Documentário sobre mais um pedacinho do Tibet no Brasil

20130514-140642.jpg

Acabou de sair um pequeno documentário em DVD com as cerimônias de 2008 que consagraram a Terra Pura de Padmasambava, o primeiro templo budista desse tipo no Ocidente construído de maneira totalmente tradicional. Pra resumir, é um pedacinho do Tibet aqui do lado, em Três Coroas, na serra gaúcha.

Além de cobrir as tais cerimônias, que duraram cinco dias, o filme também traz o depoimento de lamas budistas sobre o significado desse templo e entrevistas com artistas nepaleses e butaneses que trabalharam nas estátuas, nas pinturas e nos adornos. Só essa residência artística, na verdde, já mereceria um documentário em si, pois esses escultores, marceneiros e pintores deixaram um legado inusitao entre seus pares locais. Na verdade, alguns deles inclusive se casaram e hoje moram no Brasil. Estão por aí, espalhando técnicas e sensibilidades milenares que não costumam ser passadas adiante com facilidade por aqui.

No vídeo acima, tem uma palhinha, com o lama (e talentoso diretor de cinema) Dzongsar Khyentse Rinpoche explicando como funciona a noção de bem e mal, céu e inferno. Enfim, esse DVD é um documento único de uma feliz conjunção de fatores um tanto quanto inusitados.

Mais informações sobre o DVD e sobre como comprar aqui no site da Fundação Chagdud Gonpa.

Dicas de trabalho de uma ex-bike messenger

No vídeo abaixo, que eu tirei de um post da Fast Company, a ex-bike messenger Kim Perfetto conta rapidamente quais eram suas regras particulares pra conseguir se manter sã no trabalho de bike messenger, os “motoboys de bicicleta”, muito comuns em algumas cidades americanas.

http://www.fastcompany.com/embed/7e851acb4ccee

O tema do vídeo não é propriamente segurança de bicicleteiro no trânsito, mas sim que habilidades você desenvolve ao pedalar na cidade e que podem ser úteis em outras situações. Não espere nenhuma grande epifania, mas sempre acho esse universo interessante, especialmente na sua estética. Não é pra menos que os bike messengers já foram tema de romances, filmes e seriados.

Pensando alto: tá faltando no Brasil ainda um grande fenômeno de mídia que mostre a cultura dos motoboys, não? Acho que já aconteceu alguma coisa nichada, mas, se não me engano, nada ainda do nível das empreguetes da novela das sete…

Diários de Bicicleta: Ramilongando

46c355b6eaaaf824c8a0c69bfb70176b2ea61423_m

Num domingo de manhã, calor ameno em Porto Alegre, acordei e fui dar uma volta de bicicleta. Por ser fevereiro e muito, muito cedo, me dei ao direito de fazer algo não muito recomendável, que é enfiar fones nos ouvidos e transformar o passeio em um vídeo do YouTube ao vivo, gravado em primeira pessoa. Com as ruas praticamente desertas, mais parecendo locação de filme de zumbis, não houve grandes problemas, pelo contrário. Os zumbis de domingo de manhã em geral são inofensivos, ou estão paramentados para correr muitos quilômetros atrás de suas próprias metas ou estão bêbados demais para se mover.

Logo que saí do prédio, botei pra tocar o álbum “Ramilonga“, do Vitor Ramil. Nada menos esportivo, nada mais constrastante. O verão forte já se insinuando pelas frestas da manhã, eu descendo a Nilópolis acelerado e Vítor mandando ver sobre um violão gaudério e uma cama de cítara:

Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais

No embalo, desaguo na Protásio Alves, tão deserta quanto as entranhas de Petrópolis. A paisagem, como sempre, muda. Os prédios residenciais dão lugar à sequência de estabelecimentos comerciais e ao corredor de ônibus. As cortinas de ferro se enfileiram, um ou outro pedestre caminha em direção ao Parque da Redenção, o sol ainda não deu as caras em definitivo. E segue a milonga de Ramil.


Chega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

O viaduto da Silva Só me sobrevoa e a partir daí, ladeado pelo Hospital de Clínicas, já vislumbro as árvores a Redenção. Com o fluxo de trânsito ainda pingando, é possível cruzar a Osvaldo Aranha em qualquer ponto, não preciso dar satisfações a sinaleiras ou canteiros.

Sobrevôo os telhados da Bela Vista
Na Chácara das Pedras vou me perder
Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim
Nunca mais, nunca mais

Ouvindo o conselho de Vitor, Bom Fim nunca mais, deixo a Redenção de lado e invisto na Venâncio Aires rumando para o Gasômetro. Pelo menos 15 anos antes, nessa mesma avenida, eu costumava caminhar seis ou sete quarteirões pra pegar o ônibus até um dos meus primeiros empregos. Ia na direção contrária, literalmente, na época com um walkman e uma fita tocando Crooked Rain, Crooked Rain do Pavement. Quantas vezes não peguei o sol saindo por trás dos prédios da Cidade Baixa ouvindo Silent Kit? Era uma pequena benção.

O trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporal
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Trânsito nenhum me hipnotiza na Perimetral. Em velocidade, passo por Copacabana, o restaurante, e pedalo ritmadamente num asfalto colaborativo para com os ciclistas, excelente para pedalar, não tão bom para o escoamento das chuvas, que preferem a permeabilidade dos paralelepípedos. Certas estão elas, me identifico com essa necessidade e acelero para cruzar logo o prédio do Instituto da Previdência do Estado, que financiou minhas idas ao médico desde pequeno. Para filho de funcionário público do Estado, o IPE é uma instituição com um certo tom de divindade – conceitos que uma criança cultiva…

O tango dos guarda-chuvas na Praça XV
Confere elegância ao passo da multidão
Triste lambe-lambe, aquém e além do tempo
Nunca mais, nunca mais

Finalmente chego à beira do Guaíba, com mais movimento que o resto da cidade. A Beira-Rio, fechada para carros, está povoada de idades extremas: a essa hora, ela é dos velhos e das crianças. Claro, os paramentados para corrida também estão lá, mas, ei, não vamos estragar a poesia com o Nike Plus.

Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Desço da bicleta para olhar o rio. Botam a culpa no muro da Mauá e no poder público, dizem que eles nos fazem dar as costas para o Rio. Mas não é verdade. As costas são nossas, nós damos pra quem quisermos. Temos a liberdade de dar as costas pra cidade, mas somo tão apegados à bagunça que preferimos dar as costas pra serenidade do Guaíba. O desprezo é tanto que nos apaixonamos coletivamente pelo Pôr-do-Sol e esquecemos da água. Por não ser azul, por ser barrenta, a desconsideramos: preconceito de cor.

Ruas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca mais

Penso isso tudo sentado num banco com a bicicleta deitada à minha frente, preguiçosa, olhando o Rio. Senta-se ao meu lado uma senhora, cerca de 60 anos, talvez um pouco mais. Pergunta se pode me contar algo valioso, digo que sim. Diz, então, que o filho de vinte e poucos vagou muitos anos depois do fim do colégio. Viajou por aí, solto. Retornou, começou faculdade, trancou e viajou de novo. Dá pra sentir na voz dela a aflição de mãe ao ver o filho sem eixo, ao menos um que ela não consiga perceber. Mas, como tudo tem conserto, diz ela, uma hora o menino se ajeitou, voltou pra faculdade e ano passado concluiu o curso. O que daria uma grande alegria a ela: a formatura! Ela havia juntado dinheiro em segredo durante anos pra formatura!

Do Alto da Bronze eu vou pra Cidade Baixa
Depois as estradas, praias e morros
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Quando é a formatura, ela perguntou pra ele. Depois de amanhã, mãe. Mas como assim? Assim, mãe, formatura de gabinete. Ela ficou arrasada, frustrada. O que ia fazer com o dinheiro? Comprar uma TV? E com o sonho de ver o filho equipado, filmado, fotografado, diplomado no palco? Enfim, de qualquer forma, lá foi ela para o gabinete, se arrastando, aceitando as migalhas de glamour. Mas, durante a curta cerimônia, percebeu uma luz diferente no gabinete. Eram os olhos dos formandos. Ela viu ali a alegria genuína da conclusão de uma etapa. Meu filho estava feliz e isso era a única coisa que interessava. Aquilo foi o suficiente, aquilo preencheu o mundo. Isso é o que uma mãe mais quer, ver o filho feliz. Ele estava feliz, então pronto! Ela contou isso com brilho nos olhos também, como se ela tivesse se formado. E queria me contar mais coisas. E começou a falar da rotina da casa e da relação dela com o Facebook, ainda estava aprendendo, autodidata de Face. Uma solitária em família. E não parava mais e eu não conseguia ir embora.

Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais

Uma hora tive que cortar ela, pegar a bicicleta e sair. Tenho filho pequeno em casa me esperando, disse. Café da manhã em família. Tenho que ir. Subi e saí pedalando de volta. Havia muito o que pensar, tantas coisas edificantes, aquele pequeno pedaço de filme dos Irmãos Coen na minha manhã de domingo! Mas eu só consegui pensar uma coisa bem prosaica: essa gente toda, como eu, que tem blog e Facebook, onde nós colocaríamos tudo isso se não pudéssemos escoar aqui? Nós certamente sentaríamos na beira do rio e puxaríamos papo com o primeiro que chegasse. Me senti um pouco pobre de ideias e de empatia. Tanta coisa que eu podia desejar à essa senhora e eu só consegui desejar um blog.

Nada mais, nada mais

***

Imagens: daqui, daqui e daqui.

Carol Bensimon: vida e morte das cidades brasileiras

2013-03-24 13.19.07

Atenção povo que se preocupa com os rumos da sua cidade: a escritora Carol Bensimon produziu recentemente uma pequena pérola que serve de manifesto pra quem acha que a especulação imobiliária está deixando nossas ruas menos humanas, menos agradáveis e menos interessante. Na verdade, são dois textos que saíram no Caderno de Cultura da Zero Hora (parabéns ao editor) mas que deveriam estar nas primeiras páginas do jornal – de preferência antes dos anúncios de construtoras.

Em “Crescimento desordenado de Porto Alegre acabou criando sensação de desconforto” e em Pelas ruas da cidade, a Carol reuniu alguns dos principais argumentos de urbanistas e filósofos para contrapôr a lógica da atual expansão imobiliária, que na verdade não tem realmente uma lógica. Ao menos uma lógica aceitável. Na esteira de um plano diretor aparentemente comprometido mais com o negócio das construtoras do que com quem quer viver bem, centenas de terrenos arborizados e pontuados com casas antigas em Porto Alegre vem dando lugar a condomínios anódinos de prédios altíssimos que transformam bairros inteiros em zonas exclusivamente residenciais. Com pouco comércio de rua, com os moradores empoleirados em apartamentos de janelas minúsculas, totalmente distantes de qualquer atividade na calçada, esses bairros acabam parecendo mais perspectivas em 3D do que lugares realmente confortáveis pra se viver – é o que levantam os artigos.

Nesse cenário, uma das ironias mais tristes sublinhadas pela Carol é o nome desses condomínios. Geralmente eles são inspirados em bairros charmosos e interessantes da Europa, locais de arquitetura clássica preservada, de edificações mais baixas, de jardins mais convidativos e de intensa movimentação na rua. Importa-se apenas o nome e, talvez a programação visual para o logotipo e para o folder de vendas. Raramente o estilo de vida.

São complexas as causas desse fenômeno e dificilmente dá pra apontar um único responsável. Tem as construtoras, tem a Prefeitura, tem o momento econômico, tem o momento cultural. Mas essa teia de relações não nos exime de pensar e questionar. Frequentemente flutua a ideia de que certos caminhos são inevitáveis, mas isso não é verdade. Se é possível pensar diferente e escrever diferente, como a Carol fez, tenho certeza que é possível fazer diferente. Não é fácil, não é rápido, mas é possível e começa bem assim, por proclamar e passar adiante uma outra mentalidade que não a dos vetores acelerados do imediatismo.

***

A foto lá em cima é da quadra em frente ao meu apartamento, cheia de casas. Metade dela (talvez mais) será botada abaixo pra receber um condomínio novo. Além de um pouco de vista, vamos perder todas essas árvores dos quintais e os cachorros que latiam quando a gente passava em frente.

Retiro de Rua no Brasil

20130315-151834.jpg

Retiros de rua são uma tradição espiritual recente, uma espécie de revisão dos antigos retiros em florestas ou montanhas criada por Bernie Glassman, sobre quem já escrevi algumas vezes aqui. Essa modalidade de retiros é muito simples: vive-se e medita-se nas ruas por alguns dias. Dorme-se ao relento (para evitar ocupar um lugar de um sem teto nos abrigos) e come-se onde os sem teto indicarem. Em 2011 e 2012 aconteceram os primeiros retiros de rua no Brasil e resgatei aqui embaixo o relato de um participante que foi publicado numa Vida Simples no ano passado. Leitura altamente indicada para quem se interessa pelas novas relações que estão se formando com os espaços urbanos.

Ps: originalmente eu tinha colocado imagens pequenas aqui, que não dava pra ler. É melhor ir direto no blog do Monge Koho, participante dos retiros e agora autorizado a liderá-los no Brasil.

Doc: Al Polonio Dejalo Ser

Não sei se muita gente sabe, mas o litoral do Urugaui virou, na última década, na nova Santa Catarina de uma fatia dos gaúchos. Empurrados para o Sul pelos paulistas, que tomaram conta de Santa, tem um povo dqui que tem escolhido descer em vez de subir no verão. E à medida em que mais gente aporta no Forte de Santa Tereza, em Punta del Diablo, em La Paloma, em Maldonado e em Punta del Este, os que gostam de sossego fogem pra Cabo Polônio.

Sem luz elétrica, Cabo Polônio atrai pela total rusticidade e por uma aura inexplicável em palavras, mas que parece ter sido muito bem captada por esse documentário média metragem do portoalegrense Paulinho Azevedo e a mexicana Katia Morales Gaitan (tem entrevista com o Paulinho no site da Trip)

Polônio também é célebre por ter inspirado o Jorge Drexler não apenas a compor uma música (vídeo acima), mas também ter servido de refúgio para a criação de um disco inteiro, o ótimo e introspectivo 12 Segundos de Oscuridad. O título diz respeito ao tempo que a luz do farol está dando a volta em relação ao observador, deixando-o no escuro.

Nunca fui a Cabo Polônio, apenas a Punta del Diablo e ao Forte de Santa Tereza, que ficam perto. Mas pelo doc. ali em cima e pelo disco do Drexler (que já ouvi um milhão de vezes), fica fácil imaginar qual é a de Polônio. Também dá uma certa vontade de não escrever sobre ele e não contar pra ninguém pra não estragar o lugar. Por outro lado, já que escrevi, segue a ressalva: espero que a especulação imobiliária e a obsessão desenvolvimentista que andam regendo nossos tempos não estraguem o lugr.

Diários de Bicicleta: o olhar que precede a mudança

bike costume_1198048769

Ao incorporar a bicicleta de volta na minha vida, eu sabia que seria inevitável incorrer em alguns clichês. Soar um pouco militante de vez em quando é um deles. Resmungar com o trânsito dos carros é outro. Descobrir que Porto Alegre, além de morros, tem aclives leves e traiçoeiros seria um terceiro. Mas o quarto é o mais contrangedor: me surpreender com o contato direto com a vida na rua depois de anos andando apenas de carro.

A soma de quatro anos vivendo em cima do morro Santo Antônio com mais dois numa subida de Petrópolis, estes combinados com as demandas da vida em família (supermercado, colégio, médico), mais a vida de banda (ensaios e shows com equipamento pra lá e pra cá) e condições financeiras pra manter um carro próprio acabaram relegando as caminhadas (que adoro) apenas ao status de eventual exercício aeróbico (que não gosto). Dessa forma, nos últimos anos acabei caindo na armadilha de viver Porto Alegre pela janela do motorista ou pelos retrovisores. Às vezes, por mais que você se esforce, a configuração prática da vida discorda de algumas aspirações urbanas e o que deveria ser natural – o curtir sua cidade com um pouco mais de contato direto – exige uma mudança de paradigma ou um aporte de energia extra. Duas soluções que nem sempre estão disponíveis para todos, algo que muitos militantes da bicicleta teimam em não entender.

Pra minha felicidade, algumas novidades no meu esquema profissional nos últimos seis meses permitiram que eu voltasse a andar de bicicleta com muito mais frequência, inclusive para trajetos que antes eu só fazia de carro. E o inevitável aconteceu: descobri que existia um mundo inteiro que andava me escapando. Como eu disse, é um clichê constrangedor e revestido de algum conteúdo social (sei que muita gente não tem opção a não ser viver radicalmente a rua e o transporte coletivo). Mas aconteceu, fazer o quê.

A Protásio Alves é uma das ruas que acabou se tornando parte da minha rotina, uma vez que ela é o escoamento natural pra quem desce Petrópolis de bicicleta. Via de ligação do centro com a área leste da cidade, a Protásio mantém o status combinado de avenida-que-deveria-ser-expressa com rua-de-comércio-local. Ao longo de praticamente toda a Protásio, amontoam-se padarias, resaurantes, lojinhas de material escolar, lavanderias, lojas de decoração, bancas de revista, mercadinhos, lojas de 1,99, lojas de calçado, mecânicas automotivas, farmácias, tudo isso praticamente sem estacionamento em frente aos estabelecimentos e com calçadas estreitas, ou seja, não tem muito clima pra passeio. Ainda que isso tudo caracterize uma espécie de anomalia, é também uma configuração de resistência: o comércio de rua na Protásio, de um jeito ou de outro, empresta um pouco de humanidade para uma avenida massacrada pelo trânsito intenso. Ao menos, ela fica bem menos fantasmagórica do que a Terceira Perimetral, com suas sessões repetidas de condomínios de escritório.

Descer a Protásio de bicicleta não é uma experiência muito agradável, especialmente devido ao trânsito pesado, truncado e ao pouco espaço na rua e nas calçadas. Mas ao menos rende uma olhada nas vitrines, o cruzar com moradores e passantes e, especialmente, um lanche no Priscilla’s (um pequeno café de inspiração americana escondido na Domingos José de Almeida, que de carro eu nunca tinha tempo pra chegar). Cruzando por baixo o viaduto da Silva Só, se trava contato com uma comunidade de sem-teto, uma visão sempre triste, mas menos triste do que constatar que de alguma forma essas pessoas conhecem as fronteiras sociais dos bairros e não costumam ser vistas com muita frequência na parte mais privilegiada de Petrópolis, nos arredores da pracinha da Encol.

E por acaso eu não via tudo isso da janela do carro? Claro que via (e continuo vendo quando saio motorizado na maior parte dos dias). Mas é diferente. De bicicleta, dá pra parar e de qualquer forma, você está mais exposto, menos recoberto por camadas de armadura, está numa velocidade mais lenta, que permite um outro tipo de olhar. Como diz David Byrne, no livro que dá título a essa seção, “Esse ponto de vista – mais rápido que uma caminhada, mais lento que um trem e muitas vezes ligeiramente mais elevador que o de uma pessoa – passou a ser minha janela panorâmica (…). Uma janela enorme e geralmente com vista para um cenário urbano. Através dela, eu acompanho fragmentos de como são as mentes das outras pessoas, que se expressam em meio às cidades onde elas vivem.”

Acho que Porto Alegre está num momento em que há pessoas querendo resgatar esse olhar. A cidade merece isso, sempre mereceu. Há a ideia de que ela precisa ser limpa e arrumada antes de merecer esse olhar, mas isso é sacanagem com Porto Alegre: o novo olhar, ou o resgate de um certo olhar, precede a renovação. Se não enxergarmos a cidade que queremos antes de reconstruí-la, como essa nova face vai se manifestar? Vai brotar de onde? Não é de planos e planejamentos, é antes de um olhar mais aberto, compassivo e que enxergue o que a cidade tem a oferecer mesmo por baixo de suas mazelas, mesmo por trás das filas intermináveis de carros que abarrotam as nossas ruas e avenidas.

É: andar de bicicleta dá o que pensar.