O que seria da Copa sem o Photoshop?

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Há alguns meses, eu publiquei dois posts comentando sobre a importância da cultura pop na política brasileira esse ano (As eleições deste ano vão ser pura cultura pop e Mais do mix de política e cultura pop). Falhei ao não perceber que, claro, a Copa também seria uma fonte inesgotável de manipulações digitais e memes. Mais do que mera zoeira, esse tipo de intervenção é uma nova forma popular e dinâmica de comentário social que mistura o universo do futebol com uma série de citações de música, cinema, literatura, games e quadrinhos. Na verdade, essa mistura já existia em alguns veículos de nicho e na cabeça de muita gente, já que ninguém é fã só de um segmento ou de outro. Mas a combinação de uma cultura digital fortalecida com uma Copa do Mundo permite que esse fluxo de misturas se manifeste e circule com muito mais intensidade.

Tubarão, John Green, Pokemon, Harry Potter, PS4, Game of Thrones e Copa: tudo a ver!

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Um manual prático de Design para Impacto Social

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É prática estabelecida no mercado de comunicação que agências de publicidade e estúdios de design procurem ONGs e entidades sociais para colaborar nas suas ações e estabelecer parcerias. Às vezes, a parceria serve mais à agência/estúdio, que busca trabalhos que possam lhe render prêmios. Mas, em muitas ocasiões, surgem parcerias realmente relevantes, especialmente quando são baseadas numa visão estratégica de longo prazo – tanto para a entidade quanto para a agência/estúdio.

É justamente para definir quais são os pilares que sustentam essa parceria de longo prazo que a americana Ideo criou, em 2005, duas ferramentas simplíssimas de colaboração entre entidades sociais e empresas de design (o que, a meu ver, está valendo também pra agências de publicidade). Trata-se de um guia e um workbook com o passo-a-passo pra estruturar projetos que sejam frutíferos para ambas as partes e, portanto, com maior chance de prosperar no tempo.

Mais informações e downloads do tookit, no site da Ideo:

– Informações sobre o projeto Design for Social Impact.
– Download do Design For Social Impact Guide.
Download do Design For Social Impact Workbook.

"A Copa no Brasil levou a seleção a se euxarir como identidade."

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Entre tantas opiniões, análises e chutes, fico com duas frases do jornalista de Zero Hora Moisés Mendes como a melhor equação do espírito nacional em relação à Copa até o momento. Disse ele nesse domingo, no artigo A Pátria Sem Chuteiras, que a confiança no futebol brasileiro e na sua capacidade de nos colocar simbolicamente no mapa-mundi nasceu na final da Copa de 58, especificamente após o primeiro gol da Suécia, recém aos cinco minutos de jogo. Esse tenso momento é quando “Bellini vai ao fundo da rede e pega a bola, caminha até a risca da área, onde encontra Didi, que está indo ao seu encontro. Didi se adona do balão e caminha em direção ao centro do campo, (…) sem pressa, mas certo de que é possível dar um jeito naquilo”. Mais adiante, Mendes compara: “A Copa de 2014 é a face sombria do que se construiu até aqui, ou o reverso do que Didi fez naquela final. Algo muito sério se extraviou pelo caminho.” E conclui com a proposição que me chamou a atenção: “A Copa no Brasil levou a seleção a se euxarir como identidade. Pode ter chegado a hora de experimentar outros signos de pertencimento.”

Eu não entendo absolutamente nada de futebol. Mas qualquer um que tenha um olhar minimamente sensível à comunicação de massa fica constrangido com o descompasso entre os milhões de reais/dólares investidos no marketing da euforia e o gigantesco pé atrás com que os cidadãos brasileiros começaram a Copa. Uma ou duas copas atrás era mais fácil insuflar a torcida coletiva: o martelar insistente do jornalismo mainstream, os comerciais dos grandes anunciantes e as vitrines dos lojistas encontravam corações dispostos a se entregar à Seleção e à Copa. Mas, como escreveu Vladimir Salflate na Folha, “o povo brasileiro saiu do lugar. Ele tinha um lugar previamente definido. Sua função era celebrar e aclamar. (…) Mas algo saiu definitivamente do lugar.” Mas, se levarmos em consideração as possibilidades que foram abertas com os protestos de Junho do ano passado, fica claro que a Seleção, mesmo que chegue ao Hexa, não comporta mais a ebulição da nossa sociedade, especialmente pelo seu caráter unidimensional: de uma Seleção brasileira se espera apenas que ela ganhe e seja aclamada ou o oposto direto. Não há meio termo, não há espaço para qualquer tipo de complexidade. Seleção combina com euforia e depressão, com vitória esmagadora ou fiasco retumbante. Para um país que tem forças latentes querendo transcender antigos scripts e construir uma estrutura social mais matizada, a Seleção como narrativa bipolar está se tornando uma relíquia, uma camiseta vintage que lembra tempos supostamente mais inocentes. Sim, está tendo Copa e está bacana. Mas não, não é a mais a mesma coisa.

Retomando Moisés Mendes, chegou mesmo a hora de experimentar outros signos de pertencimento. Não faltam opções. Dê um Google em “protestos no Brasil junho de 2013” que transbordam exemplos de garra, de união, de superação, de força de vontade, de ginga, de jogo de cintura, de habilidade em campo, de orgulho nacional, de referência mundial, de tudo aquilo que até maio de 2013 o brasileiro procurava única e exclusivamente na nossa Seleção.

A Copa de Schrödinger

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O Gato de Schrödinger é uma experiência mental clássica que foi formulada na década de 30 pelo físico Erwin Schrödinger para expressar sua indignação com algumas abordagens da física quântica. A física quântica, você sabe, é aquela física dedicada a explicar os fenômenos em nível sub-atômico e cujos postulados são absolutamente contra-intuitivos apesar de cientificamente aceitos e matematicamente mais ou menos comprovados. Um entendimento popular da física quântica é a ideia de que uma partícula pode se comportar como partícula ou como onda dependendo não de sua natureza, mas do modo como é observada e medida. Ou seja, segundo a física quântica, ninguém é de ninguém, é proibido proibir, vale tudo, oba!

Pois então: num certo ponto do desenvolvimento dessas teorias, Schrödinger achou que aquilo tudo era bagunçado demais e propôs um experimento mental no qual, pra resumir uma longa história, um gato morando numa caixa lacrada com material radioativo poderia estar vivo e morto ao mesmo tempo! O exercício foi proposto por Schrödinger como uma crítica sarcástica pra cima de alguns físicos eminentes da época e, como procede,  se tornou um dos pilares do estudo da física além de migrar para a cultura pop (virou citação nos Simpsons e uma trilogia do escritor Robert Anton Wilson).

Mas o que interessa aqui é o seguinte: você notou como a nossa Copa parece o Gato de Schrödinger? A partir de hoje, ao que tudo indica, ela vai acontecer e não vai acontecer simultaneamente. Para uma parte dos brasileiros, a Copa não deveria existir e nem vai existir a não ser como uma probabilidade. Para essa parcela da população, a Copa é uma natimorta, vitimada por sufocamento em um mar de lama política, econômica e social. Sob esse olhar, a seleção se comporta como brinquedinhos da CBF e quando você mede os investimentos na Copa, as obras se cristalizam como esqueletos envelhecidos construídos com o dna podre do passado recente do Brasil.

Para outra parte do país, a Copa está aí, vivinha da silva, muito embora não se saiba sua trajetória e também precisemos nos beliscar pra conferir se realmente ela está acontecendo depois de tanto rolo nos últimos anos. Essa turma não é muito numerosa, mas tem laboratórios melhores e seus microscópios digitais produzem a ideia de uma Copa em alta definição, mais colorida e vibrante, de forma que não há dúvida de que ela é verdadeira, autêntica e válida. Nada tão cintilante pode ser apenas uma miragem teórica!

A Copa de Schrödinger é assim, uma improbabilidade em nível subatômico manifestando-se fantasmagoricamente de maneira descomunal na forma de estádios, escândalos e comerciais de banco entusiasmados. Se Schrödinger estivesse vivo, ele certamente estaria tuitando com fúria e sarcamos, usando uma hastag quântica: #vaitercopanaovaitercopa.

Como os tempos pedem posicionamento, aqui está o meu: a minha Copa é a de Schöredinger. Ela está viva e morta ao mesmo tempo, é lamentável socialmente e interessante de ser assistida, ainda mais de perto. Suas consequências reais a partir de julho são desconhecidas e dependem inteiramente da forma como vamos observá-la e medi-la. Pra mim, vai ter Copa, mas como eu tenho a consciência e aceito que também não vai ter, comprei um daqueles trajes anti-radiação amarelos pra me proteger dos efeitos colaterais e pra combinar com a camisa da seleção.

"Faça o que você faz. Ame o que você ama."

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Foi com esse título que a poeta Camille Rankine abriu um post recente no site da Poetry Foundation comentando o fato de que não há dinheiro no mundo da poesia e que não é demérito ou derrota ter um emprego comum, fora das artes, sustentando o seu amor. A questão está longe de ser nova, mas vem sendo revisitada pela cultura millenial e desafiada por um dos mantras mais poderosos do cânone não-escrito dessa geração: “encontre algo que você ama fazer e nunca mais trabalhe na vida”.

O post de Camille começa justamente com uma bravata de um universitário durante uma aula de escrita. “Não há dinheiro nessa coisa de poesia” ela disse à turma. “Você está se vendendo fácil” desafiou o aluno. Pra responder a isso, em vez de se perder em uma argumentação qualquer a respeito das escolhas e dificuldades de vida que porventura ela tenha passado, Camille escolheu olhar por baixo do conceito de trabalho:

“Eu acho que trabalho é algo pelo qual nós, americanos, meio que nos apaixonamos. Nós tendemos a nos definir pelo nosso trabalho. Mas nesse contexto, quando eu digo trabalho, eu quero dizer como é que ganhamos o dinheiro do dia-a-dia. Quando alguém numa festa pergunta ‘o que você faz?’, essa pessoa não quer dizer ‘o que você faz pra se divertir? O que você faz porque tira alguma satisfação daí? Que atividade em que você se engaja que dá sentido à sua vida?’ A pessoa em geral não quer ouvir sobre seus bordados ou sobre as maratonas de seriados no Netflix. A menos que você tenha transformado isso tudo em negócio. (…) Ela quer saber pelo que você é pago. Isso é, em geral, a primeira coisa que qualquer um quer saber sobre você.

Eu tenho trabalhado em alguma coisa ou outra desde que eu tinha quinze anos. Existe valor nesse trabalho, eu acho. É o tipo de trabalho no qual você dá duro, não porque você ama aquilo, mas porque você tem que fazer e, pra alguns de nós, você quer fazer aquilo bem. Mas esse tipo de trabalho não é o que me define. Ainda assim, muito frequentemente, o seu trabalho é compreendido como o que você é, como a coisa mais valiosa que você tem a oferecer pra sociedade. E, na nossa sociedade, valor é geralmente compreendido em termos econômicos. (…)

Os poetas existem, em sua maioria, fora de todo esse nosso sistema capitalista e seus construtos. E isso confunde muita gente. Não tem dinheiro nisso e ainda assim NÓS CONTINUAMOS ESCREVENDO O QUE HÁ DE ERRADO COM A GENTE??! A poesia morreu! Poesia não importa! Se não está rendendo dinheiro, qual é o objetivo? É claramente irrelevante!!!! Acordem, poetas, vocês estão vivendo uma mentira!!!”

O texto segue em uma série de anotações sobre o estado industrial da poesia e fecha com o seguinte:

“Como eu disse praquele estudante desapontado, não me entenda mal. Eu tenho ambição. Eu só não a exponho demais. A minha ambição é apenas uma porção da chama que mantém aceso o forno nas minhas entranhas. Claro que eu quero fazer algo que queime você. Sim, eu suponho que isso é trabalho. É trabalho porque é muito difícil de fazer. Tenha ou não um contracheque envolvido.”

Tendo vivido intensamente o meio independente brasileiro dos anos 90 (e seus estritos códigos culturais) é impossível não ser tocado por essa linha de pensamento. A pergunta que mais ouvi nessa época, por conta dos Walverdes, foi: “você vive da banda”? Essa era uma obsessão patológica da “cena” nos anos 90, uma cobrança constante que no fim dependia muito menos das bandas e mais da macroeconomia e de questões estruturantes da cultura no país. Ou seja, responder “eu não vivo da banda” parecia que dizia respeito às competências daquele grupo específico quando na verdade era algo que dizia respeito a todo um sistema tentando emular o funcionamento cultural dos Estados Unidos e da Inglaterra. O que não daria certo nem em um milhão de anos.

O mais curioso é que a pergunta “você vive da banda”, no fim das contas, tem sua própria poética – porque ela não fala diretamente em dinheiro. “Viver da banda”, assim como “viver de poesia”, é uma expressão que carrega uma das ambiguidades mais bacanas: o que significa “viver de algo?” Significa apenas que aquele algo paga suas contas? É algo que me pergunto com frequência.

Enfim, esse papo rende.

***

O post completo está aqui: Do What You Do, Love What You Love.

Obrigado ao Guilherme Dable pela dica de leitura.

Já escrevi mais ou menos sobre esse assunto nos seguintes posts:

* A busca pelo sentido no trabalho e as videocassetadas

* Por uma vida mais ordinária

Imagem: New Old Stock.

Pequenas Igrejas, Grandes Negócios

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O pesquisador Marcelo Del Debbio está com um projeto no Catarse para finalizar seu cardgame Pequenas Igrejas, Grande Negócios. O jogo, que vai ser publicado por uma editora de RPG, se passa em um “futuro fictício” no qual as Igrejas Evangélicas são usadas por pastores falcatruas para fins inescrupulosos – como lavagem de dinheiro e lobby político. O próprio Marcelo explica:

É impressionante, então, a imensa variedade de formatos de crítica social que a gente tem disponível hoje. Manipulação de imagens, memes, vídeos virais, blogs e até cardgames: tá valendo tudo pra se inserir no diálogo político nacional. Cada novo veículo de discussão política inclui um grupo novo que não se sente atraído pela discussão tradicional. Como diz o Claude Troisgros: que marravilha!

Mais do mix de política e cultura pop

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Essa capa da semana passada do jornal Zero Hora é mais um item pra minha coleção de mashup de política e cultura pop (embora não seja política formal diretamente). Escrevi sobre isso no mês passado no post As Eleições Deste Ano Vão Ser Pura Cultura Pop.  E complementei em seguida com outro post sobre as versões de Happy do Pharrell falando de Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Dias depois do meu primeiro post, me avisaram que tinha recém saído do forno o mapa da política brasileiro inspirado em Game of Thrones. Eu ia linkar o site original onde o mapa foi publicado, mas ele está fora do ar.

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Aliás, não são apenas os nerds de fazem conexões entre cultura pop e vida cotidiana. O Jean Wyllys escreveu há poucas horas um post no seu Facebook fazendo uma análise da situação eleitoral e citando Game of Thrones. Segundo a Veja, tanto a Dilma como o  Vice-Presidente Michel Temer são fãs confessos do seriado mágico-medieval. Se bem que… a Dilma é meio nerd, né?

Mais adiante, vou sentar de novo pra continuar a escrever sobre a tendência. Stay tuned!

O problema do Facebook é que ele acredita em tudo que a gente pensa

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Um dos conselhos mais interessantes que eu já li em textos budistas foi o seguinte: “não acredite em tudo que você pensa”. Esse não é um conselho fácil de se entender inteiramente, muito menos de botar em prática. Embora todo mundo saiba mais ou menos o que são os pensamentos, a sua natureza, propriedades e funcionamento exato constituem um grande mistério pra maior parte de nós. Temos mais convivência do que propriamente intimidade com nossos pensamentos e eles costumam funcionar muito bem à nossa revelia.

As redes sociais se tornaram um campo através do qual nossos pensamentos se manifestam de um jeito novo, mais intenso e presente. Muito do que antes ficava apenas na nossa mente, em forma de palavras, imagens ou sensações, esperando uma oportunidade de manifestação num suporte físico, agora não precisa mais esperar. Essas pequenas moratórias, essa lacuna entre o surgimento de certos pensamentos na mente e a sua externalização foram extintas em muitos casos da cultura digital, dando vazão ininterrupta a um imaginário que antes ficavam por ali, surgindo, dançando, esmaecendo e sumindo.

O Facebook, em especial, se tornou um território saturado de pensamentos precoces materializados em frases e imagens (próprias, citadas ou remixadas) que agora dão um pouco mais de consistência ao que na verdade não tem peso, cor, forma ou som e que, frequentemente, não tem também um significado muito essencial. Fossem palavras em rodas de chopp, alguns pensamentos não durariam mais que alguns minutos. No Facebook, eles são lidos, curtidos, compartilhados, respeitados ou ridicularizados com um peso que muitas vezes nem merecem. O chopp aqui faz falta como o verdadeiro balizador do que vale a pena – depois de uma certa hora, nada!

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Assim como uma torcida organizada, um conjunto muito grande de pensamentos ralos ganha uma certa densidade que sequestra nossa atenção. Por exemplo, nas discussões hoje polarizadas sobre política e comportamento, declarações superficiais somadas em quantidade dão uma ideia dos movimentos culturais da sociedade. E isso é algo que não pode ser desprezado. Em março, o Outras Palavras publicou a matéria “Facebook: um mapa das redes de ódio”, que trazia um estudo do Laboratório de Estudos sobre Imagens e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo sobre as redes de admiradores da Polícia Militar. Na pesquisa do professor Fábio Malini, um dos destaques é a proliferação viral de um discurso de ode à repressão, num círculo vicioso que endeusa a ideia de uma PM violenta contra determinados grupos. Ideologias à parte, eu tenho quase certeza que a imensa maioria das pessoas que repassa esses conteúdos não são pessoas violentas por si, não seriam capazes de agir de forma autônoma conforme seus posts. Elas estão, quase sempre, operando no modo roda de chopp, desabafando seus medos e exercitando teorias – com o agravante de que numa cultura digital a roda de chopp tende a ter uma dinâmica bem mais intensa na propagação e na perenidade dos conteúdos da mesa.

A tecnologia digital não é neutra nesse processo pois, da forma como está configurada nas nossas vidas, ela incentiva o comportamento impulsivo e impensado. É mais ou menos como aquelas chamadas de operadora de celular: “fale ilimitado pagando apenas 5 centavos por dia”. Primeiro, por 5 centavos eu falo qualquer bobagem. Segundo, quem disse que falar ilimitado é uma coisa boa e desejável o tempo todo? Muito do peso que se dá aos pensamentos, hoje, vem dess nova relação que está se estabelecendo entre o pensar e o manifestar o pensamento ou entre o pensar e o agir.

Mas então, veredicto final: acreditar ou não acreditar nesses pensamentos fugidios que ganham um status além do merecido nas redes sociais? Minha aposta: é preciso acreditar não acreditando, dar atenção para compreender seus conteúdos sociais (e responder da forma mais eficiente) mas sem esquecer que não é deles que emana o peso e a concretitude, mas sim da relação que cada um tem com eles.

Hanna Arendt: um bom filme pra ver nessa semana de reflexões sobre o Golpe de 64

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Com a reação quase histérica dos nossos bizarros conservadores diante de tantas manifestações condenando o Golpe Civil-Militar de 64, é impossível não lembrar de Hanna Arendt, a filósofa alemã que cunhou a expressão “banalidade do mal”, e principalmente de Hannah Atendt, o filme de 2012 que resume tão bem um dos pilares de sua filosofia. Dirigido pela alemã Margarethe Von Trotta, a biopic de Arendt é considerada por Roger Berkowitz, diretor do Hannah Arendt Center, um belo veículo para a divulgação das ideias de sua protagonista. Inclusive, escreveu ele na Paris Review, “o filme deveria se chamar ‘A Mais Sofisticada Leitura de Hannah Arendt A Alcançar uma Audiência Mainstream Até Hoje’.”

A noção de “banalidade do mal” nasceu da famosa cobertura que Arendt fez do julgamento do oficial da Gestapo Adolf Eichmann para a revista The New Yorker em 1961. Nela, a filósofa desafiou a opinião pública e todo um circuito intelectual ao propôr que o mal causado por Eichmann não vinha do fato dele ser um monstro e sim uma pessoa medíocre e burocrática. O artigo se transformou em um livro seminal e detonou o que Berkowitz chamou de “guerra civil intelectual”.

Não me sinto em posição de escrever sobre o Golpe (ou sobre Hannah), mas trago a lembrança do filme mais como um complemento de reflexão em relação às pessoas que hoje defendem na internet a ditadura e toda a cultura autoritária e violenta que ela suscita. Falo por mim: acho difícil processar adequadamente a indignação com quem relativiza os atos do regime militar e sua herança nefasta, mas sinto que vale o esforço de não distribuir indiscriminadamente rótulos de monstros a quem simplesmente é impulsivo, impensado e irresponsável com seu teclado. Por que vale isso? Porque me parede que é melhor responder a essas atitudes sempre baseado em uma reflexão mais aguda, embasada em lucidez, do que também agir impulsivamente e projetar todo um cenário de “monstros do lado de lá” que inflama ainda mais o ambiente. Esse espaço de reflexão radical, de resistência à resposta automática e rotuladora é uma das grandes lições que tirei do filme.

Preste atenção quando você for assistir: uma boa percentagem da narrativa é preenchida com cenas de Arendtsimplesmente PENSANDO em seu escritório, em casa, ou em uma de suas viagens. O tempo todo, Arendt é retratada pensando, pensando, pensando. O que é muito significativo e, no texto da Paris Review, Berkowitz explica:

“Paralisada pelo perigo da falta do pensar, Arendt passou sua vida pensando sobre o pensar. Poderia o pensar, ela pergunta, nos salvar da disposição de muitos, senão da maioria, de participar de maldades burocraticamente regulamentadas como foi o extermínio administrativo de seis milhões de judeus? Pensar, como Arendt considera levanta obstáculos a supersimplificações, clichês e convenções. Apenas pensar, argumenta ela, tem o potencial de nos lembrar da nossa dignidade humana e nos libertar para resistirmos a nosso próprio servilismo. Esse tipo de pensar, do ponto de vista de Arendt, não pode ser ensinado, apenas exemplificado. Não podemos aprender o pensar através de catecismo ou estudo. Aprendemos o pensar apenas através da experiência, quando somos inspirados por aqueles cujo pensar se introjeta em nós – quando encontramos alguém que se destaca da multidão.”

Nesses tempos confusos, assistir Hannah Arendt, se não lê-la, é ser lembrado por sua própria figura de que precisamos parar e pensar, pensar, pensar, pensar, pensar, antes de distribuirmos máscaras de monstros. Desumanizar aqueles que defendem ideias autoritárias e anti-humanistas rende bons memes mas tem pouca serventia prática a longo prazo numa democracia. Não acho nada confortável considerar que os filhotes digitais do Bolsonaros sejam mesmo meus parceiros de espécie, mas colocá-los do “outro lado” pode ser também muito perigoso. Primeiro, porque denota pouco penso. Segundo, consequentemente, porque essa atitude de escolher lados tão bem definidos é o ingrediente básico na formação dos regimes totalitários e ditatoriais mesmo (ou especialmente) quando estamos “do lado certo”.

***

O filme Hanna Arendt mexeu comigo em diversos níveis. Um deles foi o estético. Além das frequentes sequências com a personagem principal pensando, chama a atenção também o ritmo sóbrio e o ar cool da produção – tanto em figurino, direção de arte e elenco quando nas escolhas narrativas, com uma ênfase em mostrar a mescla de vida social com intelectual de Arendt num clima BEM anos 60 como gostamos de imaginar os anos 60. Ou seja, pensadores fumando, bebendo e tirando conclusões em encontros informais e relações amorosas dúbias. Acredito que para um certo público (meio intelectual, meio de esquerda, diria Antônio Prata), dá vontade de estar no meio daquelas reuniões. Eu fiquei com essa vontade, pelo menos.

Ponto pra diretora, porque é aquela coisa: assuntos grotescos como o holocausto precisam às vezes do fator organizador da arte para terem algumas de suas questões melhor compreendidas e digeridas.

Ps: vale ler a crônica do Contardo Calligaris sobre o filme Hanna Arendt. A tese de mestrado dele foi desdobrando algumas ideias dela.

As eleições deste ano vão ser pura cultura pop

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A combinação de eleições com internet é indiscutivelmente explosiva. Por mais que as campanhas eleitorais no Brasil tenham um pé no pitoresco desde sempre, foi só com o avanço da cultura digital dos últimos dois anos que o marketing político começou a experimentar um outro tipo de relação com o ambiente de comunicação nacional, tendo que levar em consideração um refluxo gigantesco de conteúdos que estão além do controle de políticos e marqueteiros. Esses não são conteúdos que necessariamente mudam os rumos de uma eleição, mas, no mínimo, tornam o diálogo com o eleitor mais complexo e, veja só, mais pop.

Em 2012, tivemos um gostinho do futuro: foi o ano em que o acesso à banda larga fixa e o acesso à internet por celular cresceram substancialmente no país. Além disso, também foi quando o Facebook teve seu verdadeiro boom local, crescendo quase 300% em número de usuários em relação a 2011 e chegando à marca de 35 milhões de brasileiro curtindo e compartilhando tudo que se mexia. Essa nova infra-estrutura fez com que 2012 nos trouxesse: as primeiras guerras de memes políticos, com o Serra liderando o ranking nacional de “memíveis”; um fórmula de sucesso para o jornalismo alternativo na combinação de leitores-ativistas com um ecossistema de disseminação em redes sociais; uma guerra (muitas vezes clandestina) de contra-informação entre partidos; e o fenômenos dos amigos chatos que poluem a sua timeline com campanha para seus candidatos.

Apesar de terem se passado apenas dois anos, as eleições de 2014 vão acontecer em um terreno bastante diferente. Não se trata só de novas estatísticas de telecomunicações, de mais acessos à internet, mais celulares conectados e um Facebook que dobrou de alcance. O que importa, na verdade, é o número maior de pessoas que entrelaçou seu jeito de conversar com colegas de trabalho, familiares e amigos usando os códigos da cultura pop A manipulação de imagens, a edição sarcástica de vídeos, o poder de repassar conteúdos para sua rede, o uso de personagens/bordões/roupas/logotipos de filmes, séries e músicos na comunicação do cotidiano, tudo isso que era uma forma de comunicação dominada e utilizada apenas por nerds e indies está se universalizando. O papa não é mais pop. O papa é meme.

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Agora em março, três eventos em sequência estabeleceram, a meu ver, a abertura oficial das Eleições 2014 no que diz respeito a esse uso de linguagem. Primeiro, o deputado federal Beto Albuquerque discutiu pelo Twitter ao vivo com o real-fake Dilma Bolada, protagonizando um momento fascinante de cruzamento da vida digital com a política dita real. Onde começa uma e termina outra? Em segundo lugar, a queda de braço de Eduardo Cunha com o Planalto lhe deu, na capa da Istoé e em uma reportagem da Carta Capital, o direito de ser comparado (justissimamente) com o congressista sem escrúpulos Frank Underwood, do seriado House of Cards (veiculado exclusivamente em streaming, vale lembrar). Em terceiro lugar, a Piauí de março abriu um pequeno artigo sobre o candidato presidencial do PSOL, Randolfe Rodrigues, lembrando que seu apelido no Senado é Harry Potter. Se Dilma Bolada, Frank Underwood e Harry Potter são a comissão de frente desse carnaval, o que nos espera nas alas seguintes?

Não há dúvida que o ambiente de comunicação política esse ano vai incluir ecos do complexo ativismo digital que se formou durante as Jornadas de Junho do ano passado. Mas minha aposta para 2014 é no crescimento da participação mainstream nesse processo, com um acento mais pop, ancorada na disseminação orgânica de conteúdos não-oficiais por parte dos milhões de usuários que vem exercitando no seu dia-a-dia a auto-expressão por referências. Quem vai ser o candidato incluído digitalmente em vídeos de funk ostentação? Ou que vai ter sua foto manipulada pra incluir aparelhos com borrachinhas coloridas nos dentes? Quem será o Voldemort de Randolfe Rodrigues? As complexas coligações partidárias serão comparadas às casas do Game of Thrones? Qual é o estado que vai ter um vídeo com seus candidatos a governador passando pelo crivo dos jurados do The Voice Brasil?

Essas perguntas serão respondidas ao vivo, online, durante a festa da democracia. Uma festa que agora tem evento marcado no Facebook, convite-spam enviado pra todo mundo e grupinho no What’s App. Pode se preparar.