R.I.P. Canini – o verdadeiro criador do Zé Carioca

 

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Morreu noite passada em Pelotas (RS), o cartunista Renato Canini, um nome cuja menção nunca vai dar conta da sua importância. Além de um forte trabalho autoral, foi ele que criou a versão mais essencial do Zé Carioca: traço propositalmente errático, cenários urbanos favelizados, piadas internas, tudo isso dentro de uma indústria bastante tradicional. Nem ele entendia como durou seis anos trabalhando pra Disney. Entre as diversas curiosidades dessa relação, está o fato de que, apesar de ter criado toda uma iconografia local para o Zé Carioca, Canini nunca esteve no Rio de Janeiro.

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Tive o privilégio de, na 5ª série, há quase 30 anos, ter entrevistado o Canini pra um trabalho de colégio. Eu era fã, meu pai me levou na casa dele em Porto Alegre e tudo que lembro foi de ter sido muito bem recebido e ter tido atenção incomum. Não sei se foi mesmo ou se eu estava embevecido de conhecer o desenhista do Zé Carioca. No início desse ano, escrevi aqui sobre o último livro dele, o excelente Pago Pra Ver.

Vai em paz, Canini!

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Tirei a foto acima de um post do Blog do Orlando, que também traz uma entrevista com Canini.

O lado mágico de crescer

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Esse final de semana terminei de ler o volume encadernado dos quatro números que deram origem ao universo Livros da Magia, criado por Neil Gaiman. Aos não-iniciados, um rápido resumo: é uma mini-série que trata da introdução de um garoto de 12 anos, Timothy Hunter, ao vasto mundo da magia através de uma tour guiada por quatro outros personagens de quadrinhos ligados ao misticismo. Aos quatro, que compõem um grupo, cabe não apenas a missão de informar Tim de que ele é algo como um predestinado à magia, como também descortinar as maravilhas e os perigos mortais que o espreitam ao escolher viver como um mago contemporâneo. A mini-série termina sem Tim decidir. Os episódios se fecham, mas não a história. Gaiman é um escritor notório e devidamente reconhecido por sua habilidade na criação de universos ricos, de uma generosidade narrativa sem tamanho. Qualquer um que pegue a trama a partir do final da mini-série tem caminhos de sobra para explorar por toda uma vida.

Livros da Magia, na verdade, é uma história  sobre  ritos de  passagem e sua riqueza está também na forma como inverte a lógica popular que acompanha esse conceito. Em geral, diz-se que a saída da infância e a entrada na vida adulta é um período de desencantamento, de fixar os pés no chão, de abraçar o que é concreto e sólido, de deixar de besteira. Em Livros da Magia, o recado subjacente é virado do avesso. A suposta inocência infantil de Tim é convidada a se retirar não para dar lugar a um mundo compreensível e dominável, muito antes pelo contrário: o crescer é apresentado como uma miríade de reinos que beiram o insano. Entendo que não há nada  de fantasioso nessa  proposição. Pelo que tem me constado, crescer é bem mais parecido com isso do que com a ideia de  desencantamento. Crescer é mágico – não no sentido de um deslumbramento colorido, de fadas madrinhas, poções mágicas e varinhas de condão, mas no sentido de que você se mete em situações mais bizarras do que poderia imaginar quando mais jovem, lida com demônios  assustadores (os seus próprios), se mete em lugares mal assombrados, dá de cara  com ogros por aí – aliás, frequentemente se torna um.

Há seis anos sou padrasto e ano passado me tornei pai. Essas também são experiências mágicas e de uma forma que contraria o clichê que a cultura popular vende de magia. A rotina com um bebê, por exemplo, não é mágica por ser cheia de momentos coloridos e inebriantes e sim porque mexe com energias intensas: quase todos os dias parece  que passou um poltergeist pela casa, volta e meia você se vê coberto por substâncias esquisitas (mais ou menos como retratado em Caça-Fantasmas), objetos somem e se  quebram  sem explicação, pra não falar de todos os deuses e religiões que você invoca quando não quer que a criança acorde. Também é mágico ser praticamente obrigado a desconstruir verdades que você construiu tão dedicadamente, e fazer isso mês após mês, sentindo-se nauseado e meio pirado com a sucessão caleidoscópica de pequenos universos que vão se abrindo – alguns curiosos e cativantes, outros francamente desesperadores.

Enfim, eu sempre penso como é que meus pais criaram três filhos em uma época e em condições bem mais adversas, ou então nos milhões de famílias brasileiras que dão um jeito, a duras penas, de alimentar, educar e cuidar dos seus. Aí, só posso concluir: pra realizar a tarefa mais comum e ordinária nessa terra, que é simplesmente tocar o barco da vida em família, o cara tem realmente que ser mágico.

Power Paola

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Romances autobiográficos salpicados de detalhes íntimos picantes da vida do autor e de sua família não são exatamente uma novidadade no mundo dos quadrinhos desde o advento de Robert Crumb. Mas começar uma carreira nesse nicho com um livro cuja primeira imagem da história, ocupando a página inteira, traz os pais da autora trepando, mais especificamente concebendo-a, bem, pode ter certeza que algum tipo de marca específica essa autora deve deixar no nicho estético que escolheu habitar.

Virus Tropical, da colombiana-equatoriana Power Paola, simultanemanente se insere e se destaca na linhagem dos grandes romances gráficos autobiográficos. Distanciada anos-luz dos perigos de transformar sua vida desenhada em uma espécie de “Meu Querido Diário”, o maior pecado desse setor, o que Power Paola faz é pegar um gênero já amadurecido e bastante exercitado sob a ótica dos anglo-saxões e adicionar uma dose saudável e fundamental de tempero latino. Nesse sentido, diferente dos seus pares norte-americanos, canandenses e europeus, Virus Tropical examina as relações familiares de Paola como entranhas vivas e presentes, não como elementos de uma equação a ser retratada, analisada e discutida cientificamente. Para os que acompanham o gênero, é impossível não comparar Virus Tropical com Umbigo Sem Fundo, de Dash Shaw ou Fun Home de Alisson Bechdel e perceber como a latitude influencia na perspectiva do quanto a vida em família inluencia na construção da nossa identidade.

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Paola nasceu em Quito, Equador, de uma gravidez inesperada. Sua mãe havia ligado as trompas mas ainda assim engravidou. O primeiro médico que examinou a Sra. Gaviria não acreditava na situação e deu seu veredito: “É impossível que esteja grávida. Deve ser um vírus tropical”. Assim, ela se tornou a quarta mulher de uma casa cujo único homem era o pai, sacerdote de uma igreja e claramente um coadjuvante – de uma ausência influente, mas ainda assim coadjuvante em relação ao eixo matriarcal construído com muito suor pela mãe de Paola. A partir dessa constituição básica se desenrolam os dramas cotidianos e absolutamente comuns: a separação dos pais, a rica interação entre irmãs de mesmo sexo porém de idades bem diferentes, a luta da Sra. Gaviria para manter o núcleo familiar minimamente unido e funciona. Em resumo, Virus Tropical é uma crônica muitíssimo bem construída sobre a difícil arte de tocar o barco nos mares do sul, onde a subsistência, a religião, o espaço urbano conturbado e os laços consanguíneos ganham papéis importantes na nossa narrativa pessoal.

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O traço de Paola é uma atração à parte. Declaradamente influenciado por Julie Doucet, o estilo rudimentar, um tanto quanto infantil, engana. As páginas tem ritmo, os cenários são ricos, o foco de ação é sempre claro. É a linguagem dos antigos fanzines punk usada para contar de forma crua e direta uma história bonita e cheia de amor.

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Virus Tropical ainda não saiu no Brasil, mas vocês podem pedir para o Liniers que está essa semana em Porto Alegre para o FestPoa Literária. Foi a editora dele que lançou o livro na Argentina.

Pra saber mais sobre Power Paola:

* Blog Power Paola.

* Blog La Poderosa.

* Flickr Power Paola – não deixe de visitar, tem muita coisa bacana.

* Entrevista ilustrada com Power Paola.

* O que mais escrevi sobre Liniers ou a Editorial Comun.

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Nos últimos anos, eu venho escrevendo de vez em quando sobre quadrinhos autobiográficos ou jornalísticos. Aqui vai uma pequena lista:

Pagando por Sexo de Chester Brown.

Exit Wounds de Rutu Mondam e Notas sobre Gaza de Joe Sacco. O primeiro, Exit Wounds, traz uma rara visão de uma quadrinista israelense dos conflitos da área.
The Quitter do Harvey Pekar
Jefrey Brown
Lucy Knisley
Josh Neufeld
David B.
Dash Shaw
Liniers
– Alison Bechdel (aqui e aqui).
Guy Delisle

Pagando por Sexo de Chester Brown

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Lançado no ano passado no Brasil, Pagando por Sexo é um romance-estudo-resportagem-autobiografia no qual o canadense Chester Brown conta detalhadamente como chegou à decisão de se relacionar sexualmente apenas com prostitutas, abandonando a ideia do amor romântico e do “sexo gratuito” como parte inerente de uma relação afetiva. O tema é cabeludo, mas a habilidade de Brown como narrador e ilustrador, já reconhecidas no meio literário, resolve tudo. Além de tornar uma reflexão cultural interessante e divertida, Pagando por Sexo enfileira causos e argumentos (inclusive com uma polpuda bibliografia) para sustentar moralmente e socialmente a escolha de seu autor.

Questões sexuais à parte, o que mais me chamou a atenção no livro foi o fato de Brown ter construído e divulgado formalmente uma via pouco usual de relação com mulheres. Não me interessa discutir os motivos da escolha ou investigar suas emoções, mas sim o fato notável dele ter aberto esse espaço, ainda que isso tenha acontecido em um país como o Canadá, que me parece ser mais tolerante à diversidade. Pagando por Sexo, nesse sentido, é fascinante.

Dias depois, lendo “Cultura, Um Conceito Antropológico” de Roque de Barros Laraia (clique aqui com o botão direito pra baixar em PDF), me deparei com esse parágrafo abaixo. É uma pequena ode à diversidade cultural do ser humano e na hora pensei que descreve bem o que senti lendo Pagando por Sexo:

“Não se pode ignorar que o homem, membro proeminente da ordem dos primatas, depende muito do seu equipamento biológico. Para se manter vivo, independente do sistema cultural ao qual pertença, ele tem que satisfazer um número determinado de funções vitais, como a alimentação, o sono, a respiração, a atividade sexual etc. Mas, embora estas funções sejam comuns a toda humanidade, a maneira de satisfazê-las varia de uma cultura para outra. É esta grande variedade na operação de um número tão pequeno de funções que faz com que o homem seja considerado um ser predominantemente cultural.”

Não se deveria cobrar de todos que aceitem ou apreciem a diversidade. Contemplá-la como fato já seria um belo começo.

Pampa Drawings & New York Drawings

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Nas últimas semanas, me debrucei sobre dois livros de ilustração tão bons quanto diferentes, dois universos opostos mas que convivem e se completam na minha cultura particular. Acredito que muitas outras pessoas tem essa combinação em sua formação: um pouco de metrópole, um pouco de campo (ou de praia ou de cidadezinha do interior). Primeiro vamos falar do campo, retratado no excelente Pago pra Ver, de um grande mestre nacional.

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Se a essência de um desenho é a capacidade de observação (interna ou externa), sem dúvida Renato Canini é um Thundercat com visão além do alcance. Caso você não ligue o nome à pessoa: Renato Canini foi o responsável pela fase brasileira-chanchada-urbano-tropical-desbunde do Zé Carioca, aquela série de histórias que antecipou em duas décadas toda a onda de valorização da estética brasileira que se seguiu a Cidade de Deus. Entre tantas outras coisas.

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Em Pago Pra Ver, Canini se voltou pro universo visual e afetivo do pampa gaúcho (“os pagos”, como se diz também) com suas duas principais características: o traço rasgado e o humor sutil, injetado a partir do traço. Como em todos os seus trabalhos, o poder de observação do Canini cobre tanto o que é visível (formas, paisagens, objetos) quanto o que não se vê (a cultura e seus comentários). Frequentemente, ele torna o invisível visível e esconde no clima do desenho o que geralmente a gente procura com os olhos.

 

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Como fazem poucos grandes artistas, o Canini consegue equilibrar observação, homenagem e crítica social. Na verdade ele mistura esses três elementos e você nunca sabe muito bem quando ele está simplesmente fotografando, homenageando ou tirando uma onda. Coisa de mestre mesmo, ainda mais levando-se em consideração o tradicionalismo gaúcho, sempre pronto pra puxar uma faca e discutir possíveis “faltas de respeito”.

Um detalhe importante: Pago Pra Ver saiu meio batalhado. Pelo que sei, foi difícil alguma editora se interessar pela obra. Quem acabou bancando a edição foi o Instituto Estadual do Livro, ligado à Secretaria de Cultura do Estado do RS. Pontíssimo pro IEL.

Se você quer dar uma olhada nos desenhos, vai no blog da associação gaúcha de cartunistas, a Grafar, que publicou uma série deles com o objetivo de incentivar o interesse pelo trabalho.

 

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Agora vamos de New York Drawings, do quadrinista e ilustrador americano Adrian Tomine. Eu já conhecia o trabalho de Tomine nos quadrinhos – e confesso que não sou grande fã. Mas quando vi que as ilustrações dele relativas ao universo de Nova Iorque (muitas das quais saíram na revista The New Yorker) foram reunidas em livro, não tive dúvidas pra comprar – meus bodes com Tomine como autor não se sustentam com seu ótimo lado desenhista. O motivo fica bem claro em New York Drawings.

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Mais do que uma simples coletânea, o livro serve de tributo de um observador à atividade de observação. A gente nota isso porque os desenhos mais bacanas são justamente os que parecem recortados de uma cena maior, que sugerem mais o cantinho de uma fotografia do que o centro.

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Claro que há muitos outros desenhos, vinhetas e retratos que ilustram matérias das mais diversas naturezas e ângulos. Mas os que escolhi pra ilustrar esse post e os que considero que se destacam no livro tem essa qualidade colateral, de fazer foco no que geralmente não é foco.

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Pampa e Nova Iorque, Tomine & Canini. Isso dá dupla sertaneja, dá um disco de vanguarda ou dá um poema, hein… no mínimo, uma letra do Engenheiros do Hawaii.

Jules Feiffer e criatividade

Se tem uma coisa que eu já ouvi umas 286 vezes sobre pessoas que lidam com criatividade é o quanto elas são inseguras e, em certa medida, imaturas emocionalmente. Como se fossem crianças crescidas, brincando com a vida em vez de trabalhar. Não é exatamente uma novidade falar sobre isso, volta e meia aparece um psicólogo ou um cientista ou uma ex-mulher ou ex-marido de alguma persona criativa com histórias pitorescas. Mas talvez quem melhor tenha escrito sobre o tema, e com muitomais propriedade, foi o cartunista americano Jules Feiffer, num livro voltado para o público infanto-juvenil mas que aborda a psiquê de quem mexe com atividades criativas sem uma única teoria psicológica, sem nenhum gráfico ou pesquisa. Isso é O Homem no Teto.

O livro conta, alternando texto e ilustração, as experiências de Jimmy Jibbet, um garoto que não é bom em esportes, não é popular no colégio, não presta atenção na aula, mas desenha e escreve quadrinhos com uma dedicação e um talento vibrantes. O primeiro ponto valioso que brota das entrelinhas de O Homem no Teto é que o envolvimento de Jimmy com os quadrinhos não pode ser definido como mera recreação. Parte de uma família americana de classe média baixa, Jimmy usa as aventuras de seus personagens como forma de elaborar o ambiente no qual está inserido. Histórias sobre um pai idealizado ou sobre um herói chamado Mini-Man vão dando conta de acomodar e processar os conflitos com a irmã maior briguenta, com a menor demandante de atenção, com o pai distante e com a mãe um pouco mais próxima. As encrencas clássicas de escola, como a alienação perante o cotidiano burocrático e a força magnética de um colega que parece perfeito em tudo, também são todas debulhadas no processo criativo solitário de Jimmy. O mecanismo é totalmente alheio para o menino, mas sem dúvida é eficientíssimo.

Essa dinâmica toda ganha mais impulso, tanto para Jimmy quanto para nós, que estamos acompanhando a narrativa, quando entra em cena o tio do garoto, um fracassado compositor de musicais que em certo ponto tem sua carreira estimulada por um pequeno sucesso. O Tio Lester é a luz no fim do túnel para Jimmy, é sua alma gêmea, é a única pessoa em uma pequena multidão que serve de espelho confiável, de verdadeiro conterrâneo no lodoso e complicado terreno das atividades criativas. A interação entre Tio Lester e Jimmy fornece a via de escape pro garoto, resgatando uma jovem mente imaginativa à beira do precipício da auto-anulação. E, o mais importante: sem proselitismo, sem licões de moral, sem recadinho de auto-ajuda hipster. Tudo contado dentro da história pessoal de Jimmy. É presença de um igual – e não explicações racionais – que salvam nosso herói que fazem nossa leitura valer a pena.

Como escreveu outro cartunista premiado, o Art Spiegelmen, Feiffer usa sua “percepção penetrante como um laser com que ele desvenda o mecanismo de motivações das pessoas.” Ou seja, é um livro sobre a criança criativa que existe dentro de cada um de nós e um mapeamento dos obstáculos particulares e sociais que costumam enterrar essa índole. Mais do que isso, O Homem no Teto prova, na prática, que o desenvolvimento ou o resgate da nossa criatividade inata não se dá através de receitas de bolo ou de teorias rasteiras, mas sim por meio de um exemplo no qual possamos nos espelhar e com o qual possamos dialogar – ainda que esse diálogo seja nosso, interno.

Nesse sentido, o Jules Feiffer fez algo realmente genoroso ao nos deixar essa pequena superfície espelhada e profunda em forma de livro infanto-juvenil, com a qual podemos nos enxergar, dialogar e refletir.

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PS: aquele abraço ao André Takeda, que me mostrou esse livro há uns 15 anos. Comprei na época e só recentemente fui ler…

Jerusalem por Guy Delisle

O trabalho do Guy Delisle é parecido com o passaporte dele. Em ambos os casos, estamos falando de páginas ilustradas (com carimbos ou desenhos) que revelam a trajetória de um globetrotter quase por acaso. A editora Zarabatana publicou no Brasil os incríveis diários de viagem de Delisle sobre a Coréia do Norte, China (as duas como diretor de animação) e  Burma (acompanhando sua esposa, que trabalha no Médico Sem Fronteiras). Em breve, vai ser a vez do esforço mais recente desse cartunistas e animador canadense, que andou passando um ano em Israel e cujo resultado de viagem é mais uma vez um volume de sensibilidade artística e humor únicos.

Quem já passeou por Pyongyang, Shenzen e por diversas regiões de Burma na companhia de Delisle sabe que não se pode esperar de Jerusalem – Chronicles from the Holy City, o jornalismo histórico-investigativo de Joe Sacco. Embora a primeira associação dessa região com quadrinhos pudesse levar nessa direção, o que nós testemunhamos nesse caso é o cotidiano de um cartunista expatriado tentando manter seu caderninho de sketches e ministrando workshops enquanto mantém a logística doméstica em um país conflagrado (Guy e Nadége tem dois filhos que costumam ir junto nas viagens). E, surpresa, a ausência de um mergulho documental e profundo no dna problemático do oriente médio não priva o livro de levantar questionamentos políticos e reflexões morais.

Pelo contrário. São justamente as tarefas cotidianas (ir ao supermercado, levar as crianças na escolinha, comprar um carro usado) que, colocadas contra o pano de fundo palestino-israelense, revelam os pontos nevrálgicos de uma região marcada pela tensão constante: o engarrafamento na ida pra escola dos filhos é devido a um problema em um checkpoint militar; a babá chega em casa de olhos vermelhos porque sua casa vai ser demolida pelo governo israelense; e assim por diante.

Elegante e lúdico, o traço de Delisle serve também para enganar olhos destreinados. Enquanto vai cativando o leitor com vinhetas divertidas do dia-a-dia e com sketches de locais históricos, um painel bastante rico da questão israelense-palestina vai sendo composto. No fim das trezentas e tantas páginas, o leitos se divertiu, se deleitou e também compartilhou um pouco de uma outra visão de mundo.

 

Pra fechar, bato mais uma vez na tecla do valor que tem esses diários de viagem em quadrinhos. Como escrevi já anteriormente, eles trazem uma particularidade em relação a diários escritos ou fotografados por serem a soma de decisões e atenções do olhar do cartunista. No caso, como estamos falando de um artista de reconhecida sensibilidade, quanto mais particular esse olhar – me desculpe o clichê – também mais universal.

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Repetindo: Jerusalém em breve estará à venda em português no Brasil. Fique ligado no site da Zarabatana Books, onde você encontra os outros livros de Delisle.

Mais um link: este é o site do canandense, onde você encontra também um blog com posts em francês e rascunhos constantes.

Por último, eu venho escrevendo de vez em quando sobre quadrinhos autobiográficos ou jornalísticos. Aqui vai uma pequena lista:

Exit Wounds de Rutu Mondam e Notas sobre Gaza de Joe Sacco. O primeiro, Exit Wounds, traz uma rara visão de uma quadrinista israelense dos conflitos da área.
The Quitter do Harvey Pekar
Jefrey Brown
Lucy Knisley
Josh Neufeld
David B.
Dash Shaw
Liniers
– Alison Bechdel (aqui e aqui).
Guy Deslile

…e…

Cachalote, que não é propriamente autobiográfico, mas vou botar aqui.

Aqui vai o link pra meus posts sobre quadrinhos.