Tommy Kambota, campeão mundial de Não Vale Pisar nos Risquinhos nos anos 80

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Publicado originalmente na revista Void número 99.

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Um papo com Tommy Kambota

Quando o dentista Tomás Caetano, 47, entra no café que fica dentro do supermercado Zaffari do Menino Deus, em Porto Alegre, ele demora um pouco até chegar à minha mesa. Antes de sentar para começar nossa entrevista, precisa dar atenção aos funcionários e clientes do café, que o reconhecem e querem trocar cordialidades. Caetano é especialmente popular entre os idosos, os quais são a maioria dos presentes nesse horário (quase quatro da Tarde), mas os jovens funcionários também fazem questão de estender a mão por cima do balcão e cumprimentá-lo. Quando finalmente o tenho só para mim, faço menção de me levantar para recebê-lo, mas ele interrompe meu movimento com a mão: “Capaz, fica aí sentado.” A atendente vem logo atrás com um café duplo encimado por chantilly e polvilhado com canela que Caetano nem precisou pedir. “Foi assim nos anos 80”? Perguntei a Caetano. “Foi” ele disse. “Pra mais ou menos umas seis pessoas.” E solta uma gargalhada cavernosa.

Ninguém no café sabe, mas nos anos 80 Tomás Caetano foi Tommy Kambota, o único campeão mundial de um esporte radical que teve uma vida curtíssima porém muito rica enquanto subcultura. “Eu não sabia que isso existia como esporte.” me conta Kambota do alto dos seus quase dois metros sólidos e bem distribuídos em um corpo de 80 quilos coroado por cabelos precocemente brancos. “Pra mim, era uma brincadeira de criança que eu segui fazendo quando cresci. Eu fazia isso escondido, porque se fizesse na frente dos outros iam dizer que eu tinha problemas mentais. Quem é que com 16 anos ainda brinca de Não Vale Pisar nos Risquinhos? Então, quando um amigo meu que tinha parentes em Portugal voltou de lá com um fanzine punk que falava disso, eu fiquei louco. Pensei – bah, achei minha turma!”

Criado em Portugal por filhos entediados de imigrantes angolanos, o Não Vale Pisar nos Risquinhos antecipou em quase uma década a onda do Street Skate nos Estados Unidos e em quase duas décadas a criação do Parkour na França. A simplicidade de seu funcionamento é seu maior trunfo. O praticante de Não Vale Pisar nos Risquinhos escolhe um trecho de calçada qualquer e se propõe a atravessá-lo sem pisar no cimento que une as pedras e sem apoiar as mãos em lugar algum. Como o Street Skate e o Parkour, os melhores atletas de Não Vale Pisar nos Risquinhos são os que estabelecem um diálogo com a cidade e os melhores circuitos em geral dependem das imperfeições e das idiossincrasias da arquitetura urbana. Quanto mais _difícil_ uma calçada, melhor.

Quando leu no fanzine punk português Cadáver Esquisito que angolanos malucos estava fazendo sessions de Não Vale Pisar nos Risquinhos em calçadas dos subúrbios de Lisboa, Kambota se sentiu autorizado a sair do armário como atleta street da modalidade. Quem o vê hoje, de terno e gravata ou de jaleco de protesista, não imagina. “Até essa época, eu pegava umas ruas menores e escondidas, como a Barão do Tefé ou a Uruguaiana. Mas depois de ler a matéria eu pensei – ah, foda-se… eu botava o meu Adidas Marathon, que tinha uma ponta boa, botava uma bermuda e uma camiseta da Ocean Pacific, que era moda na época, um boné pra conseguir enxergar bem no sol e mandava ver. Às vezes, eu saía de casa às três da tarde e ficava fora até a meia noite, pra desespero dos meus pais. Na época não tinha celular e era normal a gente ficar na rua, mas eu sempre exagerava. É que eu realmente fiquei obcecado com Não Vale Pisar nos Risquinhos. Pisar era uma cachaça.”

“Pisar” é como os praticantes de Não Vale Pisar nos Risquinhos se referem às sessions. Aos 16 anos, sem interesse em skate, surf ou bicicross, Kambota assumiu sua idiossincrática cachaça  e passou a pisar diariamente, primeiro cobrindo todo o seu bairro, o Menino Deus. “Aqui era perfeito porque tinha uma variedade de calçadas muito grande. Do lado de lá da Getúlio eram umas ruas com casas mais simples, com aquelas calçadas de basalto irregular, sabe? Que é como o cara começa, umas pedras maiores… Mas as melhores calçadas pra pisar estavam aqui desse lado da Getúlio, na Ganzo e na Bastian. Tinha até uns trechos com umas pedras portuguesas minúsculas que, nossa…” Kambota bufa, como que revivendo por alguns segundos a emoção de dobrar uma esquina e dar de cara com a calçada perfeita – ou imperfeita.

Durante anos, Tommy Kambota pisou solitário explorando Porto Alegre inteira, não encontrando mais ninguém que dividia a obsessão e ganhando fama de maluco no bairro. “Quando tu pisa por muitas horas, tu entra num tipo de transe, porque tudo que tu vê são os próximos dois ou três metros. Tu adquire um tipo de visão tubular que turva tudo ao redor e foca só num corredor estreito que fica bem na tua frente. As pedras parece que sobem alguns centímetros do chão e pra quem pisa bastante é muito simples encontrar o próximo ponto de apoio, porque tu fica com o olhar treinado. É parecido com quem escala na mão, sabe? O cara vê agarras onde ninguém vê. Pois é, pra mim é a mesma coisa com as calçadas, onde tu só vê umas pedras bagunçadas, eu vejo um caminho claro. Eu não enxergo mais nada, eu me concentro cem por cento.”

Curiosamente, o caminho do que fazer com aquele hobby não era tão claro para Kambota. Já com 17 anos e prestando vestibular para odontologia, ele continuava não encontrando parceria para conversar ou praticar Não Vale Pisar no Risquinhos. Mas os fanzines bissextos que chegavam de Portugal o fizeram não desistir. “Eu comecei a me corresponder com os punks de Portugal sim, mas só pra descobrir o endereço dos angolanos. Os punks europeus eram muito loucos, muito politizados. Eu não tinha estofo pra conversar com eles. O cara que escreveu a notinha sobre o Não Vale Pisar nos Risquinhos de lá tinha perdido contato com aquela turma, então eu tive que ficar me correspondendo com eles só pra encher linguiça e convencer eles a procurarem alguém que conhecesse. Um dia rolou. E foi muito louco.”

A conexão direta, via carta, com a pequena turma de angolanos que pisavam na periferia de Lisboa rendeu oito meses de troca de perspectivas sobre o esporte. “Os angolanos tinham uma visão bem poética da história toda. Eles falavam coisas do tipo ‘queremos escrever a crônica definitiva nos cadernos da cidade.’ E eu pensava – então tá né? Eu tinha uma relação mais prática com o Não Vale Pisar nos Risquinhos. Eu queria era pisar, eu queria a experiência direta de me perder na calçada.” A turma era pequena: dois lisboetas e três angolanos vivendo em Lisboa e mais um angolano que ficou em Angola. Mas a correspondência era rica. “A gente trocava muita foto de calçada com anotações de vias e de técnicas de pisada. Também tinha uma ideia de fazer intercâmbio de tênis, mas nunca aconteceu porque a gente era tudo guri novo, sem dinheiro, né? O nossos sonho era ser que nem o pessoal do skate e do surf: ter marcas próprias do nosso esporte, uma cultura visual só nossa. A gente desenhava alguns tênis, umas roupas, uns logotipos, mas era tudo viagem. Acho que o número de praticantes de Não Vale Pisar Nos Risquinhos nunca passou de nós sete.”

Pergunto sobre o campeonato e ele dá uma risada jogando a cabeça pra trás. “Isso foi outra maluquice. Porque se a gente não tinha dinheiro pra trocar tênis, imagina pra viajar. Viajar pra outro país era coisa de milionário nessa época né? Isso era o quê? Oitenta e sete? É. Mas a gente fez o seguinte: a gente decidiu que ia fazer o campeonato por vídeo. Cada um ficou de arrumar um jeito de gravar uma pisada sua em VHS e todo mundo ia mandar pro Michel, um dos angolanos de Lisboa. Ele editou tudo numa fita só e a gente ia mandar pelo Correio um pro outro, fazer um circuito. Cada uma que recebia a fita, fazia uma ficha votando com notas nas pisadas dos outros. O circuito inteiro demorou seis meses e a apuração do Michel deu que eu fui campeão. Recebi um pacote com uma cópia da fita e uma faixa feita pelo pessoal de Lisboa. Foi uma sensação incrível… imagina, tu acha que tu é o cara mais esquisito do mundo e recebe um reconhecimento que, de certa forma, te legitima. Foi muito emocionante, mas eu não contei pra ninguém, foi uma viagem que eu vivi pra mim mesmo.”

O primeiro Campeonato Mundial de Não Vale Pisar nos Risquinhos foi também o último. “A turma de Lisboa foi toda presa numa viagem pra Angola. Eles eram parte de um esquema de mulas de heroína e cocaína. Quem me contou foi o Felizardo, que morava em Luanda mas que fugiu pra Moçambique depois dessa história. Eu fiquei apavorado, tava trocando cartas com fotos e uma fita de vídeo com uns caras que faziam parte de uma rede de tráfico! Imagina, eu tinha 16, 17 anos, fiquei apavorado, queimei tudo, as cartas, as fotos, a fita, a faixa, até meus tênis e as roupas que eu usava pra pisar. Aí fiquei meio bloqueado com isso. Junta com o fato da faculdade estar começando a pegar forte, não só os estudos, mas as festas também, comecei a sair com umas gurias e aos poucos deixei essa história pra trás.”

Caetano me pergunta como é que eu descobri isso tudo e como cheguei nele. Conto da minha pesquisa de fanzines punk portugueses, de como achei a notinha sobre Não Vale Pisar nos Risquinhos e seu redator, Felizardo. Relato que Felizardo está vivo e bem, tocando sua banca de revistas em Maputo, que me deu seu nome verdadeiro e o antigo endereço. Depois, foi um pouco de pesquisa de campo e algum Google para chegar no telefone do consultório. Ele me escuta surpreso, como se eu fosse um tipo esquisito – uma rápida inversão de perspectivas. Mas logo volta ao modo simpático que conquista os velhinhos e balconistas do Menino Deus. Anuncia que precisa voltar ao trabalho de protesista e se levanta para me dar um abraço. Pede para eu enviar a matéria a ele por email quando for publicada; se despede de todo mundo; oferece para colocar meu café na sua conta e sai pelo hall do supermercado – sem olhar para trás, olhando apenas à frente, provavelmente esquadrinhando o chão com seu olhar tubular e sua concentração incomum. Eu dou uma caminhada rápida até a porta e grito, antes que ele dobre a esquina da Avenida Ganzo: “Kambota! Não esquece: não vale pisar nos risquinhos!”

O papel do design estratégico na construção de uma cidade mais humana – e vice-versa

 nos A ideia de que os próprios cidadãos podem se organizar em grupos autônomos e não depender de Governos e empresas para melhorar as cidades onde vivem parece estar passando por uma segunda onda de evolução no Brasil. Após os protestos de junho de 2013, que estabeleceram um marco histórico e político junto a todo e qualquer movimento social e criativo, restou uma pergunta: e agora? O que fazer? Pra onde ir? Alguns setores políticos, tanto à esquerda quanto à direita, enunciaram a questão com escárnio, desdenhando o efeito difuso dos protestos. Outras cabeças, mais ligadas, transformaram a dúvida em investigação estratégica, buscando respostas estruturais e de longo prazo baseada em vivências e não apenas em teorias empoeiradas, gritos de ordem autistas ou críticas sarcásticas.

A consultora de design estratégico e planejadora Carla Link é um desses exemplos. A tese de mestrado dela em Design Estratégico (resumo da defesa logo acima) não estava diretamente ligada às Jornadas de Junho. Mas ao propor uma investigação da atuação de coletivos urbanos com a lente rigorosa e sistemática do Design Estratégico, a Carlinha descobriu o território lodoso e fascinante da intersecção entre prática e teoria quando se trata de tornar nossas cidades mais humanas. Abaixo, segue um papo que tive por email pra esmiuçar mais o que ela viveu durante o processo do mestrado e da relação com o coletivo Ocupe e Abrace, responsável pela revitalização de uma praça na Pompeia em uma das cidades mais desafiadoras do mundo quando se trata de humanizar espaços urbanos: São Paulo.

Conector: De onde surgiu a vontade de cruzar o tema do Design Estratégico com o de cidades mais humanas e criativas?
Carla: Tudo começou com uma ida a Nova Iorque depois de quase dois anos morando em São Paulo. Em primeiro lugar, vi que uma cidade que é centrada nas pessoas, que valoriza os espaços públicos e possibilita o uso de meios alternativos de deslocamento já é impressionante pra uma nova paulistana, que demorou um pouco para se adaptar ao tempo da cidade ( que é muito diferente de Porto Alegre). Além disso, eu tive oportunidade de ir em duas exposições fantásticas que tratavam do assunto. Uma foi a exposição interativa sobre os 100 anos da IBM, focada em smart cities. Lá, eles mostravam diversos casos e projetos, incluindo o Rio de Janeiro, onde a leitura de dados apoiava o desenvolvimento e melhoria dos sistemas urbanos. Segundo, no MoMA, havia uma outra exposição chamada Talk to me, que tratava justamente de como o design apoiava diferente diálogos e interações na cidade. Esses foram os três principais estímulos. Eu já estava lendo e descobrindo mais sobre a maneira de pensar do design e essas referências me fizeram enxergar uma possibilidade de ação. Que seria usar as minhas habilidades da carreira em comunicação pra repensar o diálogo entre cidade e pessoas.

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Conector: Por que tu escolheu estudar o caso do Ocupe e Abrace especificamente?
Carla: Bom, eu decidi fazer meu projeto sobre São Paulo por ser a cidade mais caótica do Brasil. E a minha ideia inicial era unir duas referencias teóricas: smart cities, que utilizam os dados e a tecnologia como base para novas relações, e as comunidades criativas, que se conceituam pela união das pessoas pra geração de uma nova solução pro seu próprio cotidiano. Eu queria explorar como São Paulo estava sendo impactada por essas forças. Comecei um super mapeamento de iniciativas na cidade e acabei encontrando uma plataforma de inovação aberta chamada Cidade Democrática, que estava começando um processo de geração de ideias para o bairro da Pompeia, vizinho a Perdizes, onde eu morava na época. Aí, eu comecei a participar dos encontros de co-criação e, ao mesmo tempo, a conversar com pessoas de outras iniciativas. Aos poucos, alguns moradores decidiram montar um grupo pra colocar uma das ideias em prática: a revitalização da Praça Homero Silva, o único espaço verde do bairro. Eles se juntaram com outros dois movimentos que estavam começando. A criação do grupo se mostrou um exemplo prático das teoria das comunidades criativas e eu acabei participando de toda a concepção. Ao mesmo tempo, tive que desistir do tema de smarts cities porque em São Paulo não havia investimentos nessa esfera. Então, inicialmente minha ideia era focar na cidade e, aos poucos, à medida em que vi o grupo nascendo e crescendo, percebi a riqueza de explorar esse movimento que estava propondo uma nova visão da cidade. Foi um pouco do destino, um pouco de sorte e, no fim, um foco mais específico pro meu projeto.

Conector: O que te surprendeu mais ao ir a campo, ao confrontar tuas primeiras ideias e teses com a realidade? O que tu sentiu que é uma questão urgente da rua, distante da teoria?
Carla: Pra mim, foi um grande choque de realidade participar das discussões e propostas do grupo. Vinda da área de propaganda e das grandes marcas, demorou pra eu entender que a relação que as pessoas estavam propondo pro espaço era pequena, local e orgânica. Ou seja, feita pelas pessoas e pras pessoas do bairro. Rapidamente surgiram possibilidades de grandes marcas patrocinarem a primeira iniciativa, o Festival na Praça, e o grupo foi totalmente contra. Claro, o objetivo não era a propagação da ideia e o ineditismo da iniciativa, ou o quanto é hype, cool, trendy, mas sim de criar uma nova proposta de relação entre os vizinhos e aquele espaço. Se uma marca viesse patrocinar aquele evento, seria um “statement” da marca e não das pessoas. Foi importante esse choque de visões, que acontecia a todo instante pelo desejo de entender o objetivo real do grupo e dos seus interesses. Acho que o meu grande aprendizado no projeto foi entender que esse “despertar” sobre a cidade não é natural e fácil. As pessoas precisam voltar a se relacionar com a cidade, porque elas são a cidade. Só que isso não é mais tão claro. A gente vive nessa correria da garagem pro shopping, do carro pra casa e não nos perguntamos mais: qual é a cidade em que gostaríamos de viver? A partir disso, podemos ser propositivos e fazer movimentos que levem à construção dessa cidade.

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Conector: Tu acha que essas questões de ocupações urbanas criativas estão sendo bem cobertas pelo pensamento acadêmico? Há linhas teóricas cobrindo isso e processando em tempo real? Ou há uma linhagem mais antiga de estudo?
Carla: Acredito que sim, que está sendo bem coberta, mas as transformações são muito mais rápidas do que o nível de produção acadêmica. Hoje, a evolução e maturidade do Ocupe e Abrace me levaria a uma outra análise e a uma outra proposta de projeto. Nós, acadêmicos, estudamos e registramos um momento/espaço-tempo, porém o projeto cresce, ou até muitas vezes morre mais rápido. Há movimentos como o DESIS – Design for Social Innovation and Sustainability, na área de design, que mapeiam essas iniciativas e a troca. Vejo muitos projetos na área de arquitetura, mapeando e propondo novas relações das pessoas com o espaço. A própria USP, através da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, tem iniciativas acadêmicas aliadas ao universo prático da cidade – como o projeto LabVerde, que traz o pensamento da permacultura ou da relação das pessoas com os rios. Inclusive, nós estamos tentando um termo de cooperação junto à Subprefeitura da Lapa, distrito do qual a Praça faz parte, pra implementação de um projeto estrutural pra praça feita por esse núcleo da FAU.

Conector: O teu estudo teve um impacto na forma como o Ocupe e Abrace age?
Carla: Pouco. Como o grupo estava nesse momento de formação, eu fiquei mais como uma observadora entendendo como as relações estavam sendo criadas. Em alguns momentos, como no workshop que propus com o grupo, apresentei minha visão sobre o coletivo e minha leitura do grupo. Mas no mestrado eu não faço uma proposta metodológica e sim uma análise e um levantamento de diretrizes projetuais. Foi sobre o que eu aprendi com o grupo, não sobre o que eles aprenderam comigo. Aos poucos eu fui trazendo minhas percepções, mas não tive tempo de apresentar todas as visões para eles ainda.

Conector: Qual tu acha que é a principal dificuldade para grupos que trabalham com ocupação criativa?
Carla: São diferentes níveis. O primeiro obstáculo são as próprias pessoas, elas entenderem que um novo tipo de convivência e ocupação é possível. Muita gente é negativa, descrente, e nos vê como baderneiros porque colocamos música e vida num espaço antes abandonado. Nosso propósito, por exemplo, sempre foi o da ocupação amorosa e inclusiva. Cada vez que vemos um senhor ou senhora de idade na praça é uma festa! Porque eles já viram esse espaço abandonado por muito tempo e também viram diversas tentativas frustadas de mudança. Então é um esforço constante de convencimento pras pessoas irem, participarem, ocuparem e se sentirem pertencentes àquele espaço. Dentro do próprio movimento, ainda são poucas pessoas atuando propositivamente e liderando iniciativas. O segundo obstáculo é de comunicação. Vivemos com a facilidade dos meios digitais, mas um projeto local precisa do contato mais pessoal e offline. É difícil manter isso e na praça não chegamos em um modelo ideal. Não há indicações sobre o grupo ou nosso propósito no local. Há um esforço dos participantes que moram mais próximo à praça de conversar com os vizinhos, falar da praça. Já usamos cartazes e carros de som. As atividades culturais, como a música, também atraem novos curiosos. O terceiro obstáculo é o burocrático. O formato “coletivo” ainda é muito novo e juridicamente ilegítimo como um tipo de sociedade organizada, diferente das associações de bairro. Isso complica inclusive como captar dinheiro e formas de viabilizar nossas propostas. Além disso, também estamos aprendendo a conviver com os órgãos públicos e seus processos.

Conector: E qual é o lado fácil?
Carla: A união dos grupos. Aqui em São Paulo está acontecendo uma troca muito grande entre os coletivos. O nosso coletivo já foi convidado pra apoiar outras iniciativas, assim como diversos grupos nos apoiam diretamente – promovendo atividades, melhorias, formas de viabilizar. Vejo cada vez mais a cidade como um laboratório de experimentação, e é lindo ver as conquistas de cada grupo.

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Conector: Existe uma resistência ao uso de um pensamento sistemático como o Design Estratégico? Os grupos que tu mapeou tinham uma abordagem sistêmica e estratégica das suas ações ou eles estavam simplesmente respondendo organicamente a demandas coletivas?
Carla: Acho que depende muito, já são muitas iniciativas na cidade que estão exercitando novos formatos pra se tornarem sustentáveis. O Cidade Democrática, por exemplo, é uma iniciativa do Instituto Seva e venceu um edital, posteriormente ao projeto da Pompeia, pra apoiar o desenvolvimento de um plano pras cidades do Xingu. Eles são uma ONG. Sei que um outro coletivo se tornou uma empresa. Então, depende muito. Já está acontecendo uma “profissionalização” e um movimento de sustentabilidade do grupo e de seus membros. É interessante ver isso, porque o impacto das ações é tão positivo, que demanda mais tempo e novas iniciativas. Uma replicação de boas práticas, que necessita de um investimento de tempo e recurso das pessoas.

Conector: Existe uma proximidade dos grupos de ocupação criativa com os movimentos sociais ou são segmentos diferentes?
Carla: Isso está relacionado à minha resposta acima. Acho que sim, até por esse teste de formatos e possibilidades de atuação dos grupos de forma mais intensa. Também pela troca que há entre os grupos. Acho que a grande questão está no papel das marcas, que ainda não é muito claro ou visível. Acho que tem espaço para encontros e viabilidades por parte das marcas. Numa relação diferente do que existe hoje, menos de patrocínio e mais como uma instituição que pode gerar novas trocas na cidade.

Conector: E o teu estudo teve um impacto na tua vida, no jeito como tu te relaciona com a cidade onde tu mora?
Carla: Totalmente. Digo que encontrei meu ponto de equilíbrio com São Paulo. Cheguei ao ponto de escolher esse bairro pra viver quando precisei me mudar. Eu sempre sentia falta de um espaço mais social na minha vida, mas eu não sou muito próxima da ideia de voluntariado. Sou proativa e muito propositva. Gosto de gerar ideias. E o coletivo e a praça, como nosso espaço de experimentação, me permite isso. Além disso, a convivência com os espaços do bairro e com as pessoas é incrível. Já fui reconhecida como a moça da praça, passei a conhecer meus vizinhos, a ter contato com outros moradores e conhecer suas histórias de vida. E a ter um domingo em família, já que sempre tem atividades na praça nesse dia. Converso com senhores de 80 anos, com crianças, com casais, com donos de cachorro, com artistas, com outros grupos… E sinto mais vontade de explorar a região, valorizar os comerciantes daqui, vontade de cuidar do espaço. Já limpamos muito lixo da praça, já capinamos, já pintamos… me traz uma satisfação pensar que estou contribuindo para uma cidade melhor. Eu vivo em outra São Paulo, vivo uma cidade incrível e em transformação. E não vejo mais aquele espaço cinza, caótico e congestionado.

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Leitura Complementar:

– Post da Carlinha sobre a história do Ocupe e Abrace no Social Good Brasil.
– Um manual prático de design para impacto social.