Nunca é demais reafirmar o valor do Laerte pra nossa cultura

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Pra quem acompanha a trajetória do Laerte, pode parecer redundante ficar ressaltando suas qualidades artísticas e sua importância humana na esfera pública. Mas cada entrevista que eu leio dela, cada trabalho que sai, eu me convenço de que é preciso sim martelar a qualidade da contribuição que ela vem dando pra cultura brasileira. Senão, é capaz de tomarmos por garantido uma participação que é na verdade muito única e especial.

Recentemente, o portal do jornal português Públicou botou no ar uma longa e rica entrevista com Laerte. E de novo, ela faz reflexões importantes sobre sua arte e sua vida que, se quisermos, podemos enxergar como sintomáticas do contexto cultural brasileiro. Entre muitas passagens interessantes, destaco uma que me tocou:

Nunca fiz isso (me vestir de mulher) com tanta clareza. Tinha curiosidade e desejos de frequentar a feminilidade, mas não era uma coisa clara.” Outra das diferenças com as outras meninas, afirma Laerte, é ter sido aceite com muita rapidez. “Não só pela minha família, pelo meu entorno, meus colegas, meus empregadores, pelo meu público. Eu fico sentindo, por que é que eu não fiz isso antes? Quanto tempo eu perdi nisso? [risos] O que é um pensamento bobo porque a gente não perde tempo. Este é o meu tempo.”

Estamos vivendo um momento muito particular no país, com ânimos exaltados e muitos conceitos cristalizados sendo questionados, abertos, examinados, remontados. Às vezes, dá a impressão de que queremos, coletivamente, apressar esse processo, como se estivéssemos perdendo tempo se não virássemos o país do avesso. Mas uma coisa é a vontade difusa e intensa de resolver as coisas e outra completamente diferente é o tempo de andamento das nossas estruturas culturais e sociais, que não necessariamente respondem com a mesma velocidade a essa massa disforme de vontades.

Em meio a essa tensão, é bom que haja referências públicas como Laerte, pois ela aborda questões espinhosas com uma sensibilidade poética que amacia e torna próximo o que poderia ser tomado apenas como algo idiossincrático (que é o que acontece com muitos questionamentos no Brasl hoje). Laerte se articula com frescor e humanidade para falar de temas que em geral são discutidos ou com pavor preconceituoso ou com academicismo distante. Repetindo: não tomemos isso como algo garantido. É raro e precisa ser valorizado, destacado, reforçado.

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Foto: Wikimedia Commons

Acho que a Nike deveria ter um novo slogan e aqui vai a minha sugestão

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A Nike é uma das marcas mais valiosas do mundo. Segundo o respeitado relatório anual da consultoria global Interbrands, somente a marca Nike (ou seja, seu conceito, sem contar os produtos, os empregados, as instalações) vale mais de 17 bilhões de dólares. Seus produtos são desejados por consumidores em todo o globo, seus concorrentes sofrem pra tentar chegar perto do significado que ela tem para eles e seus atletas compõem a elite do esporte – tando do ponto de vista atlético como financeiro. Ou seja, a Nike é um sucesso e não, definitivamente, precisa do meu pitaco.

Mas ainda assim eu senti que seria bacana dar uma sugestão. Porque, sei lá, eu fico preocupado com a Nike. Vai que daqui a pouco alguma coisa dá errado, ela perde público, aí muita gente vai também vai perder empregos e ficar triste. Não gosto de ver gente triste, então, resolvi ajudar: Nike, por que vocês não dão uma amaciada nesse slogan pra ampliar o seu público acolhendo pessoas mais preguiçosas e procrastinadoras?

Pois é. Eu sei que Just Do It é um chamado poderoso que resume a missão da Nike de “trazer inspiração e inovação para cada atleta no mundo”. E que a ideia dele é justamente tirar as pessoas da sua zona de conforto. Mas fico com a impressão de que vocês estão se afastando cada vez mais de uma mina de ouro, de uma quantidade imensa de gente que olha os comerciais da Nike e pensa “Ah tá bom. Então tá. Arrã, sei” ou então “Nossa, que cansaço.” Vocês não deveriam nos desprezar como fatia de mercado. Nós somos uma massa com muito potencial, que movimentou fortemente a cultura e a economia nos anos 90 com o nosso jeito despreocupado e indolente. As pessoas falam muito hoje do poder de ação da Geração Y, mas se esquecem que a Geração X, com seu jeito slacker, desorganizado e bagunçado, causou uma reviravolta na indústria fonográfica, influenciando toda a cultura pop com uma atitude de “oh well, whatever… nevermind!”. “Just do it” não diz nada a essa gente e vocês deveriam se ligar porque, como tudo dos anos 90 tá voltando, muito em breve a procrastinação e a preguiça também vão estar na moda de novo!

Bom, pra vocês se prepararem pra esse novo cenário, eu fiz alguns exercícios de slogan que podem apelar a esse interessantíssimo consumidor. No começo, achei que daria pra aproveitar alguma coisa do slogan atual de vocês. Afinal, ruim ele não é, né? Taí há tanto tempo, dando certo. Mas, quem sabe a gente adiciona um temperinho calmante nele? Ficaria assim:

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Que quer dizer: ok, é legal “Just do it”, mas não o tempo todo né! Tem horas que tudo bem, vai lá e just do it! Mas alguns dias que você quer mais é don’t just do it, dar uma relaxada, sem aquela nóia de chegar em primeiro, de ser o primeiro, a não ser que seja o primeiro a ficar numa boa.

Mas aí eu fiz uma autocrítica e achei que o novo slogan ficaria meio remendado. E criei essa segunda opção:

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Uma coisa assim mais lúdica, até meio lisérgica. Tipo: quer just do itzar? Ok, mas just do itzeie nos seus devaneios. Claro, aí a gente afasta o público anterior da Nike, esse pessoal mais ativado, mas uhuu-vamulá-galera!! Percebi essa fragilidade da minha tentativa e fiz uma nova, mais equilibrada:

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Opa, acho que aí começamos a chegar em algo interessante! “Just think about it” tem ritmo, tem 66% do slogan anterior, resguarda a assertividade que caracteriza a Nike hoje. Mas eu aprendi com a Nike a não me satisfazer com pouco. Traí meus princípios de slacker e resolvi me puxar. Sentei pra assistir um filme e relaxar um pouco, mas não conseguia desligar desse trabalho. Ficava pensando, pensando, e me dei conta que o nome do filme que eu tava assistindo cairia perfeito pro novo slogan da Nike! Eu tava vendo Whatever Works do Woody Allen! E quem poderia personificar melhor essa nova fase da Nike do que o Woody Allen? Então, fui pro computador e escrevi isso:

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A essa altura, minha cabeça estava agítadíssima, parecendo aqueles comerciais da Nike de futebol onde eles colocam todos os craques correndo feito loucos de um jeito que eles nem sempre jogam nas seleções. Senti que tava pertinho de algo definitivo e me lembrei que um dos princípios da redação é cortar, cortar, cortar sempre. E o que cortar desse slogan? Cortar o whatever? Nunca! Isso iria contra os princípios dos slackers. Opa! Cortar o works! Claro! Cortar o trabalho! Quem quer MAIS trabalho hoje em dia? Quem quer trabalho num slogan? Então ficou claro pra mim. Cortei o trabalho e ficou assim:

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Aí está, Nike. Minha proposta de novo slogan pra vocês arrebanharem um novo público e pararem de depender desses obcecados por vitória e liderança que, vamos combinar, quase nunca vencem mesmo. Aproveitem que eu não sou da Geração Y. Se fosse, ia cobrar uns 10 milhões por esse slogan e querer me tornar sócio. Como eu sou da Geração X, eu dou de graça e ainda vou desdenhar vocês porque são uma multinacional. Whatever.

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Mas, bom, se nada disso convenceu a Nike a trocar seu slogan, ao menos quem sabe eles podiam traduzir o Just Do It pra português? Nesse caso, eu também tenho uma sugestão:
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Uma seleção de posts com o outro lado da Copa

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Tudo bem: no fim das contas está tendo Copa, ela está divertida, cheia de jogos interessantes e com muitos gols. Eu fui no Coreia x Argélia, curti o clima da Copa (apesar do ar shopping center), adorei dar uma volta pela Cidade Baixa coalhada de gringos. Mas todo lado A tem seu lado B e, apesar da repercussão desproporcional, não faltam exemplos dos desmandos públicos e privados que estão acontecendo na paralela. Vai aqui, então, uma pequena coletânea de artigos, matérias e vídeos com o lado B da Copa. A escolha não é científica, foi um tanto quanto aleatória a partir do que chegou a mim nas últimas semanas via redes sociais. Mas certamente é representativa.

* Pra começar, tem a prisão abitrária do Everton em São Paulo, num tipo de ação que tem sido escandalosamente sistemática:

Sobre isso, tem mais um relato por escrito no site da C.O.P.A., que aliás faz um rico apanhado das ações violentas e repressivas a movimentos sociais durante a Copa.

* Outra boa fonte que está agregando o trabalho de coletivos midialivristas é o Agrega.la, dica do Patchwork, blog vizinho aqui no OEsquema.

* O caso mais recente e quente desses absurdos foi a agressão ao advogado Daniel Biral em São Paulo, repudiada pela OAB. Aliás, a prisão aconteceu numa ação da polícia que procurou reprimir um protesto contra a ação da polícia!

* Aliás, um artigo do El País questiona o uso de prisões e investigações pelo Governo paulista com o claro objetivo de desmobilizar ativistas. Diga-se de passagem, em Porto Alegre algo assim também acontece, embora em bem menor intensidade.

* O que nos leva ao texto do Pedro Abramovay no Brasil Post dando conta da prisão de Fábio Hideki Harano, acusado de “associação criminosa” e de ser um “black block” quando não há qualquer prova disso. Fábio está considerado um bode expiatório, um preso político.

* A Eliane Brum publicou esses dias um precioso texto na Folha mostrando o lado de um policial e de um ativista durante os protestos da Copa.

* O André Barcinski relatou em seu blog um papo informal com comerciantes de Paraty, pra quem a Copa só trouxe prejuízo. Dias depois, publicou um segundo texto citando uma matéria da Folha que corrobora em nível nacional a experiência dos seus entrevistados.

* Por sua vez, o site Five Thirty Eight, do jornalista-estatístico Nate Silver na ESPN, fez uma criteriosa análise sobre os gastos com estádios brasileiros e as projeções de público para os próximos anos, perguntando a si mesmo se o investimento vai valer a pena. A resposta: “A impressionante conclusão de pesquisas acadêmicas sobre os estádios e arenas é que eles oferecem de pouco a nenhum benefício no longo prazo.”

* No tema “estádio e arenas”, é obrigatório acompanhar o trabalho da Pública, Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo. Três matérias pra começar: Tem Dinheiro Publico, Sim Senhor (foram 4,8 bilhões de governos estaduais para a Copa); As Quatro Irmãs (que cobre a trajetória das quatro grandes empreiteiras do Brasil); e “Eles Estão Roubando Vocês”, entrevista com o jornalista Andrew Jennings, que investiga a Fifa há muito tempo.

Feita a compilação, meus votos são que o maior número possível de pessoas consiga suportar a ambiguidade de curtir a Copa sem desligar o espírito crítico e investigativo. Não é fácil, mas é possível e necessário.

O que seria da Copa sem o Photoshop?

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Há alguns meses, eu publiquei dois posts comentando sobre a importância da cultura pop na política brasileira esse ano (As eleições deste ano vão ser pura cultura pop e Mais do mix de política e cultura pop). Falhei ao não perceber que, claro, a Copa também seria uma fonte inesgotável de manipulações digitais e memes. Mais do que mera zoeira, esse tipo de intervenção é uma nova forma popular e dinâmica de comentário social que mistura o universo do futebol com uma série de citações de música, cinema, literatura, games e quadrinhos. Na verdade, essa mistura já existia em alguns veículos de nicho e na cabeça de muita gente, já que ninguém é fã só de um segmento ou de outro. Mas a combinação de uma cultura digital fortalecida com uma Copa do Mundo permite que esse fluxo de misturas se manifeste e circule com muito mais intensidade.

Tubarão, John Green, Pokemon, Harry Potter, PS4, Game of Thrones e Copa: tudo a ver!

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Um manual prático de Design para Impacto Social

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É prática estabelecida no mercado de comunicação que agências de publicidade e estúdios de design procurem ONGs e entidades sociais para colaborar nas suas ações e estabelecer parcerias. Às vezes, a parceria serve mais à agência/estúdio, que busca trabalhos que possam lhe render prêmios. Mas, em muitas ocasiões, surgem parcerias realmente relevantes, especialmente quando são baseadas numa visão estratégica de longo prazo – tanto para a entidade quanto para a agência/estúdio.

É justamente para definir quais são os pilares que sustentam essa parceria de longo prazo que a americana Ideo criou, em 2005, duas ferramentas simplíssimas de colaboração entre entidades sociais e empresas de design (o que, a meu ver, está valendo também pra agências de publicidade). Trata-se de um guia e um workbook com o passo-a-passo pra estruturar projetos que sejam frutíferos para ambas as partes e, portanto, com maior chance de prosperar no tempo.

Mais informações e downloads do tookit, no site da Ideo:

– Informações sobre o projeto Design for Social Impact.
– Download do Design For Social Impact Guide.
Download do Design For Social Impact Workbook.

"A Copa no Brasil levou a seleção a se euxarir como identidade."

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Entre tantas opiniões, análises e chutes, fico com duas frases do jornalista de Zero Hora Moisés Mendes como a melhor equação do espírito nacional em relação à Copa até o momento. Disse ele nesse domingo, no artigo A Pátria Sem Chuteiras, que a confiança no futebol brasileiro e na sua capacidade de nos colocar simbolicamente no mapa-mundi nasceu na final da Copa de 58, especificamente após o primeiro gol da Suécia, recém aos cinco minutos de jogo. Esse tenso momento é quando “Bellini vai ao fundo da rede e pega a bola, caminha até a risca da área, onde encontra Didi, que está indo ao seu encontro. Didi se adona do balão e caminha em direção ao centro do campo, (…) sem pressa, mas certo de que é possível dar um jeito naquilo”. Mais adiante, Mendes compara: “A Copa de 2014 é a face sombria do que se construiu até aqui, ou o reverso do que Didi fez naquela final. Algo muito sério se extraviou pelo caminho.” E conclui com a proposição que me chamou a atenção: “A Copa no Brasil levou a seleção a se euxarir como identidade. Pode ter chegado a hora de experimentar outros signos de pertencimento.”

Eu não entendo absolutamente nada de futebol. Mas qualquer um que tenha um olhar minimamente sensível à comunicação de massa fica constrangido com o descompasso entre os milhões de reais/dólares investidos no marketing da euforia e o gigantesco pé atrás com que os cidadãos brasileiros começaram a Copa. Uma ou duas copas atrás era mais fácil insuflar a torcida coletiva: o martelar insistente do jornalismo mainstream, os comerciais dos grandes anunciantes e as vitrines dos lojistas encontravam corações dispostos a se entregar à Seleção e à Copa. Mas, como escreveu Vladimir Salflate na Folha, “o povo brasileiro saiu do lugar. Ele tinha um lugar previamente definido. Sua função era celebrar e aclamar. (…) Mas algo saiu definitivamente do lugar.” Mas, se levarmos em consideração as possibilidades que foram abertas com os protestos de Junho do ano passado, fica claro que a Seleção, mesmo que chegue ao Hexa, não comporta mais a ebulição da nossa sociedade, especialmente pelo seu caráter unidimensional: de uma Seleção brasileira se espera apenas que ela ganhe e seja aclamada ou o oposto direto. Não há meio termo, não há espaço para qualquer tipo de complexidade. Seleção combina com euforia e depressão, com vitória esmagadora ou fiasco retumbante. Para um país que tem forças latentes querendo transcender antigos scripts e construir uma estrutura social mais matizada, a Seleção como narrativa bipolar está se tornando uma relíquia, uma camiseta vintage que lembra tempos supostamente mais inocentes. Sim, está tendo Copa e está bacana. Mas não, não é a mais a mesma coisa.

Retomando Moisés Mendes, chegou mesmo a hora de experimentar outros signos de pertencimento. Não faltam opções. Dê um Google em “protestos no Brasil junho de 2013” que transbordam exemplos de garra, de união, de superação, de força de vontade, de ginga, de jogo de cintura, de habilidade em campo, de orgulho nacional, de referência mundial, de tudo aquilo que até maio de 2013 o brasileiro procurava única e exclusivamente na nossa Seleção.

A Copa de Schrödinger

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O Gato de Schrödinger é uma experiência mental clássica que foi formulada na década de 30 pelo físico Erwin Schrödinger para expressar sua indignação com algumas abordagens da física quântica. A física quântica, você sabe, é aquela física dedicada a explicar os fenômenos em nível sub-atômico e cujos postulados são absolutamente contra-intuitivos apesar de cientificamente aceitos e matematicamente mais ou menos comprovados. Um entendimento popular da física quântica é a ideia de que uma partícula pode se comportar como partícula ou como onda dependendo não de sua natureza, mas do modo como é observada e medida. Ou seja, segundo a física quântica, ninguém é de ninguém, é proibido proibir, vale tudo, oba!

Pois então: num certo ponto do desenvolvimento dessas teorias, Schrödinger achou que aquilo tudo era bagunçado demais e propôs um experimento mental no qual, pra resumir uma longa história, um gato morando numa caixa lacrada com material radioativo poderia estar vivo e morto ao mesmo tempo! O exercício foi proposto por Schrödinger como uma crítica sarcástica pra cima de alguns físicos eminentes da época e, como procede,  se tornou um dos pilares do estudo da física além de migrar para a cultura pop (virou citação nos Simpsons e uma trilogia do escritor Robert Anton Wilson).

Mas o que interessa aqui é o seguinte: você notou como a nossa Copa parece o Gato de Schrödinger? A partir de hoje, ao que tudo indica, ela vai acontecer e não vai acontecer simultaneamente. Para uma parte dos brasileiros, a Copa não deveria existir e nem vai existir a não ser como uma probabilidade. Para essa parcela da população, a Copa é uma natimorta, vitimada por sufocamento em um mar de lama política, econômica e social. Sob esse olhar, a seleção se comporta como brinquedinhos da CBF e quando você mede os investimentos na Copa, as obras se cristalizam como esqueletos envelhecidos construídos com o dna podre do passado recente do Brasil.

Para outra parte do país, a Copa está aí, vivinha da silva, muito embora não se saiba sua trajetória e também precisemos nos beliscar pra conferir se realmente ela está acontecendo depois de tanto rolo nos últimos anos. Essa turma não é muito numerosa, mas tem laboratórios melhores e seus microscópios digitais produzem a ideia de uma Copa em alta definição, mais colorida e vibrante, de forma que não há dúvida de que ela é verdadeira, autêntica e válida. Nada tão cintilante pode ser apenas uma miragem teórica!

A Copa de Schrödinger é assim, uma improbabilidade em nível subatômico manifestando-se fantasmagoricamente de maneira descomunal na forma de estádios, escândalos e comerciais de banco entusiasmados. Se Schrödinger estivesse vivo, ele certamente estaria tuitando com fúria e sarcamos, usando uma hastag quântica: #vaitercopanaovaitercopa.

Como os tempos pedem posicionamento, aqui está o meu: a minha Copa é a de Schöredinger. Ela está viva e morta ao mesmo tempo, é lamentável socialmente e interessante de ser assistida, ainda mais de perto. Suas consequências reais a partir de julho são desconhecidas e dependem inteiramente da forma como vamos observá-la e medi-la. Pra mim, vai ter Copa, mas como eu tenho a consciência e aceito que também não vai ter, comprei um daqueles trajes anti-radiação amarelos pra me proteger dos efeitos colaterais e pra combinar com a camisa da seleção.