French Milk – Lucy Knisley

Nos últimos anos, algum bichinho me mordeu e tenho preferido muito mais ler não-ficção do que ficção. Biografias e diários de viagem, em especial, tem me chamado a atenção e não vou aborrecer vocês com possíveis detalhes psicanalíticos sobre os motivos que me levaram a gestar essa nova preferência.

Mais especificamente, diários de viagem em quadrinhos passaram a ocupar mais espaço na minha biblioteca e a razão é muito simples: embora escritores, em geral, tenham um olhar rico para relatos estrangeiros, quando eles são produzidos por cartunistas, esse olhar é de fato um olhar (com os olhos!) Mais do que isso, é quase um processo de transferência,  uma relação interativa porque como leitores a gente compartilha não só as impressões verbais mas também um pouco do universo visual visitado, mediado pela sensibilidade plástica e pelo traço particular de quem desenha. Ou seja, a gente viaja um pouco mais no relato de viagem ilustrado.

Enfim, foi por isso (e impulsionado pela capa adorável) que acabei comprando French Milk, da Lucy Knisley (tem pro Kindle!). O livro é o relato do período de um mês que a cartunista americana passou com sua mãe em Paris na dobra da adolescência para os primeiros passos do mundo adulto. É durante French Milk, flanando por Paris, que Lucy começa a ter pequenos lampejos das dúvidas práticas e existenciais que vão permear sua década pós-faculdade. E embora sem muita profundidade, o traço simpático beirando o clássico (lembra um pouco Craig Thompson e Will Eisner, bem como antigos cartunistas americanos) e a boa noção de Lucy ao selecionar recortes de sua estadia sem necessariamente montar uma narrativa com focos dramáticos (de dramatização, não de dramalhão) – essa equação que acabou me ganhando.

Nesse sentido, ler French Milk é bem diferente de ler os relatos de Guy Deslile ou Conejo de Viaje do Liniers (cartunistas em diferente estágio de maturidade artística e pessoal). Também não dá pra colocar Lucy na mesma área de gente com densos ares autobiográficos como o Dash Shaw e a Alison Bechdel. Mas essa despretensão não chega a diminuir o prazer de folhear a crise de 1/4 de idade de Lucy. Ainda mais uma crise que come croissant e visita o túmulo do Oscar Wilde. Se não é chique no último, deve ser pelo menos no antepenúltimo. E já tá de bom tamanho.

Bom, disto isto, não deixe de dar uma olhada no blog da Lucy, onde você também vai encontrar mais uma história confessional sobre a separação com o namorado (que aparece em French Milk). São 20 páginas com uma série de pequenos insights bacanas sobre a participação de objetos pessoais em separações e que poderiam muito bem render um disco emo caso fossem mal lapidados – e não são. Salvaged Parts está pra download em PDF (dá pra carregar no Kindle também e fica bem decente) por míseros dois dólares.Eu baixei e vale os R$ 3,50.

Além do mais, o blog é recheado com ilustrações doces e divertidas como essa:

Ou então, o trabalho que ela teve de compactar um filme inteiro do Harry Potter em um único poster:

Alô, Zarabatana Books! Ficadica!

Muito além do Tropa de Elite 3

Um dos meus vizinhos de OESQUEMA, o Bruno que comanda o Urbe, fez algo que eu estava pensando fazer, mas com mais propriedade: reuniu alguns vídeos e links para textos fundamentais se você quiser sair do clima “torcida organizada” e entender um pouco melhor o que está acontecendo no Rio de Janeiro. Pra começar, vale assistir todo o Roda Viva com o Luis Eduardo Soares.

Parece pouco leve pro fim de semana, mas eu garanto que ativa menos a ansiedade do que assistir qualquer noticiário.

Muito além do Tropa de Elite 3

Um dos meus vizinhos de OESQUEMA, o Bruno que comanda o Urbe, fez algo que eu estava pensando fazer, mas com mais propriedade: reuniu alguns vídeos e links para textos fundamentais se você quiser sair do clima “torcida organizada” e entender um pouco melhor o que está acontecendo no Rio de Janeiro. Pra começar, vale assistir todo o Roda Viva com o Luis Eduardo Soares.

Parece pouco leve pro fim de semana, mas eu garanto que ativa menos a ansiedade do que assistir qualquer noticiário.

Cosmopolita

A palavra cosmopolita surgiu pra designar os cidadãos do mundo, pessoas cuja identidade não se restringia a fronteiras geográficas. Inicialmente, essa definição abarcava gente de cabeça aberta, bastante viajada e de papo interessante, mas acabou muitas vezes sendo sinônimo de gente metida. QUanta gente você conhece que viaja, viaja e parece que não abre um milímetro os olhos?

Por essas e por outras, o escritor de ficção científica e ativista digital Cory Doctorrow propõe um novo significado pro vocábulo cosmopolita. Ser cosmopolita, segundo ele, tem muito mais a ver com quem hoje está buscando redefinir as regras sociais do que ter um passaporte recheado de carimbos.

Cosmopolita, diz Doctorrow, são as pessoas que estão investigando novas formas de ver o mundo e jogando fora tudo aquilo que caiu em desuso não porque está fora da moda, mas porque não contribui pra construção de uma sociedade mais aberta e colaborativa. Xenofobia, racismo, displicência financeira, egoísmo social, descaso com o meio ambiente e nariz empinado são só alguns exemplos do que não combina com o conceito de cosmopolita proposto aqui.

O Conector assina embaixo.

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Texto inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Oi FM.

O Minimalismo vai ao ar todos os dias às 9h30 e às 13h45 nas cidades onde tem Oi FM ou na webradio.

A publicidade atual e a heterogamia

“Reprodução sem sexo é um simples caso de clonagem: você pega suas própria células, faz uma cópia e passa adiante para seus descendentes. Isso não soa muito divertido para nossos ouvidos mamíferos, mas é uma estratégia que tem funcionado muito bem para as bactérias por bilhões de anos. A reprodução assexuada é muito mais rápida e mais eficiente energeticamente quanto sua variedade sexuada: você não precisa se envolver com toda a função de ir atrás de de um parceiro pra criar a sua próxima geração.

Se a seleção natural recompensasse organismos apenas pelo seu potencial reprodutor, a reprodução sexual poderia nunca ter evoluído. Organismos assexuados reproduzem-se em média duas vezes mais rápido do que suas contrapartidas sexuadas, em parte porque sem uma distinção macho/fêmea, cada organismo é capaz de produzir sua prole diretamente. Nas a evolução não é um jogo apenas de quantidade. A superpopulação, afinal, tem seus próprios perigos, e comunidades de DNA idêntico são alvos ótimos para parasitas ou predadores. Por essas razões, a seleção natural também recompensa a inovação, a tendência da vida de descobrir novos nichos ecológicos, novas fontes de energia. (…)

Misturar duas sequências de DNA distintas em cada geração é uma estratégia de reprodução bastante mais complicada, mas produz imensos dividendos em termos de inovação. O que nós abrimos mão em rapidez e simplicidade, nós ganhamos em criatividade.”

Esse é um trecho do Where Ideas Come From, que ainda vou citar em outro post aqui na semana que vem. O que me chamou a atenção nas palavras do Steve Johnson foi como elas descrevem bem o atual estado do mercado publicitário. Por décadas, as agências funcionaram como organismos simples, reproduzindo-se e crescendo de forma assexuada. Nos últimos 15 anos, entretanto, o mercado começou a funcionar complementarmente, com formas de comunicação que exigem uma maior abertura das agências – e dos departamentos de marketing – para uma atitude de intensa colaboração com uma miríade de diferentes novas empresas e profissionais que cobrem outras disciplinas fora das consideradas clássicas.

Como virginiano, eu tenho uma relação ambígua com o caos: ele é extremamente desconfortável (não vou fingir que amo o caos…) mas ele também nos força a constantemente criar novas estratégias para lidar com os acontecimentos, sempre tão instáveis.

Em outras palavras, mais drásticas: ou se entra na grande suruba da evolução ou se vive uma vida de bactéria.

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Mas os paralelos são ainda mais impressionantes.

Steve Johnson segue contanto a respeito de um crustáceo que assume as duas formas de reprodução dependendo das condições do ambiente: quando tudo está bem, a população desse crustáceo é composta apenas de fêmeas que se reproduzem sem a necessidade da presença de machos. Quando as condições climáticas ficam complicadas, elas produzem machos e passam a copular para a perpetuação da espécie. Esse comportamento chama-se heterogamia.

A justificativa: “Reproduzir-se assexuadamente faz sentido durante períodos prósperos: se a vida está boa, continue fazendo o que você está fazendo. Não brinque com o sucesso introduzindo novas combinações genéticas. Mas quando o mundo se torna mais desafiador – recursos escassos, predadores, parasitas – você precisa inovar. E a rota mais rápida para a inovação é construir novas conexões. (…)

Quando a natureza se encontra numa situação em que precisa de novas idéias, ela luta por conexões – não por proteção.”

Lembrando que em agências monogâmicas podem existir profissionais heterogâmicos.

Beleza?

Mapas

Eu já comentei aqui algumas vezes de como novas tecnologias acabam trazendo de volta antigos hábitos, um paradoxo que fica bastante claro quando a gente olha exemplos como o celular fazendo papel de relógio de bolso.

Outro resgate curioso, nessa linha, é o uso cada vez mais comum de mapas. Os mapas são instrumentos que remetem a tempos antigos, quando as pessoas não conheciam o mundo e os seus caminhos. Hoje, os mapas voltam a ser popularizar com a inclusão de GPS nos carros, em vários modelos de celular ou simplesmente no uso cada vez mais comum de ferramentas como Google Maps no computador.

A geolocalização é a bola da vez. E com ela os mapas estão sendo reintroduzidos no nosso cotidiano de forma ubíqua. Pense bem: antes disso tudo acontecer, como era sua relação prática com mapas? Talvez você só os usasse em aulas de geografia ou em viagem. Garanto que os mapas não freqüentavam a sua vida como fazem hoje.

Essa volta dos mapas faz sentido não só do ponto de vista prático mas também simbólico. Apesar do mundo não ser um lugar tão desconhecido como era alguns séculos atrás, só mesmo com mapas pra gente se encontrar entre tantos caminhos e possibilidades que surgem aceleradamente todos os dias.

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Foto daqui.

Texto inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Oi FM.

O Minimalismo vai ao ar todos os dias às 9h30 e às 13h45 nas cidades onde tem Oi FM ou na webradio.

Araújo Viana – Todas as Histórias

Taí um dos projetos mais bacanas que fizeram esse ano, daqueles projetos comerciais cheios de segundas intenções mas que acabam trazendo uma colaboração bacana pra cena cultural. A Oi é uma das patrocinadoras da reforma e relançamento do Araújo Viana mas em vez de fazer uma simples campanha publicitária pra divulgar seu investimento, resolveu produzir um documentário sobre a história desse lugar merecedor do rótulo “mítico”.

Pra quem não é de Porto Alegre, um resumo: o Araújo é um auditório cravado no parque mais importante da cidade, já foi palco de 50 anos de cultura em formato de música e sequelagem generalizada. Abrigou óperas, clássicos do rock gaúcho, o surto do reggae portoalegrense, shows inacreditáveis do Camisa de Vênus, Los Hermanos e Raimundos. O Araújo viveu intensamente, abrindo e fechando, sendo interditado e reaberto, abandonado e adotado, transformando-se num clássico não-lugar. Como eu falei na entrevista do documentário, no meu caso o Araújo sempre foi um enorme sólido que precisava ser contornado pra se vir da Cidade Baixa e chegar na Osvaldo Aranha (a rua boêmia nos anos 80 e 90) via Parque Farroupilha.

Mas mesmo tendo convivido pouco DENTRO do Araújo, quando rolou uma convivência ela foi marcante. Nós, Walverdes, tocamos em um momento importante da história do Auditório, a inauguração da cobertura lá por 94 ou 96, não lembro bem. O show foi o primeiro em que recebemos um cachê decente e com ele comprei minha primeira guitarra – que hoje é do Patrick. Alguns anos depois, tocamos no festival Rock Contra a Fome e o Claudio Verissimo (que fez nossos dois clips) filmou algumas cenas que acabaram entrando no vídeo de Anticontrole.

Enfim, as minhas histórias são poucas e recentes. Não deixe de assistir o documentário e ver todas as histórias, não só as dos entrevistados oficiais (Lobão, Humberto Gessinger, Jupiter, Juarez Fonseca, Wander, Frank Jorge, etc) mas também as do público que está colaborando na linha do tempo interativa que o pessoal da Live projetou.

Parabéns a todos os envolvidos…