos, mas vão impedir nossos casamentos de se dissolverem?

Vão ajudar os pais a gerarem filhos geneticamente perfeitos, mas vão ajudar a amá-los independente de qualquer coisa? Vão permitir que corretores de alta frequência vendam ações em nanossegundos, mas vão proteger nossos mercados dos feedback loops em seus programas? Vão permitir que meteorologistas prevejam furacões e tornados, mas ajudarão a reconstruir a casa dos desabrigados? Vão ajudar biólogos a mapear a migração dos peixes, mas irá impedir que pesquemos até extingui-los? Vão ajudar os físicos a encontrarem a Partícula Deus em um super acelerador de partículas, mas vai nos ajudar a concordar sobre Deus? Vão ajudar os astrônomos a buscar por sinais de vida alienígena, mas vão nos ajudar a descobrir se eles são amigos ou inimigos? Vão ajudar cardiologistas a monitorar marcapassos com WI-FI, mas vão impedir hackers de acessarem nosso coração?

Vão ajudar epidemiologistas a publicarem o genoma das grandes doenças, mas vão impedir terroristas de desenvolverem armas biológicas? Vão ajudar soldados a matar inimigos remotamente com drones, mas vão nos ajudar a ver a guerra como mais que um jogo? Vão ajudar urbanistas a construir grandes cidades inteligentes, mas o que será das pequenas cidades? Vão ajudar os governantes a mapearem o consumo nas metrópoles, mas vão ajudar a nos tornarmos menos dependentes de consumo? Vão ajudar hackers a vazarem evidências de vigilância governamental, mas vamos tratar esses hackers como heróis ou vilões? Vão ajudar a polícia a triangular a localização de armas de fogo, mas vão ajudar a abordar as causas mais profundas da violência? Vão ajudar educadores a criarem testes padronizados com excelência, mas vão nos ajudar a abraçar diferentes conceitos de excelência? Vão ajudar fazendeiros a desenvolverem lavouras para colher maiores safras, mas vão impedir as corporações de patentearem a nossa comida?

Vão ajudar mecanismos de buscas a descobrirem quantas vezes as pessoas procuram por “amor”, mas vão ajuda essas pessoas a encontrá-lo? Vão ajudar solteiros a marcar centenas de primeiros encontros, mas vão ajudá-las a encontrar a pessoa certa? Vão ajudar donos de bichos de estimação a clonar seus gatos e cachorros, mas vão nos ajudar a amar os clones tanto quanto os clonados? Vão ajudar os neurologistas a implantar chips em nossos cérebros, mas vão ajudar-nos a desligar o blablablá? Vão ajudar geneticistas a sequenciar nosso genoma, mas vão nos ajudar a entendermos quem somos? Vão nos ajudar a nos sentirmos conectados, mas vão nos ajudar a nos sentirmos amados? Vão nos ajudar a descortinar os fatos, mas vão nos deixar mais espertos?

Vão nos ajudar a viver pra sempre, mas vão nos ajudar a perceber que o sentido da vida brota do fato de que ela termina? Vão nos ajudar a contar tudo na vida, mas vão nos ajudar a perceber que nem tudo que conta na vida pode ser contado? Vão nos ajudar a ver o mundo como ele é, mas vão nos ajudar a ver o mundo como ele poderia ser?”