Sabedoria na Era da Informação: um ensaio visual

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Já não é mais nenhuma novidade destacar que estamos, hoje, soterrados de informação e com grande dificuldade de processar tudo a que temos acesso. Mas, ao mesmo tempo, é justamente essa situação sufocante que torna válido chover no molhado quando o assunto é “infotoxicação”. O vídeo abaixo, um ensaio visual escrito pela Maria Popova do Brainpickings e posto em movimento pelo animador Drew Christie, é mais um lembrete da necessidade de olharmos com mais atenção para o cenário de mídia em que vivemos e a busca por novas formas de construir sentido tanto no âmbito individual quanto coletivo.

Abaixo do vídeo vai a transcrição do texto, que eu traduzi pra vocês.

“Vivemos em um mundo repleto de informação, mas parece que estamos enfrentando uma crescente escassez de sabedoria. E, o que é pior, confundindo as duas coisas. Acreditamos que ter acesso a mais informação produz mais conhecimento, o que resulta em mais sabedoria. Mas, se há algo claro, é que o oposto é verdadeiro – mais e mais informação sem o contexto e interpretação adequados só atrapalha a nossa compreensão de mundo em vez de enriquecê-la.

Esta avalanche de informação facilmente disponível também criou um ambiente em que um dos piores pecados sociais é parecer desinformado. Em nossa cultura, é extremamente constrangedor não ter uma opinião sobre algo. De forma que, para parecermos informados, construímos nossos assim chamados pareceres às pressas, com base em pedaços fragmentados de informações e impressões superficiais, em vez de basear-nos em uma compreensão autêntica.

“Conhecimento”, Emerson escreveu: “é o saber que não podemos saber.”

Para capturar a importância disso, primeiro é importante definirmos esses conceitos como uma escada de entendimento.

Na base da escada está uma unidade de informação, que simplesmente nos conta algum fato básico sobre o mundo. Acima disso vem o conhecimento – a compreensão de como os diferentes pedaços de informação se encaixam para revelar algumas verdades sobre o mundo. Conhecimento depende de um ato de correlação e interpretação. No topo está a sabedoria, que tem um componente moral – é a aplicação da informação que vale a pena lembrar e do conhecimento que é importante para a compreensão não só de como o mundo funciona, mas também da forma como ele deve funcionar. E isso requer uma estrutura moral do que deve e não deve importar, bem como um ideal do mundo em seu mais alto potencial.

É por isso que a figura do contador de histórias é ainda mais urgente e valiosa

Um grande contador de histórias – seja um jornalista ou editor ou diretor ou curador – ajuda as pessoas a descobrirem não só o que importa no mundo, mas também por que aquilo é importante. Um grande contador de histórias dança escada do conhecimento acima a partir de informações passando pelo conhecimento até chegar na sabedoria. Através de símbolos, metáforas e de associações, o contador de histórias nos ajuda a interpretar as informações, integrá-las com o nosso conhecimento existente e transmutar aquilo em sabedoria.

Susan Sontag disse uma vez que “a leitura estabelece padrões.” Storytelling não só estabelece padrões, mas, no seu melhor, nos faz querer viver de acordo com eles para transcendê-los.

Uma grande história, então, não é simples fornecimento de informações, embora certamente ela possa informar. Uma grande história convida a uma expansão da compreensão, a uma auto-transcendência. Mais do que isso, ela planta a semente para isso e torna impossível fazer qualquer coisa além de cultivar uma nova compreensão – do mundo, de nosso lugar nele, de nós mesmos, de algum aspecto sutil ou monumental da existência.

Num ponto em que a informação é cada vez mais barata e sabedoria cada vez mais cara, essa lacuna é o lugar onde reside o valor do contador de histórias moderno.

Eu penso da seguinte maneira.

Informação é ter uma biblioteca de livros sobre construção naval. Conhecimento é o que se aplica na construção de um navio. Acesso à informação – aos livros – é um pré-requisito para o conhecimento, mas não uma garantia do mesmo.

Uma vez que você construiu seu navio, a sabedoria é o que lhe permite navegar sem afundar, protegendo-o da tempestade que toma o horizonte na calada da noite, manobrando de forma que o vento sopra vida em suas velas.

Sabedoria moral ajuda a perceber a diferença entre a direção certa e a direção errada na condução do navio.

Um grande contador de histórias é o capitão gentil que navega seu barco com enorme sabedoria e coragem sem limites; que aponta o nariz na direção de horizontes e mundos escolhidos com o idealismo e a integridade inabaláveis; que nos traz um pouco mais perto da resposta, a nossa resposta particular, para aquela grande questão: por que estamos aqui?”

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Leia também:

– O tempo perdido do gerenciamento de mídias digitais.
– Quando a mente entra em estado de Facebook

Black Mirror e o clima de raiva no Facebook das eleições

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O clima emocional que vem se tornando cada vez mais tenso no Facebook por causa das eleições está me lembrando muito os episódios mais políticos da série inglesa Black Mirror. Criada em 2011 pelo produtor e roteirista Charlie Brooker, a série tem duas temporadas de três episódios cada e trata do comportamento humano infuenciado pela tecnologia num futuro próximo. Já escrevi sobre a primeira temporada no post Black Mirror, a série do agora e a quem está intrigado ou incomodado com a alta temperatura do clima eleitoral, eu sugiro fortemente assistir dois episódios específicos da segunda temporada.

O episódio 3, The Waldo Moment, conta a história de um personagem de computação gráfica que é usado pra sacanear políticos e autoridades em um programa de entrevistas de final de noite. Os entrevistados, alienados dos gostos do público, são enganados pela emissora de TV pra pensar que estão participando de um programa infantil quando na verdade estão sendo massacrados sarcasticamente pelo personagem. Waldo é controlado e dublado remotamente por um humorista talentoso que entra em parafuso quando a produção resolve lançá-lo (Waldo, não o humorista) como candidato para enfrentar um oponente conservador. A disputa sai dos estúdios de TV e vai para as ruas, onde uma van equipada com uma tela gigante segue o conservador para que Waldo possa espinafrá-lo em praça pública.

Não vou dar spoilers, mas os desdobramentos de uma disputa entre um personagem de computação gráfica e um candidato humano são conduzidos de maneira a subverter totalmente  o que seria o clichê dessa temática – comparar a artificialidade dos políticos com as do personagem. O que acontece é justamente o contrário. Emergem, por trás da iniciativa inovadora e bem intencionada, os sentimentos humanos mais confusos e negros de todos os envolvidos. “The Waldo Moment” me lembra muito o que vejo todos os dias no Facebook: as críticas à baixa qualidade e às incoerências dos políticos muitas vezes vem de pessoas que não parecem aplicar a si mesmas o filtro que querem aplicar a eles.

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O episódio 2, The White Bear, é simplesmente perturbador quanto ao ponto que podemos chegar coletivamente se deixarmos que o ódio social e político tome conta da nossa cultura. Começa com uma mulher, Victoria, acordando em um quarto sem lembrar do que aconteceu e como foi parar ali. Constantemente cercada pela foto de uma menina e de um homem, que parecem ser seu marido e sua filha, ela é perseguida por homens mascarados e armados enquanto dezenas de pessoas a filmam e fotografam com celulares sem oferecer qualquer tipo de ajuda. Caçada sem descanso, ela acaba encontrando o que parece ser algum tipo de milícia de resistência, mas pouca coisa faz sentido na sucessão veloz dos acontecimentos.

Uma virada no meio do episódio contextualiza o que Victoria está passando, mas não posso dar qualquer tipo de pista pra não estragar a surpresa. Apenas digo que o desfecho é mais um toque importante a respeito do perigo que corremos de nos desumanizarmos quando incentivamos atitudes violentas num contexto de onipresença das mídias eletrônicas e digitais. Outro ponto que tem me lembrado as reações impulsivas e exageradas no Facebook nessas eleições onde toda declaração e todo candidato é alvo de reações em altíssima amperagem.

Black Mirror não saiu no Brasil e está disponível apenas nos torrents. Dê um jeito de assisti-lo antes do final das eleições pois, como eu disse no meu primeiro post, ela é um dos melhores comentários sobre o agora disfarçado de ficção científica.

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Nada a ver com as eleições, mas ainda digno de nota: o primeiro episódio da segunda temporada de Black Mirror é tão bom e instigante quanto os outros. Conta a história de uma viúva que resgata o convívio com o ex-marido através de um avatar físico, meio clone, que se comunica com ela a partir de todas as memórias digitais que ele acumulou na vida. Mais uma vez parece loucura ou ficção científica. Mas já tem uma startup planejando oferecer um serviço semelhante. Segundo a Proxxima, o Eterni.me usa acesso aos dados digitais do falecido para “criar uma ‘consciência’ no computador que permitirá a interação com outros usuários.” O site do Eterni.me já oferece cadastro para interessados e faz uma promessa grandiosa que parece mesmo saída de um roteiro pra TV: “Simply become immortal”.

Dica: o episódio é muito mais profundo e interessante do que a proposta da startup.

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Leia também:

– Precisamos de uma revolução cool

Another Earth: como seria ter uma segunda chance em uma segunda Terra?

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A divulgação, na semana passada, da descoberta de um exoplaneta com dimensões parecidas com as da Terra, atiçou a curiosidade mundial e deu corda à imaginativa audiência da internet. O que se sabe sobre o distante Kepler 186-F não é muito: ele tem o raio de tamanho muito próximo ao da Terra, orbita uma estrela “anã vermelha” e está no limite da chamada Zona Habitável, ou seja, a região do seu sistema solar que permitiria a existência de água em estado líquido, uma condição pra existir também vida como conhecemos. Nada disso significa que o Kepler 186-F seja uma réplica da Terra ou então habitada por algum tipo de extraterreste humanóide. Mas o que se descobriu bastou pra espalhar pela rede manchetes sugestivas falando, em geral, do “planeta mais habitável e mais parecido com a Terra já identificado até hoje”. Quando as manchetes tomaram conta do Facebook, automaticamente me lembrei de Another Earth, um filme meio indie, meio esquisitinho, sobre os desdobramentos da presença de uma segunda Terra na órbita da nossa Terra. Another Earth começa na noite em que a jovem Rodha Williams comemora sua entrada no curso de Astrofísica do MIT. Dirigindo pra casa, bêbada, ela ouve no rádio a notícia da descoberta da Terra 2, procura pela novidade no céu, se distrai e bate violentamente no carro de uma família qualquer, matando a mãe, o filho e deixando o pai em coma. Anos depois, após cumprir sua pena, Rodha tenta reconstruir a vida e acaba tomando dois caminhos excludentes: se aproxima do pai sobrevivente, já saído do coma, e se inscreve em um concurso que vai distribuir as primeiras viagens à ainda inexplorada e desconhecida Terra 2. Um dos grandes charmes do filme é a ausência de explicitações: não sabemos como é que a força gravitacional da Terra 2 não afeta a nossa Terra; não sabemos exatamente o que Rodha pretende ao procurar o pai-viúvo; não sabemos o que ela planeja fazer ao desembarcar no segundo planeta; e, o melhor de tudo, não sabemos muito bem que esforços os governos e empresas da Terra 1 estão empreendendo para saber mais sobre a Terra 2, o que significa que não há cena alguma do Salão Oval da Casa Branca, de laboratórios com cientistas heróicos e muito menos de hangares da Força Aérea se preparando para o combate. O único ponto mais ou menos óbvio em Another Earth é a temática da segunda chance e da estranha gravidade que atrai pessoas que estão, por algum motivo, fora de lugar. Nem mesmo a outra Terra está onde deveria estar, em termos narrativos clássicos de Hollywood: ela aparece o tempo todo no filme estampando o céu como um poderosíssimo coadjuvante e não no eixo principal do roteiro. Another Earth não é um filme do quilate de um 2001 ou (como escreveu Roger Ebert) de um Solaris. Mas tem uma trama e um clima totalmente conectados com a questão de fundo da cultura contemporânea: como lidar com a fluidez compulsória a que estamos todos submetidos, com essa necessidade nos reinventarmos periodicamente diante da enxurrada veloz de mudanças que parecem ter acelerado o curso da história. Em qualquer outra época, a mera possibilidade de exisitir um planeta similar à Terra produziria frenesi, mas dessa vez as reações parecem ter sido mais comedidas mesmo que numerosas. Claro: antigamente, essa era uma ideia de ficção científica, do fantástico, do inconcebível. Hoje, ela é estranhamente familiar, já que o conceito de segunda chance se tornou um item de uso diário, algo que se almeja e se exercita cotidianamente e não em condições de pressão insustentável como aconteceu com Rodha Williams em Another Earth.

Hanna Arendt: um bom filme pra ver nessa semana de reflexões sobre o Golpe de 64

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Com a reação quase histérica dos nossos bizarros conservadores diante de tantas manifestações condenando o Golpe Civil-Militar de 64, é impossível não lembrar de Hanna Arendt, a filósofa alemã que cunhou a expressão “banalidade do mal”, e principalmente de Hannah Atendt, o filme de 2012 que resume tão bem um dos pilares de sua filosofia. Dirigido pela alemã Margarethe Von Trotta, a biopic de Arendt é considerada por Roger Berkowitz, diretor do Hannah Arendt Center, um belo veículo para a divulgação das ideias de sua protagonista. Inclusive, escreveu ele na Paris Review, “o filme deveria se chamar ‘A Mais Sofisticada Leitura de Hannah Arendt A Alcançar uma Audiência Mainstream Até Hoje’.”

A noção de “banalidade do mal” nasceu da famosa cobertura que Arendt fez do julgamento do oficial da Gestapo Adolf Eichmann para a revista The New Yorker em 1961. Nela, a filósofa desafiou a opinião pública e todo um circuito intelectual ao propôr que o mal causado por Eichmann não vinha do fato dele ser um monstro e sim uma pessoa medíocre e burocrática. O artigo se transformou em um livro seminal e detonou o que Berkowitz chamou de “guerra civil intelectual”.

Não me sinto em posição de escrever sobre o Golpe (ou sobre Hannah), mas trago a lembrança do filme mais como um complemento de reflexão em relação às pessoas que hoje defendem na internet a ditadura e toda a cultura autoritária e violenta que ela suscita. Falo por mim: acho difícil processar adequadamente a indignação com quem relativiza os atos do regime militar e sua herança nefasta, mas sinto que vale o esforço de não distribuir indiscriminadamente rótulos de monstros a quem simplesmente é impulsivo, impensado e irresponsável com seu teclado. Por que vale isso? Porque me parede que é melhor responder a essas atitudes sempre baseado em uma reflexão mais aguda, embasada em lucidez, do que também agir impulsivamente e projetar todo um cenário de “monstros do lado de lá” que inflama ainda mais o ambiente. Esse espaço de reflexão radical, de resistência à resposta automática e rotuladora é uma das grandes lições que tirei do filme.

Preste atenção quando você for assistir: uma boa percentagem da narrativa é preenchida com cenas de Arendtsimplesmente PENSANDO em seu escritório, em casa, ou em uma de suas viagens. O tempo todo, Arendt é retratada pensando, pensando, pensando. O que é muito significativo e, no texto da Paris Review, Berkowitz explica:

“Paralisada pelo perigo da falta do pensar, Arendt passou sua vida pensando sobre o pensar. Poderia o pensar, ela pergunta, nos salvar da disposição de muitos, senão da maioria, de participar de maldades burocraticamente regulamentadas como foi o extermínio administrativo de seis milhões de judeus? Pensar, como Arendt considera levanta obstáculos a supersimplificações, clichês e convenções. Apenas pensar, argumenta ela, tem o potencial de nos lembrar da nossa dignidade humana e nos libertar para resistirmos a nosso próprio servilismo. Esse tipo de pensar, do ponto de vista de Arendt, não pode ser ensinado, apenas exemplificado. Não podemos aprender o pensar através de catecismo ou estudo. Aprendemos o pensar apenas através da experiência, quando somos inspirados por aqueles cujo pensar se introjeta em nós – quando encontramos alguém que se destaca da multidão.”

Nesses tempos confusos, assistir Hannah Arendt, se não lê-la, é ser lembrado por sua própria figura de que precisamos parar e pensar, pensar, pensar, pensar, pensar, antes de distribuirmos máscaras de monstros. Desumanizar aqueles que defendem ideias autoritárias e anti-humanistas rende bons memes mas tem pouca serventia prática a longo prazo numa democracia. Não acho nada confortável considerar que os filhotes digitais do Bolsonaros sejam mesmo meus parceiros de espécie, mas colocá-los do “outro lado” pode ser também muito perigoso. Primeiro, porque denota pouco penso. Segundo, consequentemente, porque essa atitude de escolher lados tão bem definidos é o ingrediente básico na formação dos regimes totalitários e ditatoriais mesmo (ou especialmente) quando estamos “do lado certo”.

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O filme Hanna Arendt mexeu comigo em diversos níveis. Um deles foi o estético. Além das frequentes sequências com a personagem principal pensando, chama a atenção também o ritmo sóbrio e o ar cool da produção – tanto em figurino, direção de arte e elenco quando nas escolhas narrativas, com uma ênfase em mostrar a mescla de vida social com intelectual de Arendt num clima BEM anos 60 como gostamos de imaginar os anos 60. Ou seja, pensadores fumando, bebendo e tirando conclusões em encontros informais e relações amorosas dúbias. Acredito que para um certo público (meio intelectual, meio de esquerda, diria Antônio Prata), dá vontade de estar no meio daquelas reuniões. Eu fiquei com essa vontade, pelo menos.

Ponto pra diretora, porque é aquela coisa: assuntos grotescos como o holocausto precisam às vezes do fator organizador da arte para terem algumas de suas questões melhor compreendidas e digeridas.

Ps: vale ler a crônica do Contardo Calligaris sobre o filme Hanna Arendt. A tese de mestrado dele foi desdobrando algumas ideias dela.

Ela: a pegadinha de Spike Jonze sobre cultura digital.

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Jovem adulto ainda curando as feridas de uma separação e que vive de escrever cartas emocionantes em nome de terceiros em uma sociedade hiper-conectada resolve, um dia, atualizar o sistema operacional do seu celular para uma versão baseada em inteligência artificial. E acaba se apaixonado por ele – ou melhor, por Ela. Adicione a essa trama central o diretor de Quero Ser John Malkovich, Adaptação e Onde Vivem os Monstros e você terá um filme melancólico e reflexivo sobre a solidão contemporânea baseada no uso exagerado de mídias digitais. Mas, se você lembrar que esse mesmo diretor é um dos criadores da série sem noção Jackass e que dirigiu clips sarcásticos memoráveis como Sabotage, Praise You e Buddy Holly, vai pensar duas vezes sobre o que Ela diz de verdade. E se perguntar: será que o Spike Jonze não está tirando uma com a nossa cara?

Entendido em algum nível como um filme ludita, que questiona a relação de certas pessoas com as mídias digitais e da infantilização que vem a reboque, eu prefiro enxergar Ela do ponto de vista dos bugs do amor romântico. Spoiler alert: embora envolto em todo o aparato digital que caracteriza o filme, o romance de Theodore (o homem) e Samantha (o sistema operacional) começa como todos os romances começam (com a promessa de conforto, compreensão e reconhecimento mútuo total) e uma hora termina – simplesmente termina, por causa disso ou daquilo, mas em última análise porque tudo uma hora termina. Descoberta, desejo, paixão, desejo, ciúmes, confusão, fim: a história do casal formado por um humano e um sistema operacional é tão fascinante quanto ordinária.

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O tabuleiro de Ela é armado por Jonze para que desprezemos as habilidades sociais de Theodore, mas em geral ele é gente como a gente e a meu ver foi simplesmente sacaneado pelo diretor. Retratado na primeira meia hora de filme como esquivo e anti-social, descobrimos aos poucos que ele tem motivos para isso porque, dentro de suas particularidades, ainda está vivendo o luto de uma separação. É acusado pela ex de ser auto-centrado e de ter problemas com intimidade, mas seus relatos (e as cenas em flashback) sobre os dois mostram que ele a conhecia muito bem, a entendia e a ouvia talvez muito mais do que deixasse transparecer. Os amigos e colegas de Theodore servem de pano de fundo para que a sua solidão contraste – outra sacanagem, como se eles não estivessem vivendo suas próprias dificuldades (e o filme mostra depois que estão). Na verdade, algumas poucas pistas contextuais mostram que muitas das idiossincrasias que servem para caracterizar o protagonista parecem ser traços sociais da época que o filme retrata. Talvez essa seja uma sociedade doente. Ou talvez seja apenas outra cultura. Não sabemos. A confusão é cortesia do Jonze galhofeiro de Jackass, conscientemente ou não.

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É difícil saber o que é o que em Ela. Sistemas operacionais se comportam como humanos e humanos se comportam como sistemas operacionais (preste atenção na atitude de Charles, marido de Amy, que tenta programar o comportamento da esposa). A felicidade de Theodore com Samantha soa ambígua, entre o absurdo e o convencional. A evolução d’Ela parece coisa de ficção científica tanto quanto o crescimento pessoal de um parceiro de relacionamento, quando este resolver quebrar a imagem cristalizada que tínhamos e guardávamos com tanto zelo. Mesmo o título do filme em inglês estampado no cartaz é dúbio: Her, com a carinha triste de Joaquim Phoenix, pode estar se referindo tanto à Ela, Samantha, como ser lido como o pronome posessivo Dela, o que deixa a história ainda mais interessante – Theodore foi Dela por um tempo? Essas ambiguidades são todas, a meu ver, um traço de generosidade – de novo, consciente ou não – de Spike Jonze. Há muito que nós, espectadores, podemos jogar ali dentro. Tem gancho para todo mundo fazer sua própria reflexão.

Aí está, então, a rasteira que Ela passa no espectador: você vai no cinema para assistir a uma crítica e o filme se trata de uma crônica. Como os melhores cronistas, Spike Jonze põe uma lupa no cotidiano e tenta, através de um comentário muito particular, determinar algumas moléculas básicas da cultura contemporânea universal. Como as melhores crônicas, ele (ou Ela) não fecha totalmente suas questões. E é aí que o filme funciona tão bem, porque não me consta nenhuma maneira melhor de sair de um cinema na era digital do que com as mãos cheias de dúvidas e de assunto para regar um bom bate papo nas horas e nos dias que vem a seguir.

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Algumas notas extras:

* A popularidade da interface de voz talvez seja o aspecto mais fantasioso do filme. Não apenas os softwares parecem bem resolvidos como os códigos sociais surgem adaptados para essa interface – todo mundo no filme acha normal andar por aí com um fone no ouvido falando sozinho. Taí um acerto do filme: não há inovação que se popularize sem aceitação social dos códigos de comportamento que a circundam.

* Curiosamente, Ela é o filme mais Sofia Coppola de Spike Jonze. O ritmo lentão, o figurino fashion no último, aquele monte de cenas de flashbacks a la ensaio fotográfico e a arquitetura moderninha da L.A. futura  lembram muito mais Encontros & Desencontros, As Virgens Suicidas e Um Lugar Qualquer do que John Malkovich & Adaptação. Há quem diga que Ela é a resposta da Jonze a Encontros & Desencontros, mas acho que são apenas as más línguas.

 

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Links bacanas:

– Algumas fotos no set de Ela.

– Entrevista com Jonze no Guardian.

– Uma dupla de roteiristas acusa Jonze de ter roubado a ideia deles.

– Entrevista com Spike Jonze na Interview.

– Spike Jonze compara Theodore com Lana Watchowski.

Castelo de Cartas – o House of Cards brasileiro

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Como muitos já sabem, estreou na última sexta no Netflix a segunda temporada de House of Cards. Já (quase) toda assistida aqui em casa, ela deixou, como os primeiros 13 episódios, um forte gostinho residual de quero mais e uma série de pensamentos obsessivos. Por exemplo, responder à provocação do meu amigo Renan: como seria um House of Cards brasileiro?

A ideia é tão deliciosa que duvido que já não tenha passado pela cabeça de algum produtor nacional. Não há dúvida que um House of Cards bazuca não seria tão sexy e elegante quanto sua contrapartida americana (ou inglesa), mas com certeza poderia ser muito mais pitoresco, sujo e instigante.

Abaixo vai, então, minha proposta de trama e elenco para o House of Cards brasileiro. Ou, melhor falando…. Castelo de Cartas.

Elenco Central

Francisco Madeira (Frank Underwood/Kevin Spacey): Antônio Fagundes

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Clara Madeira (Claire Underwood/Robin Wright): Glória Pires

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Douglas Santos (Doug Stamper/Michael Kelly): Wagner Moura

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Lilian Vasquez (Linda Vazques/Sakina Jaffrey): Lília Cabral

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Pedro Haussman (Peter Russo/Correy Stoll): Selton Mello

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Gilmar Caminha (Garret Walker/Michael Gill): Tony Ramos

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Julia Barroso (Zoe Barnes/Kate Mara): Alice Braga

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Trama da Primeira Temporada

Francisco Madeira é deputado federal e líder de bancada no Congresso Brasileiro. Com um histórico sólido na política de Minas Gerais e trânsito nos altos e médios escalões do poder, ele teve um papel fundamental na eleição do Presidente Gilmar Caminha, especialmente na negociação com a ambientalista Marília Souza para que ela assumisse a Vice-Presidência, arranjo que se provou vencedor nas urnas e na mídia. Pelo sucesso de sua articulação na eleição e por sua conhecida influência sobre uma numerosa bancada no Congresso, Madeira espera ser indicado como Chefe da Casa Civil em troca de seus serviços. No entanto, ele acaba sendo passado pra trás por Lilian Vasquez, antiga chefe de gabinete do Presidente no Governo do Rio de Janeiro e coordenadora de campo da campanha presidencial. Injuriado, Madeira decide armar um intrincado plano para chega à Casa Civil o que acaba gerando um espetáculo dantesco de troca de favores, verbas e tramóias com políticos fisiologistas do Congresso e do Senado.

Parte do plano de Francisco Madeira para chegar à Casa Civil envolve sua mulher, Clara Madeira, presidente de um instituto de estudos de desenvolvimento social patrocinado por grandes empreiteiras e mineradoras. Clara tem seus próprios objetivos, mas não hesita em jogar coordenadamente com o marido quando isso faz seus planos também andarem pra frente. Clara foi quem conseguiu iniciar a aproximação com Marília Souza graças a um histórico de doações para seus projetos ambientais no Norte do país e a promessa de que Francisco interviria junto ao Congresso na revisão dos projetos de construção de mega-hidrelétricas na Amazônia.

A outra parte do plano de Madeira para tomar o lugar de Lilian inclui a criação de um testa de ferro, o jovem deputado federal Pedro Haussman, que entra num acordo de favores com o novo mentor para garantir o avanço de algumas de suas propostas progressistas para o Transporte Público no Congresso, sendo a mais notória a ideia do Passe Livre Nacional via incentivos do Governo Federal. Com Madeira por trás, Haussman se torna uma figura proeminente na política brasileira, mas acaba sendo usado para um ataque à Chefe da Casa Civil numa disputa por emendas relacionadas ao Transporte Público. Madeira coloca Haussman sob pressão obrigando-o a tomar a frente da briga com a Casa Civil, que acaba sendo vista pelo Presidente como uma rusga pessoal.

Enquanto isso, o projeto esfria na pauta dos deputados e os movimentos sociais iniciam uma série de protestos coordenados nas grandes capitais do país. O Presidente acusa Haussman e Lilian de semearem o caos político com suas desavenças. Jovem e inexperiente, Haussman é instigado por Madeira a viajar o país e dialogar com os líderes dos movimentos sociais fazendo promessas que não poderá cumprir. Estressado, à beira de um colapso nervoso, acaba sendo pego pela imprensa fumando maconha em um churrasco com antigos amigos da universidade de direito em Porto Alegre – encontro arranjado secretamente pelo braço direito de Madeira, Douglas Santos. Pedro é fritado politicamente e acaba no ostracismo.

Em meio a isso tudo, Madeira começa a ser assediado por Julia Barroso, jovem repórter investigativa, ex-jornalista do Correio Braziliense e integrante do coletivo midialivrista Mídia Samurai. Obcecada por abrir uma nova frente em busca de furos, ela acaba desenvolvendo um relacionamento de troca de informações com Madeira, o que rapidamente evolui para uma relação sexual intensa e ambígua na qual ela começa a levar a pior quando sua consciência e sua ligação com o coletivo começam a falar mais alto do que as tramóias de Madeira. É aí que as coisas começa a ficar realmente perigosas e potencialmente homicidas. E também quando Madeira começa a ser cogitado pelo Presidente para ser alçado a Chefe da Casa Civil.

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Obviamente, eu gostaria de saber as suas sugestões de elenco e tramas.  🙂

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Imagem de Abertura: Renan Schmidt.

CONAR: não desmereça os chatos.

Foi ao ar na TV semana passada a nova campanha do CONAR, o Conselho Nacional de Auto Regulamentação Publicitária. Dois comerciais mostram um garçom e um palhaço sendo questionados de maneira hiper-exagerada por clientes chatíssimos daqueles dedicados a achar cabelo em ovo: o palhaço Peteleco é acusado de ter um nome que incita a violência e a feijoada do restaurante é rotulada de machista porque quase todos os ingredientes são masculinos. São roteiros ótimos, engraçados, bem filmados e que cumprem a função de fazer uma pergunta necessária: será que estamos ficando muito chatos e politicamente corretos? Será que a publicidade está pagando o pato de um excesso de zelo por parte da sociedade?

Apesar de curtir a campanha, minha resposta para essas perguntas é não. O CONAR é um órgão respeitado, que em geral funciona muito bem e tira campanhas do ar o tempo todo a partir de denúncias de autoridades, entidades e pessoas físicas. Ok. Mas por que diabos o CONAR quer coibir os chatos? Os brasileiros estão aprendendo, nos últimos anos, a se valorizar mais e a exigir seus direitos. Associa-se a isso a popularização da internet e a consciência de que as redes sociais funcionam muito bem como trombone para se botar a boca. É claro que essa combinação gera exageros, mas daí a lançar uma campanha institucional pedindo “confie em quem entende” é algo não apenas desnecessário como vai contra o espírito do nosso tempo, que clama por mais horizontalidade na relações sociais. Mal comparando, é mais ou menos como os médicos que dizem aos pacientes que não acessem o Google para pegar informações de suas doenças em vez de ensiná-los a tirar o melhor da ferramenta. Uma coisa não exclui a outra.

A publicidade é parte integrante do quarto poder e, assim como os outros três, é totalmente passível de supervisão e cobrança pelo povo. Esse é um dos pilares da democracia. As marcas que mais anunciam são donas de uma artilharia financeira e política gigantesca e todo gigante financeiro e político precisa ser vigiado de perto pela sociedade civil, mesmo que isso custe algumas boas piadas e dificulte a vida dos publicitários no dia-a-dia. Alguns vem se queixando há pelo menos 10 anos do endurecimento das regras contra a publicidade e da ameaça de projetos de lei no Congresso que se assemelham à censura (evitá-la é a origem do CONAR, lá em 78). Mas, se essa é a questão, o debate é muito mais amplo do que simplesmente “não seja chato, deixe para os especialistas”.

Em qualquer âmbito, não é justo tentar desmerecer os chatos. Graças a eles, fizemos evoluções importantes. Por exemplo, se não fosse pelos ecochatos, nenhuma empresa hoje poderia falar em sustentabilidade, um dos assuntos preferidos das campanhas institucionais de grandes marcas. Antes de andar de terno, a sustentabilidade se chamava ecologia e era coisa de chato. Hoje é coisa de bacana. Na verdade, acho até que os ecochatos não foram chatos o suficiente pois se tivessem realmente pegado pesado, a situação ambiental não estaria do jeito que está. E o CONAR ainda quer desestimular os chatos?

Certamente, um dos alvos principais da campanha do CONAR são as entidades que ficam de olho na publicidade infantil. Eles tem sido tão chatos que estimularam o CONAR a produzir um estudo comparativo sobre as regras de publicidade infantil no mundo todo, chegando à conclusão que a auto-regulamentação promovida pelo CONAR é uma das mais rigorosas do mundo. Tu vê só: sem os chatos, talvez não teríamos nem o rigor e nem o estudo.

Há pouco, li no Cypherpunks uma frase de um ativista de software livre que resume bem o que estou querendo dizer. Não achei a frase certinha a tempo de postar, mas ela diz mais ou menos o seguinte: é fácil saber quando algo é benéfico pra sociedade. É só ver se está querendo aumentar ou reduzir as opções das pessoas. “Confie em quem entende”, infelizmente, parece cair na categoria de tentar, por convencimento, reduzir. Ou estou sendo muito chato?