Carol Bensimon: vida e morte das cidades brasileiras

2013-03-24 13.19.07

Atenção povo que se preocupa com os rumos da sua cidade: a escritora Carol Bensimon produziu recentemente uma pequena pérola que serve de manifesto pra quem acha que a especulação imobiliária está deixando nossas ruas menos humanas, menos agradáveis e menos interessante. Na verdade, são dois textos que saíram no Caderno de Cultura da Zero Hora (parabéns ao editor) mas que deveriam estar nas primeiras páginas do jornal – de preferência antes dos anúncios de construtoras.

Em “Crescimento desordenado de Porto Alegre acabou criando sensação de desconforto” e em Pelas ruas da cidade, a Carol reuniu alguns dos principais argumentos de urbanistas e filósofos para contrapôr a lógica da atual expansão imobiliária, que na verdade não tem realmente uma lógica. Ao menos uma lógica aceitável. Na esteira de um plano diretor aparentemente comprometido mais com o negócio das construtoras do que com quem quer viver bem, centenas de terrenos arborizados e pontuados com casas antigas em Porto Alegre vem dando lugar a condomínios anódinos de prédios altíssimos que transformam bairros inteiros em zonas exclusivamente residenciais. Com pouco comércio de rua, com os moradores empoleirados em apartamentos de janelas minúsculas, totalmente distantes de qualquer atividade na calçada, esses bairros acabam parecendo mais perspectivas em 3D do que lugares realmente confortáveis pra se viver – é o que levantam os artigos.

Nesse cenário, uma das ironias mais tristes sublinhadas pela Carol é o nome desses condomínios. Geralmente eles são inspirados em bairros charmosos e interessantes da Europa, locais de arquitetura clássica preservada, de edificações mais baixas, de jardins mais convidativos e de intensa movimentação na rua. Importa-se apenas o nome e, talvez a programação visual para o logotipo e para o folder de vendas. Raramente o estilo de vida.

São complexas as causas desse fenômeno e dificilmente dá pra apontar um único responsável. Tem as construtoras, tem a Prefeitura, tem o momento econômico, tem o momento cultural. Mas essa teia de relações não nos exime de pensar e questionar. Frequentemente flutua a ideia de que certos caminhos são inevitáveis, mas isso não é verdade. Se é possível pensar diferente e escrever diferente, como a Carol fez, tenho certeza que é possível fazer diferente. Não é fácil, não é rápido, mas é possível e começa bem assim, por proclamar e passar adiante uma outra mentalidade que não a dos vetores acelerados do imediatismo.

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A foto lá em cima é da quadra em frente ao meu apartamento, cheia de casas. Metade dela (talvez mais) será botada abaixo pra receber um condomínio novo. Além de um pouco de vista, vamos perder todas essas árvores dos quintais e os cachorros que latiam quando a gente passava em frente.

Retiro de Rua no Brasil

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Retiros de rua são uma tradição espiritual recente, uma espécie de revisão dos antigos retiros em florestas ou montanhas criada por Bernie Glassman, sobre quem já escrevi algumas vezes aqui. Essa modalidade de retiros é muito simples: vive-se e medita-se nas ruas por alguns dias. Dorme-se ao relento (para evitar ocupar um lugar de um sem teto nos abrigos) e come-se onde os sem teto indicarem. Em 2011 e 2012 aconteceram os primeiros retiros de rua no Brasil e resgatei aqui embaixo o relato de um participante que foi publicado numa Vida Simples no ano passado. Leitura altamente indicada para quem se interessa pelas novas relações que estão se formando com os espaços urbanos.

Ps: originalmente eu tinha colocado imagens pequenas aqui, que não dava pra ler. É melhor ir direto no blog do Monge Koho, participante dos retiros e agora autorizado a liderá-los no Brasil.

Doc: Al Polonio Dejalo Ser

Não sei se muita gente sabe, mas o litoral do Urugaui virou, na última década, na nova Santa Catarina de uma fatia dos gaúchos. Empurrados para o Sul pelos paulistas, que tomaram conta de Santa, tem um povo dqui que tem escolhido descer em vez de subir no verão. E à medida em que mais gente aporta no Forte de Santa Tereza, em Punta del Diablo, em La Paloma, em Maldonado e em Punta del Este, os que gostam de sossego fogem pra Cabo Polônio.

Sem luz elétrica, Cabo Polônio atrai pela total rusticidade e por uma aura inexplicável em palavras, mas que parece ter sido muito bem captada por esse documentário média metragem do portoalegrense Paulinho Azevedo e a mexicana Katia Morales Gaitan (tem entrevista com o Paulinho no site da Trip)

Polônio também é célebre por ter inspirado o Jorge Drexler não apenas a compor uma música (vídeo acima), mas também ter servido de refúgio para a criação de um disco inteiro, o ótimo e introspectivo 12 Segundos de Oscuridad. O título diz respeito ao tempo que a luz do farol está dando a volta em relação ao observador, deixando-o no escuro.

Nunca fui a Cabo Polônio, apenas a Punta del Diablo e ao Forte de Santa Tereza, que ficam perto. Mas pelo doc. ali em cima e pelo disco do Drexler (que já ouvi um milhão de vezes), fica fácil imaginar qual é a de Polônio. Também dá uma certa vontade de não escrever sobre ele e não contar pra ninguém pra não estragar o lugar. Por outro lado, já que escrevi, segue a ressalva: espero que a especulação imobiliária e a obsessão desenvolvimentista que andam regendo nossos tempos não estraguem o lugr.

Diários de Bicicleta: o olhar que precede a mudança

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Ao incorporar a bicicleta de volta na minha vida, eu sabia que seria inevitável incorrer em alguns clichês. Soar um pouco militante de vez em quando é um deles. Resmungar com o trânsito dos carros é outro. Descobrir que Porto Alegre, além de morros, tem aclives leves e traiçoeiros seria um terceiro. Mas o quarto é o mais contrangedor: me surpreender com o contato direto com a vida na rua depois de anos andando apenas de carro.

A soma de quatro anos vivendo em cima do morro Santo Antônio com mais dois numa subida de Petrópolis, estes combinados com as demandas da vida em família (supermercado, colégio, médico), mais a vida de banda (ensaios e shows com equipamento pra lá e pra cá) e condições financeiras pra manter um carro próprio acabaram relegando as caminhadas (que adoro) apenas ao status de eventual exercício aeróbico (que não gosto). Dessa forma, nos últimos anos acabei caindo na armadilha de viver Porto Alegre pela janela do motorista ou pelos retrovisores. Às vezes, por mais que você se esforce, a configuração prática da vida discorda de algumas aspirações urbanas e o que deveria ser natural – o curtir sua cidade com um pouco mais de contato direto – exige uma mudança de paradigma ou um aporte de energia extra. Duas soluções que nem sempre estão disponíveis para todos, algo que muitos militantes da bicicleta teimam em não entender.

Pra minha felicidade, algumas novidades no meu esquema profissional nos últimos seis meses permitiram que eu voltasse a andar de bicicleta com muito mais frequência, inclusive para trajetos que antes eu só fazia de carro. E o inevitável aconteceu: descobri que existia um mundo inteiro que andava me escapando. Como eu disse, é um clichê constrangedor e revestido de algum conteúdo social (sei que muita gente não tem opção a não ser viver radicalmente a rua e o transporte coletivo). Mas aconteceu, fazer o quê.

A Protásio Alves é uma das ruas que acabou se tornando parte da minha rotina, uma vez que ela é o escoamento natural pra quem desce Petrópolis de bicicleta. Via de ligação do centro com a área leste da cidade, a Protásio mantém o status combinado de avenida-que-deveria-ser-expressa com rua-de-comércio-local. Ao longo de praticamente toda a Protásio, amontoam-se padarias, resaurantes, lojinhas de material escolar, lavanderias, lojas de decoração, bancas de revista, mercadinhos, lojas de 1,99, lojas de calçado, mecânicas automotivas, farmácias, tudo isso praticamente sem estacionamento em frente aos estabelecimentos e com calçadas estreitas, ou seja, não tem muito clima pra passeio. Ainda que isso tudo caracterize uma espécie de anomalia, é também uma configuração de resistência: o comércio de rua na Protásio, de um jeito ou de outro, empresta um pouco de humanidade para uma avenida massacrada pelo trânsito intenso. Ao menos, ela fica bem menos fantasmagórica do que a Terceira Perimetral, com suas sessões repetidas de condomínios de escritório.

Descer a Protásio de bicicleta não é uma experiência muito agradável, especialmente devido ao trânsito pesado, truncado e ao pouco espaço na rua e nas calçadas. Mas ao menos rende uma olhada nas vitrines, o cruzar com moradores e passantes e, especialmente, um lanche no Priscilla’s (um pequeno café de inspiração americana escondido na Domingos José de Almeida, que de carro eu nunca tinha tempo pra chegar). Cruzando por baixo o viaduto da Silva Só, se trava contato com uma comunidade de sem-teto, uma visão sempre triste, mas menos triste do que constatar que de alguma forma essas pessoas conhecem as fronteiras sociais dos bairros e não costumam ser vistas com muita frequência na parte mais privilegiada de Petrópolis, nos arredores da pracinha da Encol.

E por acaso eu não via tudo isso da janela do carro? Claro que via (e continuo vendo quando saio motorizado na maior parte dos dias). Mas é diferente. De bicicleta, dá pra parar e de qualquer forma, você está mais exposto, menos recoberto por camadas de armadura, está numa velocidade mais lenta, que permite um outro tipo de olhar. Como diz David Byrne, no livro que dá título a essa seção, “Esse ponto de vista – mais rápido que uma caminhada, mais lento que um trem e muitas vezes ligeiramente mais elevador que o de uma pessoa – passou a ser minha janela panorâmica (…). Uma janela enorme e geralmente com vista para um cenário urbano. Através dela, eu acompanho fragmentos de como são as mentes das outras pessoas, que se expressam em meio às cidades onde elas vivem.”

Acho que Porto Alegre está num momento em que há pessoas querendo resgatar esse olhar. A cidade merece isso, sempre mereceu. Há a ideia de que ela precisa ser limpa e arrumada antes de merecer esse olhar, mas isso é sacanagem com Porto Alegre: o novo olhar, ou o resgate de um certo olhar, precede a renovação. Se não enxergarmos a cidade que queremos antes de reconstruí-la, como essa nova face vai se manifestar? Vai brotar de onde? Não é de planos e planejamentos, é antes de um olhar mais aberto, compassivo e que enxergue o que a cidade tem a oferecer mesmo por baixo de suas mazelas, mesmo por trás das filas intermináveis de carros que abarrotam as nossas ruas e avenidas.

É: andar de bicicleta dá o que pensar.

Educação e budismo

Colégios e trabalhos sociais de orientação católica são comuns no Brasil. Acho que a maioria de nós passou por um deles ou conhece alguém que passou. Já colégios e ações baseados em ideias de outras religiões são obviamente mais raros. Pra quem quiser conhecer, o vídeo acima (transcrição aqui) mostra o Lama Padma Samtem falando sobre a experiência de uma escola baseada em metodologias budistas que surgiu há alguns anos aqui na região metropolitana de Porto Alegre. Não conheço iniciativa semelhante no Brasil (deve haver, se alguém conhece e quiser iluminar minha ignorância, avise).

A Escola Caminho do Meio atende crianças do entorno do Centro de Estudos Budistas Bodisatva em Viamão/RS, especialmente de uma comunidade chamada Jardim Castelo. Por enquanto, cobre apenas Educação Infantil, mas ela está sendo expandida pra cobrir também Educação Fundamental. Tudo com base em valores humanos universais, que no fim não são exclusivamente budistas, claro.

O Lama Samtem inclusive brinca com a imaginação das pessoas quando o assunto é unir budismo com educação.


“Então a gente imagina que a escola tem crianças de 07 ou 12 anos e vão passar por uma prova final de levitação, medindo o brilho da aura com câmera e se ele não obtiver a iluminação significa que a escola falhou em alguma coisa.”

A Escola tem uma parceria com a Universidade Federal de Pernambuco através do Núcleo de Pesquisas em Educação e Espiritualidade, o que gera material de trabalho não apenas para as partes envolvidas, mas também pra nós. No link do blog da Escola, tem um PDF com os diálogos entre o Lama Samtem e o pesquisador-professor-doutor Alexandre Freitas.

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Outra iniciativa interessante é no interior de Minas, em Lambari. O Sítio Esperança (fotos acima) nasceu da aspiração do lama tibetano Chagdud Tulku Rinpoche de também disseminar valores humanos universais através da educação. Não é pra menos que a iniciativa é parecida com a descrita acima: o Lama Samtem foi ordenado Lama por Chagdud Rinpoche há mais ou menos 20 anos.

Em Minas, o enfoque passa muito pela ensino agroecológico, uma vez que as crianças atendidas são de uma região eminentemente rural. Além da Escola Infantil, o Sítio também oferece uma colônia de férias e workshops baseados na metodologia da Escola. O eixo da história é um dos ensinamentos do budismo que eu mais gosto, chamado As Quatro Qualidades Incomensuráveis: a equanimidade, o amor, a compaixão e o regozijo, que é a alegria com a alegria dos outros.

Tanto a Escola do Caminho do Meio quanto o Sítio Esperança atendem gratuitamente os alunos. As duas instituições sobrevivem praticamente de doações e estão habilidadas a oferecer a possibilidade de dedução do imposto de renda para doadores.

Numa época em que se discute tanto a educação, mas muito do ponto de vista numérico, estatístico e ferramental, é bom também dar uma olhada em visões alternativas que, mesmo que não sejam formatadas para experiências em grande escala, servem de laboratório pra repensar os paradigmas atuais – claramente precisando de revisão.

Gabeira, política e corpo

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São muitos os serviços que Fernando Gabeira já prestou e ainda presta ao país, mas talvez o mais valioso esteja embebido na mensagem deste livro, que a meu ver diz mais ou menos o seguinte: é preciso entender e exercer a política como um atividade viva, que abarque todos os aspectos do indivíduo, especialmente suas inclinações particulares e suas contradições ao invés de usar idelogias e teorias para aplainar o espírito humano – ou, claro, para ganhar poder e dinheiro. “Onde está tudo aquilo agora?” pergunta Gabeira em suas memórias políticas, lançadas em livro no fim do ano passado. A pergunta induz a uma visão superficial, e acho que é meio sacanagem do Gabeira. “Aquilo tudo” não diz respeito apenas a questionar antigas crenças (um belo gancho pra capturar leitores de outras vibrações…), mas mais sobre olhar com uma outra perspectiva tudo aquilo que compõe uma história pessoal – esteja dentro ou fora da pessoa, seja público ou privado.

Os predicados de Gabeira para empreender essa reflexão e proclamar uma política viva e pulsante, conectada com a essência da sociedade e do ser humano, são conhecidos mesmo por quem não acompanha de perto sua trajetória. A saber: nascido em Minas Gerais, Gabeira se apaixonou cedo pelo jornalismo e a partir da investigação e narração do mundo é que saltou para a vida política. Diferente de muitas figuras históricas na área, não teve uma atuação militante durante a primeira parte da juventude. Sua paixão era mesmo o jornalismo e foi a convivência com os colegas e os assuntos das matérias que o inclinaram em direção ao existencialismo e, em seguida, ao socialismo.

A opção pela luta armada e os excessos das ideologias à esquerda no combate à ditadura já foram exaustivamente processados por Gabeira em alguns de seus outros livros, mas ao que parece reflexão nunca é demais. Mais uma vez, ele repassa aqui as contradições da própria militância, em especial as dúvidas existenciais que o acompanharam o tempo todo, surgidas mesmo antes de abandonar alguns conceitos e práticas. Entre todas as questões, a que mais me tocou foi uma pouco discutida, sempre obliterada pela discussão polarizada do tipo capitalismo x socialismo. Falo da noção de alienação do corpo no envolvimento com a política.

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A certa altura, Gabeia conta, do exílio na Suécia:

“Olhando-me no espelho, vi que eu parecia um viúvo que tinha perdido a esposa de muitos anos e, inconscientemente, parara no tempo. Usava cabelo comprido, bigodes, fumava cigarros de fumo negro, Gauloises, e ainda vestia roupas que ganhara de presente pelo caminho A decisão de correr diariamente e parar de fumar foi o primeiro grande passo. Comia melhor, respirava melhor, e ao contrário do que previam alguns, não engordei. Não bastaria correr e deixar de fumar. Um movimento por alimentos saudáveis brotava com força na Suécia e em outras partes do mundo, tocadas pelas primeiras denúncias sobre o papel dos agrotóxicos no meio ambiente e em nossos corpos.”

Isso era meados dos ano 70 e, embora Gabeira admita que não é possível demarcar com exatidão suas mudanças de rumo, é mais ou menos por aqui que se inicia uma nova fase de sua vida, a que iria definir sua identidade pública pelas décadas seguintes. Assim como a ligação com a luta armada partiu de inclinações pessoais, o contato com o então nascente movimento ecológico brasileiro aconteceu devido a uma necessidade particular de dar uma sacudida na poeira, mexer e trabalhar o corpo, enrijecido e abandonado em anos de dedicação à militância.

No retorno do exílio, a questão se manifestou no âmbito público nacional com as peculiaridades do nosso país:

“A primeira polêmica que enfrentei foi por ter ido de sunga à praia. Não tinha a mínima intenção de provocá-la. Já usara a sunga na Suécia e, em algumas praias da Grécia, andava nu. Se a polêmica precisar de um rótulo, eu diria que ela girou em torno da política do corpo, um tema vasto que, no fundo, preunciava uma nova época, eficazmente aproveitada pelo capitalismo, que multiplicou academias, artigos de beleza, cirurgias plásticas, produtos dietéticos. Enfim, o capitalismo achou um novo modo de se aprofundar.”

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O corpo é objeto pouco discutido mas muito utilizado em todos os campos políticos. Em uma análise rápida, é o corpo que faz a mediação entre o mundo e a mente do indivíduo. Portanto, é natural que ele seja objeto de violência e regulação em ambientes conturbados. E também de protesto (o que obstruiu a passagem daquele tanque chinês? Uma ideia ou um corpo?). Em contextos democráticos, diz-se que que o encontro entre candidatos e eleitores se chama “corpo a corpo.” Em ambas as situações, o corpo acaba no arcabouço da alienação, esquecido, como se não fosse conectado à mente do indivíduo mas sim apenas uma peça de um sistema maior. Mesmo numa sociedade de mercado, supostamente livre, o corpo é submetido a todo tipo de regras comerciais e sociais, em geral disfarçadas de costumes ou de escolhas estéticas.

A relação com o corpo, aparentemente, foi a base particular sobre a qual Gabeira construiu suas andanças no movimento ecológico. Estudou dança, pegou a estrada de jipe pra conhecer comunidades alternativas no Brasil inteiro. Para ganhar a vida, escreveu livros também sobre isso tudo. Chegou num ponto, nos anos 80, em que essas opções se esgotaram e o ciclo se fechou sobre si mesmo: Gabeira voltou ao jornalismo e, em seguida, à vida pública. Mas nunca deixou de incluir o corpo – o seu e o do outro – na sua visão de política. Durante o caso de uso indevido de cotas de passagem do Congresso Nacional, no qual Gabeira estava envolvido, conta:

“Confesso que apanhei muito. Crônicas, reportagens, comentários, piadas. Olhando pra trás, creio ter aprendido uma lição na crise. Quando tive a impressão de que todos estava contra mim, percebi que eu mesmo tinha que estar ao meu lado. Música, meditação, silêncio, tudo isso ajudou. Tenho a natação como hábito diário. Ela já tinha me ensinado alguma coisa. Sempre que havia um aborrecimento, alguma insinuação nos jornais, eu notava que nadar me ajudava a superar ressentimentos. Nos primeiros cem metros, você começa a achar que os críticos não são tão agressivos como parecem. Nos quatrocentos, mesmo achando que eles não tem razão, você começa a procurar algo na crítica que possa te ajudar. E no final termina quase agradecido. Talvez a produção de endorfina nos trone mais tolerantes.”

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A política centrada no corpo, ainda que não diretamente, foi sempre um tema para Gabeira após sua volta ao Brasil. Ao fundar o PV e entrar na vida pública, passou a abraçar, além da ecologia (antigo nome da sustentabilidade) causas como a profissionalização da prostituição, o casamento homossexual e a descriminalização da maconha. São temas próximos ao que Gabeira viveu, pois sentiu na carne a violência e os pré-julgamentos não apenas na época da ditadura, mas também no retorno do exílio. É coerente, portanto, que tenha abandonado um tipo de radicalismo para abraçar uma visão mais ampla, mais centrada nas possibilidades do indivíduo do que em grandes ideologias.

E aí chegamos no que de mais bonito o livro tem – além de uma linda escrita: capítulo após capítulo, Gabeira deixa claro que suas opções e ações nasceram entrelaçadas com questões absolutamente pessoais. Salvar o mundo? Claro. Mas baseado no quê? Na vontade de ser pleno e feliz. Parece ser assim: Gabeira se torna respeitoso e combatente pela necessidade do outro devido à batalha pessoal do reconhecimento das próprias necessidades. Na construção do respeito ao outro, não tem estrada mais firme. Melhor a honestidade de admitir essas necessidades do que mergulhar numa vazia retórica altruísta, pois é essa que liga a fisiologia política da velha guarda com a grandiloquência perigosa de novos setores do ativismo.

Em resumo, é mais ou menos como diz uma frase que volta e meia circula por aí: todo mundo quer mudar o mundo, ninguém quer lavar a louça. A história de Gabeira é a história de alguém que lavou muita louça, começando pela pia de casa, passando por cozinhas da Europa, da África, do Chile e terminando décadas depois no Congresso Nacional. Há de se respeitar as memórias políticas de alguém com tamanha experiência doméstica.

***

Um último adendo.

É curioso também como a trajetória de Gabeira serve de exemplo para a política do futuro. Lá atrás ele já enxergou o que vivemos hoje e o que temos pela frente. Muito antes da informalidade e da conectividade do ativismo atual, ele já vivia conectado ao mundo e exercendo sua política de forma pessal e em rede. Muito antes de todos sermos mídia, ele sempre foi um pequeno conglomerado de mídia ambulante. Muito antes de se falar em marketing de guerrilha, ele usou táticas inovadoras e inusitadas para promover suas candidaturas. Muito antes de se falar em meme, ele criou um bordão auditivo viciante pra fazer render os poucos segundos da propaganda gratuita na eleição de 89. Olhe pra trás e veja quão poucos fizeram algo parecido tanto tempo atrás.

Seria bom poder usar com adultos as técnicas que usamos pra lidar com crianças.

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Eles são fofinhos, cativantes, surpreendentes e inspiradores. Mas também precisamos aceitar o fato de que os bebês e as crianças são meio sonsos. Vejamos: eles não conseguem se expressar direito, choram por qualquer contrariedade, são rudimentares emocionalmente e precisam sempre ter alguém por perto pra resolver as encrencas.

Bom, peraê… de certa forma eles não são muito diferentes da maior parte dos adultos. O que poderia nos leva a pensar: por que não utilizamos com os grandes as técnicas que usamos com os pequenos no dia-a-dia? Pois então aqui vai uma sugestão de cinco subterfúgios utilizados na lida com o universo infantil que cairiam muito bem no mundo crescido.

1. Atendimento a necessidades básicas.

Nenê só chora porque está com fome, sono, dor, xixi ou cocô. Questões existenciais primordiais. Os adultos também. Se seu amigo, parceiro, chefe, colega ou empregado está incomodando, primeiro verifique se ele está cocô ou xixi. Se está tudo bem, bote a mão na testa e veja se tem febre. Estando ok, ofereça uma bolachinha. Se a pessoa em questão der um tapa na bolachinha e derrubar no chão, pule para o item dois.

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2. Indução ao sono
Dormir é assunto sério para seres humanos. Um humano com sono é um inferno. Geralmente, bebês e adultos não percebem que precisam dormir e lutam contra o sono. Adultos chegam a ficar horas na frente de uma tela negando o fato de que precisam dormir. O remédio para isso é muito simples. Procure reduzir as luzes do ambiente e cante uma musiquinha suave. Evite estímulos sonoros ou visuais muito intensos. Se for possível, pegue a pessoa no colo e embale – o contato corporal acalma. Só cuidado pra pessoa não acostumar com o colinho na hora de dormir aí toda vez vai ter que ser a mesma a coisa.

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3. Distração por Troca de Foco
Essa funciona assim: alguém está resmungando sobre algum problema e você começa a chacoalhar algum objeto colorido (celular, colar de pérolas ou lanterna) e a fazer associações divertidas e engraçadas com a voz (olha o celular! Olha o colar de pérolas! OOh, uma lanterna! Ela solta luz!!). Geralmente o bebê se distrai, esquece que está irritado com alguma coisa. Funciona também com adultos, mas em geral o objeto precisa ter uma tela touch e estar conectado à rede mundial de computadores.

4. Autoridade do Estranho
Truque um pouco agressivo mas muito eficiente. Você está com seu amigo, colega, chefe, empregado, marido ou esposa na rua e o companheiro (a) começa a ter um chilique: grita, xinga, ameaça se jogar no chão. Na hora, você aponta para um estranho do outro lado da rua e diz: “Que feio! Olha lá, o tio tá te cuidando, ele não tá gostando disso.” É uma técnica muito boa em reuniões com muitos participantes em uma mesa grande: “Que feio, olha lá, o acionista tá te olhando e não tá gostando.” Pode trazer alguns traumas no futuro, mas a curto prazo funciona muito bem.

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5. Chilique Superior
O Chilique Superior é aquele que suplanta em intensidade o chilique original. Se a criança (ou o adulto) está imerso em uma birra espaçosa e sem sentido, a saída é ter um chilique ainda maior. Geralmente, funciona quando acompanhado de anúncio apropriado, agitando os braços, arregalando os olhos, levantando a voz e dizendo algo como “Se tá ruim agora a coisa vai ficar ainda pior porque eu também sou filho de Deus e não agüento mais! Eu vou enlouquecer! Eu vou m’embora daqui e vocês que se arranjem!!” Nada como a visão da loucura alheia para induzir outrém a botar os pés no chão novamente.

Aí está minha contribuição para um mundo melhor. Essas dicas são gratuitas, é simplesmente a organização de uma sabedoria popular. Imprima, recorte, dobre e leve sempre com você no bolso. Mas use com sabedoria, porque se você tentar aplicar do jeito errado, cuidado. O tio ali do outro lado da rua vai estar olhando, que feio….

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Todas as imagens: Chris Ware
Autoridade do Estranho baseada em um texto do Daniel Martins.

Diários de Bicicleta: um outro jeito de fazer política

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Ano retrasado comprei uma bicicleta. E não vou mentir, em grande parte foi por esse hype gerado nos últimos anos. Mas, em minha defesa, digo que também foi pra revisitar um antigo amor e tomar vergonha na cara. Eu adoro andar de bicicleta e desde a faculdade não tinha uma. Fora essas idas pra aula, minhas últimas experiências sobre duas rodas tinham sido fora de Porto Alegre. No Rio, deve fazer uns 3 anos, eu e minha mulher alugamos umas pra dar a volta na Lagoa. No Canadá, dois anos atrás, usamos aquele sistema de aluguel pra pedalar numa megatour por Montreal (um dos melhores passeios que fizemos) e também pra ir num show (foi tão meia boca que me fugiu o nome da cantora, uma dessas de soul pop bem conhecida).

Mas dessa vez foi diferente. Comprei uma bicicleta não pra viver momentos hype especiais, que ficariam muito bem num comercial de banco ou numa foto do Instagram. Comprei pra tentar tornar esse hábito o mais banal possível no meu dia-a-dia. Na época da compra, eu ainda estava trabalhando fixo numa agência que ficava a dez minutos de carro de casa, meia hora a pé e vinte de bicileta. Fiz os cálculos dos compromisso da semana (ensaio com a banda, buscar a enteada no colégio, burocracias em bairros distantes) e resolvi que no mínimo ia pro trabalho uma vez por semana de bike. Mais do que isso, dependia de boas configurações astrais.

O primeiro dia que eu fui pro trabalho de bicicleta, confesso, me senti uma pessoa muito especial, parte de um movimento, da resistência. Enquanto pedalava, artigos, posts e documentários sobre a bicicleta como meio alternativo de transporte voltavam à minha lembrança. Me senti uma pessoa do bem, digna, incapaz de explorar pessoas, ferir o meio ambiente ou causar injustiça social. Se não me engano, ouvi trombetas e uma banda marcial tocando quando estacionei no prédio onde trabalhava. Cheguei a sentir que merecia uma comissão me esperando pra me entregar um medalha.

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Eu estou brincando um pouco, mas não muito. Quem bota a bicicleta na rua (entre outros tantos exemplos de comportamento) não necessariamente merece uma medalha, mas está ajudando a dar um recado, especialmente quem faz isso por escolha. Eu comprei uma bicicleta e retomei o hábito de andar porque vi outras pessoas fazendo isso, não apenas nos textos que li por aí, mas na rua, em Porto Alegre, gente das mais diversas idades e aparentando as mais diferentes intenções, desde crianças andando com os pais, um povo de roupa mais social indo para o escritório, alguns ativistas claramente identificados, hipster bêbados, até aqueles trabalhadores mais simples que nunca abandonaram a bicicleta simplesmente por falta de outra opção de deslocamento (a necessidade é a mãe da sustentabilidade). Eu fui influenciado por essas pessoas e é esse tipo de influência que tem sido mais marcante em mim.

Nem sempre é preciso ser ativista ou fazer proselitismo abertamente pra firmar uma posição ou para contribuir com uma causa. É um clichê, mas é verdade: o exemplo convence mais que discursos, mesmo que num primero momento o exemplo pareça menos brilhoso e chamativo do que um flood no Facebook ou uma sessão verborrágica numa mesa de bar. O exemplo, repetido, consistente, que atravessa um certo período de tempo com firmeza, é o que acaba depositando uma espécie de dinheiro novo no diálogo social corrente. Slogans, gritos de guerra, mobilizações são importantes para marcar momentos e dar certos impulsos, mas não são pra toda hora e não são pra todo mundo. Algumas pessoas se mobilizam muito mais com a convivência a longo prazo com conceitos interessantes do que com um tapa na cara.

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Tudo isso eu escrevo por me lembrar de um papo do qual participei em novembro do ano passado, num grupo de estudos formado pra discutir formas futuras de fazer política. Naquele dia, entendi um pouco melhor, graças a um expert que fazia parte do grupo, a ideia de que política não se resume à administração pública e à vida partidária. Política, disse ele evocando Hanna Arendt, é o ato intencional de dialogar o espaço público. Eu acredito, e sei que não sou o único, que a discussão política muitas vezes se dá assim como muitos que andam de bicicleta, silenciosamente, na forma de imagens, atitudes, comportamentos e textos que empreendemos com o coração e que expomos com um pouco de naturalidade e um pouco de intenção no palanque que estiver à mão no momento – uma avenida movimentada de Porto Alegre ou um canto particular numa comunidade de blogs.

Acho importante as figuras carismáticas, mas suspeito que esse grande partido, sem plataforma definida, sem lideranças fixas, mas com toda a intencionalidade política do mundo, esse partido formado por pessoas que gostam de protagonizar mesmo sem nome, sobrenome, slogan e palanque, é o que mais vai crescer em 2013. Suspeito não: espero. Espero não: vou trabalhar também por isso.

Valioso legado

Tava pensando esses dias: uma das contribuições mais valiosas que a contracultura nos deixou foi uma linguagem amigável, jovem e atraente para falar de assuntos que em geral são tratados com desdém por quem não está ligado formalmente a uma religião ou a estudos filosóficos e morais. Navegação interior, busca por transcendência, amor universal, paz na terra, compaixão, interdependência, tudo isso raramente interessa ao público em geral a menos que venha embalado em cultura popular – e a contracultura permitiu isso.

Por contracultura entenda-se um caldeirão vago e gigantesco onde estou colocando os beats, suas influências (as filosofias orientais adaptadas ao ocidente, os poetas americanos ligados à natureza, o bebop) e seus sucessores (em especial a música pop das décadas de 50 e 60). Esse povo digeriu e embalou o que até então era considerado maluquice e/ou chatice, colocando papos do coração e da mente na mesa de uma cultura ocidental eminentemente materialista. Muitas vezes profunda e inteligente, claro, mas em geral materialista.

Nos anos 90, acho que vimos a decadência dessa linguagem e aí veio a cultura digital pra substituir o papo riponga no papel de manter de pé os assuntos do coração. Vida virtual, conexão mundial, colaboração, co-criação, revoluções articuladas pela rede, questionamento de regras vigentes: tudo isso começou com os escritores de cyberpunk, ganhou o mainstream com o Matrix e se tornou cotidiano com o fenômeno das redes sociais. De novo são assuntos universais e profundos envernizados com questões novas. Não fosse esse verniz, muito assunto não seria tratado.

Fica a questão: quando o papo maluco beleza da vida digital esfriar, qual será a próxima onda que vai nos permitir conversar, cantar e vestir a ideia de paz & amor?