Dez fotos que provam que Montevidéu é um lugar único

Fim de semana passado, estive em Montevidéu e foi irresistível fotografar alguns sinais do quão “rara” é essa cidade. Afinal, como não curtir uma capital que…

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1) Tem esse par de placas em pleno centro:

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2) Tem uma revista semanal com nome de seriado dos anos 80:

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3) Tem uma torta com nome que lembra um clássico da Sessão da Tarde:

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4) Tem um armazém que anuncia sua qualidade com uma vaca voando:

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5) Tem vending machine de erva-mate:

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6) Alerta gentilmente os ladrões do significado de sua atividade:

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7) Tem uma rede de supermercados com nome evangélico:

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8) Tem a coisa mais hipster e sustentável do universo, um triciclo de madeira:

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9) Tem um minimercado que reacende meu senso de humor da sexta série:

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10) E, por fim, tem um restaurante que deve ser do Renato Aragão.

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Qual é a sua praia?

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Não sei qual é a origem da expressão “qual é a sua praia?” mas adoro a maneira como ela revela uma das formas que os brasileiros mais gostam de usar pra se classificar. Sendo parte de uma nação que foi formada a partir de uma incursão pelo litoral e cujo processo de interiorização foi épico, faz sentido que um brasileiro possa se definir com base nessa questão cheia de nuances e possibilidades. Perguntar “qual é a sua praia?” querendo saber “qual é a sua”, “qual é o seu jeito”, “qual é o seu gosto”, “qual o seu interesse”, deixa claro o quanto a praia é pano de fundo da personalidade nacional, nem que seja como contraste ou negação. Ou seja, a pergunta é tão universal e eficiente que você pode responder que “a sua praia” é ficar dentro de casa, no ar-condicionado, bem longe da praia.

Essa universalidade é uma qualidade da própria palavra “praia” no contexto brasileiro. Por baixo de todos os clichês praianos que “praia” evoca, se esconde uma quantidade incalculável de diferentes experiências e culturas. Eu e você podemos ter frequentado a mesma praia a vida inteira e mesmo assim daremos respostas completamente diferentes se nos questionarem literalmente “qual é sua praia?”. Não apenas para um carioca e um gaúcho “praia” tem significados distintos, como um carioca de 60 anos de Copacabana, um de 15 anos da Barra e um de 32 que mora em Realengo terão muito a dizer sobre praia sem necessariamente concordar.

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Provavelmente, o que cada um considera “sua praia” tem origem na praia que frequentou na infância. No meu caso, cresci veraneando nas praias do Rio Grande do Sul, o que por si já traz uma série de registros peculiares. O litoral gaúcho é conhecido pela sua sobriedade: uma linha reta do Chuí a Torres, sem recortes ou baías, banhada por um Atlântico frio, ventoso e, às vezes, de tons achocolatados. O mar aberto propicia a formação constante de dois fenômenos infames, que me assombraram por muito tempo: o buraco e o repuxo, geralmente sinalizados pelas bandeiras vermelhas e amarelas dos salva-vidas (a bandeira verde, alguns acreditam, não existe, é uma lenda inventada por catarinas de Bombinhas). Mesmo que meu pai sempre tenha incentivado eu e meus irmãos a termos uma vida aquática ativa, minhas primeiras lembranças do mar são a de um imenso Nescau gelado e ameaçador.

Não tínhamos “casa na praia”, um endereço fixo, mas todo verão meus pais davam um jeito de passarmos algumas semanas em alguma colônia de férias ou na casa de amigos generosos. Nesse segundo caso, integramos durante algumas temporadas uma turma grande de várias famílias que também tinham filhos que regulavam em idade comigo e com meus irmãos. As felizes memórias dessa época são baseadas em uma rotina que reflete em muito as limitações do veraneio no Rio Grande do Sul. “Ir pra praia” significava tanto estar na beira do mar com um grande grupo protegendo-se do implacável vento Nordeste conhecido popularmente como Nordestão, fugindo de repuxos e buracos, comendo milho verde e lambendo picolés de segunda categoria quanto ir para o “centrinho” no fim do dia comprar revistas em quadrinhos e tomar sorvete ou ficar em casa assistindo ao Carnaval na Globo enquanto os adultos se esbaldavam no baile do clube. Dependendo da “sua praia”, você também poderia ter memórias de mini-golfe, fliperama e cinema com filmes que haviam passado no meio do ano em Porto Alegre.

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Quando fiquei mais velho, é claro que experimentei outras praias e cada vez que eu conhecia uma fora do Rio Grande do Sul me sentia um explorador entrando em contato com uma nova civilização. O que eu entendia por “minha praia” aos poucos foi mudando. Aos 10 anos, ainda criança, fomos acampar em Santa Catarina e tenho bem presente até hoje a felicidade de tomar banho em enseadas de águas calmas, quentes e cristalinas. Logo depois da adolescência, passei atrasado pelo ritual gaúcho de amadurecimento ao ir com amigos diversas vezes para as praias da região de Garopaba, também em Santa Catarina, onde adicionei ao conceito de praia a ideia de um lugar para experiências alcóolicas e lisérgicas. Mais tarde, com 26, mergulhei no Mediterrâneo em Benicassin, no norte da Espanha e tomei contato com uma outra praia: me impressionei com a faixa de pedra em vez de faixa de areia, com a arquitetura classe média europeia do centrinho com o fato de que podia deixar minhas coisas na beira e entrar no mar sem me preocupar se iria ser roubado. Depois, viajei várias vezes para o Nordeste e fiquei fascinado com a multiplicidade de sotaques, sabores e modos praticados nas orlas e mares da Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba. Água de côco, queijo coalho e peixe frito hoje são mais comuns no Sul, mas não quando eu era criança, portanto não fazem parte do meu conceito original de praia. Com o tempo, aprendi também que entre os diversos charmes do litoral uruguaio está o incrível feito de fazer o mar gaúcho parecer quente. Visitei Cannes a trabalho quatro vezes no verão europeu e foi quando descobri que praia podia ser paga, incluir champanhe e lojas de marcas globais de luxo… Nos últimos anos, tenho ido com bastante frequência ao Rio, que sempre me impressiona com a intensidade de como a praia nasce na beira do mar e avança cidade adentro por entre os prédios, levando o sol, o sal, a areia, as gírias e todo um vocabulário comportamental para as ruas, os botecos, as residências, os restaurantes e os escritórios.

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Dessa trajetória toda, restou uma combinação maluca e diversa sobre o que seria a “minha praia”. Do Rio Grande do Sul, mantenho a paixão pelo milho verde, pelo “passeio no centrinho” e a disposição de dar pelo menos um mergulho em qualquer mar, em não fazer cerimônia por causa do frio ou de ondas fortes. De Santa Catarina, carrego a paixão por enseadinhas guarnecidas por morros de mata atlântica. Do Nordeste, curto as piscinas naturais e a certeza de que amanhã não vai chover. Da Europa, a ideia de que existe um meio termo interessante entre urbanizar e asfaltar uma praia. Do Rio de Janeiro, me encanta o conceito de praia como cultura pop e não só como um lugar. E por aí vai.

Foi difícil fechar a lista acima. Tenho dúvidas se é isso mesmo, se não estou exagerando ou esquecendo alguma coisa. Mas este é precisamente o ponto sobre “a sua praia”. Ela pode ser sua, mas é praia: no lento e cadenciado vai e vem das marés, muda o tempo inteiro ainda que pareça ser sempre a mesma.

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Fotos

 

1 e 2: Praia da Ferrugem (SC)

3: Itaparica

4: Uma prainha ao lado de Cannes